quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ah, poder ser tu, sendo eu!

Ei-lo que avança
de costas resguardadas pela minha esperança
Não sei quem é. Leva consigo
além de sob o braço o jornal
a sedução de ser seja quem for
aquele que não sou
E vai não sei onde
visitar não sei quem

Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo
Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar

Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates

Sublinhados meus.

8 comentários:

  1. uma das coisas que eu acho mais admirável na poesia, na dos grandes poetas, é a capacidade de dar voz à nossa alma, aos nossos sentimentos, às nossas emoções, mesmo àquelas impressões muito vagas de que nós nem tínhamos a clara consciência, e que de súbito se materializam perfeitas nas palavras dos outros.

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  2. é o perfeito poema da distância.
    gosto de RB porque me faz sentir assim não sei o quê, uma tristeza...
    bjs.

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  3. A expressividade, neste poema, é total. A melancolia e a tristeza subjacentes deixam sempre uma mácula qualquer, pelo menos em mim.

    Há algo de arrebatador em cada palavra.


    bjo.

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  4. Mark, RB é um dos meus poetas preferidos.
    bjs.

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