segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Terra, de Olga Roriz

 

 

 As fotos foram cedidas gentilmente pelo fotógrafo João Máximo :)

No passado sábado, o Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, acolheu 'Terra' e eu, o João R., o João M. e o Luís fomos assistir e aproveitámos e jantámos por lá.

Os bilhetes estavam comprados há semanas, a mesa na cafetaria foi reservada há uns dias e antes do espectáculo trocámos, como já é habitual, livros na esplanada do bar.

O João Roque escreveu um post no G+, o que provocou diversos comentários, entre os quais o meu. Gostei do espectáculo, embora para o fim os movimentos fossem repetitivos. Na globalidade, foi muito bom. E os cinco bailarinos passaram mais de uma hora a engolir pó, com a terra entranhada nos corpos transpirados. Foram fantásticos!

Esta é a minha opinião, então (transcrita do G+): 'eu achei muito primitivo. descobriram-se. afinal não eram os 'finos' do início, mas animais. houve momentos bastante íntimos com a terra, como se fizessem amor, mas no fim achei repetitivo todos aqueles movimentos. gostei do fim, pensei que seriam animais rastejantes, minhocas :D a viverem na terra.'

Entretanto, fui consultar a folha de sala do espectáculo e julgo que este comentário não andará muito longe do que a Olga Roriz quis transmitir, 'a descoberta do prazer da matéria, (...) O caminho em direcção à essência só pôde fazer-se, no entanto, depois do retorno aos movimentos arquetípicos da dança, ligados originalmente à imitação das aves, das plantas e dos animais.' [não escrevo mais, quem quiser, vá assistir :)]

Foi uma excelente noite num belo teatro de uma bonita cidade. Recomendo o espectáculo, uma visita ao Teatro Joaquim Benite, aproveitem o preço simpático do jantar, a nova temporada está aí, e descubram Almada.

sábado, 13 de Setembro de 2014

O sol da tarde

Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.

Ah este quarto, não é nada estranho.

Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.

Estarão ainda os coitados nalgum lugar.

Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.

... De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só ... Ai de mim,
aquela semana tornou-se para sempre.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, Relógio D'Água, 1994.

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Dez livros

O Miguel lançou-me o repto de indicar dez livros que me marcaram muito. Tenho ideia de ter respondido a este desafio no facebook, isto é, quando o tinha, e julgo que foi uma resposta a um post do João Roque há coisa de um ano. Entretanto, há uns meses, seis, talvez, saí de lá e só o uso esporadicamente para consultar páginas públicas, como a do município de Viseu, ou do Museu Grão Vasco. Vá lá saber-se porquê... ;)

Bom, dez livros é uma escolha difícil. E de há um ano para cá li outros, por isso não será de estranhar se a resposta ao João tenha mudado. Daqui a um ano, se surgir novo repto, as escolhas, provavelmente, serão outras :)

Como o Miguel, divido em autores portugueses/lusófonos e estrangeiros, mas fico-me por estes critérios.

Então, segue a lista:

Literatura portuguesa/lusófona:
  • Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes. Acabado de reler, quase trinta anos depois da primeira leitura. Recordava-me dos miúdos, do Gaitinhas, Gineto, não de todos, da miséria, do trabalho infantil nos esteiros do Tejo. Ainda é um murro no estômago. Retrata com detalhe o trabalho dos miúdos de 11, 12 anos, no início dos anos 40 do século passado nos telhais, no rio, na Fábrica Grande. Um romance neo-realista que aconselho vivamente.
  • Memorial do Convento, de José Saramago. Escrevi isto há mais de dois anos. Ainda é o único livro que li deste autor.
  • O meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos. Um dos meus autores preferidos. Escrevi este post há mais de um ano.
  • Todos os Poemas, colectânea da obra poética de Ruy Belo. Cliquem aqui e têm acesso a alguns poemas neste blogue.
  • Contos, de Miguel Torga. Reúne os livros de contos, Bichos, Contos da Montanha, Rua, Novos Contos da Montanha e Pedras Lavradas.

Literatura estrangeira:
  • O Principezinho, de Saint-Exupéry. O clássico dos clássicos da literatura infantil para todas as idades. A ler e reler e reler e oferecer.
  •  After Dark - Os Passageiros da Noite, de Haruki Murakami (difícil escolha, entre todos os seus livros que já li e, brevemente, sairá um novo). Escrevi esta citação há quase dois anos.
  • O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell. Umas das obras-primas literárias do século passado.
  • O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway. De acordo com Adolfo Casais Monteiro, que o traduziu, é um dos mais belos romances de amor que jamais se escreveram.
  • Um Eléctrico Chamado Desejo e Outras Peças, de Tennessee Williams. Foi o João Máximo quem me emprestou este livro e gostei tanto que comprei o exemplar igual por metade do preço, numa promoção. Vi alguns filmes baseados nestas peças e tenho o DVD de 'Bruscamente, no Verão Passado' para ver, um dia destes.

terça-feira, 2 de Setembro de 2014

O Quarteto de Alexandria, Kavafis


Estou no penúltimo capitulo de 'O Quarteto de Alexandria', de Lawrence Durrell. De acordo com o Goodreads, comecei a lê-lo no dia 26 de Maio. Segundo o meu Kobo, li 93% e falta-me pouco mais de uma hora para o terminar.

