quarta-feira, 4 de maio de 2016

Instantâneos da hora do almoço

   Hoje, depois do almoço, fui passear na Avenida de Roma e entrei na livraria Barata. Ontem, tinha comprado numa promoção de uma livraria online um livro que foi publicado hoje. Não resisti, contudo, em folheá-lo e ler uma frase ou outra. Ao vivo, é outra coisa e tinha ficado com ideia de ter poucas páginas. Não tem.
   Já recusei comprar livros por causa do tipo de letra utilizado. De há uns tempos para cá, estão a ser impressos livros de uma determinada editora, não me lembro de qual, com a letra fina, pequena; reparo nos T’s maiúsculos que são muito delicados, gosto deles, seriam bonitos impressos numa folha A3, enormes T’s pendurados na minha sala, por exemplo, mas incomoda-me ler um carácter demasiado fino e pequeno, por isso, ficam na mesa da livraria. Podem ser bons livros, mas não compro.
   Tive sorte com o livro que comprei pela internet. Não tem letra fina.

   *

   Antes de regressar ao trabalho, fui a um supermercado e comprei maçãs. Saí, virei à direita e vi uma mulher a tirar uma fotografia aos seus amigos que caminhavam à sua frente e que se tinham virado para a pose, (várias mulheres e dois homens). Reparei em dois círculos colados nos cantos superiores do telemóvel. Pareciam as orelhas do Rato Mickey, mas em dourado.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Macbeth

Hoje, 400 anos volvidos sobre a morte do Bardo, fui ver Macbeth.


Excelente a interpretação de Marion Cottilard, dos actores secundários e, na última parte desta adaptação ao cinema, de Michael Fassbender.

Já tinha comentado um post do Limite sobre o mesmo tema, com o link de uma crítica do The Guardian.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sábado, amigos, teatro e TW

   O dia de sábado terminou em beleza com a peça 'Jardim Zoológico de Vidro', no Teatro da Politécnica e encenada por Jorge Silva Melo, na companhia do Miguel e do Eduardo.
(não há muitos meses, esta mesma peça de Tennessee Williams tinha sido apresentada no S. Luiz, com o título 'O Jardim Zoológico de Cristal', com encenação de Sandra Faleiro).
   Tinha-a lido há pouco tempo, queria vê-la, pelo que aproveitei a vinda do Miguel e do Eduardo à capital e sugeri este programa cultural.
  Depois da peça, o Eduardo ainda queria dar um pézinho de dança, mas teve de ficar para a sua próxima visita a Portugal; com tempo, reserva-se uma noite num hostel em Lisboa. Nessa altura, farra, Eduardo! :p
   Antes, um almoço com o João, o Luís, a Patty, a mãe do João, o João Roque e muitas trocas de livros (para manter a tradição); a gata Bia já cortou um pouco a timidez e deixou fazer festas (sortudo do Miguel) e as sobremesas do João estão mais que aprovadas.
   A única fotografia do dia feliz foi uma selfie do Eduardo na Politécnica.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Hiper online

   As minhas grandes compras faço no continente online; existe um hipermercado no centro comercial perto da minha casa.
   Sigo a estratégia de ir ao site, seleccionar os artigos (areia dos gatos, lixívia, gel verde, leite, tudo em grandes quantidades) e esperar alguns dias até finalizar a compra, aguardando a oferta do serviço de entrega. Normalmente, a loja online oferece o serviço, isto é, acumula em cartão o custo.
   Nas últimas compras, ofereceram não só o serviço de entrega, mas também um vale de 5€, a acumular no cartão, por não ter recebido alguns produtos (recebi-os todos, mas se eu uso aquela estratégia, eles também não são parvos). Fazendo as contas, e com os descontos em alguns artigos, mesmo sem a oferta do serviço de entrega, querias, era, duas vezes seguidas... comprei mais areias, umas lâmpadas economizadoras com 50% de desconto e mais uns quantos produtos assim com promoções de 50%.
   Nesta última entrega faltavam vários artigos, os que tinham desconto, claro, massa fusilli, cápsulas delta, mas, em contrapartida, recebi umas simpáticas ofertas, umas amostras de mistura de cereais pensal e mokambo, umas quantas de gel de banho e uma garrafa de água júnior (na outra compra tinha recebido amostras semelhantes do gel de banho e de natas sem lactose e água com gás, enfim, uma festa).
   Mas, agora, se receber um vale de 5€ a acumular em cartão, é melhor vir atrelado à oferta do serviço de entrega. Se não, nada feito, por muito que aprecie as amostras e as compras serem colocadas na cozinha do meu terceiro andar sem elevador.

terça-feira, 19 de abril de 2016

O Livro da Selva

Baseado no livro de Rudyard Kipling, aqui está um filme maravilhoso, visualmente arrebatador, com um Mogli fenomenal, um naipe de fabulosos actores (neste caso, as suas vozes), uma história memorável e uma deliciosa cena de Balu e Mogli no rio, não esquecendo os créditos finais.

