quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2013

O Livro dos Amores Risíveis

   '- A mim também essa mulherzinha me deu sorte -, disse Edouard e contou ao irmão que se tinha apaixonado por Alice, que fingira acreditar em Deus, que tivera de comparecer perante uma comissão, que aquela Cechackova tinha querido reeducá-lo e que Alice finalmente se lhe entregara, tomando-o por mártir. Mas não contou até ao fim como obrigara a directora a recitar o Padre Nosso porque lhe pareceu perceber uma censura nos olhos do irmão. Calou-se e o irmão disse-lhe:
   - Tenho seguramente defeitos, mas de uma coisa tenho a certeza. Nunca fingi e sempre disse de caras às pessoas o que pensava.
    Edouard gostava muito do irmão e a sua desaprovação magoava-o. Quis justificar-se e começaram a discutir. Finalmente Edouard disse:
   - Sei que foste sempre um tipo às direitas e que tens orgulho nisso. Mas faz esta pergunta a ti mesmo: porquê dizer sempre a verdade? Que nos obriga a isso? E por que devemos considerar a sinceridade como uma virtude? Supõe que encontras um louco e que te diz que é um peixe e que somos todos peixes. Vais discutir com ele? Vais-te despir à frente dele para lhe mostrares que não tens barbatanas? Vais-lhe dizer de caras o que pensas? Vá, responde-me.
   O irmão calava-se e Edouard continuou:
   - Se só lhe dissesses a verdade, aquilo que pensas realmente dele, isso queria dizer que aceitas ter uma discussão com um louco e que tu próprio és louco. É exactamente a mesma coisa com o mundo que nos rodeia. Se te obstinasses em dizer-lhe de caras a verdade, isso quereria dizer que o levavas a sério. E levar a sério algo de tão pouco sério é perdermos nós próprios toda a seriedade. Eu devo mentir para não levar loucos a sério e para não me tornar eu próprio louco.'

'Edouard e Deus' em 'O Livro dos Amores Risíveis', de Milan Kundera.

Gostei muito de ler este livro, na verdade, devorei-o em três dias. Em sete histórias escritas com ironia e algum desprezo, encontram-se considerações filosóficas sobre a vida e o amor. 

Aconselho a sua leitura, mas só o consegui encontrar na biblioteca.

10 comentários:

  1. este trecho é poderoso, de facto. e em mais do que um sentido :)

    só li do Kundera The Unbearable Lightness of Being (assim mesmo, em inglês, uma edição que me emprestaram, da Penguin, se não me engano), e já foi há tantos tantos anos. comecei a lê-lo numa viagem de expresso de Coimbra para o Algarve, pleno verão, e depois passei o tempo todo lá em baixo agarrado ao livro.

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  2. estive para trazer esse da biblioteca, também. estive tão fascinada pela agnès de 'a imortalidade' que registei-me com esse nick no fórum dos livros do sapo, aí nos finais dos 90 ou início de 2000. vou relê-lo e a insustentável está na lista.

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  3. Deve andar por aí um exemplar na minha biblioteca. Li-o há bastante tempo e também gostei.
    Beijinho

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    1. é daqueles autores a serem relidos de vez em quando.
      bjs e as melhoras.

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  4. Só li, há tantos anos, Deus meu, "A insustentável leveza do ser" e gostei muito.

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  5. Gostei muito do excerto e de algumas ideias que ele transmite. Deixou-me a pensar...o que é excelente! ^^

    Beijinhos :3

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  6. Retiram-se curiosas ilações deste excerto. Não diria que seja benéfico viver numa mentira, mas por vezes é reconfortante viver numa ilusão. Tendo em conta que a vida é curta e que a verdade pode ser dolorosa, enquanto cá andamos podemos viver relativamente "equivocados".

    beijinho.

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    1. ninguém te ultrapassa em filosofia, mark :)
      este livro tem contos que poderás gostar.
      não sei se será reconfortante, poderás continuar a viver a mentira e a páginas tantas estares tão enrodilhado nessa 'realidade' que não vês mais nada. o outro acaba por ser gozado, sofrer ou também ele viver na ilusão que é amado quando não o é.
      há um conto com um casal de namorados que estão de férias e a dada altura fingem não se conhecer e ele dá boleia a ela como se fosse uma estranha e ela deixa de ser tão púdica e liberta-se e ele fica a pensar se ela na vida real não será mesmo assim...
      bjs.

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