terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Balanços e desejos

Estes foram os livros que li este ano. As imagens são do Goodreads. Afinal li 56. Não tinha colocado a data do fim da leitura nuns quantos, por isso não apareciam no Desafio.

'O Corredor de Fundo' , da Index ebooks, termina em beleza a lista, o Pedro Xavier está muito bem acompanhado pelo Haruki Murakami e pelo Saul Bellow e o Miguel Botelho encontra-se entre dois autores fantásticos e ambos portugueses (bem, Zimler pode ser considerado um bocadinho nosso, não pode? :) )



Desejo-vos um 2014 pleno de leituras :)
 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Velhos amigos

'Às vezes, a Velha Ama voltava a contar as mesmas histórias, mas nós nunca nos importávamos, se as histórias eram boas. Ela costumava dizer que as velhas histórias são como velhos amigos. Temos de as visitar de vez em quando.'

George R.R. Martin, A Tormenta de Espadas, p. 322.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Aristogatos XXVII e Discworld XII - 2013 em revista

Bia (1996-2013)

Farrusco (1997-2013) e Batá

Alice, Elvira e Joana

Alice e Batá na cena 'há uma linha que separa um mamífero de um réptil...'

Batá e Elvira

Joana e eu

sábado, 28 de dezembro de 2013

Polémica natalícia

Parece que há por aí uma polémica sobre a Cáritas e o calendário 2014 dos Bombeiros Sapadores de Setúbal. Não desmerecendo a iniciativa, abnegada e com as melhores intenções, talvez tivesse sido melhor se se tivessem mantido em silêncio sobre a recusa da Cáritas. Eu não trabalho com esta instituição, mas conheço actividades semelhantes e, sabendo da sua missão e dos seus valores, seria expectável que tal acontecesse.

Sendo a Companhia de Bombeiros Sapadores pertencente à CM de Setúbal, talvez um contacto entre os serviços sociais da edilidade e os Bombeiros tivesse sido mais aprofundado. Digo eu, mas até pode ser que tenham trocado umas palavras, não sei. Setúbal, infelizmente, não tem falta de pessoas que precisam de ajuda, talvez a Cáritas não tivesse sido, de facto, a entidade certa.

Não é porque somos pobres que deixamos de ter o nosso orgulho e valores. Já basta a situação de pobreza e de miséria, para, além disso, recebermos todas as ofertas de mão estendida e agradecermos, humildes, e aceitarmos tudo sem questionar.

Até pode ser que eu compre um ou outro calendário, na minha opinião, não tem mal nenhum, mas é a minha opinião; quando lidamos com pessoas fragilizadas e que perderam tudo ou quase tudo na vida, temos que ter muito cuidado com este tipo de iniciativas. Temos que nos colocar no lugar do outro e acho que foi isso que falhou quando os Bombeiros escolheram a Cáritas.

Pós-natal II

Infelizmente, a gripe não é obstáculo para deixar de enfardar bolo-rei e chocolates à bruta. Todavia, deixei, momentaneamente, as bebidas alcoólicas. Não são compatíveis com a medicação. Tenho uma dor de cabeça descomunal. Não sei se é da ressaca ou da doença, de modo que eu e a minha colónia de micróbios vamos apanhar sol para ver se passa. É aproveitar, que estiveram uns dias medonhos.

Tenho que colocar a leitura em dia. Irei ler com calma, mas não prometo comentários a tudo.

Um bom sábado.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Pós-natal

Tenho que reforçar o meu stock de cápsulas de café, de chocolate (com licor, sem licor, negro, leite, branco ou pasta de cacau com avelãs vindo de Espanha como eu recebia em miúda) e de Baileys.

Vou enfrentar de cabeça erguida e muita coragem (sem medo, mulher!)  um centro comercial cheio de pessoas lindas a trocar presentes de natal comprados com tanto carinho e amor. Desejem-me boa sorte.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O conto do João

   O Segredo da Artemisa!

   Soube que era o certo assim que o viu.
   - É aquele! – exclamou com um sorriso. – Aquele, pai! - apontou com a mão enluvada e correu tropegamente.
   Aproximou-se do pequeno pinheiro, excitada, e abraçou-o. O pai parou o carrinho-de-mão e tirou o velho serrote. Meia dúzia de gestos bastaram para o fino tronco ceder. Colocou-o no carrinho e regressaram a casa. Ela sentara-se ao lado da árvore. Apertara um ramo com toda a força, como se ele fosse a mão do pai, sentindo as finas agulhas a picarem-lhe a palma da mão sobre a luva.
   A mãe olhou o pinheirito, de tronco torto e ramos desengonçados e parcialmente cobertos por uma folhagem verde acastanhada. Acariciou uma agulha e murmurou:
   - Parece tão frágil…
   Nessa noite, o pinheiro de natal brilhava, imponente, encostado à janela, inclinado para um lado como que fazendo uma eterna vénia.
   A menina coxeou até ao sofá, abanando as mãos de um lado para o outro, sentou-se no colo da mãe e poisou a cabeça no seu ombro. O pai acendeu as luzes, que cintilaram como cristais nos olhos de Artemisa. Sentou-se junto delas, feliz.
   A mãe abraçou a filha e beijou-lhe a testa macia e perfumada com a colónia infantil.
   - Ele é como eu – Artemisa sussurrou.
   A mãe pestanejou e engoliu fundo. Abraçou-a muito e conteve as lágrimas.
   - Sim, é a árvore mais bonita do mundo – o pai limpou-lhe um fiozinho de baba, orgulhoso. – Brilhante e forte como tu, Artemisa.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Sábado de manhã

Às dez horas, deixei a Elvira na clínica veterinária para ser esterilizada. Rico presente de natal a minha menina recebe, mas tem de ser.



De regresso a casa, passei por uma feira de livros. Não resisti, uma pechincha. E a árvore de natal dos livros continua a crescer :)

Para terminar, o Solstício de Inverno é hoje às 17h11.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Boas Festas

A singela mesa da minha avó com a árvore de natal de livros que não consegui ler este ano. Em vez da estrela, um dos meus escritores favoritos e um título maravilhoso. Feliz Natal para todos.

A Propósito de Llewyn Davis


'Se nunca foi novo e se nunca envelheceu, então é música folk'.

Nova York, 1961: antes de Bob Dylan, havia Llewyn Davis. Os irmãos Coen em grande forma. A banda sonora perfeita para esta quadra.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Life

Ontem, as tabletes de chocolate Lindt com recheio de whisky e cognac estavam a metade do preço no hipermercado. Trouxe duas.

Cat & mouse

Washington, D.C., circa 1931. "Walt Disney with Mickey Mouse drawing."

One day he'll be bigger than you, cat!

(fonte)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Index ebooks e 'O Corredor de Fundo'

Li 'O Corredor de Fundo' em meia dúzia de dias. Quase 350 páginas sobre a história de amor de Harlan e Billy, bela e trágica, entre corridas, Jogos Olímpicos, homofobia, activismo, preconceitos, sem esquecer símbolos como Stonewall ou a Continental Baths.

Lê-se extraordinariamente bem, a narrativa é na primeira pessoa, pelo Harlan, o que traduz a simplicidade do discurso, todavia, tudo o que envolve é actual. Podem separar quarenta anos desde a publicação deste romance, mas o que é um facto indiscutível é que em muitos países a homossexualidade continua a ser um crime. E aproximam-se os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, na Rússia, já em Fevereiro próximo, e não podemos esquecer a terrível política anti-gay que aquele país está a implementar.

