domingo, 30 de dezembro de 2012

a invenção do amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou a TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

a invenção do amor e outros poemas, Daniel Filipe, Editorial Presença, 1999 - pp. 12-13

sábado, 29 de dezembro de 2012

Guimarães

O fim-de-semana passado foi o último de Guimarães como Capital Europeia da Cultura, culminando com a iniciativa 'Nós fazemos parte'.

As mini-férias natalícias foram, então, passadas no berço da nação. Na verdade, esta viagem estava planeada há algum tempo, embora não exactamente para estes dias, mas tinha um dia de férias (devia ter ido à terra no início de Novembro e não fui). Depois das férias de Verão em casa (o que vale é ter praia perto) e da cirurgia, que me obrigou a estar, mais uma vez, em casa (há por aqui uns posts queixinhas dessa época), eu merecia, mesmo, estes dias longe do terceiro frente.

Um dos eventos interessantes foi o 'Mi casa es tu casa', no qual muitos artistas actuaram em casas particulares do centro histórico. Durante a tarde e princípio da noite de sábado, dezenas de visitantes ávidos para assistir a concertos entraram nas casas dos vimaranenses que alinharam neste programa. Sabíamos quem eram os artistas, mas não onde tocavam, rodavam entre si, revelando-se bonitos pequenos concertos intimistas.

À noite, fui ver, claro, o espectáculo dos 'Fura dels Baus' no Largo do Toural e depois rumei, mais uma vez, para o centro histórico (sardinhas em lata, qual Alfama no Santo António), mas muito divertido. Muitos bares, diversão, festa, alegria.

Também fui visitar outras paragens, como o Castelo, onde estavam em exibição algumas aves de rapina ligadas à falcoaria e pude segurar um falcão-fêmea, a Sasha, com os olhos devidamente tapados, mas muito atenta a todos os sons, virando a cabecinha quando a chamei.

Foram uns dias soalheiros, nada frios, em resumo, fantásticos.

 






[entretanto, quando regressei a casa, estava um saquinho de papel na mesa do hall com uns brinquedos para os gatos. Foi o presente de natal da M., do serviço de pet-sitting que contratei e que foi a casa duas (DUAS!) vezes por dia, que os gatos são muito mimados e, de qualquer forma, o serviço era pago ao dia e até me telefonou a sossegar, que eu sou uma dona-galinha, e eu tenho mesmo sorte, porque só podia adorar animais, a M., dado que também trabalha no Hospital Veterinário do Seixal :)]

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Tricolor

Nuno Camarneiro, No Meu Peito Não Cabem Pássaros, D. Quixote, 2012, ebook no tablet presente de natal antecipado.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Delírio



and then there's those other things
which for several reasons we won't mention
everything about them is a little bit stranger
a little bit harder
a little bit deadly

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

Ruy Belo, Todos os Poemas, Aquele Grande Rio Eufrates, Círculo de Leitores, 2000

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

sábado, 22 de dezembro de 2012

Também vou fazer parte



(os felinos ficam uns dias sozinhos que vou juntar-me à festa e celebrar o seu encerramento. Não, não ficam completamente sozinhos, que a M., a enfermeira-veterinária do HVS que tem um serviço de pet-sitting, vai lá dar-lhes miminhos.)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Poema de Natal

…triste como um rio, sereno como as pontes…

Ruy Belo



Silêncio sobre o silêncio. De asa partida
desce as escadas de casa a luz da manhã
e nada se eleva sobre tão misteriosa passagem.
Acumula-se o pó entre um verso que morre
e um poema construído de escombros
e de repente apercebes-te que o musgo dos
telhados é tão só um efeito secundário, quando muito
uma condição necessária, para que um deus
sobreviva aos dias que passam, serenos como os rios,
tristes como as pontes

Afinal onde está esse deus que nasceu?



