quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

As Ilhas Desconhecidas, Notas e paisagens

   Um belo, emocionante e poético livro de viagens que homenageia os Açores e a Madeira, com trechos verdadeiramente preciosos, como este: 
   "Há momentos em que o choro é doirado e transparente - o chuveiro cai doirado e muito leve, cai em fiapos de aranha - e logo a cor desaparece no cinzento e só fica diante de mim a floresta gotejando, todas as formas dissolvidas, à medida que o vale foge azul e húmido e se converte em som, até que da paisagem casta e encerrada entre montes, da paisagem oculta e inútil, fica só saudade e o ruído de quem não acaba de chorar - de quem chora devagarinho, doirado e cinzento. Não é uma grande dor. Há mesmo nesta tristeza não sei que inocência. É o momento único em que as crianças passam do choro para o riso, que começa a abrir-se-lhes nos olhos entre a água e na face cheia de lágrimas que a gente tem vontade de limpar..." -  p. 74.

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas, Notas e paisagens, Quetzal, 2013 (1.ª edição, Março 2011).

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Vida

   O meu coração está a bater mais rápido do que bateu ontem, quando passei a manhã a dar uma formação a professores (com mais duas colegas) numa escola em Odivelas. Na sexta, vou a uma entrevista num organismo público em Lisboa, para uma possível mobilidade, organismo esse que tem um pólo na minha cidade.
   Ah, sim, aproveito a deixa para informar que obtive uma resposta negativa de uma instituição de Viseu e de outra para onde enviei o pedido há meses nem resposta recebi.
   Mas acredito que está tudo alinhado. Ou este é o meu ano :)
   Estive três semanas fora do serviço, em formação, regressei na segunda, passei o dia todo, com as duas colegas sentadas ao meu lado em redor do pc, a fazer a apresentação, a arranjar vídeos, legislação, etc, ainda a levei para casa para os últimos retoques e leituras. Antes de sair do trabalho, encontrei no corredor (pois a caminho do wc, claro, que melhor lugar), uma antiga colega que está nesse organismo, sito em Lisboa, que quer regressar ao meu serviço por ficar mais perto de casa. Olha que coisa. Assim como me levanto às 6 da matina para chegar ao taguspark às 8.20, também ela se levanta à mesma hora, fazendo o percurso contrário. E conversa puxa conversa, lá vou à tal entrevista com a chefe dela, num local que fica no centro de Lisboa, próximo do marquês de pombal. Será um trabalho diferente, totalmente diferente, sei lá se me aceitam, mas é pensar positivo!
   Posso não ir para a terrinha tão cedo quanto queria (é verdade que em termos de mobilidade, ou conhecemos alguém e é rápido, ou se não conhecemos, ui, se demora, ou então, temos sorte e estamos no lugar certo no momento certo). Mas o desejo que regressar à minha linda cidade continua, não o perdi. Pode é demorar um bocadinho mais de tempo :)
   Até lá, é esperar por sexta de manhã e cruzar os dedos.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A Tábua de Flandres


   É o quarto livro que li deste autor. Escrito em 1990, já evidencia as técnicas narrativas que aprimorou em 'O Assédio' ou 'O Tango da Velha Guarda', por exemplo, e nas quais igualmente surgem as suas paixões: o xadrez, a aventura, o mistério e uma ou outra personagem fascinante. Neste romance, César, o antiquário homossexual, merece uma vénia, pela surpreendente reviravolta no final.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Tu chamas-me, amor, eu apanho um táxi

Tu chamas-me, amor, eu apanho um táxi,
cruzo a desmedida realidade
de fevereiro para ver-te,
o mundo transitório que me oferece
no assento de trás
uma oculta abóbada de sonhos,
luzes intermitentes como conversas,
letreiros acesos na brisa,
que não são destino,
mas que estão escritos por cima de nós.

Eu sei que as tuas palavras não terão
esse tom luxuoso, que os ares
inquietos do teu cabelo
guardarão a nostalgia artificial
do sótão sem luz onde me esperas,
e que por fim de manhã
ao acordar-te,
entre esquecimentos a meias e detalhes
fora de contexto,
terás piedade ou medo de ti mesma,
vergonha ou dignidade, incerteza
e talvez o luxurioso mal-estar,
o golpe que nos deixam
as histórias contadas numa noite de insónia.

