domingo, 30 de dezembro de 2012

a invenção do amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou a TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

a invenção do amor e outros poemas, Daniel Filipe, Editorial Presença, 1999 - pp. 12-13

8 comentários:

  1. Algo muito comum. Até parece que cada um de nós conhece alguém que vive ou já viveu estes episódios...

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  2. o poema é de 1961 e ele foi opositor ao Estado Novo.

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  3. gosto muito deste poema, de um dos meus primeiros livros de poemas. aliás, ele apareceu numa das frases das lombadas:)

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  4. sim, eu notei.
    faz parte de um dos primeiros posts deste blogue. foi presente da sandra (mais um) num natal há mais de 10 anos.

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  5. assim vai ele, Francisco :)
    bom domingo.
    bjs.

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  6. Um dos mais belos livros de poesia jamais publicado em Portugal. Recorro a eles várias vezes...

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