terça-feira, 9 de abril de 2013

Atropelamento mortal

Nalgum oásis do princípio ele fora
um fugitivo brilho no olhar de deus
a vida havia de lho lembrar muitas vezes

Atravessou as nossas ruas entre gatos
a chuva molhou-lhe as pobres botas cambadas
Teve um banco de jardim teve amigos um deles o sol
Sempre sem o saber procurou deus
Um dia foi campos fora atrás dele perdeu o emprego
na câmara municipal. Teve mãe mas depois
nunca mais foi solução para ninguém

Naquele dia a morte instalou-o
confortavelmente no céu. Lá se foi
com seus modos humanos seus caprichos
e um notório acanhamento em público
(há-de a princípio faltar-lhe à-vontade entre os anjos)

Tinha o nome no registo agora habita
nas planícies ilimitadas de deus
Nas suas costas ainda se derrama
a tarde interrompida
Manhãs e manhãs desfilarão sobre ele
caracóis cobrirão a memória daquele
que foi da sua infância como qualquer de nós

Teve um nome de aqui andou de boca em boca
agora é deus que para sempre o tem na voz

Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates

6 comentários:

  1. Continuo a apreciar muito a forma como divulgas a poesia de Ruy Belo no teu blog.
    É quase um serviço público.

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    1. obrigada.
      gosto muito de RB e achei adequado.
      bjs.

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  2. Só posso dizer: maravilhoso!
    É tão bom ler poesia, e é muito bom mesmo ler Ruy Belo.
    Bjs

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    1. :) estava por aqui nos rascunhos (tenho imensos rascunhos...)
      bjs.

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  3. Ruy Belo é encantador. É sempre bom ler poesia. Obrigado!

    beijinhos.

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    1. eu é que agradeço por também gostarem. :)
      bjs.

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