domingo, 20 de Abril de 2014

Uma Outra Voz

Uma pessoa está a guardar-se para a Feira do Livro, que está aí a chegar, mais especificamente para aquelas horas nocturnas com os grandes descontos, mas vai dar uma volta, vê este livro, começa a folhear, lê o seguinte excerto:

'Esta é uma estória de ficção baseada em histórias reais. João Francisco Carreço Simões, ou Ti Carreço, como era conhecido na família, era tio-avô da minha avó. A sua vida serviu de inspiração à personagem principal desta estória, de nome João José Mariano Serrão. Durante a sua viagem a Angola, em finais dos anos 20 do século passado, Carreço Simões escreveu um diário, que se terá posteriormente extraviado. Dessa viagem restaram apenas as fotografias, incluídas no final deste livro.'

E compra!
 
Gabriela Ruivo Trindade, Uma Outra Voz, Prémio LeYa 2013, 1.ª edição, Abril de 2014.

Desafio literário VI


Mais cinco lidos. Como podem ver, aumentei, pela segunda vez, o número de livros. Nada difícil de alcançar, considerando que os policiais do Luiz Alfredo Garcia-Roza lêem-se num piscar de olhos e são livros com um pouco mais de centena e meia de páginas (em ebook).

sábado, 19 de Abril de 2014

Confidência

   Mãe!
   Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
   Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
   Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede Eu prometo saber viajar.

   Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
   Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

   Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
   Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros - Obras Completas - 4 - Poesia


Há quatro anos, perdi a minha Mãe.

quinta-feira, 17 de Abril de 2014

O Regresso a Casa, de Harold Pinter

Hoje, ao fim da tarde, vou comprar o bilhete para a próxima quarta-feira, dia do espectador, para esta peça, que está em exibição no Teatro Nacional D. Maria II. Custa 8,00 €. Será às 19h00 (o meu horário preferido).

'O Regresso a Casa' é uma peça encenada por Jorge Silva Melo e tem um elenco de luxo, como o João Roque e o Miguel puderam comprovar no domingo passado.

Assim, quem estiver interessado em me acompanhar, basta estar na bilheteira do Teatro hoje, a partir das 18,30/18,45. Quem não me conhece pessoalmente, basta olhar para o chão e procurar a rapariga dos botins que foram objecto de um post há umas semanas :)

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Borboleta em Cinza


O Edu ofereceu-me este livro. O João e o Luís, o Miguel e o João Roque também receberam presentes semelhantes.

E eu, assim em jeito de agradecimento, retribuo com este vídeo.

(as gatas são as deusas desta casa, a escura é a Alice e a branca é a Elvira).

Boa semana!

:)

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

Desafio literário V

Mais quatro livros lidos. Acrescentei mais seis ao desafio inicial. E, da maneira como isto está a decorrer, julgo que não será o primeiro acerto :p

O último é um policial brasileiro. Adorei.


Excelente estreia neste autor. Não tive nenhum problema em dar 5* no Goodreads a este policial que me entusiasmou do princípio ao fim. Grande inspector Espinosa, da 1.ª DP do Rio de Janeiro, inteligente, irónico e leitor compulsivo.

Não conheço o RJ, mas é como se lá estivesse, tal é a intensidade com que a cidade vibra neste romance. E que grande final!

Luiz Alfredo Garcia-Roza nasceu em 1936, no Rio de Janeiro. O Silêncio da Chuva, este seu primeiro romance, recebeu os prémios Nestlé e Jabuti, em 1997.

Estou ansiosa para ler os restantes livros da série do Inspector Espinosa: Achados e Perdidos, Vendo Sudoeste, Perseguido, Uma Janela em Copacabana, Berenice Procura, Espinosa sem Saída, Na Multidão e Céu de Origamis.

