quinta-feira, 1 de novembro de 2012

À memória da Céu

Não preciso de menos que todos os meus amigos
mas dizem-me que a teus ouvidos já a voz não soa
nem sabes já como neste mês de outubro
chega a ser agradável passear por lisboa

Não comes castanhas não sentes o frio
nem mais connosco te sentas à mesa
Qual é a tua nacionalidade
tu que antes eras portuguesa?

Cansaste-te e foste-te embora
não passarão por ti mais primaveras
fosses pra onde fosses foste decerto
para o país donde afinal eras

As coisas todas pouco mudaram
sabem-nos bem alguns bocados
e no entanto tudo mudou
já não nos sentimos por ti olhados

Falamos de ti no passado
como se tu estivesses morta
mas tu és tudo e tivesse eu casa
tu passarias à minha porta

Não preciso de menos que todos os meus amigos
não te vemos mas estás connosco
se não ao lado dentro de nós
no frio de março no calor de agosto

Nos dias de hoje ou nos tempos antigos
não preciso de menos que todos os meus amigos

Ruy Belo, Todos os Poemas, Homem de Palavra[s], p.229.

(não te chamas Céu e outubro foi ontem. Pela primeira vez em dois anos não te vou ver, mas terás flores acompanhadas de saudade, muita saudade. )

11 comentários:

  1. Pungente e triste mas muito bonito. E bastante adequado ao dia de hoje.

    Bjs e as rápidas melhoras.

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  2. muito comovente. o poema e o resto

    bjs (esperando sempre que estejas melhor)

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  3. As pessoas só "partem" quando as esquecemos nos nossos corações. Até lá, estarão sempre vivas. Não precisas de um dia no ano para as recordar, nem tens de te sentir na obrigação de as ires visitar a certos sítios, pois ellas estão sempre contigo, dentro do teu <3

    Beijinhos :)

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  4. Margarida:
    Sei como é difícil para ti.
    Por ser sempre, mas mais por estares doente.
    Sei a quem te referes e quanto te custa.
    Associo a tua à minha dor.
    Um beijinho especial.

    PS: Tão bem escolhido o poema de Ruy Belo.

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  5. obrigada a todos.
    sim, H., não há obrigação, mas por estar a mais de 300 kms, e por ir lá tão poucas vezes, era o dia escolhido, esse e o seu aniversário. quando puder, irei, sim.
    melhorando aos poucos, mas ontem não passei mt bem e hoje está a custar-me mais.
    bjs.

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  6. Margarida
    não são os actos físicos, mas sim os sinceramente sentidos, que importam, nestas ocasiões.
    O que interessa agora é a tua recuperação.
    Magnífica a escolha deste poema doutro poeta esquecido, e muito bom - Ruy Belo.

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  7. obrigada, Francisco.

    João, eu sei, mas não consigo ficar indiferente e há dias dificeis.
    hei-de melhorar, obrigada.
    tu sabes como eu gosto de RB.

    bjs aos dois.

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  8. A forma com que Ruy Belo coloca os revés da partida é, de facto, tocante. Não poderia concordar mais com o autor: « (...) não te vemos mas estás connosco ». Claro, sempre. Em tempos fazia-me confusão como se conseguia manter uma pessoa viva apenas utilizando a memória. Hoje, sei que é possível. Não por experiência própria; por amadurecimento.


    bjo.

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  9. 'tu és tudo (...) dentro de nós'.
    é possível, sim.
    bjs.

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  10. Encontrei!
    Gostei muito do poema. Obrigada :)
    Gábi

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