segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

O conto do João

   Ósculo
   - É a noite mais bela do ano – uma voz soou na escuridão.
   Olhou para o lado. O desconhecido mantinha-se afastado. Só a voz suave lhe chegara aos ouvidos.
   - Perdão? – inquiriu, enterrando as mãos no fundo dos bolsos da gabardina.
   - Hoje é a noite mais bela do ano – o estranho repetiu. - Daqui a cinco minutos, para ser mais preciso - saiu para a claridade do passeio e parou sob a luz amarela do candeeiro.
   - Ah…
   Tudo o que via era um jovem loiro vestido de branco, no meio da claridade.
   - Vai sacrificar-se tanto. Porquê? Nós não o merecemos – murmurou, desencantado, mais para si próprio.
   - Por amor – o jovem sorriu. – Não é suficiente?
   - Fazemos mal, tanto mal… Não merecemos, não.
   - Julga-o louco – o outro sorriu, abanando a cabeça.- Por nos amar tanto assim, incondicionalmente?
   Delicadamente, apertou-lhe o braço.
   – É a noite da esperança, a noite da alegria.
   - Oiça… - tentou soltar-se, sem sucesso. Queria afastar-se, continuar a andar sem rumo, até o cansaço chegar, encostar-se e fechar os olhos uns momentos.
   - Nasceu! – o jovem exclamou, de repente.
   Como um anjo, brilhava debaixo do candeeiro.
   Então, ergueu uma mão com os dedos afastados e esperou. Olhou-o fixamente.
   O gesto, por fim, fê-lo sorrir. Devagar, juntou as gemas dos dedos às dele.
   - Feliz natal – o jovem riu.
   Ecoou na noite mais bela do ano uma melodia tão leve e doce como uma borboleta a beijar uma rosa.
   - Feliz natal - respondeu.

domingo, 23 de Novembro de 2014

Minha mãe é um peixe; William Faulkner; Granta

   Gostei muito da história de Sandro William Junqueira publicada na Granta 4, dedicada ao tema 'África'. A história é sobre um velhote que decide regressar ao Zimbabué, mais especificamente à cidade de Mutare, onde tinha nascido há oitenta e muitos anos. Gostei, porque achei semelhanças aos meus pequenos contos, onde a velhice, a decadência e a morte são temas recorrentes (tal como o último conto, o do Horatius - que tem um velho que vai morrer ao moinho).
   Aqui fica um excerto:
   'Assim é. Há muitos anos partiu daqui embrulhado numa manta de problemas que a vida depositou no colo dos seus progenitores. Partiu para nunca mais voltar. Até hoje. Não sabe se, por este motivo ou outro (há sempre uma razão qualquer pronta a entrar na arena dos conflitos), padece de uma intratável melancolia. Também não sabe se sabe muito a este respeito. Embora admita que, de algum modo, esta orfandade de pertença desenhou nele uma tatuagem cardíaca.
   Nunca andou com os pés bem assentes no chão. Porque intuiu que o chão, qualquer chão que pisasse, não lhe pertencia. A sensação de um vazio negro por baixo...'
   A dada altura na história, o protagonista encontra um livro que leu na sua juventude: As I Lay Dying, de William Faulkner. Interessou-me tanto este livro que fui à biblioteca procurá-lo. Infelizmente, não o encontrei, mas trouxe outro do mesmo autor: Palmeiras Bravas, Rio Velho. Palmeiras Bravas é traduzido por Jorge de Sena - regresso sempre a ele, não é tão bom? - e o segundo é traduzido por Ana Maria Chaves.
 

   Para terminar, renovei a assinatura da Granta para os próximos quatro números (dois anos). Para além de um desconto, ofereceram-me um álbum à escolha de uma lista deles. Optei por este:

terça-feira, 18 de Novembro de 2014

O conto do Horatius

   As Tuas Velas ao Longe

   
Arrastando-me pelo chão de terra batida, as pernas pesadas, amparo-me a um velho cajado. Uma fina poeira, tão leve como a farinha acabada de moer, levanta-se sob os sapatos mascarrados.
   Amiúde, a pieira assobia, como um pequeno búzio escondido no meu peito. Já não tenho mais forças. Procuro uma rocha na berma, sento-me e fecho os olhos. Com o queixo apoiado nas mãos sobre o cajado, permito-me uns momentos de descanso. Mas o instante transforma-se em minutos e os minutos em horas. Estou tão cansado.
   Por fim, abro os olhos e perscruto o horizonte. No cimo do monte, destacas-te entre uma moldura de nuvens cinzentas. Branco e imponente.
   Uma longa caminhada. Suspiro. Tento encontrar forças para me levantar e um arrepio de frio percorre-me o velho corpo. Ninguém na estrada e a noite aproxima-se. Sinto o seu pesado manto a cobrir-me os ombros mirrados. Uma mão agarra no bordão, a outra aperta o casaco; o vento começa a soprar forte. Ao longe, as tuas velas giram devagar. Estou quase lá, falta tão pouco.
   Sinto-me a fraquejar, até que uma mão pequenina envolve a minha por cima do cajado. Um menino de sorriso desdentado e maroto, caracóis castanhos salpicados de pó e olhos brilhantes empurra-me devagar.
   Seguimos lado a lado. Recupero as minhas forças. Endireito as costas, deixo cair o bordão, as pernas fortalecem-se. Caminho na tua direcção. As tuas velas giram cada vez mais rápido.
   Com um gesto vigoroso, empurro a porta. Estou em casa.

sábado, 15 de Novembro de 2014

Aristogatos XLII

  O colo da dona é tão bom...


