domingo, 10 de fevereiro de 2013

Missa de aniversário

Há um ano que os teus gestos andam
ausentes da nossa freguesia
Tu que eras destes campos
onde de novo a seara amadurece
donde és hoje?
Que nome novo tens?
Haverá mais singular fim de semana
do que um sábado assim que nunca mais tem fim?
Que ocupação é agora a tua
que tens todo o tempo livre à tua frente?
Que passos te levarão atrás
do arrulhar da pomba em nossos céus?
Que te acontece que não mais fizeste anos
embora a mesa posta continue à tua espera
e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez florido?

Era esta a voz dele assim é que falava
dizem agora as giestas desta sua terra
que o viram passar nos caminhos da infância
junto ao primeiro voo das perdizes

Já só na gaveta te levamos morto àqueles caminhos
onde deixaste a marca dos teus pés
Apenas na gravata. A tua morte
deixou de nos vestir completamente
No verão em que partiste bem me lembro
pensei coisas profundas
É de novo verão. Cada vez tens menos lugar
neste canto de nós donde anualmente
te havemos piedosamente de desenterrar
Até à morte da morte

Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates  
Todos os Poemas, Circulo de Leitores, 2000


A minha mãe faria hoje 63 anos. 

12 comentários:

  1. E que bem que se começa o Domingo,

    e, força para avançar neste dia :)

    Bjs

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    1. obrigada. regressei de um almoço de família. o momento mais ternurento foi o sobrinho adormecer nos meus braços. :)
      bjs.

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  2. é uma lucidez tão bela que se tropeçamos chega a ser cruel

    um beijo carinhoso

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    1. gostei muito deste poema. são tantos, é difícil escolher apenas um.
      obrigada.
      bjs.

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  3. Imagino que este dia não seja fácil. São tantas as recordações e a nostalgia pelos bons momentos... É o que fica quando o corpo se vai.

    Era uma senhora tão nova...


    beijinho, querida.

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    1. não foi fácil a tarde. tive um momento tão mauzinho que me deu para as limpezas. são, de facto, o melhor anti-depressivo :)
      agora dói-me o pulso direito, de tanto esfregar.
      obrigada pelas tuas palavras, são reconfortantes.
      bjs.

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  4. :) Ela está sempre presente Margarida. Não te esqueças disso.

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  5. Há alguns anos quando alguém de quem eu gostava muito morreu, este texto que encontrei num livro ajudou-me um bocadinho, porque é assim que eu espero que seja:


    O Quarto Ao Lado

    A morte não é nada ... Eu apenas fui para o quarto ao lado. Eu sou eu, e tu és tu. Seja o que for que tenhamos sido um para o outro continuamos a ser
    Chama me pelo meu nome de sempre, conversa comigo da forma espontânea que sempre usaste.
    Não uses um tom diferente, não faças um ar forçado de solenidade ou mágoa.
    Ri como sempre rimos das pequenas brincadeiras que nos divertiam aos dois.
    Brinca … ri … pensa em mim … reza por mim.
    Deixa o meu nome continuar a ser o nome familiar que sempre foi, deixa-o ser falado sem ênfase, sem qualquer sombra.
    A vida tem todo o significado que sempre teve. É a mesma que sempre foi
    Não houve nenhuma quebra de continuidade.
    O que é a morte além de um pequeno acidente?
    Porque deveria ficar fora do teu coração só porque estou fora da tua vista? Eu estou à tua espera, este é só um intervalo.
    Algures muito próximo, logo a seguir à esquina.
    Está tudo bem.

    De um Sermão feito pelo Canon Henry Scott Holland no Domingo de Ramos de 1910

    Espero que também possa ajudar.
    um beijinho
    Gábi

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  6. Sei o que se sente nessas datas; já passei pelo mesmo, com a morte de meu Pai e de uma irmã.
    Se te consola um beijinho de muita Amizade, aqui vai...

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