Na verdade, são quatro livros aqui reunidos: 'Justine', 'Balthazar', 'Mountolive' e 'Clea'. Isto quer dizer que muito em breve irei despedir-me de Darley, o narrador/escritor destas extraordinárias histórias e de Alexandria.

Justine e o seu marido Nessim Hosnani, David Mountolive, Clea, Balthazar, Melissa, Darley, já referido, e outras personagens (Scobie, louco e adorável e adorado, posteriormente), o estranho irmão de Nessim, de lábio leporino, Narouz, a mãe deles, Leila, Pombal, o escritor Pursewarden. Como pano de fundo, as tensões políticas e religiosas, a Segunda Guerra Mundial, amores, homossexualidade, erotismo e o poeta Kavafis.

Nesta obra-prima descobri o poeta grego Kavafis e consegui encontrar na livraria 'letra livre', ao fundo da Calçada do Combro, uma colectânea de seus poemas e prosas.

sábado, 30 de Agosto de 2014

Velha sabedoria

'Os que vão para fora e regressam não se sentem melhor por terem ido à aventura, bem pelo contrário, enganam-se, porque não perceberam a velha sabedoria de que não é possível fugir de si próprio.'

Henning Mankell, A Leoa Branca, p. 288.

quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Intervalo

   Naquela sala, fazia os deveres, sentada numa cadeira de rodas de madeira. A secretária era de madeira escura, com três gavetas. De vez em quando, no meio de uma tabuada, girava o corpo. Todos os dias havia uma tabuada. Engraçou na dos sete, por se lembrar da brincadeira ‘sete e sete são catorze, com mais sete vinte e um, sete macacos…’ Levantou um pouco a cabeça quando a campainha tocou. Três e meia. Intervalo da tarde. Tinha aulas de manhã ali em frente, no Magistério Primário. Não, naquela altura, já não se chamava Magistério Primário, mas hoje ainda ainda usa essas palavras. Ali, estudou da primeira à quarta classe. Foram cinco anos, contando com a pré-primária.
   Achou que, tal como os outros meninos, merecia um descanso. Abandonou a secretária, disse à D. Elizete, a mãe estava noutra parte do Laboratório, que ia para o jardim. A D. Elizete ocupava um grande espaço atrás da secretária em frente à sua, era uma senhora gorda dentro de uma bata branca e tinha uns óculos redondos e grandes, que lhe ocupavam grande parte do seu rosto corado. Ela acenou com a cabeça, sorriu e voltou ao mapa enrolado no carreto da máquina de escrever Mesa. A alcatifa cor de rato abafou os seus passos, mas caminhava devagar, consciente de que era o serviço da mãe, não podia fazer barulho, e na sala em frente estavam os seus chefes. Os dois médicos veterinários apanharam-na um dia na cave do Laboratório, sítio proibido, que cheirava a clorofórmio ou parecido. Faziam as autópsias ali. Ficou assustada com os olhares deles, mais do que com as suas vozes, ao ordenarem que subisse e nunca mais ali fosse.
   Assim, passou em frente da sala deles, desceu as escadas, deslizou pela porta de vai-vem, desceu os degraus de granito e virou à direita. Ouvia as crianças a gritarem. Gritos, risos, que ecoavam do alto, por entre as frondosas tílias, e começou a falar sozinha. Encostou-se ao muro de tijolos cor-de-laranja e espreitou para a rua. Os carros passavam, as vozes chegavam, agudas, e ela respondia que estava ali e que queria brincar com eles. Afastou-se, insatisfeita, virou-se para os canteiros e agarrou numa flor. ‘O teu pai é careca?’, murmurou. Depois, soprou. O suave algodão soltou-se. Desconhecia que era um dente-de-leão. Para sempre, até hoje, é ‘o-teu-pai-é-careca’.
   Baixou-se, agarrou numa pedra e desenhou uma macaca. Um quadrado, outro, mais dois lado a lado, mais outro… Numerou-os, atirou a pedra para o quadrado número um e, ao pé-coxinho, o pé esquerdo no chão, a perna direita encolhida, começou o jogo.
   A mãe surgiu na entrada, deu-lhe um pão com marmelada embrulhado num saquinho de pano, como um envelope, e uma garrafa de sumo de laranja, verde escura com letras brancas gravadas no vidro, já aberta. A carica?, lembra-se de perguntar. A mãe enfiou a mão no bolso da bata, tirou-a e depositou-a no bolso do peitilho das jardineiras. Tinha as mãos ocupadas, a boca cheia com pão, mas quando queria agradecer já a mãe voltara para dentro. 
   Sentou-se no banco de madeira, balançando os pés, enquanto mastigava o pão com marmelada e bebia goles de laranjada. Quando acabou, poisou o envelope do lanche e a garrafa no banco, sacudiu as migalhas e tirou a carica do bolso. Procurou a pedra, apagou a macaca do chão e desenhou uma pista comprida e curva como uma cobra. Escreveu a palavra partida numa ponta e meta na outra e colocou a carica no início. Ajoelhou-se, o polegar segurou o dedo indicador, largou-o e a carica deslizou na terra batida. ‘Ali vai ela, em primeiro lugar, uma curva apertada, uma rasante, mas conseguiu! Ganhou! Ganhou!