quinta-feira, 11 de abril de 2013

A Sombra dos Dias


Há mais de um ano que queria ler este livro e, finalmente, o João Roque teve a gentileza de mo emprestar.

A Sombra dos Dias’ é um romance autobiográfico de Guilherme de Melo, tendo sido escrito entre 1978-79 e publicado pela primeira vez em 1981 pela Bertrand.

A primeira parte descreve o início de vida dos pais de Guy, a personagem principal, bem como os seus primeiros anos de vida até à idade adulta, quando se afirma como jornalista. Termina na anulação do seu casamento e consequente escândalo, quando a sociedade de Lourenço Marques descobre a sua homossexualidade. A segunda parte cobre os anos de ouro de Guy, nos quais ele atinge os píncaros da fama como jornalista e vive intensamente a sua condição de homossexual, frequenta as parties cheias de jovens militares que, naquela altura, faziam a comissão em Lourenço Marques, actual Maputo (rapazes que, a troco de uns dinheiros para a diversão, colmatavam a solidão dos homossexuais), ao mesmo tempo que recrudesce a guerra em Moçambique, até ao momento em que se dá o 25 de Abril de 1974. Nesta altura, Guy vive relacionamentos mais ou menos fixos, até que esses parceiros, que nunca foram homossexuais, estando, por conseguinte, do outro lado do muro, acabam por se casar e terem filhos. Por fim, a última parte é sobre o fim da sua vida em Lourenço Marques, em que ele desiste de trabalhar no jornal ao qual tinha dedicado vinte e três anos de vida e ele e a sua família (mãe e duas irmãs), resolvem vir viver para Lisboa e recomeçam do zero, com uns caixotes a servirem de bancos numa casa acanhada do Príncipe Real. Guy vê-se sem trabalho, sem as comodidades de antigamente, passa dificuldades, ao mesmo tempo que, aos 45 anos, entra num relacionamento destrutivo e doentio, que o forçou a ir para a província para se restabelecer após um violentíssimo ataque. 

A Sombra dos Diasé um livro romântico, em muitos momentos a sua narrativa torna-se repetitiva, quando descreve os companheiros de Guy, viris, adónis, gladíolos, contudo, nunca homossexuais na sua plenitude.
São 549 páginas de leitura fácil, muitas vezes melosa, se bem que por trás da simplicidade da escrita de Guilherme de Melo esteja uma história marcante, sensível e corajosa de um homem que nunca escondeu a sua condição de homossexual.

A única crítica menos boa foi, na segunda parte, eu ter ficado muito, mas mesmo muito farta da aura de mito de Guy.

18 comentários:

  1. Estava à espera desta postagem, por aquilo que já tinhas deixado escrito no "Goodreads".
    Este livro é para mim, sem qualquer sombra de dúvida, o melhor de Guilherme de Melo e eu li praticamente toda a sua obra.
    É nele que o autor narra os factos mais importantes da sua vida e fá-lo de uma maneira muito simples, nada rebuscada, bem ao estilo das suas crónicas jornalísticas.
    É curioso que há dias, em conversa com o Miguel, sobre este livro, que ambos lemos uma primeira vez, quando éramos mais novos e ambos relemos mais recentemente, concluímos isso mesmo, e não quero adiantar-me ao Miguel que aqui vai decerto deixar a sua opinião, ele teve leituras diferentes quanto à forma de escrever de GM.
    Já quanto a mim, sempre o li assim, despojado daquilo que a maior parte dos escritores tão bem sabem fazer que é engrandecerem as frases com um conteúdo mais literário.
    GM não o faz, está a contar-nos uma história, a dele e fá-lo como numa conversa, com pormenores que podem parecer repetitivos mas que fazem parte dessa mesma história.
    Guilherme de Melo foi um homem muito conhecido na sociedade laurentina e não só na sociedade , mas também muito popular, pel seu trabalho jornalístico.
    Os factos que relata sobre o seu casamento falhado e a consequente assumpção da sua homossexualidade tiveram um enorme impacto e é preciso não esuecer todo o contexto em que o livro está inserido, quer quanto à Lourenço de Marques colonial de então, quer aos preconceitos que eram muito maiores que hoje, toda a envolvência da guerra colonial e esse é um aspecto a não subalternizar pois todos os muitos factos que ele relata com militares "não homossexuais" são absolutamente reais e repetitivos ao longo de toda a guerra colonial e em todos os sítios, e eu próprio sou testemunha de vários que tenho contado.
    Ele não é meloso, ele é assim, apenas e tão só.
    Poucas vezes tenho lido um auto retrato tão nítido como aquele que Guilherme de Melo faz neste seu livro.
    Além do mais, o livro foi uma pedrada no charco esgnado da vida literária portuguea, e não só, quando foi publicado.
    Não sei se é do teu tempo, mas Guilherme de Melo foi durante muito tempo a única figura pública portuguesa a aparecer desassombradamente na RTP (a única até então) a dar a cara e a fazer parte de mesas redondas em que ele estva sózinho contra toda a gente; mas sempre o fez com muita dignidade, sem nunca entrar em discussões, muito ao seu estilo, que é exactamente o que mostra nesse livro, para mim, admirável.