No lançamento de 'O Corredor de Fundo'  foi lida uma mensagem de Patricia Nell Warren, que podem ler aqui e a Revista TimeOut também publicou um belo artigo sobre a Index ebooks.

E tenho imenso orgulho pelo facto de a Index ser a minha editora, pois brevemente será publicado um livro com os contos que escrevi  :)

sábado, 14 de dezembro de 2013

Vénus de Vison

 

É um dos melhores filmes que já vi este ano. Contrariamente ao meu hábito, sentei-me na terceira fila do cinema, no El Corte Inglés, praticamente entrando pela tela adentro, e adorei.

E de cena em cena, uma actriz fazendo uma audição, e ele o encenador que a acompanha, vão saltando das personagens da peça para as do filme e ela é estrondosa, a mulher de Polanski, absolutamente poderosa e sensual e ele acaba por ficar completamente obcecado por ela. Misturam-se os papéis, os desejos surgem, os diálogos são intensos em interpretações de tirar o fôlego.

Não percam.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O conto do Ricardo

   A Outra Face de Ricardo
  
   Nasci enfezado e baço. O seu peito suado acolheu-me antes de tempo. Fui um funâmbulo, tremendo entre a vida e a morte, no meio de lágrimas, beijos, preces e afagos. Reconheci-lhe a voz, cheirei-a pela primeira vez e fiz do seu odor o meu.
   A sua mão quente afagou-me a cabeça molhada e suja, a voz esgotada e comovida murmurou um nome de rei. Como que aceitando a dádiva, apertei-lhe o dedo e olhei-a através da névoa, o seu sorriso amado envolvendo-me.
   Fazendo jus ao meu nome, sobrevivi. Todos os dias levanto-me, destemido, e recebo a vida com os braços abertos. Trago o sol nos olhos, o calor nos abraços e a ternura nos beijos.
   Todavia, conscientemente, sinto o espectro gelado que paira sobre mim. Sussurra-me palavras acintosas, nega-me a felicidade, como se eu não tivesse o direito de viver. Com tenacidade, enfrento-o sem armadura ou escudo, despido de preconceitos, olhos nos olhos.
   Conquisto sem pudor o meu lugar no mundo. Sinto, vivo e amo incondicionalmente.
   Dizem-me que tenho um sorriso que desarma, pelo que sorrio, sorrio muito. É, talvez, a minha única arma. Sou encantador. Sei que pareço convencido, mas luto com o que tenho. Desta forma, ganho as minhas batalhas contra os infiéis. E continuam a ser muitos.
   Sou Ricardo, coração de leão, alma de guerreiro. Sou filho de uma rainha de mãos calejadas, olhos meigos e corpo cansado. Ela é o meu refúgio, o meu ombro e a fonte da minha invencibilidade.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Ebook 'O Corredor de Fundo' já à venda

 Design: Ricardo Mestre

Já se encontra nos escaparates electrónicos 'O Corredor de Fundo - The Front Runner', o best-seller de Patricia Nell Warren.

Editado pela Index ebooks, conta a história de Harlan Brown, um resistente treinador de atletismo conservador, que tenta afastar-se do seu passado numa pequena universidade americana, e de Billy Sive, um jovem e brilhante corredor que é gay e não se envergonha disso. Quando os dois se apaixonam, entram numa corrida contra o ódio e o preconceito que os levará aos Jogos Olímpicos de 1976 e a um desfecho chocante. Com mais de 10 milhões de exemplares vendidos em sete idiomas, este clássico da literatura gay é a história de amor gay mais popular de todos os tempos .

Sigam o link para mais informações. Boa leitura :)

sábado, 7 de dezembro de 2013

Uma exposição, uma peça de teatro, um livro

Na passada quinta-feira, dei um pulo ao Museu Nacional de Arte Antiga, seguindo a sugestão do João Roque, para ver a exposição 'A Paisagem Nórdica do Museu do Prado', a primeira exposição do Museu do Prado, de Espanha, em Portugal, e inclui obras-primas de Rubens, Brueghel e Lorrain. São 57 obras fantásticas que representam as paisagens flamengas e holandesas do século XVII. Em nove núcleos, podemos apreciar os temas como a montanha, o campo, a paisagem de gelo e neve, Rubens, nos jardins do palácio, paisagens exóticas, paisagens de água e a pintura na Itália.
Neste link (Prado em Lisboa), podem descobrir todos os pormenores desta excelente exposição. Não podem perder, de facto.


Ontem ao fim da tarde, fui ver mais uma peça ao Teatro da Politécnica, desta vez 'A 20 de Novembro', de Lars Norén. Com João Pedro Mamede, um jovem actor a intepretar um adolescente de 18 anos; uma interpretação densa e um murro no estômago, um texto intenso, frio e clínico baseado no diário íntimo de Sebastian Bosse, que a 20 de Novembro de 2006 disparou sobre alunos e professores do seu antigo liceu antes de se suicidar. Mais uma vez, imperdível, dada a sua actualidade. Não há muito tempo, um adolescente numa escola às portas de Lisboa tinha planeado algo semelhante. Ninguém lhe notou os sintomas, vítima de bullying, tímido, família normal. Hoje é o último dia e é às sete da tarde.


Por fim, acabei há uns dias 'Toque de Veludo', de Sarah Waters. Gostei muito mais do livro do que da mini-série da BBC que encontrei no youtube. Bem, fico-me pelo romance. Passa-se nos finais do século XIX, na época vitoriana e descreve, de uma forma picaresca, a vida de Nancy, uma vendedora de ostras de uma localidade à beira-mar no Kent que se apaixona por uma cantora de music-hall, vestida como se fosse um jovem. Vão as duas viver para Londres, têm um duo de sucesso representando e cantando travestidas como homens, fase esta que Nan, a protagonista da história contada na primeira pessoa, aprofunda quando é traída pelo seu amor. Assim, para sobreviver, pois vê-se praticamente sem dinheiro, acaba por se prostituir sempre fingindo ser um jovem e tem como clientes unicamente homens, que desconhecem que ela é uma mulher. Entretanto, conhece uma dama da alta sociedade,  vive com ela como sendo 'o seu rapaz', entre luxos e festas de lésbicas. Claro que isso não podia durar eternamente e Nancy, mais uma vez, volta para a rua, miserável e sozinha. Vai viver com uma família de activistas socialistas, apaixona-se pela jovem trabalhadora e lutadora pelos direitos das mulheres e, finalmente, encontra a felicidade ao lado dela.
É um romance com algumas cenas explícitas, irreverente, sensual, dramático também, mas, na sua essência, dá a conhecer o mundo do teatro, da prostituição, do movimento pelos direitos das classes trabalhadores do anos de 1890. Gostei bastante. Tanto que encomendei outro e os restantes desta autora encontram-se esgotados.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O conto do Arrakis

   Um presente envenenado

   Um barulho de testos, panelas e talheres chegava-lhe aos ouvidos.
Tinha-se postado à entrada da cozinha e olhava, curiosa. O rapaz mexia-se com desenvoltura, enquanto lhe dirigia palavras que não compreendia. Achava simpático o seu tom de voz e gostava do cheiro que entrava pelas suas narinas pequeninas, negras, húmidas, que lhe fazia lamber os beiços, ondular os bigodes e tremeluzir os olhos.
   Como se estivesse numa passerelle, aproximou-se languidamente e roçou o quadril pela sua perna. De seguida, saltou para uma cadeira e ficou a observá-lo, como uma rainha no seu trono. Ele cozinhava, conversava e ela fitava-o muito atenta. Por fim, ele tirou um pires e uma pequena lata do armário debaixo do lava-loiça e abriu-a. Ela espetou as pequenas orelhas com o som. Miando de gula, deu um saltou para o chão.
   - És uma diva! – ele riu, fazendo-lhe uma festa. Como resposta, a cauda bateu caprichosamente na sua perna. – Sim, és – repetiu, regressando ao fogão. Quando virou a cabeça, encontrou um pires brilhando como se tivesse sido lavado e a cozinha vazia. Suspirou. – Comeu e desapareceu, a rainha…
   Muito tempo depois, preparou a mesa da sala com a loiça de natal, os talheres dourados, os copos de cristal. Olhou, então, para o saco de papel que estava tombado junto à lareira. Uma ponta mordiscada de um laço dourado espreitava. – Gata! Oh, gata! – correu para o saco e abriu-o. Lá dentro, em cima da caixa embrulhada e enrolado no laço dourado, jazia um pardalito.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Quando cai a noite na cidade

Um encontro inesperado, um lanche divertido, um café na ILGA, a apresentação de um livro, um mini-espectáculo, a compra de 'Ara', um passeio pela Baixa.