O colo agora é meu.


Deixa-me deitar também, Alice. Vá lá...


César, não te estiques.


Ah, estamos no bem bom :))

sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

O conto da Rosa Carioca

   E eu que pensava…

   Da cozinha no andar de baixo, vem aquele cheiro inconfundível. Descalça, enfio um braço desajeitadamente pela manga da camisola velha. A outra poisa solta nas costas. Ajeito-a com o outro braço. Pijama atirado para cima da cama de qualquer maneira, calções vestidos. Desço as escadas em sobressalto.
   - Já estou acordada, ‘Vó! – grito. Paro no último degrau, esbaforida. Largo o corrimão, corro para a porta escancarada e entro. Ao fundo, junto ao fogão de lenha, de costas, ela faz fatias douradas numa velha frigideira. É o meu pequeno-almoço especial, o das férias de Natal na aldeia.
   Então, ela vira-se. No lugar da minha avó, usando as mesmas roupas e o mesmo corte de cabelo, está uma mulher estranha. Aproxima-se lentamente, sorrindo. O meu reflexo brilha nas suas pupilas castanhas. Noto-lhe as pestanas grandes, como as minhas.
   Passa por mim em silêncio, segurando na mão gorducha um pires de rebordo azul com duas fatias douradas. Senta-se à mesa, com uma toalha de quadrados brancos e azuis, e delicadamente corta um pedacinho com a faca. Leva o garfo à boca, mastiga devagar e suspira, fechando os olhos.
   Então, fungo. Com a manga da camisola, esfrego o nariz ranhoso.
   Sinto-me a abanar, como se estivesse a boiar numa onda.
   Acordo, pestanejo e afasto as lágrimas. Ele observa-me preocupado.
   - O que foi? – pergunta-me.
   Tranquilizo-o. Respondo que foi apenas um sonho. Sorrio e passo uma mão pelo seu queixo. Beijo-o.
   - E que tal umas fatias douradas para o pequeno-almoço?

quinta-feira, 13 de Novembro de 2014

O conto do João Roque

   O tempo – essa palavra proibida

   - Agora, estou feliz. Finalmente…– ele murmurava, fazendo festas à gata.
   Concordei com um gesto de cabeça, sentada ao seu lado. Com um sorriso absorto, ficou calado uns segundos. Depois, continuou: - Muitos planos rebentados, como balões com demasiado ar. Muitas vezes, estava tudo encaminhado, muitas expectativas criadas e, depois, bum! – com um gesto exagerado, os braços fizeram um arco por cima da sua cabeça. A gata assustou-se e saltou para o chão. – E recebes um balde de água fria.
   - Mas tudo o que passaram fortaleceu-vos. Agora, começam uma nova vida. Os dois juntos. Quando vais? – perguntei, embora soubesse a resposta.– Ontem seria tarde de mais…
   - Seria! Agora não há tempo a perder! Temos de compensar. Só de pensar nos anos que passámos separados… Mas o que é que eu podia fazer? Tive de me adaptar. Tive de pensar nele. É isto o amor. Darmo-nos ao outro. Se fiquei feliz com a situação? Não. Mas era a possível. Agora quero viver o resto da minha vida como desejo. Com ele! E tenho consciência de que não caminho para novo – declarou.
   - Ah, mas se pudesses recuar no tempo, não farias da mesma forma? – perguntei.
   – Faria. Se passasse pelo mesmo, não mudaria nada, nada – acentuou, convicto. - Mas agora vejo o tempo que tenho pela frente e é tão pouco… Penso que tenho muito pouco tempo para fazer tudo o que quero com ele, tudo o que sonho. Porque mereço, sabes? Mereço ser feliz!

terça-feira, 11 de Novembro de 2014

Espaço para a canção

As noites desmedidas de novembro
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra
Adeus ó meu verão impiedoso
ó limpidez da água sobre as pedras
ó inúmeros galos da manhã
ó tempestade agreste de alegria
É o país da música é a fome de noite
impossível estar só razoável rapaz
meu príncipe da própria juventude
Nos cabelos de vento do mar morto do destino
fundo antigo de água conchas e areias
no centro solitário deste solo
ante a solenidade sensual do sono
eu olho os paralelepípedos do nada
não me detenho nos umbrais das trevas
caminho numa mesma direcção
Onde o cheiro da esteva sobre a vila
o trigo para o campo do olhar
as estrelas abertas pelo céu?
Ponho os pés sobre as folhas no asfalto
espero por dezembro mês para morrer
evoco a luz discreta das doenças de outrora
Aqui os cisnes são da cor da cinza
e o vento devasta o país dos pauis
quando perto do chão a última cigarra
anuncia a definitiva solidão
Que é dos momentos puros de outra vida
da luminosa luz como ferro em fusão
do silêncio como a nossa melhor obra?
Eu te saúdo outono punitivo
sinal desse silêncio que me não permite
desistir de cantar enquanto vivo
Que o vento a névoa a folha e sobretudo o chão
caibam dentro do espaço da minha canção