Dezembro de 2012


[Sandra Costa]

(a Sandra ofereceu-me este belo poema. Tinha pedido ideias, sugestões, em forma de palavra, quadro, frase, poema, para o 'Calendário do Advento', composto por 25 poemas, e eu achei tão bonita essa dádiva que lhe enviei o Ruy Belo.)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Idílio no verão: no vazio da onda, a costa dos murmúrios...

É esta a frase vencedora do concurso das lombadas.


O Arrakis está de parabéns. Não só ele, mas todos vocês que abraçaram a iniciativa de alguém que nem um ano tem de blogue.

Se poderia ter havido outra forma de votar? Poderia, mas escolhi esta, breve. Sei que ficaram pelo caminho muitas outras frases que mereciam, igualmente, ganhar.

O Arrakis vai receber um livro, oferecido com todo o carinho, o melhor romance, para mim, claro, de um dos meus escritores preferidos. Espero que gostes. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Farrusco e a árvore de livros

O Hospital Veterinário do Seixal está a promover um concurso na sua página do facebook até ao dia 23 e eu concorri com esta. Tive sorte, porque segundos depois ele virou-me o traseiro e saiu por trás do gato cinzento. 

(texto actualizado às 12.47, links retirados)

domingo, 16 de dezembro de 2012

Resistência

Há vinte anos, 'Resistência' foi uma das bandas que mais ouvi no walkman Philips preto. Um presente bem puxado da minha mãe, considerando que lá por casa não havia discos de música nem íamos a concertos, pois o dinheiro do seu salário não dava para tudo.

Quando saí de casa, pelos 18 anos, Lisboa foi o meu destino, para estudar e trabalhar. Em 91, ano da famosa PGA, não fiz específicas, embora tivesse terminado o secundário com média de 15, e não entrei na faculdade, o que não me fez mal nenhum (entrei dois anos depois, o que me permitiu conhecer, entretanto, a cidade).

Claro que ganhando o ordenado mínimo naqueles anos, não fui a concertos durante muito tempo. A bolsa pagava o quarto, depois consegui arrendar a minúscula casa na Mouraria com o IAJ (acho que era assim que se chamava, incentivo de apoio jovem, agora é a Porta 65), não pagava propinas, mas isso não dava para luxos, excepto os livros, comprava imensos.

Como não podia, então, ir aos concertos, e naquele tempo não tinha leitor de CD, comprei um anos mais tarde (ainda o tenho - Philips, claro), comprava cassettes, tanto das bandas como virgens, que pedia para me gravarem com os sucessos da altura.

Isto a propósito da 'Resistência', que actua por estes dias no Campo Pequeno. Ainda pensei em ir, aquelas coisas impulsivas que surgem no momento, mas logo se descartam. Fui à Ticketline ver o preço, e nem pensar! A nostalgia não compensa tanto dispêndio. Aliás, nada podia macular o sentimento que ainda perdura do concerto do Zambujo.

Assim, vou limitar-me a ouvir as cassettes de 20 anos da 'Resistência ao vivo no armazém 22', na minha velhinha mini-aparelhagem Philips (sim, tenho uma tara por esta marca).


Virgem maria

- Se não páras com isso, ainda levas mais. – a mãe disse, à mesa do jantar.

A criança fungou. Nas lágrimas deslizava, irremediavelmente, o sonho perdido, que se derramava a seus pés.


- Sinceramente, que ideia a tua! – a mãe prosseguiu – Que haveriam de pensar de nós?


O pai disfarçou o olhar e baixou a cabeça. Mastigou devagar a batata cozida e engoliu a vergonha.


A criança mordeu o lábio inferior, tentando reter os soluços.


- Eu só queria… - a tentativa de verbalizar o seu desejo resultou numa bofetada que lhe rachou o lábio e a deitou da cadeira abaixo.


Olhou-a, de olhos esbugalhados, com sangue e lágrimas que se enleavam na língua. Notou o sabor acre e salgado, como das outras vezes, mas agora doía-lhe mais. Sentiu um abandono tão grande, como se o ardor dos dedos cruéis da mãe fosse um prenúncio dos dias difíceis por que teria que passar.