Não está esquecido, mas, até ao próximo encontro, só posso oferecer esta versão :)


Obrigada pelo excelente fim de tarde e pela noite estupenda.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Alguma coisa

   'Uma vez fora apanhar fruta no Verão. Não era muito bem pago, mas diverti-me. Experimentei muitas coisas. Fora empregado de mesa num hotel de terceira categoria, nadador-salvador numa praia, vendera enciclopédias, aspiradores e algumas outras coisas. Uma vez fizera trabalho de horticultura num jardim botânico e aprendera um pouco sobre flores.
   Nunca me dediquei a nada. Porque havia de o fazer? Achei quase tudo o que fiz interessante. Algumas coisas davam mais trabalho do que outras, mas na verdade não me importava com isso. Na realidade não sou preguiçoso. Suponho que o que sou de facto é inquieto. Quero ir a todo o lado, ver tudo, fazer tudo. Quero encontrar alguma coisa. Sim, é isso. Quero encontrar alguma coisa.'

Agatha Christie, Noite sem fim, Edições Asa, 2011 (ebook)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Começo

Magoei os pés no chão onde nasci.
Cilícios de raivosa hostilidade
Abriram golpes na fragilidade
De criatura
Que não pude deixar de ser um dia.
Com lágrimas de pasmo e de amargura
Paguei à terra o pão que lhe pedia.

Comprei a consciência de que sou
Homem de trocas com a natureza.
Fera sentada à mesa
Depois de ter escoado o coração
Na incerteza
De comer o suor que semeou,
Varejou,
E, dobrada de lírica tristeza,
Carregou.

Miguel Torga, Cântico do Homem (1950) , Antologia Poética, Círculo de Leitores, 2001

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O conto do Mark

   A tartaruga e o gato Sapeca pelo mundo

   - Está na hora! – ele exclamou, empolgado. - Para onde vamos, sabes? Sim, tu sabes tudo, estás aqui há tantos anos. – os olhinhos azuis muito brilhantes fitaram-na, curioso.
   - Meu Sapeca lindo… – ela suspirou, inclinando a cabeça para um lado. Sorriu ternamente e semicerrou as pálpebras engelhadas.
    - Diz-me, tu sabes. Diz, diz! – com a agilidade que os seus sete meses demonstravam, pulava de um lado para o outro. Sem querer, deu-lhe uma marradinha que a fez encolher o pescoço. - Desculpa…
   - Sapeca, que nome tão adequado tens, menino – murmurou a paciente tartaruga. A sua cabeça verde, de riscas vermelhas nos cantos dos olhos, brilhava. – Se te disser agora, perde a graça. Tens que descobrir por ti próprio. Tem paciência, que já não vou para nova. Vamos, acompanha-me. Estamos quase a chegar, não é verdade?
   - Sim, sim, já lá está. Vês? Anda, senão perdemos o início.
   Aproximaram-se do petiz que estava sentado debaixo de um castanheiro. Nos joelhos flectidos, apoiava um livro de páginas amareladas que ela tão bem conhecia. Lia alto, concentrado.
   A velha tartaruga sorriu. Muitos anos antes escutara uma criança com semelhante voz cristalina e, como ela, tinha o mesmo cabelo ruivo.
   Com as pequeninas orelhas espetadas, Sapeca sentou-se à sua frente. Agora, eram dois companheiros inseparáveis.
   De pé na proa da caravela miraram, intrépidos, o imenso lençol azul acinzentado. Não sabiam onde o oceano acabava e o céu começava. Era o início de mais uma aventura.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Mais amarga que rabo de gato

Ontem ouvi pela primeira vez a expressão 'mais amarga que rabo de gato'. Parece que se utiliza muito no norte. A sério, com esta cara ninguém diria que tem uma cauda assim...

sábado, 23 de novembro de 2013

Agatha Christie e Poirot

De acordo com uma notícia publicada no The Telegraph no passado dia 6 de Novembro, 'O assassinato de Roger Ackroyd' é considerada a melhor história de crime e mistério e Agatha Christie a melhor escritora de sempre.


Na série de televisão britânica, Poirot é interpretado magistralmente por David Suchet desde 1989 até este mês de Novembro (a sua morte aconteceu no dia 13), ou seja, há quase 25 anos.

Como sigo a página de Agatha Christie no facebook há pouco tempo, fiquei agradavelmente surpreendida por ainda existir esta série. Tenho as primeiras temporadas e os filmes, mas apenas os que passaram na RTP há muito tempo. Com os anos, já não me despertou tanto o interesse (neste caso, a ignorância é uma benção, porque agora vou procurar as séries mais recentes).

Em todo o caso, aconselho que leiam o livro, no qual surge, então, um tal de 'Mr. Porrott' e que se interessa pelo cultivo de abóboras.

Encontrei na internet uma página muito interessante que reúne, sob várias etiquetas associadas a esta série, muitas fotografias. Para além das histórias, o que me fazia estar colada à TV a absorver todos os pormenores eram a arquitectura art déco, a cenografia, os penteados, tudo muito fielmente reproduzindo a atmosfera dos anos 1930 do século passado.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O conto do Francisco

   Guloseimas ou Travessuras
  
   Aproximava-se devagar, a respiração em suspenso, o peito cheio de ar como um balão. Observava a silhueta que se destacava sob o halo do candeeiro do jardim. Queria picotar à volta, destacá-la e levá-la consigo, como fazia em criança com os seus desenhos preferidos.
   Parou atrás dele e expirou o ar dos pulmões. Silenciosamente, ergueu os braços e colocou as mãos à frente dos seus olhos. Ele tacteou com as pontas dos dedos as suas mãos. Um polegar com uma unha bem cuidada rodeou o anel que trazia no dedo mindinho direito. Sentiu-o a respirar mais rapidamente. Notou que ele sorria e relaxou por fim.
   Os dedos elegantes percorreram as suas mãos, passaram para os pulsos escondidos sob a grossa camisola e detiveram-se na pulseira de cabedal, recordação das férias que tinham passado juntos. Subiram novamente, quais aranhas, e sentiu um leve beliscão na pele. Um gemido fingido de dor soou da sua garganta. Riu, virou a cabeça, beijou-o e poisou o queixo no seu ombro. Rodeou-lhe a cintura com os braços, fechando os olhos. Murmurou-lhe algo ao ouvido. Tinha um saquinho de bombons de chocolate com licor no bolso do casaco.
   Do outro lado da rua, um grupo de crianças andava de porta em porta a pedir doces. Um pirata de mão dada a uma princesa, um principezinho com uma raposa de peluche na mão, um superhomem com um braço no ombro de um homem-aranha, uma fada e um pikachu. Velas bruxuleavam nos parapeitos das janelas.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Pérolas a Porcos

Fui à Fnac do Chiado. Há algum tempo que por lá não passava. À saída, desci as escadas rolantes, com intenção de cortar caminho para ir para o metropolitano, como sempre fiz. Nunca me habituei aos elevadores. Dei de caras com a Toys'R'Us. A Sportzone tinha ido à vida. Dei a volta à loja, não entrava numa há mais de 10 anos. Tão cedo não entrarei noutra. Fecharam as escadas rolantes para o rés-do-chão. Subi e acabei por dar uma volta pelo Rossio. A Livraria do Diário de Notícias agora é a Feira dos Tecidos, a Loja das Meias agora é a Bennetton. Depois, fui de metro até ao Areeiro. A estação está catita, mas fecharam as saídas junto à estação Roma-Areeiro, enquanto não acabam as obras. Saí na ponta da praça.