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    1. João, fico-te muito grata pela tua opinião, também estava à espera dela, como deves suspeitar.
      é a primeira vez que li este livro, e a sua escrita não foge aos seus outros livros, que também os li. se esperar uns tempos e o reler, poderei ter outra opinião, como muitas vezes acontece.
      quanto aos militares que mantinham relações homossexuais, tu já tinhas falado nisso várias vezes, mesmo o GM fala num triste episódio de revelações de cartas e no suicídio de um jovem militar, e isso impressionou-me imenso. claro que havia relações homossexuais entre os militares, mas isso não era divulgado, por outro lado, os 'não homossexuais' esses, sim, faziam a sua vida boémia. há aí uma diferença entre aqueles que sofriam por serem e escondiam e esses últimos, por não o serem em última instância.
      lembro-me muito vagamente do GM na televisão, por isso não me recordo do seu comportamento e maneira de estar.

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  2. Nunca li, mas vou pô-lo na minha lista.
    Estou quase a acabar o Murakami e estou a adorar. Quando terminar, digo-te o que achei. :)
    Bjs.

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  3. Que bom.
    Vinha ler uma recensão crítica ao livro de GM e afinal pude ler a tua recensão, a opinião do João e fiquei cheio de vontade em ler o livro.
    Ai tempo, tempo que me absorves tanto com o quotidiano desinteressante.
    Obrigado, Margarida.
    Bjs.

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    1. é a minha opinião, Pedro. no ano passado já tinha escrito sobre GM: http://umbloguesemnome.blogspot.pt/2012/05/guilherme-de-melo.html

      tinha gostado imenso de ler aqueles livros, mas eram breves e leram-se muito rápido. Também li rápido este romance, que o enredo prendia, embora a letra pequenina não ajudasse a leitura, ou seja, 549 páginas hoje em dia resultariam no dobro.
      dizer que adorei, não, não adorei, nem estará no molho de livros que considero indispensáveis, mas isto deve-se ao contexto em que o li: agora, em que a sociedade é muito mais aberta e convive cada vez mais com a homossexualidade.
      mas é um facto inegável que GM contribuiu para a aceitação com este e outros romances e com a sua presença na comunicação social, como o João menciona.
      bjs.

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  4. Acho que entendo o que escreves sobre o livro. Eu já escrevi tanto sobre ele (“tanto” é capaz de ser exagero eheh), que não sei se terei muita coisa a acrescentar. Mas sempre deixo umas notinhas.

    1. Acho a tua nota um pouco redutora. Resumes muito bem o livro (no 3º parágrafo), mas acho que deixas de fora o principal: mais do que “romântico”, ASDD é uma saga exemplar – individual, mas também geracional, sociológica, e sobretudo histórica; não conheço outro livro que relate de forma tão precisa o que era o modus vivendi colonial urbano, o que foi viver, do lado da sociedade civil, a guerra colonial, e o que foi o fim da presença dos portugueses em Moçambique, em Lourenço Marques, e os dramas da sua vinda para Portugal.

    2. Nesta decorrência, o livro não se esgota na “autobiografia homossexual” do autor. Pode não o parecer, dado que estamos a tão curta distância, mas ASDD é o mais extraordinário romance histórico que eu conheço sobre os últimos 40 ou 50 anos do império colonial português em África, pelo menos na África oriental. E com a vantagem de a fonte da pesquisa ter sido uma memória fresca dos acontecimentos, ainda por cima treinada profissionalmente.

    3. E como todas as grandes sagas, o Guilherme de Melo consegue fazer tudo isto sempre seguindo a personagem principal (para o caso importa pouco que seja ele próprio), as suas vivências, os seus dramas. Contar a história do mundo a olhar para um indivíduo é, como sabes, a marca dos grandes romances clássicos.

    4. O estilo narrativo do Guilherme de Melo pode parecer um pouco frívolo, tudo parece resolver-se em sucessões de festas, ou de engates, ou de acontecimentos prosaicos, tipo novela das oito. Eu próprio quando li o livro pela primeira vez (há mais de 30 anos, valha-me deus…) fiquei um pouco com essa impressão. Mas engano meu, claro. A linguagem simples, neutra, muito colada à trama e às personagens, terá a ver, creio eu, com uma certa escola jornalística (talvez um pouco ‘passé’, mas não tenho a certeza de que isso seja uma coisa boa, comparando com o que é o ‘jornalês’ de hoje), em que a linguagem e o estilo se submetem à narrativa, e o narrador quase desaparece (em ASDD, a personagem está sempre presente, mas quem conta a história nunca aparece – que os dois sejam, fora do romance, uma única e mesma pessoa, não é, para este efeito, relevante). É na trama, no enredo, nos diálogos, nas peripécias, nas descrições, que se inscreve o essencial da mensagem que o autor nos quer entregar.

