terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O conto da Redonda (e o meu conto)

   Ainda vou a tempo?

   - Estamos fechados – ele disse, de sobrolho franzido, olhando-a sobre os óculos meia-lua, enquanto alinhava as folhas sobre o balcão.
   Ainda assim, ela aproximou-se e poisou uma folha dobrada junto dele.
   - Ainda vou a tempo? – perguntou, ofegante. – O concurso das histórias da livraria.
   - Terminou há cinco minutos. – ele apontou para o relógio sobre a porta.
   - Sete e cinco… – ela murmurou, olhando por cima do ombro. – Oh! – voltou a olhá-lo. Ele baixara a cabeça para o maço de folhas. – Não pude sair mais cedo, eu… vim a correr, mas…
   - Não há excepções. – ele cortou. Por fim, ergueu a cabeça e mirou-a, carrancudo – Quantos anos tens?
   - Quase onze. – ela respondeu.
   - Quase?
   - Amanhã é o meu aniversário. A minha mãe diz que eu nasci na hora das fadas. – ela sorriu.
   Ele observou-a atentamente. A menina empoleirava-se no balcão e o cabelo, atado num rabo-de-cavalo, estava meio solto e o rosto, vermelho da corrida.
   - Sim, na hora das fadas, quando o sol do meio-dia brilha no lago ao pé da nossa casa – ela esclareceu. A mão suada continuava poisada sobre a folha dobrada.
   O livreiro pigarreou, desdobrou-a e colocou-a em cima das outras.
   - Aquele relógio está atrasado. Tenho de mudar a pilha – declarou, sem sorrir. – Agora, vai-te embora.
   Ela acenou com a cabeça, agradeceu e saiu da livraria. Virou à direita, segurando as lágrimas, em direcção ao grande edifício amarelo no fundo da rua, de onde viera a correr minutos antes.

   Ele espreitou pela janela e viu-a ao longe. Fechou a porta, agarrou nas folhas e entrou na sala dos fundos. Afastou duas pilhas de livros da mesa e sentou-se, puxando o pequeno candeeiro para o canto da mesa. Inclinou-se, com o lápis na mão, mas poisou-o quando começou a ler:
   “O sol brilha na parede branca ao lado da cama. Depois, desce devagarinho até à almofada e toca na sua face. Vejo-a a dormir, a respirar muito devagar. Eu aperto-lhe a mão. Está fria. Esfrego-a durante muito tempo, levanto-a e brinco com os seus dedos, como ela costuma brincar com os meus. Ajoelho-me e aproximo-me dela e tento tapar a minha cara com a sua mão e espreitar, por entre os dedos, o sol que enche o quarto de luz. O quarto está tão brilhante como o lago junto à nossa casa.
   A minha mãe disse-me que o lago está cheio de fadas que estão sempre a dançar sobre a água. No meu aniversário, elas juntam-se à minha espera, na margem. Eu aproximo-me, sento-me ao pé delas e vejo as suas pequeninas asas transparentes a cintilar ao sol. Mergulho os pés na água e a minha mãe ajoelha-se atrás de mim e abraça-me. Juntas, ficamos a ouvir uma canção que só nós as duas entendemos.
   Começo a cantar baixinho, apertando a mão da minha mãe. Então, ela abre devagar os olhos e sorri para mim. Não consegue falar, mas eu sei que está a cantar comigo a canção das fadas.”

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O conto do Pai do No Limite do Oceano

