sábado, 20 de abril de 2013

Peregrino e Hóspede Sobre a Terra

Meu único país é sempre onde estou bem
é onde pago o bem com sofrimento
é onde num momento tudo tenho
O meu país agora são os mesmos campos verdes
que no outono vi tristes e desolados
e onde nem me pedem passaporte
pois neles nasci e morro a cada instante
que a paz não é palavra para mim
O malmequer a erva o pessegueiro em flor
asseguram o mínimo de dor indispensável
a quem na felicidade que tivesse
veria uma reforma e um insulto
A vida recomeça e o sol brilha
a tudo isto chamam primavera
mas nada disto cabe numa só palavra
abstracta quando tudo é tão concreto e vário
O meu país são todos os meus amigos
que conquisto e que perco a cada instante
Os meus amigos são os mais recentes
os dos demais países os que mal conheço e
tenho de abandonar porque me vou embora
pois eu nunca estou bem aonde estou
nem mesmo estou sequer aonde estou
Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
mas o país que tinha já de si pequeno
fizeram-no pequeno para mim
os donos das pessoas e das terras
os vendilhões das almas no templo do mundo
Sou donde estou e só sou português
por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez

Ruy Belo, Transporte no Tempo

12 comentários:

  1. Quando vi um poema, mesmo sem ler, e muito menos olhar para o nome do autor, adivinhei que seria Ruy Belo. Porque seria?
    Eheheh...

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  2. A sensação que retirei daqui foi que a única coisa que fica é a nacionalidade, mesmo quando Portugal nos empurra para fora do seu ventre. Lembrei-me logo dos meus amigos todos que tiveram que ir para o estrangeiro para sobreviver, e muitos deles com mágoa de não puder cá ficar. Gostei muito.

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    1. RB viveu em Madrid entre 1971 e 1977, como leitor de português.
      obrigada, publicarei mais uns poemas dele aos poucos.

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  3. Muito bom. Subscrevo por inteiro.
    Bjs

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    1. sim, e tão adequado neste momento...
      bjs.

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  4. Adorei este poema. Partilho das reflexões de Ruy Belo.

    Eu sou muito avesso a nacionalidades e patriotismos. Gostaria de morar noutro país, conhecer novas culturas e gentes. Os países são construções humanas. A Terra desconhece fronteiras. Agora lembrei-me de John Lennon quando, na música "Imagine", preconiza o fim dos países. Não poderia concordar mais com ele.
    Também só «sou português por ter em Portugal olhado a luz pela última vez».


    beijinho.

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    1. *primeira vez

      Onde é que eu fui buscar a "última"? OMG :D

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    2. sou portuguesa onde me sentir bem. de momento, não me sinto muito bem neste país, mas não o nego, embora não chegue ao extremo dos nossos emigrantes, que guardaram um saquinho da sua terra natal debaixo da cama, em tempos idos.
      todavia, quando viajava e mesmo sem ficar muito tempo longe de casa, sentia umas saudades do meu canto, do meu país e tendia em ir a cafés portugueses quando os encontrava.
      era tão bom se pudéssemos viver como o Lennon idealizou, contudo os países existem graças à guerra e à conquista, quanto mais terra, mais poder. hoje, não terra, mais dinheiro, claro...
      bjs.

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    3. :) acho que te percebo, foi um engano verdadeiro. não queres ficar por cá depois de terminares o curso, e concordo, vai ver o mundo, alarga os conhecimentos e vivências, só terás a ganhar :)
      bjs.

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