    5. Uma nota pessoal: li o livro há 30 anos, era um puto, e ele tocou-se sobretudo pelo aspecto homossexual da história. À época, a homossexualidade era praticamente invisível em Portugal, sobretudo em termos mediáticos e culturais (na verdade não havia homossexuais ou gays, só maricas e paneleiros!). E o livro vinha dar expressão às histórias insinuadas acerca do Guilherme de Melo que eu conhecia por via familiar, mas sobretudo, e de modo muito impressivo, permitiu-me dialogar com a minha própria condição sexual.
    Reli o livro há uns 2 ou 3 anos (ou 4), e foi toda uma revelação. Interessou-me sobretudo a saga colonial, perceber como tinha sido o modo de vida dos meus pais (que são da geração do Guilherme de Melo e do mesmo meio socio-económico), conhecer a perspectiva sobre um pedaço da nossa história recente de alguém que foi simultaneamente narrador e protagonista dessa história, e que, ainda por cima, a viveu de modo intenso e, em certos aspectos, em ruptura com ela.

    6. Entendo que, como em relação a todos os outros livros, sobretudo aos romances, ASDD possa interessar e “dizer” mais a umas pessoas do que a outras. Uma história sobre a Lourenço Marques da minha infância, à partida interessa-me mais do que uma saga passada em Seoul ou em Medellín. Mas o supremo encanto da literatura é, como nos acontece (a nós, leitores dedicados, como tu e eu) tantas vezes, por vezes descobrirmo-nos nas narrativas dos outros.

    7. Caramba!, Margarida, sou um palavroso. Isto pretendia ser só um comentariozinho e olha para o que já aqui vai…

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    1. :) mas eu gosto que sejas palavroso, pois dá-me oportunidade de perceber mais um pouco o livro. tens razão ao referires que sou redutora, não mencionei a guerra, que ele relatou bem, o contexto homossexual ficou reduzido, a vida social, burguesa idem, mas adorei o facto do seu pai trabalhar para o caminho-de-ferro, identifiquei-me muito (por ter tido um avô com essa profissão, que, infelizmente não conheci pessoalmente, mas esteve muito presente na minha infância - foi chefe de estação em várias estações da beira alta e trás-os-montes até 1960, mais ou menos, depois a minha avó foi com os filhos para angola, nasci lá, a família regressou em 75), emocionei-me com o êxodo de lourenço-marques, pois também vivi isso indirectamente, não me lembro, tinha 2 anos, mas era assunto recorrente por parte da minha mãe. ela tinha taantas saudades e quando pela internet eu lhe mostrava fotos de benguela ou ela ia pelo google maps, não parava de se recordar desses bons tempos.
      tenho muita pena de ela não ter tido oportunidade de lá regressar, dizia sempre que gostaria de o fazer, mas não se proporcionou.

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  5. Fiquei com vontade de ler o livro

    Bjs

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    1. no fundo, é o que se pretende com este tipo de post, despertar-vos o interesse :)
      bjs.

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  6. E que bom que é encontrar amigos assim na blogosfera ;)
    Bjs e bom fds

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  7. Não li o livro, mas é uma óptima sugestão: aborda a homossexualidade e toca num país que me é muito querido, Moçambique. Só por isso valerá a pena.
    Num outro patamar, Guilherme de Melo é de facto um homem corajoso. Recordo-me de o conhecer como gay assumido há anos, ou seja, foi dos primeiros homossexuais mediáticos que conheci. De certa forma isso leva-me a admirá-lo porque acredito que não tenha sido nada fácil revelar-se num Portugal ainda mais mesquinho e fechado. Provavelmente muitas portas se fecharam, contudo, certamente outras se abriram ou não estaríamos aqui a elogiar o seu trabalho. :)

    beijinho.

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    1. sim, eu também o admiro, pela sua frontalidade e coragem. quanto ao livro, como eu não o encontrava na biblioteca e está esgotado há anos, terás de o pedir emprestado, como eu o fiz. como não me recusou, o JR quase de certeza que to pode emprestar também :).
      e ainda anteontem emprestou-me mais dois.
      e aproveitando esta deixa, podia formar um clube do livros, eu empresto livros, desde que manifestem esse interesse :) (um dia destes, sairá um post com os vários, embora poucos, títulos).
      bjs.

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  8. Não conhecia e fiquei com vontade de o ler! Obrigado pela dica!

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  9. Lembro-me bem que, quando li A Sombra dos Dias, fiquei com a impressão que lhe faltava um grãozinho de génio. Esta poderia ser "a" obra monumental e dramática da literatura portuguesa sobre a guerra do Ultramar, sobre a descolonização, sobre os "retornados", ainda para mais por ser uma autobiografia e por ter uma perspetiva muito específica, a de um homossexual. Apesar de não ser a tal obra genial, não deixa de ser uma excelente leitura, de uma coragem difícil de avaliar no tempos presentes. Para ler e reler!

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    1. concordo em absoluto contigo. é o tipo de narrativa do GM, tão característico e que gostei noutros romances dele, mas que neste achei demasiado, olha, demasiado 'croniquês' (esta palavra existe?) em algumas partes. teria sido muito interessante aprofundar a guerra e a questão dos negros, por exemplo.
      quanto a reler, talvez daqui a uns bons anos :)

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