   Vida, solidão, esperança, legado, morte

   Quando eu tinha um pouco mais de trinta anos, avistei-a muitas vezes à hora do almoço. Ela tinha umas pernas elegantes que terminavam nuns tornozelos finos, em contraste com o corpo curvilíneo e as ancas largas, a saia caindo um pouco abaixo do joelho.
   Eu virava a esquina e a via-a a subir a calçada, parar no cimo, tirar a chave da mala e entrar num prédio. Caminhava uns bons metros atrás dela e nunca consegui ver o seu rosto, apenas um vislumbre da face e do nariz parcialmente escondido pelo cabelo castanho a tocar os ombros, antes de abrir a porta e desaparecer.
   Ao longo dos anos, nos meus solitários passeios, procurava-a olhando para as pernas das mulheres na rua. Outras vezes, imaginava que estaria a ver a mesma peça de teatro que eu, separados apenas por duas filas de distância, ou sonhava que chocávamos nas escadas do metropolitano.
   Vinte e cinco anos depois, encontrei-a na fila da bilheteira da estação do comboio que utilizava todos os dias da semana. Esperei que ela se virasse, enquanto observava as pernas graciosas, que tão bem recordava, embora o corpo tivesse alargado e o cabelo embranquecido.
   Abordei-a, mencionando a rua onde eu ainda trabalhava. Ela sorriu, acenando com a cabeça. Esperou que eu comprasse um bilhete e entrámos na mesma carruagem. Vi o meu comboio partir na direcção contrária e apertei-lhe a mão.
   Cinco anos depois, abatido, desço no mesmo cais. No anelar esquerdo, tenho duas alianças.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O conto do Neko-chan

   Porque nunca lá fui, embora...

   Tenho um saco de plástico na mão esquerda e giro-o, como se se tratasse de um acrobata que, suspenso de cabeça para baixo por uma faixa de pano, rodopia sem parar. Minutos antes, passara por uma mercearia ao pé de casa. Com o indicador e o polegar, faço rodar a asa à volta do dedo médio, cada vez mais apertado; anseio pelo formigueiro que perdura muito tempo depois de soltar a asa.
   Estaco diante de uma estranha porta velha, ao lado do meu prédio. Com curiosidade, abro-a e começo a subir uma escada em caracol, amparando-me a um ferrugento e periclitante corrimão. Cortando o silêncio dilatado pela escuridão, os degraus rangem. Olho para cima e vejo uma ténue claridade que penetra por uma pequena janela rectangular. Não conheço a casa, mas continuo a subir até chegar ao fim das escadas. O dedo lateja de tão apertado. Desenrolo a asa e deixo cair o saco das compras no degrau. Chego a um patamar, segurando-me ao corrimão, mas ele cede subitamente.
   Grito e acordo. O meu coração bate desenfreadamente. Viro a cabeça, olho a janela aberta, o cortinado a esvoaçar para dentro do quarto, e fixo o tecto branco. A tremer, puxo os cobertores até ao queixo. Nada é real, sei que nunca aconteceu, porque nunca lá fui, embora conheça a rua onde moro como a palma da minha mão.
   Levanto-me e, devagar, caminho até à porta. Abro-a, dou um passo em frente e mergulho no vazio.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O conto do Good blog, Bad blog

   Eu e as mitocôndrias do amor

   A caixa rectangular metálica está dentro da tua mochila. Lá dentro, guardas o estetoscópio que te ofereci há mais de uma década. O meu amor vive no gesto delicado com que pegas nele, o colocas ao redor do teu pescoço e o apertas suavemente, enquanto trabalhas no hospital, tão longe de mim.
   Estás de bata branca, com as canetas a atafulhar o bolso, não páras um minuto; imagino as lágrimas de alegria e os beijos de agradecimento, mas também as cabeças inclinadas e os soluços de derrota. Lutas sem cessar, carregas a dor todos os dias, mas também suspiras de alívio e sorris por salvares uma vida.
   Meu amor, para lá do bater da porta da entrada que ressoa na casa vazia, para lá do meu corpo tolhido sob os cobertores, fico à tua espera, abraçando com força a tua almofada e aspirando o teu cheiro. E muitas horas depois, por vezes até dias, escuto, por fim, uns pés cansados que se arrastam pelo corredor, uns sapatos que são lançados para um canto do quarto e estendo os braços. O teu corpo estafado atira-se para cima de mim e eu aperto-te com força.
   Sim, para lá de noites solitárias e de dias compridos, para lá do teu rosto abatido e do meu cabelo cada vez mais grisalho, continuamos juntos tantos anos depois. Deposito um beijo nas tuas pálpebras que tremem mesmo antes de adormeceres, passo a mão pelo teu cabelo e fecho os olhos.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O conto do Fragmentos Repartidos