- Basta! – o pai levantou-se. Fora a gota de água. 


- Se apoiares essa ideia maluca, eu vou-me embora – ela ameaçou.


Ele ajoelhou-se, abraçou a criança e limpou-lhe o sangue com as pontas dos dedos.


- Serás a mais bonita virgem maria da peça da escola – garantiu-lhe.


Ouviram a cadeira a arrastar, a porta a bater, os dias cinzentos a afastarem-se.


O rapazinho ergueu os olhos marejados para o pai e perguntou timidamente:


- Prometes?


Envergando um manto azul celeste e contemplando um menino jesus deitado nas palhinhas, todo ele resplandecia, qual estrela de belém.

(a pensar se irei enviar para o 3.º pixel)

sábado, 15 de dezembro de 2012

valter hugo mãe


Que extraordinária surpresa. Infelizmente, o livro não é meu, senão as frases já estariam sublinhadas. Resta-me anotar a página, parágrafo, as linhas no papelinho marcador, juntamente com a amostra de lápis e copiar diligentemente.

'com olhos de precipício como se vazios para onde as pessoas e as coisas caíam em desamparo.' - p.13

'na minha cabeça, se livrássemos o mundo da morte poderíamos esperar para ver o homem mais triste do mundo derreter como esse gelo no fogo.' - p. 23

vhm, o nosso reino, Editora Objectiva, 2011

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A mais bonita história de amor

'Tengo sabia que, se viesse a encontrar Aomame dali a vinte anos, sentiria a mesmíssima coisa que naquele instante. Mesmo tendo ambos mais de cinquenta anos, ele ainda sentiria a mesma mistura de excitação e confusão provocada pela sua presença. O seu coração seria inundado da mesma alegria e da certeza.

Guardou estes pensamentos para si próprio, sabendo, todavia, que Aomame escutava com toda a atenção as palavras por dizer. Tinha a orelhinha rosada encostada ao seu peito e escutava tudo o que se passava no coração dele. Como uma pessoa que é capaz de desenhar um mapa com a ponta do dedo e conjurar as paisagens vívidas por que vai passando.'
p. 493.


'Tengo tinha a sensação de que, enquanto tivessem coisas que partilhar - até mesmo um vazio que nunca conseguissem preencher ou um mistério que jamais lograssem decifrar -, ele seria capaz de retirar disso alguma alegria, um sentimento próximo do amor.'
p. 496.


Haruki Murakami, 1Q84 - 3.

(estou sem fôlego. Se não sabiam onde fui buscar a inspiração para os contos, aqui está a prova.)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Lendo as lombadas V - a escolha da frase


Aqui estão compiladas as frases dos amigos bloguistas que participaram neste desafio:

1: 'O Segredo; A linguagem das pedras; Dicionário do nome das Terras; Muitos corpos, uma só alma; O Principezinho' - Francisco  

2: 'As pequenas memórias... O segredo do 13º Apóstolo: "O Fim da História e o último homem' - Francisco

3: 'A última aula " O novo Kamasutra Ilustrado" Satisfação Garantida...'  - Francisco

4 - 'Ultima aula: "História de Arte" O amanhecer da humanidade; Incas, Maias e Astecas; Roma; e a Europa Ocidental. Faz bem ou faz mal? ' - Francisco

5: 'Encontro à beira rio, amor sem resistência: abraço!'. - João Roque

6: 'Ao cair da noite, uma casa no fim do mundo: outras vozes, outros lugares.' - João Roque

7: 'Valsas nobres e sentimentais e a Canção de Tróia, para a sua jukebox'. - João Roque

8: 'Enquanto a Inglaterra dorme, Mister Norris muda de comboio; e de repente, um anjo...Agora ou Nunca! Um instante de abandono...que farei quando tudo arde?' - João Roque

9: 'Passada toda a paixão, quando tudo se desmorona, ao cair da noite as velas ardem até ao fim, em busca do tempo perdido.' - João Máximo

