segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Liberdade

'Nunca se pode ser tão livre quanto se deseja, quanto se quer, quanto se teme, quiçá tanto quanto se vive. Médico, alquimista, pirotécnico, astrólogo, envergara resignadamente a libré do tempo; deixara o mundo impor ao seu intelecto alguns entorses.' - p. 138.

sábado, 18 de Outubro de 2014

Génese e desenvolvimento do poema

Vozes vizinhas vindas da infância
através do sotaque de quem fala aqui ao lado
o sol inexorável sobre as águas
pressentimentos vindos com o vento
a velha fortaleza a vista da baía
a maré cheia a tarde as nuvens o azul
memória disto tudo noutro verão noutro lugar
e pelo meu olhar visivelmente vitimado
tudo possível pela mesa e pela esferográfica
pelo papel desculpa ó minha amiga pelo bar
a solidão assegurada pela multidão
a luz a hora as férias o domingo
o cruzeiro de pedra o largo o automóvel
tudo isto não importa importam só
as mínimas e únicas palavras que me ficam disto tudo
e tudo isto fixam: «tempo suspenso» ou «mar imóvel»
ou «sinto-me bem » ou - que sei eu? - «alguém morreu»

Ruy Belo, Transporte no Tempo

quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

O que faltava era eu mesmo

 
"... Naquela paisagem eu via, pela primeira vez, o infinito do mundo. Não que a paisagem me tornasse pequeno, mais pequeno do que eu era. Acontecia, sim, que eu perdia noção de mim, eu deixava de ter tamanho. A viatura parada, os meus irmãos reclamando que dali «não se via nada».
   Só mais um bocadinho, supliquei.
   Não havia, porém, bocadinho que chegasse. Não era tempo, o que me faltava. O que faltava era eu mesmo. Lembro-me de um pequeno texto do uruguaio Eduardo Galeano, que diz o seguinte.
   «Diego não conhecia o mar. O pai levou-o para que descobrisse o oceano. Viajaram para o Sul. Depois de muito caminhar, o mar enfim surgiu. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu: Pai, me ajude a olhar!»"

Mia Couto, Quando me fiz escritor?, Granta Portugal 4 - África, Outubro 2014.

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

Súplica

O outono demora-se no mundo
A juventude há muito despediu
a primavera da primeira ave
Respiro as lágrimas das raparigas
recordo-me do seu odor nocturno
Escuto o movimento lento da ramada
esqueci a escada habitual do dia-a-dia
a cortina da chuva corre-se de novo
Nesta manhã de outono aluviões da vida
murmuram-nos mulheres minuciosas
O ombro da colina ergue o nevoeiro
na madrugada não cantaram melros
A areia bebe cheia a chuva enquanto
nós infinitamente nos distanciamos
de quanto - diz a santa - desejamos
Aonde está a mãe da minha infância?
Talvez com ela tudo começasse
É nos fins do verão alguém morreu
foi-se a ferocidade das cigarras
no caminho das tílias percorridas
Deixo cair as mãos pois nem me restam essas
aves do mar que a tempestade impele
em tempo de equinócio para a costa
É o cabo do mundo é o fim do ano
a era da perfeita culpabilidade
Respiro já os meus últimos dias
Sobre este céu nenhuma ave adeja
Que a terra humedecida me proteja

Ruy Belo, Transporte no Tempo (Todos os Poemas)

domingo, 12 de Outubro de 2014

Espaço preenchido

Somos todos de aqui. Basta-nos a pátria
que uma tarde de domingo nos consente
entre folhas de outono e frases de abandono
E abrem-se-nos ruas
para ir a sítios demasiado precisos
quando um só sítio se encontra
ao fim de todas as ruas e de todos os rios
Somos todos da raça dos mortos
ou vivos mais além
Mensagens de outra pátria não as traz
arauto algum que o nosso tempo vestisse