Mas nada me estragou esse fim de tarde. Comprei o último o 'Pérolas a Porcos'. Finalmente, juntou-se aos seus manos, os volumes I a VIII.
Sou fã incondicional desta BD desde meados da década passada. Frequentemente, vou ao seu site e rio-me perdidamente. É um cartoon hilariante, cáustico, inteligente, absurdo, traça uma caricatura deliciosa dos nossos defeitos e limitações. É brilhante.

É uma BD subversiva, um pouco chocante, maliciosa, só mesmo ela para ter um gato terrorista e um pato-da-guarda, para além das personagens que já conhecemos, o Rato arrogante e egocêntrico, o Porco, lento de cabeça e ingénuo, o Bode inteligente, a Zebra activista dos direitos herbívoros e os Crocs obsessivamente carnívoross.

Pastis, amigo, um dia que passes por cá, não poderei ceder-te o sofá, porque tenho três gatas um bocado tresloucadas e possessivas, um pouco como o senhor Snuffles, mas em troca de assinares os meus livros, oferecer-te-ei alheiras de Mirandela e castanhas de ovos de Viseu, está bem?





domingo, 17 de novembro de 2013

O conto do Alexandre

   Homem no caixote do lixo

   O comboio desapareceu na curva. Não se ouvia o chilreio dos pássaros, nem o zumbido eléctrico na catenária, nem vozes no cais. Apenas um silêncio pesado, de chumbo, como as nuvens no céu.
   No ombro, segurava a mochila com meia dúzia de peças de roupa, um diário, um lápis, a máquina fotográfica. No peito, um coração despedaçado. Estilhaçara-se e caíra aos seus pés como lixo. Lixo que alguém recolhera e deitara no caixote, como coisa que já não prestava.
   Tinha sido tão feliz, amara tanto, tão intensamente. Fora tudo uma descoberta, sedução, mensagens de amor em conchas, corcódeas com iniciais gravadas, um pedido num banco de jardim, castelos de amor no ar. Avassalador e tão breve.
   Consentira nos segredos, nos enganos, anulara-se. Aos poucos, morria; procurava respostas e encontrava um muro. Ainda sonhou em derrubá-lo, confiança e amor bastavam, pensava. Como se enganara. Censura, palavras de circunstância, refeições desencontradas, a cama cada vez mais vazia, um gelo no olhar, um toque repelido. Desejou o sol, encontrou a escuridão.
   Tacteando no escuro, deixava passar um dia, depois outro e outro, criando coragem para o passo final. Queria a luz, sol e risos novamente.
   A conversa fora breve. Basta, merecia mais. Viu o alívio nos outros olhos, no seu peito ficou a dor. Despediram-se.
   Saiu da estação. A cidade surgia diante de si, majestosa, abria os braços de água para receber as suas mágoas.
   Quando os primeiros pingos de chuva lhe bateram no rosto, por fim chorou.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O conto do Eolo

   A Bruxa e a Tarte de Limão

   Tenho sete anos, jardineiras de bombazina com joelheiras e camisola de gola alta, maria-rapaz, sorriso arrojado numa boca desdentada.
   É o intervalo da tarde da segunda classe. Salto o muro das traseiras da escola, corro pelo trilho até às árvores, subo ao limoeiro e arranco três limões gordos e resplandecentes ao sol do outono. Penduro-me num ramo, que se parte com o meu peso, caio ao chão e torço o tornozelo esquerdo.
   Como sempre, ela sai da cozinha, gritando de vassoura nas mãos, o cabelo pintado de um vermelho alaranjado, quais labaredas da fogueira que fazíamos pelo são martinho. Mordo os lábios, segurando lágrimas de dor e frustração, e escondo os limões no peitilho das jardineiras, um suspensório deslizando pelo ombro. Coxeio, afasto-me de cabeça erguida, recuso-me a sair vencida. Mas caio, caio e as lágrimas grossas deslizam pela cara abaixo. Os limões rolam pelo chão, como se fossem despojos de guerra.
   A Bruxa, a terrível Bruxa da casa ao lado, ajoelha-se à minha frente, passa um braço pela minha cintura e ampara-me até casa. Tira-me a bota, a meia, enfaixa o pé inchado, murmurando palavras doces. Serve-me uma fatia de uma tarte que não conheço, a avó só faz pão-de-ló e bolo de mármore.
   Tenho dez anos. É o último dia de aulas da primária. Saio da festa, pulo o muro, corro, ela já está à minha espera à porta da cozinha. Sorri, abraça-me e oferece-me uma fatia de tarte de limão.

domingo, 10 de novembro de 2013

O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo

É essencial uma pausa nos contos. É por uma boa causa, claro. Primeiro, falo sobre mais um livro e segundo, porque é o último romance publicado do senhor Haruki Murakami. Não é recente, foi escrito em 1985, recebeu o Prémio Tanizaki e foi o livro que o reconheceu como um excelente romancista a nível internacional.

Não vou mencionar o que se pode ler na badana, ou em qualquer resumo online, o mais importante, para mim, é que é tão bom quanto o 'After Dark, os Passageiros da Noite'. Considero-o ainda melhor que 1Q84. Primeiro, porque cria dois universos fantásticos,  uma Tóquio futurista, o impiedoso país das maravilhas, com inúmeras referências à década de 1980 do século passado (música pop, videogravadores, calças com pinças) e uma outra realidade, o fim do mundo. Não vou levantar muito o véu, mas surgem questões de ética, com a utilização de cobaias para experiências científicas. Segundo, e ainda mais importante, é que lida com questões metafísicas, com a imortalidade, por contraponto com a ciência e o que tudo isso implica.

Quantas vezes não temos o desejo de viver outras vidas? Eu penso que, se tivesse oportunidade, faria coisas de maneira diferente, viveria a minha vida de outra forma, mas depois, como o narrador diz, quase para o fim do livro, eu deixaria de ser eu, seria um outro eu, logo, não era mais 'eu'. Não é confuso, somos assim, se tivéssemos a capacidade de regressar ao passado e fazer as coisas de maneira diferente, no futuro, não seríamos a pessoa que, neste momento, somos.

Estou quase a terminar o livro. É fantástico e para não variar, está carregadinho de sublinhados :)

   '- Sabe?, compreendo perfeitamente que sou um ser tão insignificante que é preciso uma lupa para me verem. Foi sempre assim. Até a mim me custa encontrar a minha cara na fotografia de fim de curso. (...) No entanto, e por estranho que pareça, estou bastante satisfeito com a minha vida neste mundo. (...) Detesto muita gente, e há muita gente que me detesta, mas também gosto de algumas pessoas e, das que gosto, gosto muito. E não tem nada a ver com ser correspondido. Vivo assim. Não quero ir a lado nenhum. A imortalidade não me faz falta.' - pp. 390-391.