10: 'Idilio no verão: no vazio da onda, a costa dos murmúrios...' - Arrakis

11: 'Adoecer, como um romance, O velho que lia romances de amor.'  - Rosa Carioca

12: 'A cabana, (a casa na praia); a morada do ser: uma professora muito maluquinha!' - Rosa Carioca
  
13: 'Sala de aula: que espaço é esse? Ensinamos demais, aprendemos de menos. O mundo é fácil: A paz também se aprende!' - Rosa Carioca

14: 'Tieta do Agreste: Amar depois de amar-te.' - Rosa Carioca

15: 'A filha do capitão, Teresa Baptista cansada de guerra (uma vida de cão); 1 km de cada vez.' - Rosa Carioca

16: 'Profissão Professor: o vendedor de sonhos; nunca desista dos seus sonhos!' - Rosa Carioca

17: 'Como vencer na vida sendo Professor? Aprender a aprender. (Se você finge que ensina, eu finjo que aprendo). Era dos extremos!' - Rosa Carioca

18: 'Mágoa da escola. O último segredo: Assinei o diploma com o polegar.' - Rosa Carioca

19: 'Maria (e) José: a invenção do amor' - miguel

20: 'A noite dividida: enquanto a Inglaterra dorme, o americano tranquilo deixa o grande mundo girar' - miguel

21: 'Mister Norris muda de comboio: o velho expresso da Patagónia.' - miguel

22: 'Eu queria usar calças: mude a sua vida em 7 dias, não pense como um humano! Pergunte a Buda: como se vive depois de morrer?' - Hórus

23: 'Mulher de Porto Pim, fazes-me falta.' - sad eyes

24: 'A vida nova: o principezinho, a casa do pó, o jardim sem limites... Gente feliz com lágrimas.' - sad eyes



Oito participantes, vinte e quatro frases, muitas lombadas criativas e algumas estantes desarrumadas :)

Agora, a caixa de comentários é vossa. Está aberta a votação até 17 de Dezembro. Que ganhe a melhor!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Feliz Natal


Ele sentou-se à mesa do café. Não pronunciou nada. Limitou-se a esperar que ela servisse o mesmo de sempre. Bebeu a bica em dois sorvos e, de uma assentada, engoliu a ‘meia São Domingos’. Soltou um estalido com a língua, satisfeito.

- Onde é que ela está? – perguntou, então. Tirou a boina e olhou-a, compenetrado, como se perscrutasse, no padrão às riscas finas castanhas escuras, os carris que deixou, há mais de duas décadas.

- Pai… - a mulher suspirou. – Está a descansar.

- A casa está calma. – ele fingiu que não ouviu, enquanto a automotora a diesel fazia soar o apito, no fundo da sua memória enfarruscada.

- Virão mais logo. – a mulher respondeu.

- Esses… – ele resmungou, enfiando a boina na cabeça calva. Tirou um Kentucky do maço amarfanhado do velho casaco e colocou-o nos lábios.

- Continuas com os malditos mata-ratos. – ela apanhou a chávena de café e o cálice. – Vens cá logo ou não?

- Ela virá?

- Sim, Pai, ela virá. – foi a resposta que recebeu, antes de sair do café, mal-humorado.

Caminhou sem rumo durante horas. Por fim, estacou em frente ao café, já a noite entrava pela madrugada adentro. Cheirava-lhe a bacalhau com todos, a filhoses e canela. Abriu a porta e o silêncio rodeou-o. Até o bebé, ao colo da mãe, o mirou, curioso. Depois, riu e esticou os pequenos braços.

- Anda ao avô – disse ele, transfigurando-se. – Faz falta um homem nesta família, rapaz.

Elas suspiraram e sorriram.

- Feliz Natal!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Foi Deus que me pôs no peito um rosário de penas que vou desfiando e choro a cantar

Por aqui, perde-se a conta ao número de vezes que se viu/ouviu este vídeo. É a canção com que o António Zambujo finalizou o seu concerto na passada sexta-feira, no Coliseu dos Recreios.



