sábado, 4 de maio de 2013

Eu queria um Tobias, veio uma Bia

Quando a Bia era jovem, gostava da rua. Eu colocava-lhe o arnês, a trela azul e a coleira anti-pulgas e descíamos as escadas do velho prédio da Mouraria. Comia as ervas dos cantos, cheirava as coisas, o ar, olhava tudo, curiosa, com os seus imensos olhos azuis.

Quando tinha uns dois anos, conseguiu deslizar pela janela da cozinha, que eu deixava entreaberta, e saltou para um quintal abandonado. Felizmente, vivíamos num segundo andar baixo. Já era de noite, muito tarde, e não incomodei a vizinha do rés-do-chão, pois era pela sua casa que teria acesso a esse quintal. Nessa noite, a Bia dormiu ao relento. Estava uma noite bonita e quente e enrolou-se dentro de um balde que eu tinha deslizado por uma corda com a esperança de ela saltar lá para dentro e eu a puxar. Pois sim...


A Bia escarrapachava-se nos meus ombros quando estava sentada à mesa a escrever no computador. Ela batia no meu braço direito com a patita quando eu estava sentada no sofá com o portátil nos joelhos, como que a dizer 'dá-me atenção, eu estou aqui.' Poisava-o na mesa e ela subia para o meu colo, aninhava-se e fechava os olhos.


Quando eram horas de ir para a cama, eu batia palmas, levantando-me do sofá e anunciava 'vá, meninos, são horas de dormir.' Os outros gatos saltavam e caminhavam, pachorrentos, a Bia, ainda há umas semanas, espreguiçava-se toda, bocejava, olhava-me e ajeitava-se melhor no sofá. Eu pegava nela, fechava a porta da sala e colocava-a na sua cama.


Quando arrendei a casa de Lisboa, quis, de imediato, ter um gato. Tendo crescido com animais, não imaginaria a minha vida sem eles. Tinha já pensado num nome, Tobias.  Quando mo deram, disseram que era muito mimado e que mamava em duas gatas. Eu abracei-o, fui para casa, olhei-o e era uma gata. Não importava.


'Em vez de um Tobias, veio uma Bia' era a frase que eu repetia muitas e muitas vezes.


Quando precisava de carinho e ânimo, lambia-me o queixo com a sua língua de lixa e pousava o focinho no meu ombro. Quando precisava de relaxar, bastava fazer-lhe festas e ela ficava no meu colo tempos infinitos a ronronar. 


Obrigada, Bia, por estes dezassete anos. Fui muito feliz.


A Bia foi eutanasiada esta manhã.


21 comentários:

  1. Um beijinho para ti, Margarida. Eu sei o que sentes.

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  2. Que pena :(

    Os animais de facto entram pela nossa vida e deixam sempre saudades, porque com eles, podemos sempre contar, ao invés das pessoas, que hoje são assim e amanhã são assado.

    Ela deve ter partido feliz, sabendo que a amavas :)

    Força :)

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  3. há desgostos grandes, há desgostos atrozes, há desgostos desesperantes.

    mas não há nenhum desgosto igual ao de perder um animal de estimação, e nenhum igual ao de perder um gato (e a mágoa de os mandar adormecer, feita tanto de generosidade como de arrependimento)

    hoje este conto é para ti, com um beijo grande:

    http://innersmile.livejournal.com/570843.html

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  4. Lamento muito, Margarida. Foram dezassete longos anos na sua companhia, uma eternidade! Imagino que nada do que se possa dizer te conforte, mas fica um beijinho meu. Coragem. :|

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  5. muito obrigada pelo vosso carinho e apoio.
    bjs.

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  6. Eu comentei, mas como não vejo o comentário, deduzo que o tenhas apagado sem querer. Dizia no comentário que lamento muito. Foram longos dezassete anos. Deixo-te um grande beijinho. Coragem! :|

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    1. não apaguei. estava no email, mas os óculos não têm limpa-pára-brisas :) passou-me. já o publiquei. obrigada. bjs.

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  7. Um grande beijinho, não há palavras nestas alturas. Foi muito feliz, fez-te certamente muito feliz e estará no teu coração.

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  8. Tinha quatro postagens para ler e como sempre comecei da mais antiga para a mais recente. Já deves ter reparado que quando falaste da Bia eu te disse que não te desejava melhoras, pois estava a ver exactamente o "filme" do que se tinha passado com o meu Boris.
    E agora chego aqui e tudo se confirma. Também levei o meu goto ao veterinário para levar a injecção letal e só eu sei como fui capaz...
    Por isso, só posso estar contigo neste momento.
    Mas como dizes ela deu-te momentos muito felizes como tu lhe deste a ela.
    Mas não vai desaparecer tão depressa como se pensa a saudade de um animal que se perde. Eu tenho aqui duas gatas que adoro, mas não esqueço o meu Boris, o meu "pequenino"...
    Beijinho muito amigo.

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  9. que triste! há anos, passámos pela experiência. foi tão penoso. doloroso. solitário. parece ato de traição, mas achámos que não. traição seria manter a Inês, a nossa bicha dilecta, a sofrer horrores. foi tão triste. recordar isso ainda me deixa com o coração tão pequenino. tratámos de arranjar outro animal e chegou e a Victoria. enfim, abraço! (e vá lá que o conto do Miguel é maravilhoso!)

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  10. obrigada por tudo.
    sim, foi muito difícil e eu passei pelo mesmo há 3 anos, com o Pitágoras, a diferença é que ele era um paz de alma e tomava os medicamentos sem problemas. a Bia, mesmo muito doente, não perdeu a força. continuou caprichosa e recusava-se a tomá-los e a comer. foi o mais correcto. estava a sofrer.
    agora tenho a Joana com alopecia devido ao stress (já de si é uma gata nervosa) e o Farrusco, com 16 anos, está inconsolável. mesmo a Alice não brinca como antes.
    custa muito, sim.
    bjs.

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  11. Sei bem o que sentes pois passei precisamente por isso duas vezes e não foi assim há tanto tempo. Nós afeiçoamo-nos de tal forma aos animais e sobretudo àqueles que escolhemos para nossa companhia, que vê-los partir é uma dor terrível. O melhor é recordar, como fizeste neste belo post, os momentos tão especiais e únicos que partilhámos com eles.
    Um grande beijo Margarida.

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  12. Foi uma vida... Estou certo que tiveste momentos muitos felizes na companhia dela e que é isso que irás recordar.
    Um grande beijo.

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  13. Nestas ocasiões nunca conseguimos dizer nada que sirva de consolo, mas fica um abraço apertado...

    Gosto de imaginar que quando eles partem vão para lugares maravilhosos, no caso da Bia foi para o Paraíso dos Gatos onde existem campos intermináveis, sol quentinho para eles se deitarem e espreguiçarem, borboletas, ratinhos e muitos novelos de lã para brincarem! A Bia estará certamente feliz neste lugar e a olhar por ti e pelos outros. :)

    Abraço e beijinho.

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  14. obrigada pelo carinho. dos 22 aos 39 anos amadureci, formei-me, mudei de casa várias vezes, de trabalho, sofri desilusões imensas e outras tantas alegrias e ela sempre a meu lado.
    bjs.

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  15. Um enorme beijinho. Também sei o que é perder um animal de que se ama.
    Foi uma vida como o Sad disse, e cheia de óptimos momentos como recordaste neste post.
    A maior força Margarida,
    Um grande beijinho

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