   Se não fosses meu amigo
   
   A praia estava vazia àquela hora, enquanto esperávamos que o sol nascesse, sentados ao fundo das escadas, as bicicletas encostadas no pilar do passadiço lá no alto. À nossa frente, ouvíamos o incessante ribombar das ondas coroadas de espuma que rebentavam na areia. Esperávamos pela primeira aurora do mês de Dezembro, com as pernas encolhidas e o queixo assente nos joelhos. Tiritavas de frio, a gola levantada do casaco de bombazine e o gorro não eram suficientes. Por baixo do camisolão de lã, espreitava a tua camisola de pijama. Quinze minutos antes, tinha-te acordado com meia dúzia de pedrinhas atiradas ao vidro da janela do teu quarto. Abriste um pouco, consegui vislumbrar uma manga azul, acenaste e alguns minutos depois, arrastando a bicicleta, apareceste nas traseiras da casa.
   Não tiravas os olhos da grande bola laranja que começava a crescer num céu de Inverno sem nuvens. Sem o saber, guardavas um tesouro no bolso de dentro do casaco. Na semana anterior, tinhas-me pedido o canivete emprestado. Encontraste um pedaço de madeira no pinhal ao pé da tua casa e talhaste uma âncora, o meu nome e a data do meu nascimento. Nesse dia, eu fazia quinze anos.
   Durante muito tempo, eu não consegui dizer uma palavra, apertando-o até os nós dos dedos ficarem brancos. 
   Se não fosses meu amigo, hoje não estaria neste navio, no outro lado do mundo, onde é Verão. Faço quarenta anos e vejo o teu rosto no sol que agora nasce.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O conto da Só eu

   Só eu... e os outros

   Os meus olhos fixam-se no espelho rectangular pendurado na parede do bar. Pelo reflexo, observo um casal abraçado no terraço. A porta está entreaberta e os cortinados afastados para os lados. A cabeça da rapariga poisa num ombro largo, a outra figura está de costas, os seus braços envolvem-na delicadamente e ela sorri, tem um sorriso tranquilo num rosto que reconheço. Ela devolve-me o olhar; não pára de sorrir. E sou eu.
   Aceito um copo numa mão que poisei há instantes no balcão e bebo um gole. Conhecidos, amigos, estranhos seguram-me, mas, com uns abanões, liberto-me e, agitada, aproximo-me do terraço.
   Oiço-os a chamar por mim e, antes de desviar o olhar por um instante, reparo numa faúlha a extinguir-se no céu. Quando viro a cabeça, o terraço está vazio.
   Abro mais a porta e o vento atinge-me com força. Há segundos, sei que estávamos aqui, tu e eu, mas, agora, só existe a escuridão.
   Sinto os ouvidos a latejar e a cabeça a andar à roda e sento-me num banco corrido com o copo na mão. Atrás de mim, o ruído é ensurdecedor, gargalhadas, música, escuto o meu nome várias vezes.
   Oiço o copo a estatelar-se no chão e olho para a mão vazia, depois para baixo e, por fim, para o céu estrelado com a lua em quarto minguante.
   Quero mais do que um reflexo num espelho, mas o meu coração está tão partido como o copo e, com força, espezinho os cacos.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O conto do Zehtoh

   Fome e amargos de boca

   Caminha pelo jardim sem rumo, as mãos fechadas com força, mordisca o lábio inferior sem dar por isso, o olhar perde-se no céu cinzento. Tem a cor da sua alma. Os pingos desabam naquele instante e abriga-se no coreto. Senta-se no chão e poisa o rosto nas mãos geladas.
   Como nos filmes, foi tão previsível, pensa, afastando as mãos húmidas. Abana a cabeça, um desamparo tão grande, tem de se agarrar a algo, como ao encanto do primeiro olhar cruzado ao balcão do bar repleto; recordar-se-ia dele para sempre, tal como a música que passava naquele instante, seria banda sonora do que poderia acontecer, do futuro que, afinal, nunca aconteceria.
   Horas atrás, um sorriso escondido atrás do copo, uma conversa que se estendeu, como um arco-íris, até ao nascer-do-sol desfrutado no cais. E, ao contrário da história, houve mesmo um pote de ouro no fim, naquele instante cristalizado na barra do molhe, agarrada com tanta força quando se sentiu esmagado pelo seu peso, o suor a escorregar pela nuca.
   Deixou-se ir e caiu sem rede; era um novo ano, um recomeço, merecia um momento assim. Desejou um abraço, suspirou por um beijo, quis um futuro, mas recebeu umas palavras de despedida, um abanar de cabeça, escutou uns passos a afastarem-se e viu-o a desaparecer aos primeiros raios de sol de Janeiro.
   A chuva pára. Levanta-se e sai, não olhando para trás. No coreto, palco de bandas, deixa a balada de uma noite de ano novo.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O conto do Eolo

