terça-feira, 30 de Setembro de 2014

Gata, livros, João Roque

Ontem, fui ao CCB assistir à peça 'Gata em Telhado de Zinco Quente', de Tennessee Williams, encenada por Jorge Silva Melo, dos Artistas Unidos.

Quem leu o post sobre os livros que mais me marcaram, encontra um livro que reúne quatro peças do dramaturgo norte-americano, entre as quais esta que referi. Gostei tanto de ler o livro emprestado que o comprei.

Hoje é o último dia de exibição no CCB. Depois, seguir-se-ão outras cidades; não percam. Uma nota final: 'A Gata' teve a sua estreia no Teatro Viriato, da minha cidade :) Não esqueçamos que esta peça é uma co-produção Artistas Unidos, Teatro Viriato, Fundação Centro Cultural de Belém e Teatro Nacional S. João. Mais uma vez, vão assistir, merece a pena, bons actores, uma excelente peça, um bom momento passado.

Aproveitei que estaria na companhia de um amigo e levei-lhe o livro que ganhou o Prémio Leya 2013, 'Uma Outra Voz', de Gabriela Ruivo Trindade. Ambos tínhamos lido um dos romances finalistas, 'O Pecado de Porto Negro', de Norberto Morais, uma excelente obra, e eu tive pena de não ter ganho, como referi aqui.

Por último, mas não menos importante: o amigo, claro está, é o João Roque, um grande Amigo, a maiúscula mais que merecida. Ele e uns amigos, que muitos de nós conhecemos, compraram os bilhetes há pouco tempo, enquanto eu o arranjei em finais de Maio, aproveitando a compra de um outro bilhete para uma peça no TMJB, em Almada.

Já respondi há que tempos que devo ao João Roque a existência deste blogue. E graças a ele, eu escrevi um livro, conheci pessoas extraordinárias e estive presente no sábado passado no jantar de comemoração do lançamento do livro do João 'Ilha de Metarica - memórias da guerra colonial'.

Neste último mês, estive com o João três vezes, em duas peças de teatro e no jantar, um excelente momento passado, que convivemos, trocámos livros, o Luís fez uma grande apresentação e o João falou sobre o livro, que teve a sua semente n''A tropa cá do João'.

Se eu estou aqui hoje a escrever isto, é graças ao João. O que li nos últimos anos, o conhecimento que adquiri, as pessoas que conheci, a ele o devo.

domingo, 28 de Setembro de 2014

Stoner

Comprei-o na sexta-feira, comecei a ler no comboio, de regresso a casa, e pelo Goodreads, recomendei-o a amigos, ainda poucas páginas tinha lido.

Em 1910, Stoner, filho de agricultores pobres, trabalhava na quinta de familiares enquanto tirava o curso de Agronomia, na Escola Agrária, na Universidade de Columbia. No segundo ano, frequenta a disciplina obrigatória de Literatura Inglesa e apaixona-se pela matéria, ao ponto de mudar de curso e licenciar-se em Letras, quatro anos depois. Morre em 1956, aos sessenta e cinco anos, de cancro.

Stoner é a história de um tímido, banal e solitário professor universitário, escrito de uma forma pungente, triste, emotiva. A sua vida é feita de dissabores, não sabendo lidar com as situações, deixa-se levar pelas circunstâncias, encontra a paixão, o amor, nos livros, nas aulas da faculdade que leciona durante quarenta anos. Uma vida votada ao fracasso, um casamento triste e sem amor, uma mulher e filha frias, o caso amoroso que tivera de abdicar, passa as duas Guerras Mundiais na faculdade, perde um amigo na Primeira Guerra. No entanto, não abdica dos seus valores, do seu amor à literatura e apesar de uma inimizade com o professor seu superior, enfrenta-o, reconquistando as suas aulas, e torna-se uma espécie de lenda.

Muitas vezes não encontro palavras para escrever o quanto um livro me toca, e este é um romance pungente, tão comovedor que, em certas alturas, me fez chorar. Stoner é diferente de todos os heróis literários que conhecemos, é apagado, tristonho, tímido, de ombros curvados, brando, digno, mas ama a literatura, de uma forma tão poderosa que é incapaz de traduzir em palavras esse sentimento nas suas aulas.

'As coisas que ele mais acarinhava eram profundamente traídas, quando falava delas às suas turmas; o que havia de mais viçoso murchava nas suas palavras; e o que mais o comovia tornava-se frio quando proferido pela sua boca. E a consciência desta sua falha afligia-o de tal maneira que a consciência dela se tornou parte da sua pessoa, como a curvatura dos seus ombros.' (p. 104).