   'O que foi que perdi?, perguntei a mim mesmo, dando voltas à cabeça. Sem dúvida alguma que teria perdido muitas coisas. (...) Sofrera bastante com a perda de algumas delas, apesar de, no momento em que as perdera, ter julgado não me importar demasiado, mas com outras sucedera-se o contrário. À medida que o tempo tinha passado, fora perdendo diversas coisas, várias pessoas, vários sentimentos. No bolso de um casaco simbolizando a minha existência abrira-se um buraco fatal, que nenhum fio e uma agulha seriam capazes de coser. Neste sentido, se alguém tivesse aberto a janela de minha casa, enfiando a cabeça lá dentro para gritar: «A tua vida é um zero absoluto!», eu não disporia de nenhum argumento para esgrimir contra tal afirmação.
   No entanto, dava-me a sensação que, podendo voltar atrás, teria tido uma vida idêntica à que levara. Porque esta vida - uma vida repleta de perdas - era eu. Era o único caminho de que dispunha para ser eu. Mesmo que para tal fosse preciso abandonar todo o tipo de pessoas, e que todo tipo de pessoas me abandonasse; mesmo que tivesse de apagar ou limitar os mais belos sentimentos, esquecer as mais sublimes qualidades ou sonhos, eu não podia ser outra coisa senão eu mesmo.' - p. 483.

Haruki Murakami, O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo,  Casa das Letras, 2013 (como sempre, é fantástica a tradução do inglês de  Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso).

sábado, 9 de novembro de 2013

O conto do Miguel

   Tudo isto, e o céu também

   Conheci dezenas de países. Tenho quatro passaportes cheios de carimbos, uma estante repleta de guias de viagens e um armário com recordações. De todas as vezes, regressava a casa de mãos vazias. No ano seguinte, recomeçava. Planeava cuidadosamente o itinerário, pesquisava, entusiasmado, os locais possíveis de te encontrar. Seria dessa vez, dizia para mim, seria num museu no Cairo, numa ponte sobre o Sena, numa esplanada de um bar em Nova Iorque, num jardim em Tóquio. Estarias sentado sob uma cerejeira e lerias o jornal vespertino.
   Conheci-te na cidade onde vivo, num pequeno livro de poemas comprado numa feira de livros usados. Amei-te ao primeiro verso. Pesquisei o teu nome na internet, fui dar com o teu blogue, enviei-te uma mensagem e, duas semanas depois, estávamos frente a frente no aeroporto do teu país. Poisei a mala e suspirei de alívio. Estavas ali, finalmente.
   Guardo o momento em que te vi e me encontrei. Um gigante de olhos verdes e enormes braços que me abraçou longamente. A primeira noite de amor e um poema que eu sabia de cor sussurrado ao teu ouvido. As tuas lágrimas, uma dedicatória no livro, um beijo apaixonado e o café da manhã na varanda do hotel.
   Guardo tudo isto, e o céu também. Nesta noite estrelada, um cometa rasa o infinito. Vejo-te a sorrir, firmemente agarrado à poeira cósmica. Acenas. Regresso ao teu livro de poemas. Choro baixinho, recordando o momento em que te encontrei e te perdi.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O conto do João Máximo

   E um sorriso no olhar, esse olhar mole e felino

   Depositou a rosa vermelha no decote, pintou os olhos e os lábios e calçou as luvas pretas até ao cotovelo. Com um gesto teatral, ergueu as mãos. Virando-se de repente, retirou o chapéu de plumas cor-de-rosa da caixa redonda aberta sobre a cama. Em frente ao espelho decorado com retratos de galãs de cinema, de bigodes finos, cigarros nos dedos esguios e olhares de predador, deu duas voltas e colocou-o na cabeça. Ajeitou-o e riu para o seu reflexo, coquete.
   Cantarolando baixinho, saiu do quarto, caminhou meneando as ancas, levantando o pesado vestido de folhos. Girou a cabeça de um lado para o outro, as plumas do chapéu esvoaçando no ar, e soltou uma sedutora gargalhada. A tarde estender-se-ia pela noite. Iria sorrir, sorrir muito, beber, sentar-se num joelho, receber uma carícia no pescoço, um beijo na face e beber champanhe. Ah! Champanhe, em taças redondas, quais moldes dos delicados seios da Maria Antonieta.
   Lentamente, desceu a longa escadaria, poisando os pequenos pés nos degraus alcatifados, prolongando o momento em que os aplausos irromperiam, esfuziantes.
   Raios de sol banhavam o vazio e decadente salão. Ela sorria. E um sorriso no olhar, esse olhar mole e felino, afagava cada um dos seus fantasmas. Invariavelmente, solicitar-lhe-iam que cantasse os seus êxitos, ao que acederia, sorrindo, conformada.
   Nessa noite, o filho foi encontrá-la tombada sobre um antiquado e desafinado piano, com a pauta de uma imemorável canção de amor espalhada aos seus pés.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O conto do João Roque

   Porque te amo?

   Lembras-te do primeiro dia em que nos conhecemos? Há tantos anos. Hoje, como naquela altura, a nossa vida continua a ser de encontros e despedidas.
   De cada vez que te afastas no aeroporto, o meu coração despedaça-se em mil pedacinhos e cambaleio sem forças como se fosse uma marioneta. A custo, resisto à vontade de gritar, ir ao teu encalço e puxar-te por um braço e dizer uma vez e outra “Amo-te, amo-te!”
   E eu amo-te, meu amor, porque és a primeira folha de um novo livro, uma flor de canela no arroz-doce e o orvalho na macieira. Um raio de sol na minha pele, a brisa da primavera no rosto e o malmequer na lapela.
   Amo-te, porque trazes o sabor do pão-de-ló, o cheiro da terra molhada e o gosto da erva mordida. As estrelas no olhar, um nocturno de Chopin no sorriso e o veludo da noite nos dedos.
   Amo-te na solidão da madrugada, na cama gelada e nos intermináveis dias cinzentos. Na mesa para um, no teu lugar vazio e na comida sem sabor.
   Amo-te no livro tombado, nas flores secas na algibeira e no lume apagado da lareira. Num cortinado afastado, no rosto encostado ao vidro e nas lágrimas de saudade.
   Amo-te em noites de insónia, nas mensagens gravadas no telemóvel e nos dias contados no calendário.
   Amo-te, porque apareces sem avisar e sorris à porta com um ramo de malmequeres.
   Porque és a minha rosa-dos-ventos. A minha âncora. E toda a vida.

sábado, 2 de novembro de 2013

O conto do Ribatejano

   Eu quero-te na minha vida…

   O homem mais pequeno do mundo sabia ler as lágrimas. A água evaporava e os cristais de cloreto de sódio brilhavam no sítio onde elas tombavam.
   A sua vida girava em torno das histórias que as lágrimas contavam. Se eram de amor, ele sonhava com beijos ao pôr-do-sol; de dor e o seu coraçãozinho encolhia-se muito, cheio de angústia; de felicidade e rodopiava de braços abertos, rindo sem parar.
   Na véspera de natal, o homem mais pequeno do mundo encontrou uma lágrima colada com um lacinho vermelho na porta de casa. Delicadamente, segurou-a com a ponta do seu dedo minúsculo, entrou, ajoelhou-se junto à árvore de natal e colocou-a no chão. Com um sorriso, ajeitou o lacinho do único presente que tinha recebido até então e sentou-se na poltrona. Esperou pacientemente pela meia-noite. Com o calor da sala, a água dissipava-se, os cristais refulgindo na tijoleira.
   À hora certa, aproximou-se, ansioso. Debruçou-se e leu baixinho «Eu quero-te na minha vida…». Arregalou os olhos, surpreso. Quem teria chorado tal lágrima? Seria mesmo para ele, o homem mais pequeno do mundo, que passava incólume entre os pingos da chuva, mas não conseguia fugir às tormentas das lágrimas?
   Chorando de felicidade, adormeceu enroscado ao seu pequeno tesouro.
   No dia de natal, acordou e a primeira coisa que viu foi um terno sorriso de um anjo. Nas palmas das suas mãos, os cristais das lágrimas do homem mais pequeno do mundo reluziam: «Sou o homem mais feliz do mundo.»

