sábado, 6 de outubro de 2012

António Botto

Cala-te, não jures mais.

De que serve a tua jura
Se a dúvida que me deste
Não se destrói nem apaga?
E o nosso amor,
Nessa dúvida infinita
Anda perdido - e naufraga!

Cala-te, não jures mais.

- Que os restos do meu afecto
Esmoreçam como flor
Que murcha se alguém a colhe.

Não fales tão alto - adeus!

Receio que alguém nos olhe.


*****


Conversando a sós contigo
Desfruto o prazer imenso
De não pensar no que digo
E de dizer o que penso.

E mais uma vez
Afirmo
Sem receio de que seja desmentido:
- A maior felicidade
É ser-se compreendido.


*****


Não sei se te quero
- Mas quando não posso ver-te,
Sou um cego.

Se levanto a minha mão
E não a sinto apertada
Ou envolvida nas tuas,
Não a vejo - não sei dela...

E é necessário
Que o teu abraço me abrace,
E a tua boca me beije,
Para sentir o meu corpo
- Para me sentir a mim...

Aqui tens,
Porque procuro prender-te:
Perdoa, mas sou assim.


*****


Duvido que venhas
- Consciente ou verdadeiro,
Tantas vezes, visitar-me.
Falas - dizes-me tais coisas
E beijas com tanta violência
Meu corpo frágil, vibrante,
Que desejo que me fujas
No beijo de um outro amante!

E no entanto -
Se a tua ausência prolonga
O sofrimento suave
Da saudade que me queima
Quando vejo que não vens,
Penso em ir buscar-te, exigindo
As certezas da minha alma
- Porque as tens!

Gosto de ti, porque é belo!

Chamas-me doido? - bem sei.
Mas tu és mais doido ainda
Porque me levas sorrindo
Para os abismos da carne
Onde me perco e onde sofro
A morte do meu pudor...

Não, não digas nada -
E não falemos de amor!

Mas como poderia
Gostar de outra maneira
Se eu olho para ti
E sinto que te dou
A minha vida inteira?

E sofro perdidamente
Na sensualíssima loucura
Do teu abraço que falha
Quanto tento ir mais além!

Sim, não sei como vai ser!

O drama desta afeição,
Alastra, já me faz medo,
E penso que não convém
Porque deixou de ser nosso!

Isto acaba qualquer dia;
- Sou eu, sou eu que não posso!

Abro a janela. Respiro.
As árvores distingiram
O verde das suas folhas
No silêncio -
Da tarde primaveril.

Isto acaba qualquer dia
- Já não tem continuidade!...

Mas onde quer que tu fiques,
Longe ou perto - amor profundo
Que atinge todos os céus,
A tua vida é a minha
E os teus caminhos são os meus!



As Canções de António Botto, Editorial Presença, 1980

8 comentários:

  1. Para mim, um dos grandes poetas da língua portuguesa.
    As "Canções" é um livro fundamental para quem gosta de poesia e para quem tem sensibilidade e gosta de afectos.
    Foi, infelizmente, um escritor maldito...

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  2. o livro é lindo. estou a demorar tanto a lê-lo, porqu me fixo nos poemas, releio-os várias vezes. é uma tolice não o republicarem. merece ser lido inúmeras vezes.
    bjs.

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  3. Adorei,

    Mas, como diria a minha avó:
    "Quem mais jura, mais mente..."

    Bjs

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  4. Já Régio falava sobre Botto.
    Quem não gosta?
    Bjs

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  5. Corroborando com o que disse o João, Botto foi um escritor maldito, numa época nada fácil para quem vivia no seio de um regime ultra-conservador. Era um homem totalmente invulgar, assim como as suas características que o distinguiam dos seus pares.

    Quem gosta de sentimentos, deve ler Botto.



    bjo :*

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  6. Botto devia ser lido muitas vezes e também escutado, Villaret declama-o apaixonadamente.
    bjs.

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  7. que bom, teres posto poemas do António Botto. é sempre um fulgor, e torna a vida mais empolgante, com as palavras e a sua música.

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