   O Destino Absoluto: Apocalipse

   Olhou-se ao espelho, dos lábios gretados aos olhos vermelhos, passando pelo nariz entupido e inchado. A cabeça latejava. Para terminar em beleza, notou a borbulha na testa ao passar com a ponta do dedo. Enorme, nem toneladas de corrector conseguiriam disfarçar.
   Tentou inspirar profundamente pelo nariz congestionado, mas sentiu uma tontura e apoiou-se no lavatório, de olhos fechados.
   Ao fundo, um barulho incessante de gargalhadas e diálogos de um filme manga; ouviu um grito estridente e imaginou as garras da gata fincadas na perna da vítima, o animal bufando, furibundo, com a cauda erecta como um espanador.
   Tenham piedade de mim, só quero sopas e descanso, pensou. Canja da mamãe, isso, sim, é que me sabia bem.
   Devagar, levantou a tampa da caixa e tirou o lápis. A mão tremeu-lhe; naquele estado, nenhum risco sairia direito, constatou. Nem para desembrulhar um presente teria forças.
   Afastou-se do espelho a tempo. O espirro obrigou-o a sentar-se na borda da banheira, as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, a base estragada. Minha santa Mac, acode-me, soluçou.
   Levantou-se e atirou a caixa para a gaveta, fechando-a com um gesto brusco. Suspirou, impotente. Era o apocalipse. Teria de os enfrentar assim mesmo.
   Assoou-se com força, mirou-se uma última vez e saiu do quarto-de-banho.
   Minutos depois, encontrava-se numa sala silenciosa, deitado no sofá com a cabeça no colo da mãe.
   Ela aconchegou-lhe a manta, inclinou-se e beijou-o na face húmida.
   - Feliz Natal – a mãe sorriu.
   Apertou-lhe a mão, grato, e fechou os olhos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O conto do Mikel Shiraha

   Palavras Cruzadas, Destinos Cruzados

   Sobre o tapete puído da sala, está uma velha mesa quadrada castanho-escura; o homem, sentado no banco, não levanta a cabeça. Uma caligrafia redonda, delicada, enche uma página de papel azul vincada ao meio; ao lado, um envelope imaculadamente branco, sem remetente, está aberto. Encontrara a carta minutos antes debaixo da porta da entrada.
   Segura a folha com a mão direita e fixa o olhar, a respiração abranda a pouco e pouco, as letras esbatem-se.
   A claridade do meio da manhã é substituída pelo entardecer. Um menino escreve numa folha pautada do caderno da escola. Tem a cabeça levemente inclinada para o lado esquerdo, a testa franzida de concentração. Pede, não presentes, nem doces, nem um casaco novo que o seu já estava curto nos braços, mas as luvas tricotadas pela avó ainda tapavam o frio; pede, sim, que ela regresse a casa com saúde, ela e o seu riso, era tão bom ouvi-la a rir, a casa está tão silenciosa e fria, a avó longe que, para a visitar, um bocadinho apenas nas tardes de domingo, tem de atravessar um grande corredor de cor verde-clara a cheirar a desifectante.
   O menino pede com tanto fervor, escreve com tanta força que o papel rasga.
   No tampo da mesa, fica gravada a palavra «amor», a mesma que remata aquela carta anónima, com um traço mais comprido no último «r», como uma pequenina onda que se transforma numa vaga, inunda a sala e submerge o homem nas recordações.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O conto do Horatius