Para miúdos e graúdos (na versão original, claro).

A ver e a ler a crítica no DN (link aqui).

sábado, 9 de abril de 2016

Tomem lá umas asas e voem

   - Então e as aves?
   - Isso foi ao quinto dia, juntamente com os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem nas águas.
   - Assim, de repente? Tomem lá umas asas e voem?
   - Parece que sim.
   - Todas ao mesmo tempo? Cegonhas, pardais, gaivotas, pombos, falcões, águias, pintassilgos, melros, corvos, codornizes?
   - Com alguns minutos de diferença, provavelmente.
   - Deve ter sido uma coisa linda de se ver, tudo a bater as asas.
   - Podem crer. Uma coisa linda...

João Ricardo Pedro, Um Postal de Detroit, Dom Quixote, 2016, ebook.


Lendo a amostra sem intenções de comprar o livro, até este excerto.
O ebook já está na biblioteca do Kobo...

domingo, 3 de abril de 2016

Nada

"Good night," the other said. Turning off the electric light he continued the conversation with himself. It is the light of course but it is necessary that the place be clean and pleasant. You do not want music. Certainly you do not want music. Nor can you stand before a bar with dignity although that is all that is provided for these hours. What did he fear? It was not a fear or dread. It was a nothing that he knew too well. It was all a nothing and a man was a nothing too. It was only that and light was all it needed and a certain cleanness and order. Some lived in it and never felt it but he knew it all was nada y pues nada y nada y pues nada. Our nada who art in nada, nada be thy name thy kingdom nada thy will be nada in nada as it is in nada. Give us this nada our daily nada and nada us our nada as we nada our nadas and nada us not into nada but deliver us from nada; pues nada. Hail nothing full of nothing, nothing is with thee. He smiled and stood before a bar with a shining steam pressure coffee machine.
"What's yours?" asked the barman.
"Nada."

Ernest Hemingway, A Clean, Well-Lighted Place. 1926.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Hotel Lutécia