Ele esteve tão perfeito, naquele círculo tão intimista que o miguel já tinha mencionado. E foi extraordinário, apesar do meu lugar não ter sido o mais indicado. Até por trás ele é lindo. :)



A primeira parte ficou a cargo da catalã Sílvia Pérez Cruz, que encantou (vejam-na no youtube, é fabulosa!).

Acompanharam o António Zambujo Bernardo Couto (guitarra portuguesa), José Miguel Conde (clarinetes), Ricardo Cruz (contrabaixo) e Jon Luz (cavaquinho).

O Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento também marcou presença, inclusive no encore. (o meu Alentejo, diz ele, orgulhoso).



Foi o concerto perfeito (estou a repetir-me) para terminar o ano em beleza.

(mais aqui)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

3.º PIXEL - Concurso de pequenas histórias lgbt


O 3.º PIXEL - Concurso de pequenas histórias lgbt, (uma iniciativa do sad eyes), vai acontecer entre 11 e 31 de Dezembro de 2012.

'Happy Xmas' é o tema desta edição.

As regras do concurso estão disponíveis aqui:
http://good-friends-are-hard-to-find.blogspot.pt/2012/12/happy-xmas-ultima-edicao-do-pixel.html

Comigo, despido de medos maiores

(o conto do Mark)

Deitei-me no monte de folhas secas, no jardim da casa do avô e olhei o céu. Era um ritual que repetia desde criança. A serenidade que recebia envolvia-me, qual camada invisível; paulatinamente, moldava-se ao meu corpo. Fechei os olhos, sentindo-a penetrar-me na pele, nos músculos, no sangue e nos ossos.

Eu já não era apenas eu. Era eu e as folhas que estalavam quando me mexia lentamente, eu e o sol que aquecia o meu rosto gelado, eu e o azul da abóbada celeste que contemplei quando, vagarosamente, abri as pálpebras.


Estava pronto. Sorri, ergui-me, sacudi a sujidade, olhei por cima do ombro esquerdo e soltei uma folha acobreada do capuz do blusão. Ela baloiçou, como um dos barquitos de plástico que tinha quando, em pequeno, me entretinha a brincar no lago do jardim, e voou para longe. Juntou-se à angústia que senti antes.


Saí de casa. A decisão estava tomada.


Conduzi meia-hora até ao meu destino. Abri o pequeno portão de ferro, dei a volta ao singelo jardim e dirigi-me para as traseiras. A porta da cozinha estava entreaberta. Vi a sombra projectada na tijoleira, duas pernas alongadas que se estendiam pelo alpendre e me recebiam sem receio, depois as pernas materializaram-se nele, que abriu mais a porta e me recebeu com um abraço cálido.


- Bem-vindo a casa. – anunciou. Maroto, desviou-se e apresentou-me a uma gata altiva, de olhar brilhante e orelhas delicadas, que me observava curiosa – é o novo membro da família.


domingo, 9 de dezembro de 2012

Lendo as lombadas V - a escolha da frase


Aqui estão compiladas as frases dos amigos bloguistas que participaram neste desafio:

1: 'O Segredo; A linguagem das pedras; Dicionário do nome das Terras; Muitos corpos, uma só alma; O Principezinho' - Francisco  

2: 'As pequenas memórias... O segredo do 13º Apóstolo: "O Fim da História e o último homem' - Francisco

3: 'A última aula " O novo Kamasutra Ilustrado" Satisfação Garantida...'  - Francisco

4 - 'Ultima aula: "História de Arte" O amanhecer da humanidade; Incas, Maias e Astecas; Roma; e a Europa Ocidental. Faz bem ou faz mal? ' - Francisco

5: 'Encontro à beira rio, amor sem resistência: abraço!'. - João Roque

6: 'Ao cair da noite, uma casa no fim do mundo: outras vozes, outros lugares.' - João Roque