O que é preciso é dar lugar
aos pássaros nas ruas da cidade

Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates (Todos os Poemas)

sexta-feira, 10 de Outubro de 2014

Coimbra doce

Ontem foi assim. Regressei a Coimbra. Não pensei que fosse tão cedo, depois da viagem do passado domingo. Desta vez, em trabalho. O intercidades deixou-me em Coimbra-b às 11:30, fui almoçar com o Miguel e, como sobremesa, o melhor crepe doce do universo e arredores. E se alguém tiver dúvidas, é só tirar teimas no 'Napolitano'. Já estou a salivar...

quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

41-II


Uma semana depois, ofereceram-me mais um presente de aniversário: o último do Haruki Murakami..
Eu cá não me importo nada de fazer anos :)

terça-feira, 7 de Outubro de 2014

O pôr-do sol em quiaios é termos sido felizes


LITERATURA EXPLICATIVA

O pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol
nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol
É não morrermos mais é irmos de mãos dadas
com alguém ou com nós mesmos anos antes
é lermos leibniz conviver com os medicis
onze quilómetros ao sul de florença
sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico
Há quanto tempo se põe o sol em espinho?
Terão visto este sol os liberais no mar
ou antero de junto da ermida?
O sol que aqui se põe onde nasce? A quem
passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?
O pôr-do-sol em espinho é termos sido felizes
é sentir como nosso o braço esquerdo
Ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém
mulheres recortadas nas vidraças
oliveiras à chuva homens a trabalhar
coisas todas as coisas deixadas a si mesmas
Não mais restos de vozes solidão dos vidros
não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas
não mais o pôr-do-sol apenas pôr-do-sol

Ruy Belo, Homem de Palavra[s]

Duarte, João, eu e Miguel, castelo de Montemor-o-Velho

segunda-feira, 6 de Outubro de 2014

"Viseu com Z®" - o filme


"Viseu com Z®" é um projecto de carácter histórico, cultural e patrimonial, incentivando a preservação do património, aprendizagem da história e o enriquecimento da cultura. Destina-se a recordar o passado da cidade, não esquecendo o presente. Tem uma página no facebook e produziu este interessante filme (embora amador), que compila fotos e um filme bastante antigo, bem como canções dedicadas à "Senhora da Beira".

O filme tem 54 minutos e aos 28'15'' aparece o comboio e a estação de Viseu, que já não existe. Apresenta um excerto muito curtinho do filme antigo e algumas fotos, e era aí que eu apanhava a automotora para a aldeia da minha avó. O meu avô Baltazar, pai da minha mãe, foi chefe-de-estação e eu guardo boas, belíssimas memórias das viagens até à aldeia.

sábado, 4 de Outubro de 2014

Estilo

'Luce chegou inclusivamente a analisar o estilo da minha prosa para ver se eu escrevia de um modo linear e masculino ou, pelo contrário, num estilo circular e feminino.' - p. 29.

Jeffrey Eugenides, Middlesex, Dom Quixote, 2004.

sexta-feira, 3 de Outubro de 2014

Negócio fechado

A Companhia de Teatro de Almada e a Fundação Inatel ofereceram-me convites para a peça de David Mamet 'Negócio fechado', que estreou ontem e que se prolonga até 19 de Outubro, no Teatro da Trindade. Sala cheia, uma peça ácida, violenta, com diálogos recheados de palavrões, sobre vendedores de uma agência imobiliária que a todo o custo tentam vender lotes de terreno, serem os melhores sem olharem às consequências  e ganharem o prémio, o Mercedes.

Os discursos são os de pessoas do dia-a-dia, recheados de asneiras, as personagens com falta de escrúpulos, manipuladoras, a competição sempre presente, e que tentam coagir os incautos clientes a comprarem os referidos  lotes.

Um leque de excelentes actores, com destaque para Marques D'Arede e Pedro Lima.

Uma noite fantástica em Lisboa, o Verão chegou no Outono. :)