   Posso afirmar que, até aos quarenta anos, só tinha amado uma vez. Ela chamava-se Carla Margarida e conhecemo-nos na primeira classe. Ao longo dos anos, em todas as mulheres que conheci, em todas as que amei, era ela que abraçava, era com ela que fazia amor, que adormecia e acordava. Procurava no rosto daquelas mulheres semelhanças, questionava se ela teria os mesmos olhos verdes que eu fitava naqueles momentos, se já tinha aquelas rugas ao pé da boca que eu percorria com a ponta dos dedos ou se os ombros pintalgados que beijava teriam igual curva delicada.
   Carla Margarida, do nariz e dos ombros sardentos, da franja e da cara redonda como a lua cheia, dos olhos verdes, do cabelo arruivado e do sorriso que me cativou aos seis anos. Era a minha melhor amiga, era o meu amor.
   Durante quarenta anos, não conheci mais ninguém com este nome. De facto, a Carla Margarida da minha infância continua a ser a única. Os mortos não contam.
   Há trinta anos que ela saiu da minha vida. Não acabámos a primária juntas, não fomos para o ciclo como tínhamos planeado, uma última vez estivemos juntas, na tarde do último dia de aulas antes das férias do natal. Ela apertou-me as mãos, depois de guardar os cadernos, o estojo e os livros na mochila, enquanto me entregava uma folha dobrada em quatro. E, antes de sair da sala atrás da mãe, virou o rosto uma última vez, olhou-me, triste, e eu soube que nunca mais a veria.
   Para trás, ficaram os intervalos passados sentadas abraçadas no pátio atrás da escola primária, junto ao muro que dava para a casa da bruxa, para trás ficaram três anos e alguns meses e muitas horas de mãos dadas, segredos sussurrados, trabalhados feitos em conjunto, lanches partilhados; eu dava-lhe o meu pão com marmelada embrulhado num envelope de pano e ela dava-me pão com fiambre, pois eu raramente o comia em casa. E ela gargalhava quando eu abria o pão ao meio, tirava o fiambre, levantava a cabeça e abria muito a boca, com a língua esticada e comia devagar as duas fatias, fazendo ruídos estranhos. E ela continuava a rir sem parar, muito corada, enquanto segurava o meu pão com a marmelada feita pela minha avó. Depois, entretínhamo-nos a fazer bolinhas com o miolo de pão e atirávamo-las aos pombos do pátio, trocando sorrisos.
   Recordo-me tão bem como se tivesse sido ontem e já passaram trinta anos. Ao contrário das frases feitas, tais como o tempo ajuda a esquecer, apaga quase tudo, tal como apagou as palavras escritas a lápis naquela folha dobrada que guardo num dos meus livros de histórias, e em que, ao longo dos anos, procurei, numa ânsia de finalmente, finalmente, pelo menos uma vez, uma única e indestrutível vez, mal desdobrasse a folha, as palavras surgissem límpidas na letra infantil da Carla Margarida e eu não me esforçasse por decifrar naquelas sombras, embora a soubesse de cor, a declaração de amor “amo-te para sempre, vamos ficar juntas para sempre, sempre, sempre”, e apenas, restar, naquela folha A4 pautada e vincada, amarelada pelos anos, malmequeres nos cantos, desenhados com grandes pétalas a lápis HB n.º 2, pétalas coloridas a grafite, a cor da cinza, a cor do meu amor perdido, dizia eu, afinal, ao contrário das frases feitas, o tempo não ajudou a extinguir o meu amor e a dor da separação.
   Até há dois anos.
   O que aconteceu foi que eu a seguir narro, um acontecimento tão peculiar no qual duas vidas se entrelaçam no meio da morte de uma estranha que tinha o nome do meu amor de infância.
   Eu caminhava sem pressa, tinha saído do trabalho minutos antes e, com aquela curiosidade mórbida que me faz abrir o jornal no café e ir para a página da necrologia, li os vários obituários que estavam colados no vidro da montra de uma agência funerária da Avenida de Roma. Seis obituários, distribuídos em duas colunas e, no cimo da segunda coluna, deparei-me com o nome Carla Margarida. Omito os quatro apelidos, não interessa para esta história, deixou viúvo José Maria, que lhe deu os dois últimos nomes, e três filhos órfãos, dois rapazes, Tiago e Luís, e uma filha, Margarida, achei comovedor a criança ter esse nome. Seria criança, seria já uma jovem mulher, teria filhos, seria a Carla Margarida da foto avó?
   Olhando para aquela fotografia a preto e branco perguntei-me se poderia ser a minha Carla Margarida trinta anos depois, uma mulher de pele flácida, rosto magro e abatido, cabelo grisalho, exposta numa montra a trezentos quilómetros de distância da cidade de província onde nos tínhamos conhecido. E li que nesse dia, pelas dezoito horas e trinta minutos, se realizaria a missa de sétimo dia na igreja de São João de Deus.
   Caminhei até à Praça de Londres, entrei na igreja e sentei-me ao fundo. Assisti à missa do sétimo dia pela Carla Margarida, puxando uma pele rebelde de uma cutícula até fazer sangue. Apesar do mercurocromo que a minha avó me esfregava nas unhas para eu não as roer até ao sabugo, naquela situação perturbadora, eu ataquei sem clemência, agora as já não maltratadas unhas, mas algo mais frágil, e senti uma punhalada de dor por ter puxado com demasiada força a pele. Chupei o sangue e senti que naquele sabor metálico estava todo o meu sofrimento, toda a dor que eu recusava em abandonar, como recusava em acreditar que, trinta anos antes, eu tinha perdido o meu amor.
