quinta-feira, 26 de março de 2015

WS de tecelagem

   No ciclo preparatório, tive Trabalhos Manuais. Fiz uma base para a mesa em ráfia, um cinzeiro de barro e uma tábua de cozinha. Do 7.º ao 9.º, tive disciplinas como madeiras e horto-floricultura. Nunca mexera num tear, nem no mais simples, de pregos.
   Há uns tempos, inscrevi-me num workshop de tecelagem. Conheci a tecelã no curso de formação pedagógica de formadores, em Janeiro passado. Ela tem um atelier no Seixal e, para dar formação, necessitava do curso.
   Na terça-feira, foi o último dia. Passava das onze da noite quando acabou. Confesso que deixei umas pontas por rematar, finalizando-as em casa (coisa que ainda não o fiz).
   Em certas alturas, tive vontade de desistir. Não é fácil. Exige muita concentração. No início, é pura matemática, temos de calcular os fios para a teia e para a trama, de acordo com a medida da peça. Depois, é fixar os quadros, seguir os gráficos, ter muito cuidado para a naveta não entrar no fio errado.
   Teia, trama, urdir, marcar a cruz dos cadilhos, liços, restilho, órgão, remissa, naveta, puas, quadros, marchas, ourelas, pouca ou muita batida, embebimento, passeta, tantos termos que desconhecia. O mais importante, aprendi. Aprendi saindo da minha zona de conforto. Até janeiro, nunca tinha pensado em fazer este tipo de formação. Estava muito longe de querer aprender a trabalhar num tear. Nem sabia que no Seixal havia um atelier.
   Foi cansativo, mas gostei muito. E ter sido realizado perto de casa foi óptimo.








quarta-feira, 25 de março de 2015

Era como o jazz... sobre isso também não se podia ler nos livros

   - Tratei de estudar. É o meu trabalho. Se procurares bem, podes encontrar tudo nos livros.
   Coy manteve-se em silêncio, mas tinha as suas dúvidas. Tinha lido sobre o mar durante toda a sua vida, e nunca encontrara ali nada sobre o grito de angústia de uma toninha que salta na água com o flanco arrancado pela dentada de uma orca. Nem sobre a noite mais curta da sua vida, com a aurora iniciando-se encadeada ao crepúsculo no horizonte avermelhado da enseada de Oulu, a poucas milhas do círculo polar árctico. Nem sobre o canto dos kroomen, os estivadores pretos, no castelo de proa em noite de lua, diante de Pointe-Noire, no Gabão, com os porões e a coberta cheios de troncos empilhados de ocumé e cajueiro. Nem sobre o estrépito aterrador de um Cantábrico onde céu e mar se confundem sob uma cortina de espuma cinzenta, depressões de catorze metros e vento de oitenta nós, com as ondas deformando os contentores, acorrentados na coberta como se fossem de papel, antes de os arrancarem, levando-os borda fora; a tripulação de vigia amarrada em qualquer sítio da ponte, aterrada, e os restantes nos camarotes, rolando pelo chão contra as portas, vomitando como porcos. Era como o jazz, no fim de contas: os improvisos de Duke Ellington, o saxofone-tenor de John Coltrane ou a bateria de Elvin Jones. Sobre isso também não se podia ler nos livros.

Arturo Pérez-Reverte, O Cemitério dos Barcos Sem Nome, Círculo de Leitores, 2000, pp. 134-135.

sexta-feira, 20 de março de 2015

A Quinta Mulher

   Um dos melhores policiais de Kurt Wallander, o meditabundo comissário de Ystad, que devorei em poucos dias (mais de 500 páginas). A acção passa-se no Outono de 1994 e vários homicídios, todos de homens, são perpetrados de uma forma particularmente violenta e cruel. 
   Infelizmente, e como aconteceu nos anteriores romances, este livro, considerado um bestseller, tem uma péssima tradução e uma não menos má revisão. A tradução é tão má que confunde, muitas vezes, a leitura.
   Ora, nem tudo é mau. Parece que a Editorial Presença deu conta das horríveis traduções e o romance seguinte desta série, 'Um Passo Atrás', tem um novo tradutor, como pude confirmar quando o folheei na FNAC do Colombo.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Coincidências

