quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Post atrasado

De um exemplar antigo do JL encontrado nas arrumações, escolhi um dos três poemas, então inéditos, de Fernando Assis Pacheco.

Desversos

Trinta anos depois continuo revoltadíssimo
V. Ex.ª foi de uma grande falta de chá
nem eu precisava de Angola – nunca!
nem Angola de mim – o que hoje parece claro

V. Ex.ª argumentava nos corredores
que eram ordens do dr. Salazar
ora adeus mandasse-o mas é a ele
tinha bom corpo para apanhar porrada

e mesmo V. Ex.ª podia ter feito
uma perninha como eu fiz em Zala
não sou de rancores nem pouco mais ou menos
mas aquela merda estava mal parada

sabe V. Ex.ª o pasmo e a aflição
quando se caía em alguma emboscada?
umas vezes olhava pelo rabo do olho
outras fingia de morto e mijava-me

depois voltava-se ao acampamento
para a ternura dos cães e a tarimba rasa
um duche ao ar livre um cigarro infeliz
o gole de cerveja a atirar para o amargo

houve um dia de dia entre todos cinzento
que eu me senti o maior dos miseráveis
funesta ideia – e fui a correr esconder
a arma de serviço por sinal uma Walther

a esta hora já enterraram V. Ex.ª
com as competentes honras militares
mas a verdade é sempre para se dizer
trinta anos passados não me esqueço de nada

Fernando Assis Pacheco, Lisboa, 24/25.X.94, em JL, inéditos, 20 de Novembro de 1996

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