quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Feliz Natal


Ele sentou-se à mesa do café. Não pronunciou nada. Limitou-se a esperar que ela servisse o mesmo de sempre. Bebeu a bica em dois sorvos e, de uma assentada, engoliu a ‘meia São Domingos’. Soltou um estalido com a língua, satisfeito.

- Onde é que ela está? – perguntou, então. Tirou a boina e olhou-a, compenetrado, como se perscrutasse, no padrão às riscas finas castanhas escuras, os carris que deixou, há mais de duas décadas.

- Pai… - a mulher suspirou. – Está a descansar.

- A casa está calma. – ele fingiu que não ouviu, enquanto a automotora a diesel fazia soar o apito, no fundo da sua memória enfarruscada.

- Virão mais logo. – a mulher respondeu.

- Esses… – ele resmungou, enfiando a boina na cabeça calva. Tirou um Kentucky do maço amarfanhado do velho casaco e colocou-o nos lábios.

- Continuas com os malditos mata-ratos. – ela apanhou a chávena de café e o cálice. – Vens cá logo ou não?

- Ela virá?

- Sim, Pai, ela virá. – foi a resposta que recebeu, antes de sair do café, mal-humorado.

Caminhou sem rumo durante horas. Por fim, estacou em frente ao café, já a noite entrava pela madrugada adentro. Cheirava-lhe a bacalhau com todos, a filhoses e canela. Abriu a porta e o silêncio rodeou-o. Até o bebé, ao colo da mãe, o mirou, curioso. Depois, riu e esticou os pequenos braços.

- Anda ao avô – disse ele, transfigurando-se. – Faz falta um homem nesta família, rapaz.

Elas suspiraram e sorriram.

- Feliz Natal!

21 comentários:

  1. Oh, Margarida! Foi tiro em cheio!
    Parabéns!

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  2. confesso que estou surpreendida comigo mesma. não sabia que tinha tanto jeito para escrever.
    :)

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  3. Tem sido uma agradável surpresa :)
    vamos ter best seller :p
    bjs

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  4. não, todos escrevem muito bem, como se provou no pixel passado. tive sorte em cair num grupo assim tão bom :)
    bjs.

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  5. Margarida
    eu gostei muito, tem o teu "selo" e está tudo dito...
    Apenas um pequeno reparo, e ao que parece não poderias evitá-lo; é a não referência a um tema LGBT, mas isso era quase impossível.
    As excepções confirmam as regras.

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  6. João, elas são um casal - pensei que fosse perceptível... é mesmo assim, para ficar entre linhas, não dizer tudo:)
    sim, acho que encontrei a minha forma de escrever, mas não quero ficar muito presa a ela.
    bjs.

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  7. Desculpa-me, mas não tinha percebido. Tudo o que disse naquele "mas" está sem efeito.

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  8. não tens que pedir desculpa! ora essa :)
    essa dúvida poderá surgir mais vezes, mas já está esclarecido.
    bjs.

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  9. muito bom, Margarida. bem escrito (e isso não é novidade), mas sobretudo bem concebido e estruturado, e com domínio completo da narrativa e da sua economia. estás uma pro :)

    a sério, parabéns: a tua produção 'contista' nas últimas semanas foi profícua e excelente, o que é uma raridade.

    you gotta publish, nem que seja em self-publishing.

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  10. muito obrigada, miguel. sabendo como escreves, estava desejosa da tua opinião.
    já tenho editor :) o João Máximo convidou-me, mas será tarefa a iniciar no próximo ano.
    esta aventura na blogosfera está a sair uma magnífica surpresa e ainda nem fiz um ano de blogue. nunca me passou pela cabeça esta ideia.
    :)
    bjs.

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  11. ah, espero que me reconheças o mérito de lhe ter mandado uma boquita num dos teus posts das 250 palavras ;)

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  12. :)
    agradeço-te do fundo do coração. e aguarda isso no prefácio do livro. será 'tipo' discurso do óscar.

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  13. Não é só a qualidade, Miguel e Margarida, são duas coisas adicionais que impressionam:
    1. a quantidade: a Margarida tinha uma torneira que estava sobre pressão; soltou-se e agora jorram dela tais quantidades de ideias e cenas que até parece fácil escrever tanto!
    2. a evolução: de conto para conto nota-se que o estilo e o domínio da escrita se apuram, mas a rapidez com que está a acontecer não é normal!
    Acho que está na altura de começares escrever contos de mais de 250 palavras, Margarida...

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  14. João, sim, lá terá de ser. :)
    obrigada :)

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  15. e com tantos elogios, congelei. dei um erro crasso, crasso! no teu post. deu-me uma coisinha má para escrever isso, foi o que foi...
    ;)
    bjs.

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  16. xiiii, kentucky. Que bela referência :). Beijinho

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  17. bela por ser nostálgica, pq eu não gostava nada :D
    bjs.

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