   Dói-me o dedo mindinho

   A criança só parou de chorar junto ao moinho. O moleiro tirou a boina, limpou o suor da testa e voltou a colocá-la na cabeça. Abriu a porta e entraram.
   O menino fungou e sentou-se no chão, a um canto, de pernas encolhidas e com o queixo pousado nos joelhos.
   - Sabes que tens de ir para a escola – o homem puxou um pequeno banco de madeira e sentou-se ao seu lado.
   - Aqui aprendo tudo – olhou-o com os olhos ainda húmidos e vermelhos. Estendeu-lhe uma mão rechonchuda fechada. Abriu-a um pouco e um fio de farinha deslizou para o chão. Espalmou o montinho, rabiscou algo e apagou-o de seguida com um gesto rápido.
   Enquanto espalhava a farinha de um lado para o outro, fixou o olhar nas costas um pouco curvadas do avô, que se tinha levantado e começado a trabalhar.
   Momentos depois, o avô sentiu-o ao seu lado. Olhou-o e reparou que apertava uma mão junto ao peito.
   - Dói-me o dedo mindinho – a criança murmurou.
   - Como te magoaste? – pegou na mão e viu um fiozinho de sangue.
   - Bati na pedra.
   Ele tirou o lenço da algibeira, enrolou-o na mãozinha, atou-o, e, com um gesto brincalhão, despenteou o menino.
   O petiz colocou os bracitos à volta da cintura do avô. Assim ficaram um longo tempo, um moleiro, de mãos vermelhas e dedos calejados, e o seu neto, com um rasto de farinha nos caracóis negros e uma ferida já esquecida no dedo.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O conto do Rui Alex

   No livro guardo a ilustração

   Estendo o braço. O rapaz, embrulhado num xaile de lã, aceita-o com uma mão a tremer. Baixa a cabeça, segurando as lágrimas e aperta-o junto ao peito. Ao seu lado, a senhora abraça-o com ternura. Devagar, puxa-o, agarra na minha lapiseira que estava sobre a mesa, aproxima o candeeiro a petróleo, regula a chama, examina-o e assinala uma vinheta com uma cruz. Brinda-me com um sorriso e passa-o ao velhinho. Ele debruça-se sobre a página, com os óculos na ponta do nariz, levanta a cabeça, confuso, e volta a incliná-la. Estende o braço e o jovem agarra-o, vira a folha e observa a tira com a cena dos rapazes nas escadas. Emocionado, lê baixinho o poema que estava num balão e olha para mim, agradecido. O homem sentado no sofá em frente agarra-o antes de cair ao chão. Dá uma ligeira cotovelada no amigo ao seu lado, enquanto aponta para vinheta que mostra a mesa do restaurante junto a uma janela sombreada pela chuva. De repente, uma bengala cai estrondosamente no soalho. O snob arrebata-o das suas mãos com um gesto violento. Observo-o a procurar o desenho, até que o atira para cima do sofá e sai da sala, carrancudo. O cão, então, estica uma pata e tenta virar as páginas abertas; o dono puxa-o para o seu colo, pega nele e entrega-o, por fim, aos dois velhotes. Eles, como cinquenta anos antes, olham, cativados, para o cartaz da diva que ocupa a última página.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O conto do Namorado

   Porque tenho medo da solidão

   Caminho sem pressa. Espera-me uma casa vazia. Olho sem interesse uma velha sapataria, vejo os modelos ultrapassados, um espaço sem vida, como o reflexo que me olha pelo vidro da montra. Enfio as mãos nos bolsos do casaco, enquanto o meu olhar deambula pelo prédio ao lado. Acompanho o baloiçar de uma cortina transparente numa janela aberta. Páro em frente a um rés-do-chão. Espreito de viés e percorro a pequena divisão com um relance rápido.
   Vejo-o sentado num sofá castanho. Apoia os cotovelos nos braços puídos e olha para a televisão. Por trás de si, na parede a descascar, está pendurada uma grande fotografia. Pende sobre o lado esquerdo e o velho caixilho de madeira dourada está rachado nos cantos. O vidro com manchas de humidade protege a imagem amarelecida pelos anos. Mostra um bebé, com um caracol loiro sobre a testa e vestido debruado a renda, ao colo de uma jovem mulher.
   Não há som. Apenas um cone de luz branca, quebrado pela passagem incessante dos canais, bate naquele rosto sulcado pelas rugas. Um dedo mirrado pela artrite carrega no botão do comando.
   A luz mortiça fixa-se de repente. Ele vira o rosto e olha para mim sem expressão. Tem um nariz com pequeninas veias roxas e os óculos pesados transformam os seus olhos em pequeninos pontos. Fixa-me durante uns breves segundos e, de seguida, torna a olhar em frente, alheado. As imagens tornam a passar no ecrã e eu ali fico, a mirar-me.