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Bette Davis

O Natal é quando uma mulher quiser. Assim, tal como no ano passado, vou oferecer-vos contos. A fórmula é a mesma: vocês dão-me um título até cinco palavras e eu escrevo uma história com 250 palavras - título incluído. A caixa de comentários é vossa.

A Bette Davis vai regressar :)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Primeiro capítulo gratuito de 'O Corredor de Fundo' já nas bancas


Já pode ser descarregado nas principais lojas online (links abaixo) o capítulo 1 gratuito de O Corredor de Fundo, a primeira edição em português do best-seller de Patricia Nell Warren, The Front Runner, que vendeu mais de 10 milhões de exemplares em sete idiomas. Esta edição da INDEX ebooks inclui ainda uma introdução pela autora e citações da imprensa sobre a versão original em inglês. A primeira edição integral desta obra em português deverá ser posta à venda em Dezembro.

Links para descarregar o 1º capítulo de O Corredor de Fundo:
Apple iBookstore (Portugal e Brasil)
Amazon Kindle (Portugal e Brasil)
Kobo (Portugal e Brasil)
Bubok (Portugal)                                               

Mais informações no site da editora, aqui.

(fonte da informação: INDEX ebooks)

domingo, 27 de outubro de 2013

Jazz, Murakami, coração

Na sexta, fui ao SeixalJazz. Cheguei uma hora antes, ainda estavam a distribuir os bilhetes aos convidados. Calhou-me um lugar na pontinha. Ainda bem. É o meu lugar preferido. Não foi preciso olhar para o mapa da sala e pedir ‘Quero, se possível, um lugar na ponta, sabe, eu mexo o pé, a perna, o pescoço, pareço uma serpente encantada indiana e depois não quero incomodar a pessoa à minha frente, o pé a batucar na sua cadeira, mas num concerto de jazz, aliás não só de jazz, está a compreender, é impossível ficar quieta’. Calhou-me uma cadeira na pontinha, então, não é que parece que me conhecem já, a senhora da bilheteira e a senhora da entrada do Fórum e o senhor da entrada da sala, que rasga o bilhete e nos indica o lugar?

Na quarta, não pude ir, estava a chover a potes, então, na sexta ao início da tarde entrei na página do SeixalJazz no Facebook, participei num passatempo, mais rápida que o Speedy Gonzales, arriba arriba! e ganhei um convite duplo, um CD – que toca enquanto escrevo - e uma T-shirt e uma noite fantástica. Fiquei, então, na pontinha, ora a perna cruzada, ora a perna estendida no corredor, a bater o pé, os dedos no ar dedilhando um piano inexistente, os olhos fechados, não consigo ir a um concerto e estar de olhos abertos, quero dizer, estou de olhos abertos e depois fecho-os e deixo-me levar pela música, então jazz e improviso, aquilo arrebata e fico rendida. Acabou um pouco depois da meia-noite e foram duas horas de êxtase e o melhor é que não gastei nada, quero dizer, gastei um euro num lápis, nunca são demais os lápis, que está a marcar uma página do novo livro do Murakami.

Pois estou a ler mais um livro do senhor Haruki Murakami. Despachei uns quantos até chegar a este romance, dois dele que já tinha lido, mais outros emprestados, comprados, da biblioteca, e acho que há um tempo próprio para ler o Murakami e não se pode ler tudo de enfiada, quero dizer que é um género de fantasia misturado com a realidade, com histórias engenhosamente criadas. O que é bom neste livro, é recente a sua publicação cá, mas foi escrito em 1985, é que nos transporta à década de 1980 e é quase um regresso ao passado. Há meses, tinha lido o primeiro capítulo em inglês, mas eu e o inglês, bem, safo-me, serve para pouco mais do que responder aos turistas quando estou debaixo do viaduto de Sete Rios à espera do transporte do serviço, ‘Where’s the expresso station?’, e eu, «Outro, vale mais ter um cartaz igual aos da manifestação.», ‘You see that yellow wall?', e o rapaz olha e diz que sim e eu ‘Before that wall you turn right, go to the end, turn left, go upstairs.’ Agradecimentos do rapaz, espero que ele tenha entendido e não vá parar ao IPO e volto ao Murakami enquanto o autocarro não chega.

‘Coração, cora-ção, tira-se o cora fica o ção’, era o jogo de palavras que uma miudinha de uns sete anos fazia ao meu lado ontem à tarde no metro. E eu fiquei a pensar que ela tinha razão, coração, cora são, um coração que cora é um coração são e depois regressei, oh, surpresa, ao Murakami e sublinhei isto com o lápis do SeixalJazz:

‘- Não deves permitir que o cansaço se instale no teu coração – aconselhou ela. – A minha mãe dizia sempre isto. Mesmo que o cansaço se apodere de ti, do teu corpo, dizia ela, devemos continuar sempre a ser donos do nosso coração.’

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Quinta-feira, night and day

Tive um sonho muito estranho esta noite, depois de ter sido acordada pela Elvira, aí pelas quatro da madrugada. Tinha saudades da Alice. A Alice estava no veterinário. Calma, não está doente. Fui lá levá-la para a recolha de sangue, que será hoje.
 
Comecemos pelo princípio, então. Ontem saí mais cedo, fui a um notário tratar da papelada para a família da terra, entretanto a veterinária responsável pela recolha de sangue telefonou e fui deixar a Alice no sítio do costume, chovia que deus a dava, deixei a gata na gaiola, triste, mais triste eu fiquei, coloquei um tapete que tinha o cheiro das gatas e que a Elvira costuma arrastar pelo chão e ela lá ficou, com os seus grande olhos verdes a olharem-me enquanto me afastava.
 
Fui para casa, numa aberta, aí pela melhor hora de ir às compras no Dia que é a partir das 8 da noite (acho que fecha meia hora, ou uma hora mais tarde), fui utilizar o desconto de 1,5€ em 15€ em compras. Já tinha a lista feita e preços comparados e o Continente é tão mais caro, mesmo. Por exemplo, a areia perfumada - para as gatas só o melhor e o meu nariz agradece - é 1,64€ e no hiper é 0,30€ mais caro – e mais umas coisas com desconto, enfim, 15€ atingiram-se num instante, eu tontinha a falar sozinha com uma data de talões de desconto nas mãos a fazer contas de cabeça a ver se compensava o desconto. A maior parte nem foi utilizada, pois não compro esses produtos e consumo cada vez mais coisas da marca da loja.
 
De seguida, eram nove e picos, ainda pensei ir ao Seixaljazz para ver se me animava, mas continuava a chover e no dia seguinte teria que me levantar cedo e desisti.
 
