quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Covilhã III - Manteigas, Sortelha, Belmonte, Paul

   Almoçamos em Manteigas, as trutas são famosas, a feijoca também, uma pausa para ver a senhora que criou o João e os seus irmãos, a D. Lurdes, mas ele de pequenino não sabia dizer o nome e ficou a 'Bu', uma adorável Senhora de 88 anos. Contam-se histórias, admiram-se as fotos de família, o passado é agora.
   Despedimo-nos. Próximo destino, Sortelha, uma das aldeias mais antigas do país, granito a perder de vista, umas filmagens no local, uma paragem no bar-restaurante junto à entrada. Uma sandes de queijo, um chá, admira-se a cabeça de um veado sobre a lareira. O local é aconchegante, o serviço, eficiente.





   No caminho, uma paixão: um gato cai de amores pelo Duarte e vice-versa.
   Belmonte ao anoitecer. Entro numa loja, compro umas recordações, já não há luz suficiente para boas fotos. O Miguel é o fotógrafo de serviço.




   Ao fim da tarde, regressamos ao hotel e descansamos. Adormecemos, passamos a hora marcada. O João reservara uma mesa num restaurante na zona industrial do Paul, uma terra ali perto, famoso pelo seu pernil. Casa cheia, serviço cinco estrelas, o João mete conversa com a empregada, benfiquista como ele.
   Depois de jantar, vamos à Festa da Santa Bebiana, dedicada à jeropiga e ao vinho novo. As pessoas têm pequeninos canecos de alumínio pendurados ao pescoço; nas ruas estreitas, nas lojas, nas casas há tasquinhas adaptadas. Música, alegria, frio, muito frio que se colmata com fogueiras um pouco por todo o lado. E com o vinho, claro.

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   Antes de a noite acabar, o João leva-nos a um bar de uma amiga. Um sítio simpático para beber um copo, conversar, atirar uns dardos ou jogar às cartas. Junto à saída, uma pequena estante com livros. Histórias de vampiros e policiais e romances; é à escolha do freguês.
   Estamos cansados, mas consolados. O sábado foi longo e já estamos na madrugada de domingo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

É a vida...

Sexta-feira, dia 12 de dezembro: chega-me às mãos uma declaração, que tinha pedido aos Recursos Humanos. Até esse dia, tenho 14 anos, 7 meses e 7 dias de carreira técnica superior.

Domingo, dia 14 de dezembro: retomo a leitura da Granta 4 - África. Estou a lê-la muito devagar. Apanho uma referência, na história de Teju Cole, a Nagoia, cidade do Japão. Nagoia é a cidade natal da personagem principal do novo romance de Haruki Murakami que estou a ler, 'A Peregrinação do Rapaz Sem Cor'.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Covilhã II - Serra da Estrela

   Sábado, dia 6 de dezembro. Temos de levantar cedo, que o dia é longo.
   Na sala do pequeno-almoço, os amigos cantam os parabéns à Inês, que faz anos. O Miguel e eu comemos e preparamo-nos para sair.
   Na noite anterior, combináramos a hora de encontro com o João e o Duarte, que vão ter ao hotel. A aventura está prestes a começar.
   O João é o nosso guia e motorista. Saímos da Covilhã, nas faldas da Serra da Estrela, e subimos. Passamos por um ciclista, que é o nosso companheiro de viagem nesta manhã.
   Paramos no antigo Sanatório, transformado em pousada. Entramos sem problemas. Descemos as escadas, vamos à zona da piscina e do spa, saímos para o jardim, fotos, muitas fotos, o edifício imponente, a paisagem de tirar o fôlego, dignos de um filme.

Antigo sanatório, agora Pousada da Serra da Estrela

   Vamos a caminho das Penhas da Saúde. Paramos várias vezes. A serra é deslumbrante.
  Ao longo da subida, encontramos o ciclista várias vezes. Avistamo-lo, pela última vez, a caminho da Torre.


   Na zona dos chalés da montanha, um cão da Serra da Estrela, qual vaca sagrada da Índia, está deitado no meio da estrada. Impávido e sereno, não se mexe quando o nosso carro se aproxima. O João manobra e contorna-o; o cão permanece deitado. Mais à frente, outro cão afasta-se devagar. Estamos no seu habitat. O tempo, aqui, corre devagar.
   Tomamos um café no hotel, conhecemos o restaurante Medieval, o João entabula uma conversa com a rapariga do bar, muito simpática.

Hotel Serra da Estrela

   É tempo de retomar a viagem e descermos a Serra. Tal como na ida, o João toca a buzina. Um ritual de anos. O Miguel filma, eu narro. É digno de passar no Discovery Channel.

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Barragem do padre Alfredo

Senhora da Boa Estrela

Cântaro Magro

   Agora, estamos na parte mais bonita da Serra da Estrela: o Covão D'Ametade. Maravilhoso! Aqui nasce o rio Zêzere.