Sim, adoro policiais. :)

quarta-feira, 9 de Abril de 2014

Ápice

Ainda em 6 de julho, permiti-me anotar: “De repente, tive consciência de que aquele momento, aquela fatia de cotidianidade, era o grau máximo de bem-estar, era a Ventura”, mas em seguida eu mesmo me dei bofetadas de alerta: “Tenho certeza de que o ápice é um breve segundo, um clarão instantâneo, e não há direito a prorrogações.” No entanto, escrevi isso hipocritamente, agora sei. Porque, no fundo, eu tinha fé em que houvesse prorrogações, em que o ápice não fosse somente um ponto, mas sim um longo e interminável planalto. Mas não havia direito a prorrogações, claro que não. Depois escrevi aquilo sobre a palavra “Avellaneda”, sobre todos os significados que ela possuía. Agora penso: “Avellaneda”, e a palavra significa: “Não está, não estará nunca mais.” Não agüento.

Mario Benedetti, A Trégua

'Porque, no fundo, eu tinha fé em que houvesse prorrogações, em que o ápice não fosse somente um ponto, mas sim um longo e interminável planalto.' - tão belo! (5* no GR)

terça-feira, 8 de Abril de 2014

A Trégua - Mario Benedetti

Vai para a lista dos melhores livros que li (e ainda não o acabei) deste ano. Lúcido, irónico e apanhado em português do Brasil, é indispensável a sua leitura. Pequeno, em forma de diário, lê-se num abrir e fechar de olhos.

   Domingo, 2 de junho
   O tempo se vai. Às vezes, penso que precisaria viver apressado, tirar o máximo partido destes anos que me restam. Hoje em dia, qualquer um pode me dizer, depois de esquadrinhar minhas rugas "Mas o senhor ainda é um homem jovem!" Ainda. Quantos anos me restam de "ainda"? Penso nisso e me dá pressa, tenho a angustiante sensação de que a vida me foge, como se minhas veias se tivessem aberto e eu não pudesse deter meu sangue. Porque a vida são muitas coisas (trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações), mas ninguém vai me negar que, quando pensamos nessa palavra, Vida, quando dizemos, por exemplo, que "nos agarramos à vida", estamos assimilando-a a outra palavra mais concreta, mais atraente, mais seguramente importante: estamos assimilando-a ao Prazer. Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e tenho certeza de que isso é vida. Daí a pressa, a trágica pressa destes 50 anos que me pisam os calcanhares. Ainda me restam, assim espero, uns quantos anos de amizade, de saúde passável, de afãs rotineiros, de expectativa ante a sorte, mas quantos me restam de prazer? Eu tinha 20 anos e era jovem; tinha 30 e era jovem; tinha 40 e era jovem. Agora tenho 50 anos e sou "ainda jovem". "Ainda" significa: está acabado.
   E esse é o lado absurdo da nossa combinação: dissemos que iríamos encarar tudo com calma, que deixaríamos o tempo correr, que depois reavaliaríamos a situação. Mas o tempo corre, queiramos ou não, o tempo corre e a deixa a cada dia mais apetecível, mais madura, mais fresca, mais mulher, e a mim, em contraposição, me ameaça a cada dia com me tornar mais achacadiço, mais gasto, menos valente, menos vital. Temos de nos apressar em direção ao encontro, porque, em  nosso caso, o futuro é um inevitável desencontro. Todos os seus Mais correspondem aos meus Menos. Todos os seus Menos correspondem aos meus Mais. Compreendo que, para uma mulher jovem, pode ser um atrativo saber que aquele sujeito viveu, que há muito ele substituiu a inocência pela experiência, que ele pensa com a cabeça bem firme sobre os ombros. É possível que isso seja um atrativo, mas como é breve! Porque a experiência é boa quando vem de mãos dadas com o  vigor; depois, quando o vigor se vai, a gente passa a ser uma decorosa peça de museu, cujo valor é ser uma recordação do que se foi. A  experiência e o vigor coexistem por muito pouco tempo. Eu estou agora nesse pouco tempo. Mas não é uma sorte invejável.