   Terminada a missa, levantei-me e olhei para a frente, procurando a família inconsolável no meio da pequena multidão enlutada e que se transfigurou num homem de meia idade, careca e com peso a mais, em dois jovens homens que agradeciam cumprimentando os presentes e numa mulher amparando o pai com um esguio braço sobre o seu ombro. Dei-me conta, então, que a morta por quem foi rezada a missa não podia ser a Carla Margarida da minha infância, a não ser que tivesse sido mãe muito jovem, porque a filha andaria à volta dos trinta anos, era muito alta, mais alta do que eu, pelo menos, era morena, magra, e não notei semelhanças com o meu amor, mas alguma coisa que intrigou, porque aproximei-me devagar, evitando fazer barulho com os sapatos e estendi uma mão para o viúvo. Achei tão caricata aquela situação, estar na missa de sétimo dia de uma mulher que tinha o mesmo nome da rapariga por quem eu estive apaixonada toda a minha vida, que escondi uma risada nervosa e, ao mesmo tempo que um soluço me obrigou a encolher o estômago, encheu-me os olhos de lágrimas. A mulher estendeu a mão ao mesmo tempo que eu e apertou-me o antebraço. Tão delicadamente foi o seu toque que eu virei a cara e olhei-a pela primeira vez. Ela perguntou-me se eu estava bem, o pai agradeceu-me a presença com uma mão suada e mole, um dos filhos perguntou algo e eu respondi que era uma amiga. Penso que a resposta pareceu agradar e eu afastei-me com os olhos marejados, virando-me para sair da igreja.
   Na rua, inspirei fundo, tirei os óculos e limpei os olhos com um gesto brusco, procurei um lenço de papel nos bolsos do casaco e fiquei parada, no meio da Praça de Londres, e pensei naquela situação absurda, enquanto esfregava as lentes.
   Não sei quanto tempo fiquei ali, sem me mexer, sei que o entardecer foi caindo devagar, o frio de inícios de Abril fez-me tiritar momentaneamente e puxei o fecho do casaco até ao pescoço. A pessoas foram saindo da igreja, dispersando-se, e eu fiquei sozinha junto às escadas, até que senti uma mão num ombro. Virei-me e deparei-me com a filha. Ela sorriu timidamente e, com um gesto de cabeça, indicou a Avenida de Roma. Anuí, sem trocarmos uma palavra, e caminhámos até à estação de comboios.
   Ali, queria despedir-me dela e não sabia como. Não tirara as mãos dos bolsos do casaco durante o trajecto com receio de não conseguir suportar o tremor que atravessava o meu corpo da cabeça à planta dos pés.
   Sem nada fazer prever, ela passou a ponta de um dedo pela minha maçã do rosto, tão levemente como se fosse um fio de teia de aranha que, por vezes, ficava colado na minha cara quando nos escondíamos debaixo dos arbustos, junto ao muro da escola primária, isto foi o que eu pensei naquela altura. Ela sorriu e apontou, com o indicador com que segundos antes me tinha afagado, para a parede branca do prédio à nossa direita. Erguemos a cabeça e, lá no alto, o sol batia no letreiro do Hotel Lutécia. As letras, de um vermelho baço, recordaram-me a cor ocre vermelho do sangue que sugara durante a missa. Ela comentou como era bonito o sol ali a bater, naquele fim de tarde de Abril, e eu acenei, mordiscando o lábio, mas ela reparou no meu embaraço. Beijou-me no rosto e despediu-se de mim com um abraço rápido e com promessa de nos reencontrarmos brevemente.
   No regresso a casa e durante toda a noite nada fez passar a melancolia que senti ao ser abandonada por aqueles braços esguios e por aquele hálito morno, até que acordei a meio da madrugada de um sono sem sonhos nem sobressaltos. Levantei-me, fui à sala, tirei o meu livro de histórias de aventuras da estante, folheei até encontrar a folha A4 e desdobrei-a. Passei a ponta dos dedos pelas palavras desmaiadas e soube que, naquele instante, o meu amor pela Carla Margarida tinha sido apaziguado.

terça-feira, 22 de março de 2016

Quem não está ocupado em nascer está ocupado em morrer

'Lembro-me muito bem de um pormenor curioso: a última canção que punham todas as noites, como um aviso discreto aos clientes habituais de que o bar ia fechar, era It's alright (I'm only bleeding), uma velha canção de Bob Dylan que Rodney adorava porque, tal como a mim os ZZ Top me devolviam o desconsolo sem horizontes da minha juventude, a ele era-lhe devolvido o júbilo hippy da sua juventude, ainda que se tratasse de uma canção tristíssima que falava de palavras desiludidas que ecoam como balas e de cemitérios a abarrotar de falsos deuses e de gente solitária que chora e tem medo e vive num poço sabendo que tudo é mentira e que compreendeu cedo de mais o que não vale a pena tentar compreender, esse júbilo era-lhe talvez devolvido graças a um verso que eu também não consegui esquecer: «Quem não está ocupado em nascer está ocupado em morrer».'

Javier Cercas, A Velocidade da Luz, Edições Asa, p. 30.