Ruy Belo, Transporte no Tempo

domingo, 9 de Novembro de 2014

O conto do Francisco

   Balbuciei; Incontrolável; Homoerótico; Murmúrio; Desfrutara

   - Uma descoberta, um delírio – murmurava, entre goles de cerveja. – Tudo tão novo, tão inocente.
   Sorri e levantei a cabeça, parando de escrever no portátil.
   - Espera, tinhas quantos anos? Vinte, vinte e um?
   - Quase vinte e dois. Estávamos em 1993. Com um velho Renault em segunda mão percorria Belém. Lá era o ponto de encontro. Ah, se aquele carro falasse… - soltou uma gargalhada, divertido. – Eles, os mais velhos, ensinaram-me muito.
   - E tu aprendeste rápido – não resisti, continuando a escrever. – Uma esponja a sorver tudo.
   - Tudo! Era incontrolável, claro. Abandonei-me naquele mundo – suspirou, encostando-se na cadeira. – Belíssimos tempos. Como é que passaram tão rápido?
   O ruído do bar chegava-me aos ouvidos como o marulhar das ondas do Tejo, ao longe.
   - Hoje tudo mudou? Vinte anos depois, como é a tua vida?
   Com um gesto brusco, poisou o copo na mesa. Abanando a cabeça, desconsolado, afastou-o para o lado.
   - Vou vivendo. Mas como naquela altura, não, claro que não. É pior. Qualquer miúdo de vinte anos já sabe tudo. Ou pensa que sabe. Sacode, usa e deita fora. Goza e descarta. Antes, desfrutava-se, agora quer-se o instantâneo. Já está. Seguinte, outro, que a vida é curta.
   - E tu não fazes isso? Mastigas e deitas fora, como a canção – retorqui. Olhei-o. – Todos querem viver o momento. Ao segundo. Rapidez, não se pode parar.
   - Parar é morrer - num tom monocórdico e um olhar ausente, encolheu os ombros. – Adaptei-me. Sobrevivo.

sábado, 8 de Novembro de 2014

Mas, entretanto, vai-se comendo

"Lembrava-se de que, se se expusesse muito, os raios de sol varreriam qualquer tipo de pensamento. Era o que queria, ficar completamente assado e seco, sentir as preocupações evaporarem-se uma a uma, até perceber finalmente que todas as pequenas dúvidas e hesitações molhadas que tinham coberto o seu ser se estavam a evaporar e a desaparecer debaixo deste sol escaldante. Esqueceu-se de tudo, os músculos descontraíram-se, e passou pelas brasas, acordando de vez em quando, levantando a cabeça por cima da amurada corroída pelo caruncho, olhando para os dois lados da praia. Não havia ninguém. Desistiu, deixou de olhar. A certa altura virou-se de barriga para baixo sentindo o quente manto do sol a afagar-lhe as costas. O suave e regular ruído das ondas era como a respiração distante da manhã; o som ressoava pela miríade de divisórias do ar e só lhe chegava aos ouvidos muito tempo depois. Quando se voltou e olhou directamente para o céu, este parecia mais longínquo do que alguma vez reparara. No entanto, sentia-se muito próximo de si próprio, talvez porque um homem para se sentir vivo tinha primeiro de deixar de pensar em si próprio como estando sempre a caminho. Tinha de haver uma paragem, esquecer todos os objectivos. Uma voz diz: «Espera», mas normalmente ele não a ouve, porque se esperar atrasa-se. E, se realmente esperar, pode acontecer que quando começar a mover-se esteja numa direcção diferente. É uma ideia assustadora. porque a vida não é um movimento para ou de qualquer coisa; nem do passado para o futuro, nem da juventude para a velhice, nem do nascimento para a morte. O todo da vida não é igual à soma das suas partes. É igual a qualquer das partes; não há soma. O homem adulto não está mais profundamente envolvido na vida do que um recém-nascido. A sua única vantagem  é poder ocasionalmente ter consciência da substância dessa vida e, a não ser que seja tolo, não procurará justificações ou explicações. Seja sob que perspectiva for, o resultado é o mesmo: a vida por si própria, o facto transcendente da vivência individual. Mas, entretanto, vai-se comendo."
 (p. 172)

Paul Bowles, Deixai a Chuva Cair, Publicações D. Quixote, 1992.

sexta-feira, 7 de Novembro de 2014

Interstellar

Se 2001, Odisseia no Espaço é o melhor filme de ficção científica do século XX, Interstellar (que lá vai beber) é o melhor do século XXI.


Do not go gentle into that good night 

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Dylan Thomas, 1914 - 1953