Li um pouco, acabei com uma tablete de chocolate Nestlé, comi um iogurte, dei as boas-noites às gatas e fui para a cama.
 
Pela madrugada, então, a Elvira arranha a porta do quarto, acorda-me, abro a porta, entram as duas, saltam para a cama, ajeitam-se, a Joana continua a bufar à Elvira, odeia-a, não é brincadeira, não a aceita, há quase três meses que vivem juntas e não há convívio. A Joana é uma gata muito egoísta, muito ciumenta, agora que os outros gatos morreram é a mais velha e agora quem manda aqui sou eu. Ainda tolera a Alice, mas a mais novita nem barrada com paté de atum lá vai.
 
Lá dormimos as três e comecei a sonhar, embalada por um valente temporal. Senti, no meio do sonho, uma presença no quarto e o coração começa a bater mais rápido, eu desperto devagar mas continuo de olhos fechados. Então, abro os olhos e penso, penso sempre da mesma maneira, já que não é a primeira vez que tenho pesadelos ‘sobrenaturais’, «Não é nada, é energia, tu não és como a tua mãe, que ouvia a água a correr nas torneiras e a chave à porta e ninguém entra, etc. Tu não acreditas nestas coisas». Lá estico um braço e acendo o candeeiro da mesa-de-cabeceira e não funciona. Tiro o lenço que tapa os números fosforescentes do rádio-despertador (não consigo adormecer com luz) e está desligado. «Isto não é bom», lá pensei. Levantei-me (a sonhar, ainda) e fui ao quarto-de-banho, porque tenho outro rádio-despertador lá (dá-me jeito ver as horas e ouvir a Antena 2) e está a piscar algures nas três e picos. Pensei que tivesse faltado a electricidade devido à chuva. Ou seja, fiquei na mesma, não sabia as horas certas. Fui à cozinha, porque tenho lá um grande relógio na parede, e quando acendi a luz aquilo estava muito estranho. Em frente ao micro-ondas estava uma máquina de café. Não uma dessas caseiras, mas uma mini-industrial, até me recordo que tinha a cor vermelha, e ao seu lado duas pás do lixo, molhadas. Pás do lixo! A cozinha também estava molhada e procurei a tartaruga, para ver se continuava no seu canto. Não me lembro se estava lá, mas notei que a mesa da cozinha – uma grande mesa de vidro que está lá desde que comprei a casa – estava toda desarrumada e cheia de sacos de plástico. Continuo a sentir uma presença estranha em casa, mas, entrementes, o rádio toca. São seis horas. Acordo com a TSF.
 
Respiro de alívio. As gatas lá estão. A Elvira mia desconsolada. Tem saudades da Alice. Deita-se no chão e ronrona e mia quando eu pego nela e a coloco no ombro. Nunca a vi assim tão carente. A Joana olha-nos ciumenta, mas não se aproxima. Lá deixo a pequenita e ajoelho-me e encho-a de festas e mimos.
 
No quarto-de-banho, senti uma dor no lado direito da barriga. Tão forte que tive que me dobrar e pensei que fosse algo como apendicite. Depois pensei no mais simples, com toda a porcaria que comi na véspera – não tive tempo de almoçar, comi umas sandes e depois abri uma lata de sardinha em tomate e não esqueçamos o chocolate. Passei a hora antes de sair de casa a arrotar, enquanto procurava um Kompensan e nada.
 
Entretanto, li algures que houve um dia ‘purple’ ou ‘Spirit Day’, que significa apoiar os jovens lgbt contra o bullying, usando uma peça de roupa roxa. Bem, do dia 17 para hoje só vai uma semana, mas hoje estou roxa em 90% da vestimenta, nas galochas, na camisola de alças de licra e na camisola da Bennetton.
 
Falando em lgbt, estou a ler o último romance da Inês Pedrosa ‘Dentro de ti ver o mar’ e só agora, que já passei da metade, é que me está a entusiasmar. Não me cativou no início e é sobre mulheres e amor, posse, desespero, sofrimento, fado, no meio há muitas reflexões sobre o amor, o fundamentalismo, o feminismo, o individualismo e perdas e modernidade e enfim, tanta coisa que as personagens acabam por não ter a profundidade que mereceriam. No meio há uma rapariga iraniana que, para adquirir a nacionalidade portuguesa, casa com o homossexual de meia-idade seropositivo. Nesta parte, há umas observações sobre o flagelo da sida nos anos oitenta e a morte dos seus amigos, etc. Julgo que não valerá a pena incluir este romance na página da literatura gay portuguesa no Goodreads, é uma personagem que não evolui muito, secundária.
 
Acho que é o problema deste romance, quer falar de tudo um pouco, a IP escreve muito bem, mas aquilo que já todos conhecemos e depois há qualquer coisa que me desgosta, a maneira de intelectualizar certos temas. Enfim, só li dois romances delas que me emocionaram bastante, ‘Fazes-me falta’ e ‘Nas tuas mãos’.
 
Continuo com uma pontada do lado direito da barriga. Chove a potes. A Elvira está triste, a Joana resmungona e a Alice sozinha no veterinário por um bem maior.
 
Este dia vai custar a passar.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Felisbela

Já não me recordo do seu nome. Era uma menina loira, magra e de olhos azuis e seria um ou dois anos mais nova do que eu. Vivia no nosso bairro com o avô, já de uma certa idade. Eu andava na primária e ela numa escola de ensino especial. Por vezes, brincávamos enquanto esperávamos a camioneta de regresso a casa, ao fim da tarde, na central de camionagem, enquanto o avô dela conversava com a minha mãe.

Andava eu pelos meus doze, quase treze anos, e fomos viver para a cidade. No meu antigo bairro, eles lá ficaram, ela com o seu andar trôpego, sempre a sorrir, apesar dos dentes tortos, da fala arrastada e da espuma que ficava nos cantos da boca.

Há muitos anos que não me lembrava dela. Aos poucos, começo a recordar-me de pessoas que saíram da minha vida há muito tempo, que me disseram muito em determinada altura e que a distância, temporal e física, guardou numa gaveta da memória, pronta para ser aberta quando menos esperamos e mais precisamos.

Lembrei-me em escrever uma história sobre essa menina, que perdi há muito tempo, mas que regressou em forma de doces recordações da minha infância. Será que é verdade o que dizem, que à medida que envelhecemos começamos a recordar um passado cada vez mais longínquo, procurando, assim, um tempo em que fomos mais felizes, o tempo da infância?

Não escrevo nada sobre o jantar do passado sábado, mas entre memórias de um passado longínquo e um passado recente, resta o mais importante, a amizade e momentos que nos marcam indelevelmente. Aos amigos dedico este conto.