Mas também sabemos que seria
pior e mais custoso
levá-las a casa, não esconder o seu cadáver
no fumo dum bar.
Eu venho sem idiomas desde a minha solidão,
e sem idiomas vou até à tua.
Não há nada a dizer,
mas suponho
que falaremos nus sobre isto,
pouco depois, tirando-lhe importância,
avivando os ritmos do passado,
as coisas que estão longe
e que já não nos doem.
Luis García Montero

Jorge Sousa Braga, org., Qual é a Minha Ou a Tua Língua? Cem poemas de amor de outras línguas, Assírio e Alvim, Março 2008, 2.ª edição.


Tú me llamas, amor, yo cojo un taxi...

Tú me llamas, amor, yo cojo un taxi,
cruzo la desmedida realidad
de febrero por verte,
el mundo transitorio que me ofrece
un asiento de atrás,
su refugiada bóveda de sueños,
luces intermitentes como conversaciones,
letreros encendidos en la brisa,
que no son el destino,
pero que están escritos encima de nosotros.

Ya sé que tus palabras no tendrán
ese tono lujoso, que los aires
inquietos de tu pelo
guardarán la nostalgia artificial
del sótano sin luz donde me esperas,
y que, por fin, mañana
al despertarte,
entre olvidos a medias y detalles
sacados de contexto,
tendrás piedad o miedo de ti misma,
vergüenza o dignidad, incertidumbre
y acaso el lujurioso malestar,
el golpe que nos dejan
las historias contadas una noche de insomnio.

Pero también sabemos que sería
peor y más costoso
llevárselas a casa, no esconder su cadáver
en el humo de un bar.

Yo vengo sin idiomas desde mi soledad,
y sin idiomas voy hacia la tuya.
No hay nada que decir,
                                pero supongo
que hablaremos desnudos sobre esto,
algo después, quitándole importancia,
avivando los ritmos del pasado,
las cosas que están lejos
y que ya no nos duelen.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Austerlitz


   Terminar este livro é ficar com a sensação de ter estado num frágil bote sobre a crista de uma onda, no mar alto. 
   Conforme a maré das memórias de Austerlitz, assim o bote vogava melancolicamente pela vida de Jacques Austerlitz, a criança judia que cresceu na vila rural de Bala, Gales, e passou a sua vida de adulto a procurar as suas raízes até, finalmente, conseguir enfrentar o monstro nazi que destruiu a sua família.
   Extraordinário, tocante, fascinante. Um dos melhores livros que já li.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Dalila

  A Alice e Elvira gostam de ficar em frente à cabine do duche ou em cima da sanita enquanto eu tomo banho, à espera de entrar na cabine molhada quando eu sair. Por vezes, ainda estou a colocar um pé fora e já estão com uma pata lá dentro.
   Chega o César  e começa logo a imitá-las, com a gravidade de roer a borracha isoladora das portas da cabine. Nunca os meus anteriores felinos tinham feito tal coisa; quando muito, o Pitágoras esperava que eu abrisse a torneira do bidé para beber. Pelo contrário, a Elvira apenas brinca com a água e usa a pata para molhar no recipiente e matar a sede. Encontro um mini-lago ao redor da taça de cada vez que chego a casa. A solução foi ter uma velha toalha no chão e estar sempre a passar o pé e enxugar.
   Se o César aprendeu com as gatas a entrar na cabine do duche, foi mestre em ensinar-lhes a saltar para cima da televisão. Aliás, acho que para estas coisas, basta os gatos estarem atentos e imitam logo. Assim, é ver agora a Alice e a Elvira - mais mês menos mês terei lá a Dalila - sentadas sobre o aparelho a apreciar a paisagem da sala. E, para além disso, a Elvira passou a mirar com muita atenção o candeeiro do tecto.
   A última lição foi dada pela Dalila. Também nenhum destes gatos a sabia, nem os anteriores: aprendeu a tirar os filtros do WC. Não tira as grades de plástico, mas com aquele jeitinho tipicamente felino lá consegue enfiar as garras e puxá-los.
   Com esta pose ninguém diria que é uma reguila, a Dalila. Está a sair melhor do que a encomenda.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Funeral at Lausanne

"(...) As poucas figuras de preto, os renques de choupos, a luz a derramar-se na água, o maciço de Cader Idris do lado direito, tais eram os elementos de um cenário de despedida que, e isto é curioso, redescobri um par de semanas depois num dos esboços rápidos a aguarela que Turner fazia muitas vezes para registar um lugar que tivesse diante dos olhos ou, mais tarde, como retrospetiva do passado. Esse quadro quase sem substância, que tem por título Funeral at Lausanne, data de 1841, portanto de uma época em que Turner já quase não podia viajar, remoía cada vez mais ideias sobre a sua própria mortalidade, e talvez por essa razão, quando uma coisa como esse pequeno cortejo em Lausana emergia na sua memória, ele procurava com algumas pinceladas captar essas visões que podiam desvanecer-se no momento seguinte. (...)"

