sexta-feira, 14 de junho de 2013

Amor XIII

Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre -
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego -
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte -
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor que nos traiu -
Quanta traição existe em possuir-se a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro -
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará -
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só -
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na ausência indestrutível que
nos faz ser um no outro -
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida -
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam -
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.


Jorge de Sena, Sinais de Fogo, p. 495.


É extraordinário, este poema...

10 comentários:

  1. Respostas
    1. o romance não é nada fácil de se ler, mas chega-se ao fim e lê-se isto e ficamos... uau! e a cena que o precede, então... tens o livro, é leres esse bocadinho. :)

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  2. Estou todo arrepiado.
    Que lindo poema! ^^
    Beijinhos :3

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    1. foi assim que eu fiquei quando o li ontem à noite...
      bjs.

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  3. Poderoso :) o poema, faz arrepiar qualquer alma apaixonada ;)

    Beijinhos

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    1. eu só existo no outro... embora o livro não seja fácil de ler, aconselho-o, sem dúvida.
      bjs.

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