   O jornal online 'Observador' publicou uma notícia sobre a morte de Dag Hammarskjöld (ver a notícia aqui) ontem, mas só a li hoje. Então, lembrei-me que no livro que estou a ler, 'A Quinta Mulher', de Henning Mankell, com o Kurt Wallander, este nome é mencionado, bem como os acontecimentos relatados na notícia.
   Fui procurar (por estar quase a terminar este policial - devorado nas últimas noites -, trouxe-o hoje e deixei o outro livro em casa) e aqui está o excerto da página 180:
    "(...) Naquela altura Kasavubu e Lumumba pediram auxílio às Nações Unidas. Dag Hammarskjöld, que era o secretário-geral naquela altura, conseguiu arranjar em pouco tempo uma intervenção de tropas das Nações Unidas, entre outras, da Suécia. A nossa função seria apenas ao nível policial. Os belgas que continuavam no Congo apoiaram Tshombe no Catanga. Com o dinheiro das grandes empresas mineiras alugavam-se tropas mercenárias..."

Menina, estás à janela

   Hoje, às sete menos um quarto.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Índice Médio de Felicidade II

"Este silêncio, este sossego, mesmo esta solidão, são coisas que já antes faziam parte de mim. Tenho os meus livros e os meus gatos e a Internet. É suficiente. Os dias passam e eu nem dou por eles." - p. 223.

David Machado, Índice Médio de Felicidade, D. Quixote, 1.ª edição, Agosto de 2013.

   Vejo pouca televisão, oiço pouca rádio. Necessito cada vez mais de silêncio. De manhã, acordo com uma rádio sintonizada,  por volta das seis menos dez. Não oiço o que está a passar, mas prefiro-a a despertar com o alarme do rádio-despertador. O rádio continuará ligado durante 59 minutos, enquanto me arranjo. O ruído é abafado pela porta fechada do quarto. Há semanas que nem a telefonia do quarto-de-banho ligo.
   Saio de casa um pouco depois das sete. Ruído, ruído logo cedo, no comboio, no autocarro, na auto-estrada. Depois, no trabalho. As pessoas chegam aos poucos. Encontram-se nos corredores, retomam, diariamente, a rotina, fala-se ao telemóvel, liga-se o rádio que está numa secretária, pergunto-me como conseguem trabalhar com o rádio ligado, e conversam  ao mesmo tempo, e quando não têm nada que fazer, riem-se com os vídeos no youtube sem auscultadores. Ruído incessante quase oito horas seguidas. E conversam alto, alto demais para quem precisa estar concentrado. Não me consigo abstrair de todos os sons que me cercam. Fico com dores-de-cabeça, incomodam-me.
   Saio às cinco e meia, mais uma viagem de regresso a Lisboa de autocarro, mais barulho, o rádio está ligado, está sempre ligado sobre os bancos dos passageiros.
   Desejo chegar a casa. Ao meu silêncio. Os gatos fazem-me companhia, mas como são tantos, entretêm-se eles  próprios. Livro-me da roupa do trabalho, umas calças de fato-de-treino, uma camisola velha, larga, desbotada, como qualquer coisa e sento-me no sofá com um livro na mão. O César sobe para o meu colo, começa com as massagens, livro de um lado, gato de outro. Relaxo. As gatas esticam-se pela sala, no cadeirão, no parapeito da janela, em cima da TV, no sofá.
   Leio, leio muito em silêncio. Tenho sorte com os vizinhos. Não há grandes barulhos, música alta, portas a bater, discussões. Sem TV, sem rádio, leio, encosto a cabeça, fecho os olhos uns momentos.
  Sossego, descanso, livro, gatos, sofá, silêncio, por fim. A minha felicidade é, também, isto.