Felisbela

   A Felisbela tinha muitos problemas de saúde, não falava, andava com os pés metidos para dentro, encurvada, com um sorriso torto sempre presente no rosto, um bonito sorriso torto nos seus lábios molhados de saliva. Os seus olhos límpidos, azuis clarinhos como um céu sem nuvens, engoliam tudo, casa, mãe, irmã, cão, gatos.
   Ela tinha nove anos quando eu entrei na primeira classe. Ao fim do dia, regressei a casa na companhia da mãe e ela já lá estava, com a avó. Abraçou-me com muita força, apertando-me de encontro ao seu corpo magro, tão contente que não parava de dar gritinhos estridentes e balbuciando palavras incoerentes. A Felisbela ria muito, a saliva escorrendo pelo queixo e molhando a sua camisola com o Rato Mickey estampado.
   Eu puxei-a pela mão e ela, alta, muito mais alta que eu, franzina e pequena demais para a idade, deixou-se levar, os pés arrastando pelo chão de madeira, os seus gritinhos acompanhando-nos pelas escadas acima até ao meu quarto.
   Mostrei-lhe os cadernos novos, imaculados, os livros da escola, de exercícios, os lápis, os marcadores com doze cores diferentes, as canetas, azul, vermelha e verde.
   Nos meses seguintes, as páginas já estavam cheias de letras acabadas de aprender, depois vieram as palavras, os números, as contas. O meu dedo deslizava sobre o papel, enquanto lhe soletrava as palavras. Por seu lado, ela trazia da escola cartolinas pintadas com desenhos abstractos, pinceladas de amarelos, castanhos, rosas, azuis, roxos, verdes. Eu olhava para as suas obras de arte e encontrava uma princesa loira com os olhos azuis mais bonitos do mundo.
   Num dia de Janeiro, a Felisbela adoeceu e foi para o hospital. Eu estava no segundo ano do ciclo. Depois das aulas, fui para casa, entrei no seu quarto e tirei as cartolinas que estavam coladas na parede, enrolei-as e dirigi-me para o hospital. Pendurei-as na parede ao lado da sua cama, de modo a que, quando abrisse os olhos, a primeira coisa que visse fosse uma bela princesa de olhos azuis e de sorriso bondoso.
   Passados alguns dias, ela abriu os olhos. Eu não estava lá. Quem me contou foi a minha avó, que tricotava ao seu lado todas as tardes as camisolas que eu vestiria durante três invernos, porque seriam para a Felisbela. Abriu os olhos, respirando pela máquina de respiração artificial e fixou as muitas pinturas com que eu tinha decorado o seu quarto, juntamente com os seus peluches preferidos e as nossas fotografias. A custo, levantou um braço e apontou para uma cartolina, muito gasta, de um desenho que tinha feito há anos. A avó descolou-a da parede e colocou-a no seu peito e depois chamou a enfermeira.
  A Felisbela ainda viveu duas semanas daquele rigoroso Inverno. A pintura, essa, tem quase trinta anos. Está pendurada no seu antigo quarto, onde dorme, neste momento, a sua sobrinha com o mesmo nome, abraçada a um peluche do Rato Mickey.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

INDEX ebooks lança 'O Corredor de Fundo'


A INDEX ebooks tem o orgulho de anunciar o lançamento do capítulo 1 grátis do best-seller O Corredor de Fundo (The Front Runner) de Patricia Nell Warren, previsto para o próximo dia 28 de Outubro.  

Harlan Brown é um resistente, um treinador de atletismo conservador, que tenta afastar-se do seu passado numa pequena universidade americana. Billy Sive é um jovem e brilhante corredor que é gay e não se envergonha disso. Quando os dois se apaixonam, entram numa corrida contra o ódio e o preconceito que os levará aos Jogos Olímpicos de 1976 e a um desfecho chocante. Com mais de 10 milhões de exemplares vendidos em sete idiomas, este clássico da literatura gay é a história de amor gay mais popular de todos os tempos.
 
O lançamento da versão integral do romance deverá acontecer no início de Dezembro.

Mais informação no site da editora: aqui.

O funcionário - o conto do Miguel

É uma história do Miguel, escrita há dois anos, que bem que podia estar na Granta 2: Poder. Será que o Carlos Vaz Marques aceita sugestões? :)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Aristogatos XXV

Lição n.º 1: acordar a dona às seis, incluindo sábados, domingos e feriados, arranhando com vigor a porta do quarto.
Lição n.º 2: afiar as unhas no sofá, na tábua de engomar e nos casacos pendurados nas cadeiras.
Lição n.º 3: fazer escalada nos cortinados.
Lição n.º 4: beber a água da piscina da tartaruga, da loiça que está de molho e do poliban acabado de usar.
Lição n.º 5: usar os vasos de flores como quarto-de-banho.
(...)
Lição n.º 97: admirar a vista de um terceiro andar alto saltando para o parapeito da janela aberta.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Absurdo

'Marcos: «O que eu digo é que talvez possamos chegar ao ponto de termos de usar artilharia pesada, mas entretanto terão de ser usadas as armas ligeiras à mão ou ao ombro.»
Ver retorquiu: «A nossa capacidade ofensiva está a ser retardada.»
O Christian Science Monitor, ao meu lado, disse: «Isto é absurdo. É uma tira de Mutt e Jeff.»'
 
(...)
 
'Alguém quis saber se ele ia abandonar o país. «Não», disse ele, «como pode ver, ainda aqui estamos todos.» E ao dizer estas palavras virou-se, descobrindo então que não havia ninguém atrás dele.
Eu pensei: foi Kapuściński quem escreveu este guião.'


James Fenton, 'A Revolução Instantânea', Granta 2, pp. 114-115.
 
Estou a adorar este número dedicado ao Poder. Este relato do jornalista é sobre a revolução filipina que depôs Ferdinand Marcos em 1986. É uma história tão verdadeira quanto surreal.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Estratégia de sobrevivência

Eu e Tu

Um drama psicológico realizado por Bernardo Bertolucci, sobre dois irmãos que vivem separados, um rapaz de catorze anos, introvertido e anti-social, e uma jovem mulher de vinte e cinco, fotógrafa e toxicodependente, escondidos na cave do prédio onde ele vive com a mãe. Um retrato comovente da solidão, das dores de crescimento e da descoberta dos afectos. Obrigados a viver uma semana juntos (a semana que ele devia ter passado na neve, com os colegas da escola), acabam por reforçar laços de amizade e de cumplicidade.


La mia mente ha preso il volo
Un pensiero uno solo
Io cammino mentre dorme la citta'

I suoi occhi nella notte
Fanali bianchi nella notte
Una voce che mi parla chi sara'?

Dimmi ragazzo solo dove vai,
Perche' tanto dolore?
Hai perduto senza dubbio un grande amore
Ma di amorie e'tutta piena la citta,

No ragazza sola, no no no
Stavolta sei in errore
Non ho perso solamente un grande amore
Ieri sera ho perso tutto con lei.

Ma lei
I colori della vita
Dei cieli blu
Una come lei non la trovero' mai piu

Ora ragazzo solo dove andrai
La notte e'un grande mare
Se ti serve la mia mano per nuotare
Grazie ma stasera io vorrei morire
Perche' sai negli occhi miei
C'e' un angelo, un angelo
Che ormai non vola piu' che ormai non vola piu'
Che ormai non vola piu'
C'e' lei
I colori della vita
Dei cieli blu
Una come lei non la trovero' mai piu'

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Um país para nós

'É um jogo delicado. Se entrego um banco privado a um deles, tenho logo de entregar um canal de televisão pública a outro. Pouco a pouco, vou distribuindo o país entre nós. Felizmente, temos um país enorme e rico. Há-de dar para todos os meus filhos.'
 
José Eduardo Agualusa, 'O Bom Déspota', Granta Portugal 2 - Poder.


Este post foi editado no dia 16 de Outubro, para reforçar a parceria estratégica entre nós.

sábado, 12 de outubro de 2013

1997-2013

O Farrusco adormeceu ontem à noite. Deixou de comer, mantinha-se no seu canto, encolhido e triste, como que sabendo que a sua hora tinha chegado. Fiquei do seu lado enquanto levava o sedativo e a injecção.

Com ele, acaba a primeira família de gatos que tive, pai, mãe e filhote, Pitágoras, Bia e Farrusco. Tenho tantas saudades deles.