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Covilhã I - o caso Rubim

   Sexta-feira. cinco de dezembro, faltam dez minutos para as sete. O intercidades para a Covilhã parte às 19h16 de Santa Apolónia. Sento-me no meu lugar, sete janela, bilhete comprado duas semanas antes, com desconto. Alguns minutos depois, senta-se ao meu lado, de sandes e garrafa de leite com chocolate na mão, um homem. Lá abriu a mesa da cadeira à sua frente e poisou a comida.
   Depois de comer, uns momentos de silêncio; o comboio permanece, ainda, na estação. A dada altura, o homem mete conversa: 'É da Covilhã?' Eu respondo que não, que não conheço, que tenho lá amigos. Resposta muito simples. Não quero conversa, confesso. Depois de um dia de trabalho, de me levantar às 5h15, de deixar os gatos sozinhos, não me apetece conversar com um estranho durante a viagem. Mas ele continua: 'Eu sou da Covilhã'. Saca de um cartão plastificado, a amostra que lhe deram para apreciação, e prossegue: 'Salão Rubim, no centro da Covilhã. Só trabalho com produtos de topo, só de topo'. Eu olho para o cartão com o nome e a cara de um homem, sem rosto definido, apenas os contornos com barba. Aponta para três marcas no canto inferior esquerdo, em círculos. Vai tapando um a um, conforme fala da marca: 'L'Oreal. A segunda melhor. Revlon, a primeira mundial. Crew, produtos para homem, a primeira a nível mundial para homens. Só produtos de topo'. Eu abano a cabeça a sorrio. Lá pergunto: 'Cabeleireiro unissexo?' 'Unissexo', confirma o homem 'Salão Rubim. Eu sou o Rubim', aponta para si próprio.
   Sorrio um pouco e volto para o livro. Não quero conversar, mas o homem insiste: 'Tinha boleia muito cedo da Covilhã, mas falhou. Saí ao meio dia e meio. E já fiz Ansião, Leiria, Lisboa. Este foi o meu jantar'. Momentos antes, deitara o lixo no pequeno caixote de metal junto ao chão, no meio das cadeiras. Não dou resposta. Que poderia dizer? Aliás, só quero que ele se cale. Estou cansada.
   O Rubim, a páginas tantas, pergunta-me qual é o meu lugar. Respondo que é o sete.  'O meu também é o sete. Venderam o mesmo lugar a duas pessoas.' 'Eu comprei o meu bilhete há duas semanas', retorqui. 'E eu agora.', responde ele. 'Não tenho culpa que eles se tenham enganado e não saibam o que estão a fazer'.
   Começa a saga do bilhete. Até chegar a passageira que está no lugar dele, o seis, a CP é alvo de todos os comentários, incluindo pedir o livro de reclamações. Por fim, o comboio lá parte. Na estação Oriente enche. Fim-de-semana prolongado. O Rubim procura o revisor, levanta-se, pois já não tem lugar e anda de um lado para o outro. Vai para outra carruagem, volta com cara de poucos amigos e nada de revisor. Por fim, lá os vejo. Rubim e um senhor de meia-idade, a ouvir a reclamação, paciente. Aproxima-se de mim e pede-me o bilhete. Confirma e devolve. Depois, vira-se para o Rubim: 'O senhor comprou bilhete para o dia seis'. O Rubim olha para ele. 'Então eu vou para a Covilhã hoje e iria comprar um bilhete para amanhã? Na bilheteira perceberam mal'. O revisor, já calejado com episódios semelhantes, explica: 'O cliente tem direitos, mas também deveres. Deve confirmar todos os dados, o troco, a data, hora, local de chegada'. O Rubim continua a reclamar, o revisor continua a explicar, com uma voz calma. Por fim, termina: 'Eu já lhe expliquei tudo, Se não quer aceitar, não há nada a fazer.', enquanto mexia no aparelho portátil de bilhetes e lhe arranjava um lugar. 'Arranjo-lhe um que vaga no Entroncamento. Até lá, sente-se num lugar vazio'.
   Por fim, tudo se resolve. O Rubim, mais calmo, aproxima-se de nós, de mim e da mulher ao meu lado, e deseja-nos boa viagem e um feliz natal. Agradecemos, respondemos e cada uma regressa ao seu livro. A viagem continua sem percalços até à Covilhã.
   Pelas 23h08, chega o comboio. Na estação, estão à minha espera o João, que será o nosso guia neste fim-de-semana, o Duarte e o Miguel.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Dalila


   Esta é a Dalila. Chegou no domingo à noite. Vivia com o irmão na rua, junto à casa da minha colega, que os alimentava. Tem sete meses (mais ou menos, mas deve ser de Abril. Já está esterilizada). A colega tem uma gata velhota, doente e com um feitio difícil. Não gosta de outros gatos e quando estes se aproximavam, era uma guerra. O irmão foi adoptado. A Dalila ficou para trás.
   E eu apaixonei-me por ela por ser parecida com o Farrusco. É muito meiga. Já brinca com a cana de pesca, embora ainda tenha medo dos outros gatos.
   Agora, aqui vivem a Alice, a Batá, o César, a Dalila e a Elvira. Quando arranjar uma quinta na terra, completo o alfabeto.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