domingo, 15 de março de 2015

Índice Médio de Felicidade

   Daniel tinha um Plano, há quase dez anos que anotava, num caderno de capa preta, os seus passos. Um optimista, se fizesse tudo bem, se se mantivesse concentrado, aquilo iria acontecer.
   Mas não contou com a crise e o desemprego. E Daniel, o narrador deste romance, aos trinta e sete anos, está desempregado, sem casa e longe da mulher e dos dois filhos.
   Os seus dois melhores amigos desde a adolescência são Xavier e Almodôvar; Xavier, agorafóbico, depressivo, está há doze anos sem sair de casa, calculando índices médios de felicidade e outras estatísticas, e sobrevive sendo tatuador, e Almodôvar, preso há mais de um ano devido a um assalto.
   De entrevista falhada a cuidar do filho adolescente de Almodôvar, Vasco, metido em más companhias, Daniel lá vai sobrevivendo, não perdendo a esperança em encontrar um emprego e assim, não ir para Viana do Castelo, onde está a família.
   Quando surge no site de entreajuda que os três amigos criaram - e que ao longo dos anos se revelou um fracasso - um pedido de ajuda de uma emigrante na Suíça, Daniel, Xavier, Vasco, Flor e Mateus, filhos de Daniel, metem-se à estrada numa carrinha de nove lugares, conduzida por Alípio, um velhote que fora a única pessoa a oferecer os seus préstimos no site.
   Uma ficção sobre sobrevivência, sobre a capacidade de não perder a esperança, de continuar a acreditar num futuro melhor, uma história de amizade e de superação dos limites.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Vícios de Amor

   Ramiro Sanches ama Alice Vargas, irmã gémea de Pedro, que ama Ramiro em segredo. Mas Alice não ama Ramiro e casa com James Firestone, um jornalista que chega a Vícios com o objectivo de fazer uma reportagem sobre a aldeia.
   Vícios, uma aldeia omitida dos mapas, fundada vai para seis gerações, após um êxodo em busca da terra prometida e nunca encontrada.
   Entre o passado e o presente, guerrilheiros, ideais, amores, segredos, traição, morte, amizade, sonho, esta é uma narrativa que bebe no Realismo Mágico, com o qual NM nos habituara no seu romance seguinte, 'O Pecado de Porto Negro'.
   Uma história envolvente, mágica, apesar de ter torcido o nariz ao ler algumas frases. Ora, que não sirva de desculpa, que a escrita agarra do princípio ao fim.

domingo, 8 de março de 2015

Os Luminares

   Épico. Genial a autora associar as personagens às posições estelares e planetárias, aos signos do zodíaco. O primeiro capitulo, o mais longo, dá a conhecer o mistério da reunião de doze homens no salão de fumo de um hotel de Hokitika, uma terra mineira da Nova Zelândia.
   O ano em que tudo começa: 1866. Um crime, um desaparecimento, uma ex-prostituta, prospectores de ouro, astrologia, amor, aventura, ópio, traição e vingança.
   Surpreendente do princípio ao fim.
   Vencedor do Man Booker Prize 2013.

quinta-feira, 5 de março de 2015

O tempo pergunta ao tempo,

quanto tempo o tempo tem. O tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem.


   The Clock, de Christian Marclay (ver notícia do Público aqui) está patente no Museu Colecção Berardo, no CCB, até dia 19 de abril. É uma compilação de cenas de filmes contendo toda a espécie de referências ao tempo e à sua passagem – sejam elas um pêndulo ou os ponteiros de um relógio, um cigarro a arder, uma espera ansiosa, uma corrida para apanhar um comboio, um despertador a tocar
   Este sábado, ao fim da tarde, estarei por lá; não tenciono fazer a maratona de 24 horas, contudo :)
   No site do Museu Colecção Berardo (aqui) têm mais informação.