O livro abre com o seu obituário, um primeiro longo parágrafo que resume a sua vida, um professor assistente pouco recordado pelos alunos depois de acabarem o curso. Um professor obscuro que dedicou a sua vida a um amor absoluto, aos livros, e, como diz o autor John Williams, numa rara entrevista no final da vida: «Penso que ele é o verdadeiro herói. Muitas pessoas que leram o romance acham que Stoner levou uma vida muito triste e má. Eu julgo que ele teve uma vida ótima. Fez o que gostava de fazer, teve uma certa noção do que fazia e da importância do seu trabalho. (...) O emprego deu-lhe um tipo especial de identidade e fez dele quem ele era [...] é o amor pela coisa que é essencial. E quando amamos uma coisa, compreendemo-la. E se a compreendemos, aprendemos muito. É a falta desse amor que define um mau professor.»

Stoner é um romance perfeito, perfeito na escrita, na história, no herói, um romance resgatado ao esquecimento. Escrito em 1965, há poucos anos foi traduzido para francês e foi a escolha dos leitores da livraria britânica Waterstones como o melhor livro do ano de 2013.

quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

Outono

O tempo virara, o Verão passara; o Outono caíra sobre Bly e apagara metade da claridade dos dias. O sítio, com o seu céu cinzento e as grinaldas murchas, os seus espaços desnudos cobertos de folhas mortas, era como um palco depois de um espectáculo - juncado de programas amachucados. - p. 111.

Henry James, A Volta no Parafuso, Relógio D'Água, 2003.

quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

Desafio 'Liebster «animal» Award'

A Raquel, do blogue 'Blue258', lançou um desafio à nossa dona. As regras são colocar as imagens do blogue que nos desafiou, do desafio e responder às questões apresentadas. Também existem outras, como escolher entre 4 a 11 blogues com menos de 200 seguidores e continuar o jogo, mas saltamos esta parte (somos uns batoteiros).

 A linda imagem do seu blogue :)

Tivemos que adaptar a imagem do desafio, dado que a nossa dona nos incumbiu desta tarefa.


E aqui estão as nossas respostas. Espero que a dona do Koi, o novo gato da felino-blogosfera goste.

1. Como seria a tua vida sem o blogue?

Somos famosos na felino-blogosfera!




2. Já alguma vez pensaste em apagar o blogue' Se sim, porquê? 


3. O que diria o teu blogue de ti se pudesse falar?
 

5. Se pudesses entrar num livro por um dia, qual seria? E porquê?

Porque o Nakata fala connosco.

6. Qual o escritor que adorarias conhecer e porquê?


 O Manuel António Pina. Não é óbvio?


7.  Qual seria o livro, a música, a série e o filme que recomendarias?


Bichos, de Miguel Torga, Cats Musical, Memory,  os desenhos-animados do Top Cat/Manda-Chuva, de Hanna-Barbera e O Grande Peixe, de Tim Burton.

8. Quais são as 3 palavras que melhor te definem?
 
 Livro, gato, escrita.

9. Com quem querias estar neste momento e porquê. / 10. Onde querias estar neste preciso momento e porquê.



11. Do que mais te arrependes até hoje.


E pronto! Desafio cumprido.  :)

sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

O Pecado de Porto Negro


É muito mais que a típica história da adolescente tímida, menina dos olhos do pai, que se perde de amores por um lindo homem que não pode ver um rabo de saia, seja solteira, casada, viúva, prostituta, seja uma ou às duas de cada vez. É muito mais que a história do rapaz fuinha, ratazana, apaixonado pela doce rapariga, é muito mais que uma grande história de amor. Norberto Morais consegue, utilizando o realismo mágico, situar a história numa cidade dos trópicos, numa ilha de seu nome São Cristóvão, Porto Negro, a Cidade do Amor Vadio. Agarra-nos, enfeitiça-nos do princípio ao fim; cada capítulo, cada pedaço da narrativa é arrebatador. Se estávamos a espera que se desenrolasse de uma certa forma, somos deslumbrados por uma brusca reviravolta. A estratégia é clara e funciona: a tragédia surge, a vingança é preparada ao pormenor, mas só nos apercebemos à posteriori. Brilhante.

Romance finalista do Prémio Leya, um injusto perdedor. Sei-o bem, que também li o vencedor. Mas como a certa altura lemos aqui: 'Estava martelada a decisão. Para uns a certa, para outros o maior dos atropelos. Nunca decide bem quem decide. É esta a ingratidão da justiça.'


Norberto Morais, O Pecado de Porto Negro, Casa das Letras, 2014.

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Terra, de Olga Roriz

 

 

 As fotos foram cedidas gentilmente pelo fotógrafo João Máximo :)

No passado sábado, o Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, acolheu 'Terra' e eu, o João R., o João M. e o Luís fomos assistir e aproveitámos e jantámos por lá.

Os bilhetes estavam comprados há semanas, a mesa na cafetaria foi reservada há uns dias e antes do espectáculo trocámos, como já é habitual, livros na esplanada do bar.

O João Roque escreveu um post no G+, o que provocou diversos comentários, entre os quais o meu. Gostei do espectáculo, embora para o fim os movimentos fossem repetitivos. Na globalidade, foi muito bom. E os cinco bailarinos passaram mais de uma hora a engolir pó, com a terra entranhada nos corpos transpirados. Foram fantásticos!

Esta é a minha opinião, então (transcrita do G+): 'eu achei muito primitivo. descobriram-se. afinal não eram os 'finos' do início, mas animais. houve momentos bastante íntimos com a terra, como se fizessem amor, mas no fim achei repetitivo todos aqueles movimentos. gostei do fim, pensei que seriam animais rastejantes, minhocas :D a viverem na terra.'

Entretanto, fui consultar a folha de sala do espectáculo e julgo que este comentário não andará muito longe do que a Olga Roriz quis transmitir, 'a descoberta do prazer da matéria, (...) O caminho em direcção à essência só pôde fazer-se, no entanto, depois do retorno aos movimentos arquetípicos da dança, ligados originalmente à imitação das aves, das plantas e dos animais.' [não escrevo mais, quem quiser, vá assistir :)]

Foi uma excelente noite num belo teatro de uma bonita cidade. Recomendo o espectáculo, uma visita ao Teatro Joaquim Benite, aproveitem o preço simpático do jantar, a nova temporada está aí, e descubram Almada.

sábado, 13 de Setembro de 2014

O sol da tarde

Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.

Ah este quarto, não é nada estranho.

Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.

Estarão ainda os coitados nalgum lugar.

Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.

... De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só ... Ai de mim,
aquela semana tornou-se para sempre.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, Relógio D'Água, 1994.

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Dez livros

O Miguel lançou-me o repto de indicar dez livros que me marcaram muito. Tenho ideia de ter respondido a este desafio no facebook, isto é, quando o tinha, e julgo que foi uma resposta a um post do João Roque há coisa de um ano. Entretanto, há uns meses, seis, talvez, saí de lá e só o uso esporadicamente para consultar páginas públicas, como a do município de Viseu, ou do Museu Grão Vasco. Vá lá saber-se porquê... ;)

Bom, dez livros é uma escolha difícil. E de há um ano para cá li outros, por isso não será de estranhar se a resposta ao João tenha mudado. Daqui a um ano, se surgir novo repto, as escolhas, provavelmente, serão outras :)

Como o Miguel, divido em autores portugueses/lusófonos e estrangeiros, mas fico-me por estes critérios.

Então, segue a lista:

Literatura portuguesa/lusófona:
  • Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes. Acabado de reler, quase trinta anos depois da primeira leitura. Recordava-me dos miúdos, do Gaitinhas, Gineto, não de todos, da miséria, do trabalho infantil nos esteiros do Tejo. Ainda é um murro no estômago. Retrata com detalhe o trabalho dos miúdos de 11, 12 anos, no início dos anos 40 do século passado nos telhais, no rio, na Fábrica Grande. Um romance neo-realista que aconselho vivamente.
  • Memorial do Convento, de José Saramago. Escrevi isto há mais de dois anos. Ainda é o único livro que li deste autor.
  • O meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos. Um dos meus autores preferidos. Escrevi este post há mais de um ano.
  • Todos os Poemas, colectânea da obra poética de Ruy Belo. Cliquem aqui e têm acesso a alguns poemas neste blogue.
  • Contos, de Miguel Torga. Reúne os livros de contos, Bichos, Contos da Montanha, Rua, Novos Contos da Montanha e Pedras Lavradas.

Literatura estrangeira:
  • O Principezinho, de Saint-Exupéry. O clássico dos clássicos da literatura infantil para todas as idades. A ler e reler e reler e oferecer.
  •  After Dark - Os Passageiros da Noite, de Haruki Murakami (difícil escolha, entre todos os seus livros que já li e, brevemente, sairá um novo). Escrevi esta citação há quase dois anos.
  • O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell. Umas das obras-primas literárias do século passado.
  • O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway. De acordo com Adolfo Casais Monteiro, que o traduziu, é um dos mais belos romances de amor que jamais se escreveram.
  • Um Eléctrico Chamado Desejo e Outras Peças, de Tennessee Williams. Foi o João Máximo quem me emprestou este livro e gostei tanto que comprei o exemplar igual por metade do preço, numa promoção. Vi alguns filmes baseados nestas peças e tenho o DVD de 'Bruscamente, no Verão Passado' para ver, um dia destes.