7: 'Valsas nobres e sentimentais e a Canção de Tróia, para a sua jukebox'. - João Roque

8: 'Enquanto a Inglaterra dorme, Mister Norris muda de comboio; e de repente, um anjo...Agora ou Nunca! Um instante de abandono...que farei quando tudo arde?' - João Roque

9: 'Passada toda a paixão, quando tudo se desmorona, ao cair da noite as velas ardem até ao fim, em busca do tempo perdido.' - João Máximo

10: 'Idilio no verão: no vazio da onda, a costa dos murmúrios...' - Arrakis

11: 'Adoecer, como um romance, O velho que lia romances de amor.'  - Rosa Carioca

12: 'A cabana, (a casa na praia); a morada do ser: uma professora muito maluquinha!' - Rosa Carioca
  
13: 'Sala de aula: que espaço é esse? Ensinamos demais, aprendemos de menos. O mundo é fácil: A paz também se aprende!' - Rosa Carioca

14: 'Tieta do Agreste: Amar depois de amar-te.' - Rosa Carioca

15: 'A filha do capitão, Teresa Baptista cansada de guerra (uma vida de cão); 1 km de cada vez.' - Rosa Carioca

16: 'Profissão Professor: o vendedor de sonhos; nunca desista dos seus sonhos!' - Rosa Carioca

17: 'Como vencer na vida sendo Professor? Aprender a aprender. (Se você finge que ensina, eu finjo que aprendo). Era dos extremos!' - Rosa Carioca

18: 'Mágoa da escola. O último segredo: Assinei o diploma com o polegar.' - Rosa Carioca

19: 'Maria (e) José: a invenção do amor' - miguel

20: 'A noite dividida: enquanto a Inglaterra dorme, o americano tranquilo deixa o grande mundo girar' - miguel

21: 'Mister Norris muda de comboio: o velho expresso da Patagónia.' - miguel

22: 'Eu queria usar calças: mude a sua vida em 7 dias, não pense como um humano! Pergunte a Buda: como se vive depois de morrer?' - Hórus

23: 'Mulher de Porto Pim, fazes-me falta.' - sad eyes

24: 'A vida nova: o principezinho, a casa do pó, o jardim sem limites... Gente feliz com lágrimas.' - sad eyes



Oito participantes, vinte e quatro frases, muitas lombadas criativas e algumas estantes desarrumadas :)

Agora, a caixa de comentários é vossa. Está aberta a votação até 17 de Dezembro. Que ganhe a melhor!

A felicidade é intermitente

(o conto do sad eyes)

Entraram na cabine de fotos instantâneas. Sentaram-se juntos, abraçados. Ele enfiou as moedas na ranhura e prepararam-se para as fotografias. Um minuto depois, uma tira de quatro fotos mostrava um pai e uma filha com a língua de fora, sorrindo cúmplices e fitando seriamente a câmara.

- Para mais tarde recordar. – ela disse. – Eu fico com esta e esta. – apontou para as escolhidas.


Ele aceitou sem discutir. A última palavra era dela. Guardava os poucos momentos que passavam juntos religiosamente. 


Recordou-se de quando ela tinha seis anos, dezassete anos atrás, no primeiro Natal separados. Tinham comprado um globo de neve para a mãe, com o anjo
sentado na nuvem, segurando uma estrela nas mãos pequeninas. Na sua memória, surgiu o sorriso dela e as suas palavras, na vozinha de criança, que há muito tinha desaparecido. ‘A neve a cair são as lágrimas do anjo. Ou diamantes.’


Dividido entre dois mundos, teve que se readaptar. A menina transformou-se numa mulher, independente, sonhadora como ele. Nisso, ninguém lhe tirava o mérito. 


Aprendeu a viver um dia de cada vez e a apreciar o que a vida lhe dava de bom. Mas como a vida nem sempre era generosa, os poucos momentos eram vividos em plenitude. Os minutos dos dias, que antes pareciam insuportáveis, gozavam-se o mais possível.