INDEX ebooks associa-se à comemoração do Dia Mundial de Luta contra a SIDA

   Hoje comemora-se o Dia Mundial de Luta contra a SIDA.
   Para assinalar o dia, a INDEX ebooks, a editora do João Máximo e do Luís Chainho, publicam o livro (ebook grátis) de Gabriel de Souza Abreu, um jovem soropositivo brasileiro que decidiu partilhar francamente as suas emoções, os seus medos e as suas reações de superação, publicando o seu diário: O Segundo Armário: Diário de um Jovem Soropositivo, numa tentativa de informar e ajudar os que se descobrem subitamente na mesma terrível situação.
   Associando-se à INDEX ebooks na comemoração, a ILGA Portugal, o CHECKPOINT LX e outras organizações e indivíduos participam no lançamento virtual deste livro gratuito.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O conto do João

   Ósculo
   - É a noite mais bela do ano – uma voz soou na escuridão.
   Olhou para o lado. O desconhecido mantinha-se afastado. Só a voz suave lhe chegara aos ouvidos.
   - Perdão? – inquiriu, enterrando as mãos no fundo dos bolsos da gabardina.
   - Hoje é a noite mais bela do ano – o estranho repetiu. - Daqui a cinco minutos, para ser mais preciso - saiu para a claridade do passeio e parou sob a luz amarela do candeeiro.
   - Ah…
   Tudo o que via era um jovem loiro vestido de branco, no meio da claridade.
   - Vai sacrificar-se tanto. Porquê? Nós não o merecemos – murmurou, desencantado, mais para si próprio.
   - Por amor – o jovem sorriu. – Não é suficiente?
   - Fazemos mal, tanto mal… Não merecemos, não.
   - Julga-o louco – o outro sorriu, abanando a cabeça.- Por nos amar tanto assim, incondicionalmente?
   Delicadamente, apertou-lhe o braço.
   – É a noite da esperança, a noite da alegria.
   - Oiça… - tentou soltar-se, sem sucesso. Queria afastar-se, continuar a andar sem rumo, até o cansaço chegar, encostar-se e fechar os olhos uns momentos.
   - Nasceu! – o jovem exclamou, de repente.
   Como um anjo, brilhava debaixo do candeeiro.
   Então, ergueu uma mão com os dedos afastados e esperou. Olhou-o fixamente.
   O gesto, por fim, fê-lo sorrir. Devagar, juntou as gemas dos dedos às dele.
   - Feliz natal – o jovem riu.
   Ecoou na noite mais bela do ano uma melodia tão leve e doce como uma borboleta a beijar uma rosa.
   - Feliz natal - respondeu.

domingo, 23 de novembro de 2014

Minha mãe é um peixe; William Faulkner; Granta

   Gostei muito da história de Sandro William Junqueira publicada na Granta 4, dedicada ao tema 'África'. A história é sobre um velhote que decide regressar ao Zimbabué, mais especificamente à cidade de Mutare, onde tinha nascido há oitenta e muitos anos. Gostei, porque achei semelhanças aos meus pequenos contos, onde a velhice, a decadência e a morte são temas recorrentes (tal como o último conto, o do Horatius - que tem um velho que vai morrer ao moinho).
   Aqui fica um excerto:
   'Assim é. Há muitos anos partiu daqui embrulhado numa manta de problemas que a vida depositou no colo dos seus progenitores. Partiu para nunca mais voltar. Até hoje. Não sabe se, por este motivo ou outro (há sempre uma razão qualquer pronta a entrar na arena dos conflitos), padece de uma intratável melancolia. Também não sabe se sabe muito a este respeito. Embora admita que, de algum modo, esta orfandade de pertença desenhou nele uma tatuagem cardíaca.
   Nunca andou com os pés bem assentes no chão. Porque intuiu que o chão, qualquer chão que pisasse, não lhe pertencia. A sensação de um vazio negro por baixo...'
   A dada altura na história, o protagonista encontra um livro que leu na sua juventude: As I Lay Dying, de William Faulkner. Interessou-me tanto este livro que fui à biblioteca procurá-lo. Infelizmente, não o encontrei, mas trouxe outro do mesmo autor: Palmeiras Bravas, Rio Velho. Palmeiras Bravas é traduzido por Jorge de Sena - regresso sempre a ele, não é tão bom? - e o segundo é traduzido por Ana Maria Chaves.
 

   Para terminar, renovei a assinatura da Granta para os próximos quatro números (dois anos). Para além de um desconto, ofereceram-me um álbum à escolha de uma lista deles. Optei por este: