quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Plasticina, lagarta, formiga

Sou da geração que passava horas sentada em frente à televisão a ver os bonecos de plasticina checoslovacos - seriam mesmo checoslovacos ou seriam polacos, russos? E filmes de cobóis, devorava os filmes do Roy Rogers, aos sábados à tarde. 

A preto e branco, eram assim as duas Grundigs que existiam, uma de caixa vermelha em nossa casa e outra verde azeitona em casa da avó, na aldeia. Era lá que eu e o meu irmão passávamos todas as férias até ao Natal dos meus onze anos.

Antes de irmos morar para Viseu, vivíamos num lugar ermo, longe de tudo, não havia quase nada para além das casas, um mini-mercado, a padaria da Dona Gena, a escola primária que nunca frequentei, porque fui para o magistério primário, mesmo em frente do trabalho da minha mãe, uma garagem, um parque infantil com uns baloiços e uma grande aranha de ferro que dava para fazer acrobacias e de onde me espetei cara no chão várias vezes. A paragem da camioneta, os cafés, as lojas, a igreja ficavam a uns dois quilómetros, palmilhados, então, de segunda a sexta e ao domingo, dia do senhor deus e de ida obrigatória à missa.

Dessa altura, o que mais me recordo, para além dos quilómetros caminhados, são das lagartas dos pinheiros, pois vivíamos bem perto deles, junto a um pinhal onde brincávamos, filas de lagartas no chão, e das borbulhas que eu apanhava por causa delas.


Também a casa da avó, na aldeia, ficava num outeiro, afastada do centro do povo e aí não havia mesmo nada, excepto uma pequenina capela. Os cafés, a loja que vendia de tudo um pouco, a igreja, a estação do caminho-de-ferro, o cemitério ficavam muito longe.

Havia liberdade para andar na aldeia, nos campos, no nosso pinhal, que ainda tínhamos umas terras nessa altura, e apanhávamos pinhas com que enchíamos sacos de serapilheira e depois colocávamos no carrinho-de-mão. Bem o tentávamos empurrar, mas éramos miúdos demais e isso ficava a cargo do meu tio até casa.

Havia doces maravilhosos, que a avó tinha uma mão para a doçaria e nunca mais comi uma geleia de marmelo ou um doce de abóbora como ela fazia, mesmo com formigas que subiam pelo frasco, se o deixassse aberto na mesa da cozinha. E dei voltas à cabeça até recordar de onde tinha lido sobre formigas, sim, foi em 'No Meu Peito Não Cabem Pássaros', e se há algo que me prendeu a este livro, para além da escrita maravilhosa, foi a avó [a minha avó não foi exactamente uma avó como a descrita nem existiam antepassados famosos, com excepção, tavez, do Capitão L., segundo a placa que está na parede do cemitério e das inúmeras ruas com esse nome por este Portugal fora (mas julgo que não é do meu ramo da família, mas de outro, bem, parente afastado, assim sendo)].

'As formigas do Verão: São as formigas que trazem o Verão para casa. Dividem-no em partes muito pequenas e carregam-no às costas por caminhos só delas. Quando chegam, vão até à cozinha e descarregam-no nos doces e na fruta. O Verão é doce porque está nas coisas doces, mas às vezes é também amargo porque se trincam as formigas' - No Meu Peito Não Cabem Pássaros, Nuno Camarneiro.

Havia uma lareira na cozinha e o resto da casa da avó era gelado no inverno e a braseira circulava inúmeras vezes da cozinha para a sala, onde era depositada em lugar próprio, no suporte debaixo da grande mesa redonda, que se tapava com uma linda toalha azul e depois com outra de renda, feita pela avó, e lá ficávamos, à sua volta, nas longas tardes invernosas, chuvosas e frias, não só a ver televisão, eu e o meu irmão, e muitas vezes um casal de irmãos da casa da frente, que tinham mais ou menos a nossa idade, mas também a jogar ludo, muito ludo foi jogado naqueles tempos, às cartas, a ler o pato donald, o tex e a queimar a ponta das meias grossas, porque aproximávamos os pés das brasas ainda incandescentes.

Por essa altura, os desenhos animados japoneses eram (e ainda são) os meus preferidos. 'Conan, o rapaz do futuro', 'As aventuras de Tom Sawyer', 'Belle e Sebastião' são alguns desses exemplos.

Hoje em dia, o gosto por este género de desenhos animados permanece, claro, e se não revejo estas séries é porque tiveram um momento próprio, dos cinco, seis anos, até aos doze, treze. 

Estando a terminar a década dos trinta anos, todavia, não deixo de gostar de desenhos animados, sendo um dos meus filmes favoritos 'O Castelo Andante'. Anda por casa há anos o dvd em japonês, muito melhor que a versão encontrada no vídeo colocado.
 

19 comentários:

  1. As memórias de infância são sempre belas como um tempo perdido que paradoxalmente volta e não volta. Adorei o post. =)
    Bjs.

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  2. Que bom é falar de nós, das recordações da nossa vida,não é, Margarida?
    Interpreto este post como uma abertura tua ao teu mundo pessoal, não porque tenhas mudado, mas porque te sentes mais à vontade para o fazer.

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    1. tenho muito boas recordações da infância e são esses momentos que compensam os suplícios que passei, que foram alguns para criança de tão tenrinha idade :D (caminhar tanto todos os dias era dose e acordar muito cedo era pecado) e agora, mais de trinta anos depois, adoro caminhar. já acordar cedo, é mesmo por obrigação.
      não me importo de partilhar estes momentos. o post tinha muitos mais, mais achei que eram pedaços demasiado íntimos e cortei frases e frases...
      já tenho mencionado por aqui coisas deste género, o conto sobre a roseira é um exemplo.
      bjs.

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  3. Este, com pequenas adaptações, dava um belo conto para o teu livro. Já tinhas pensado nisso?
    PS: e já está próximo das 1000 palavras... ;D

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    1. 1237, mas inclui 500 do conto do miguel e o da virgem maria.
      não tinha pensado, é uma ideia a ponderar.
      já há três personagens com nome.
      está tudo muito em bruto. vou inserindo um e outro conto e as minhas histórias do pixel 3, quem sabe a roseira e o café (um conto que enviei para um outro blogue), mexo tipo batedeira e vejo se o bolo cresce :)
      acho que vou usar este blogue como uma caixa de petri, as bactérias, salvo seja, os meus contos, serão escrutinadas pelo microscópio, neste caso, vocês.
      :D

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  4. Gostava tanto do Tom! Adoro desenhos animados :) E este "post" fez-me lembrar tanta coisa que ficou "lá atrás" e de que tenho saudade :)

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    1. o tom era um dos desenhos animados favoritos. faz parte do período dourado da infância. era a voz da irene cruz, não era?
      mas não tenho nada desse tempo, há uns anos que estão à venda estas colecções, mas já não é a mesma coisa. se ver de novo, ficarei triste e desfaz-se a inocência (aconteceu isso com o 'verão azul'). o que é do passado, lá fica.

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    2. Já revi alguns episódios do Tom e não me desfez a inocência como dizes Margarida. Ganhei saudade isso sim :) E percebi porque é que determinada geração era diferente. Muito diferente dos miúdos de hoje em dia.

      Acho que o que é passado, lá fica (concordo contigo), mas é bom ser relembrado pelas coisas boas :)

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  5. Recuei à aldeia da minha avó :)

    Momentos kodac :)

    Beijinhos Grandes

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  6. Que bem que me fez recordar. Através das tuas palavras também eu recuei e revivi algumas passagens de tempos idos.
    E faz tão bem. E sabe tão bem.
    Beijinhos, Margarida.

    PS: Tenho tanto para ler aqui neste teu canto.

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    1. que bom que regressaste!
      tens tempo para ler e comentar. :)
      bom fim-de-semana.
      bjs.

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  7. Um bonito texto! Gostei especialmente do tom literário que lhe atribuíste. Falaste da tua infância de uma forma muito especial.

    A minha meninice não dista assim tanto. Foi passada na cidade, sem brincadeiras na rua, quedas no chão e feridas nos joelhos. Sempre fui protegido por estar frequentemente doente (até a natação provocava crises pelo frio apanhado na piscina!). Foram anos electrónicos onde o jardim da avó era o recreio... No colégio também éramos muito vigiados.

    beijinhos.

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    1. foram anos electrónicos... tristes? pelo menos, o jardim da avó foi a fuga necessária.
      bjs e as melhoras.

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    2. Não, nunca fui uma criança triste. Electrónicos pelo Game Boy, pelos jogos a pilhas, pelas consolas (Nintendo, PlayStation...). Tinha o que queria, mas nada substitui essas vivências soltas.

      Obrigado, mais uma vez.

      bjo.

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    3. não associei a isso, esses jogos nunca fizeram parte da infância e da vida adulta (nem wii tenho).
      obrigada porquê? :) tens outras vivências, igualmente importantes.
      bjs.

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  8. Sou da mesma geração (julgo que do mesmo ano até).
    Também adorava esses desenhos todos, os de plasticina, o Tom (tenho os episódios todos ;)... Mas também adoro o Castelo Andante e todos os outros filmes do Miyazaki.
    Que belas recordações.
    Bjs

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    1. somos de geração caderneta de cromos :D
      este realizador tem o condão de encantar, mas os japoneses fazem escola nesta área.
      bjs.

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