Caminharam em direcção à estação do metro. Era o destino dela. Ele seguiria a pé até casa. Abraçou a filha, viu-a afastar-se e guardou no coração mais um fragmento de felicidade.


sábado, 8 de dezembro de 2012

As lombadas do sad eyes

O sad eyes, autor do blogue 'good friends are hard to find', concorreu com as seguintes frases:

'Mulher de Porto Pim, fazes-me falta.'

'A vida nova: o principezinho, a casa do pó, o jardim sem limites... Gente feliz com lágrimas.'

Não acredito! Ele disse SIM!

(o conto do Arrakis)

Dobrou a folha ao meio, a gramagem de boa qualidade, que guardava a singela pergunta, escrita com a Montblanc recebida vinte anos antes. Encostou-a ao solitário de cristal que tinha o botão de rosa vermelha. Ajeitou o copo uns milímetros para a direita e passou os dedos pela argola de prata que segurava o guardanapo. Um sorriso de satisfação desenhou-se nos lábios. Sim, a mesa estava perfeita.

Fechou a porta da sala e esperou, como se fosse um dia igual aos outros, no escritório. Arquivou uns papéis que se acumulavam na secretária, devolveu os livros que sobreviviam na torre periclitante, no parapeito da janela, à estante, deambulou de um lado para o outro, nervoso. 


Por fim, sentou-se no velho cadeirão e olhou para a janela. Notou a poalha que bailava na luz avermelhada do pôr-do-sol, uma dança suave entre os cortinados entreabertos, e viu-o surgir ao longe, a sua silhueta inconfundível no meio da multidão apressada. Viu-o tirar a chave do bolso da gabardina e entrar no prédio. Contou mentalmente os degraus que tinha que subir até alcançar o patamar certo, vinte e oito. Ouviu a chave na fechadura e a porta da entrada fechar delicadamente, como ele sempre fazia.


Nem se tinha apercebido que tinha sustido a respiração quando ele abriu a porta do escritório, com a folha e a rosa entre os dedos esguios, bonitos. Soltou profundamente o ar dos pulmões enquanto era abraçado, e ouviu a sua gargalhada, feliz.


Sim, ele aceitou.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

As lombadas do Hórus

O Hórus, autor do blogue 'Diary Of My Shadows', enviou por email a seguinte foto:


'Eu queria usar calças: mude a sua vida em 7 dias, não pense como um humano! Pergunte a Buda: como se vive depois de morrer?'

Depois da primeira queda, já


Nada foi o mesmo. Dessa vez, nem ligou. Era uma entre tantas. Ao longo de treze anos, caiu de morros, caiu a um poço, felizmente pouco profundo, obrigando o filho mais novo a saltar lá para dentro e amarrar-lhe uma corda ao lombo, para o tirar da lama, caiu da varanda e andou coxo três semanas, caiu ao ribeiro, aqui, confessou ele, não era bem isso, atirava-se ao primeiro peixe que via. ‘Cão estranho este!’, era o que o velho dono dizia, soltando uma gargalhada.

Um dia, sentiu algo diferente. Naquela altura, quando a velha dona o chamou ‘Fanã! Fanã, anda cá! Fanãããããã!’, - muito ele se deliciava com aquele ditongo anasalado que lhe chegava às orelhas espetadas, na vogal que voava ao sabor dos cheiros quentes da cozinha até à porta da entrada, onde se estendia. Hábito arreigado ao longo dos anos, com a cabeça deitada entre patas dianteiras, recebendo o fresco do cair da noite, e sabia que um pedaço de pão-de-ló acabado de fazer estava à sua espera – ergueu-se nas patas, depois caiu, estranhou, voltou a erguer-se, primeiro nas patas traseiras, e sentiu um formigueiro a percorrer-lhe a espinha. Ficou quieto, em pé, tremendo, à espera que passasse. Não lhe passavam sempre, as mazelas que recebeu ao longo dos anos, e foram muitas - treze anos marcados no corpo de um rafeiro que era o mais enfezado de uma ninhada de seis?