   W.G. Sebald, Austerlitz, pp. 102-103.


   Cada vez mais penso que a vida é como é, que há coincidências inexplicáveis, como quando acabo de ler este excerto dias depois de ter visto o filme sobre Turner. Contrariamente ao usual, este é um livro que estou a saborear muito lentamente. Uma obra-prima.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Tristano morre

   Esta é a vida, estas são as memórias de Tristano, que fora um soldado italiano estacionado na Grécia durante a Segunda Guerra Mundial. Revoltado contra mortes sem sentido, mata um nazi e transforma-se em herói.
   No início deste século, sessenta anos passados, Tristano encontra-se moribundo, com gangrena, confinado à cama e à morfina e decide contar a sua vida a um escritor que escrevera um livro sobre o herói Tristano.
   Todo o livro é um monólogo em tom melancólico, por vezes cínico, desiludido com os poderes entretanto instituídos, de alguém às portas da morte, agonizante e amargurado, que discorre sobre a coragem, a vida, a liberdade, a traição e a cobardia, até ao surgimento do audiovisual, o último dos tiranos, a quem denomina de Blateleblá.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Je suis Charlie

   França, berço dos princípios liberdadeigualdade e fraternidade.
   Quiseram cercear a liberdade de expressão ontem. Custa a acreditar. É horrível, doze mortes sem sentido, brutais, a sangue frio.
   Mas não conseguiram. Não, nunca o conseguirão. O traço é mais forte do que a bala e a caneta tem mais poder do que a arma.




terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Paisagem ideal; três anos

   "(...) Li tudo o que havia na biblioteca extremamente heterogénea da escola e tudo o que pude pedir emprestado aos meus professores, livros de geografia e história, descrições de viagens, romances, biografias, e ficava até tarde ao redor de obras de referência e atlas. Pouco a pouco, foi-se formando na minha cabeça uma espécie de paisagem ideal em que os desertos da Arábia, o reino dos astecas, o continente antártico, os Alpes nevados, a Passagem do Noroeste, o rio Congo e a península da Crimeia se juntavam num único panorama, povoado por todas as formas pertencentes a essas paragens. E como podia mudar-me para esse mundo sempre que me apetecesse, numa aula de latim ou durante o serviço religioso, nos infindáveis fins de semana, nunca caí na depressão que afetou tantos em Stower Grange. (...)"

W.G. Sebald, Austerlitz, Quetzal Editores, 2012, p. 60.

***

Hoje, o blogue faz três anos.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Fados

   O nosso Miguel publicou mais um livro.
   Começando pela capa e terminado no 'Soneto para um Fado de Coimbra', uma edição de luxo. Este pequenino grande livro reúne 18 poemas para letras de fados que abordam os temas que todos conhecemos: amor, saudade, perda ou a dor.
  Uma publicação para imprimir e guardar. A maravilha da escrita do Miguel aliada ao profissionalismo da INDEX ebooks. 
   Podem encomendar o livro aqui, na página da editora.
   Aqui deixo três poemas para aguçar o apetite.

   Fado da Rima

   Fosse coreografia
   E tivesse um final feliz,
   A vida seria um dia
   Como a noite que se cria
   Pelo nome que se diz
   Asa, voo de perdiz,
   Anjo de melancolia,
   Ou foco traçado a giz,
   Se a vida como ela diz
   Fosse coreografia


   ***

   Fado da Metade

   Se do que tenho, a metade
   Do que me dás, é o meio
   De ti, só tenho a saudade
   O vento vazio da tarde
   O livro em branco que leio
   Inteira é a minha lembrança
   Das muitas noites que tive
   Mas da folia da dança
   Não resta ténue esperança
   No pouco que sobrevive
   Tu dás-me pouco, e receio
   Que da tua mão aberta
   Escorra por entre o veio
   Da metade, só o meio
   Que entre os dedos se liberta

   ***

   Fado do Abraço

   Nunca negues um abraço
   A quem o queres oferecer
   No desenho do teu braço
   O gesto imprime o traço
   Fica impresso o teu querer
   Quisera eu dar-te um abraço
   Apertado e com ternura
   Mas hesito se te maço
   E temo o gelo do aço
   Que respondas com secura
   Mas à noite armo o laço
   Se a sombra te sinto cruzar
   Sem cuidar que me desgraço
   Desvairado, estugo o passo
   E corro para te abraçar

   Um abraço apertado e com ternura ao Miguel.