Não passou. Chegou o que temia, estava a envelhecer.



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Os deuses devem estar loucos


Desde há dois meses que os três aparecem à noite, entre os novelos de sonhos, e sentam-se na cama, de pernas cruzadas, esperando pacientemente pelo meu despertar. Eu sei que só pode ser um sonho, fruto das aulas de História, mas desejo ardentemente pela noite, pelo instante em que a imaginação se apodera de mim e eu vivo verdadeiramente.

Sei quem são. Foram as centenas de livros que li, imagens que retive, que desenhei na minha mente, os meus três deuses preferidos: Hórus, com a cabeça de falcão; Osíris, com a mitra branca na cabeça e segurando o báculo e o látego; Anúbis, com a cabeça de um cão.

Quando surgiram pela primeira vez, assustei-me. Dormia, cansado, após um teste sobre as divindades do Antigo Egipto, a minha paixão, e sentaram-se sem demoras em cima de mim. Acordei sobressaltado, com um peso estranho, risos divertidos e olhares curiosos.

Com o passar do tempo, vivia duas vidas, de dia, era um adolescente tímido, inquieto e confuso, de madrugada, sentia crescer dentro de mim um novo papel. Era ou Anúbis, ou Hórus, ou Osíris, os três se metamorfoseavam quase ao mesmo tempo, rápido, tão rápido, cão, falcão, eu, mitra, cão, mitra, eu, falcão…

Se é apenas um sonho, deixo-me levar, que as manhãs trarão a realidade cinzenta, enfadonha e solitária.

Desejo que os dias acabem depressa, para voltar a encontrar os meus deuses e imaginar que me encontro, não no meu triste quarto, mas no antigo Egipto.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Natal

Por aqui, também já está feita a árvore de natal. O gatinho dorme nas palhinhas e os gatos-matrioshka velam o seu sono, pois claro. 





(São alguns dos meus livros preferidos, até o meu querido Carl Barks está lá. Como não tenho muitos livros de bolso, coloquei uns CD, também alguns favoritos, como a Cat Power, o Andrew Bird, a Ana Moura, o Leonard Cohen e o António Zambujo, cujo concerto irei assistir já esta sexta).

Gajos, podres, bons, sorriso, gay

(o conto do Francisco)

O calendário estava quase pronto. Por solidariedade, dizia para si próprio. Só fazia isso por solidariedade. Os miúdos precisavam de um campo de futebol novo, andavam a jogar à bola naquele terreno de terra batida, nem balizas tinha, apenas umas traves colocadas toscamente, com umas redes velhas, era uma tristeza de meter dó. Só assim se compreendia ele estar a participar rodeado de rapazes nus, nus, como vieram ao mundo. No fundo, sabia ao que vinha, um calendário gay, com Adónis a cair para o lado de bons, com sorrisos de fazer derreter o mais empedernido dos machões. 

Bem, lá terá que ser, esta camisola de lenhador é quente, mas ficará desabotoada, assim, de lado, não fica mal, está perfeito. Sorriem-lhe, incentivam-no, brincam, aproximam-se, senhor Janeiro, com o machado ao ombro, sorriso cativante, é ele.

Virou-se mais uma vez, agora o outro lado e já está. Afinal, não foi tão difícil assim. Tem pena de estar a terminar. Olhou disfarçadamente para o senhor Março, Março, garanhão, manhãs de inferno, tardes de ilusão. Riu para si, por que não? Queria viver. Senhor Março, podia ser uma bonita amizade.


A sessão terminou. Janeiro e Março saíram juntos, trocaram sorrisos e sabores a menta e a cafeína.


Combinaram encontrar-se nas obras do novo campo de futebol, mas o campo foi construído, outros senhores apresentados, o de Julho, particularmente, deixou um calorzinho na barriga dele, logo colmatado pelo calafrio que o senhor Novembro lhe provocava, ele bem sabia onde.