quarta-feira, 26 de junho de 2013

As Confissões de Frei Abóbora

Acontece-me muitas vezes, agora. Nas últimas páginas de um livro, quando já há muito que é previsível o desenlace da história, começo a chorar. E choro e choro e tenho que tirar os óculos, que é uma choradeira imensa. Com este livro do José Mauro de Vasconcelos não foi diferente. Ou é por eu estar mais sensível, ou é porque o livro mantém o mesmo estilo de 'O Meu Pé de Laranja Lima'. A personagem é a mesma, o Zezé, o Gum, tão doce, bondoso como era em criança, mas agora é adulto e, no fim, um triste velho.
 
O livro está dividido em três partes: 'A Oração', 'Pedaços de Memória' e 'As Tartarugas', ou seja, inicia-se no presente, ele como Frei Abóbora, não verdadeiro religioso, mas age como tal, como um missionário sem batina, retrocede para o passado, para a sua vida adulta e regressa de novo ao presente, com alguns flashbacks pelo meio que esclarecem o seu comportamento face a Deus. Inclui, mesmo, um episódio no colégio interno, ele adolescente, a ser molestado por um professor religioso.


Zezé, então, cresceu e sobrevive fazendo trabalhos de modelo na escola de Belas Artes e se prostituindo. Numa cena de modelo, por exemplo, está como Cristo na cruz, apenas de tanga e com as pernas cheias de marcas da seringa com morfina que um homossexual lhe tinha injectado na noite anterior.

Numa noite, numa festa, conhece aquela que será o amor da sua vida, uma mulher alguns anos mais velha que ele, Paula, Pupinha, Pô, Toujours, como ele a tratava carinhosamente e vivem juntos uma bela história de amor, com alguns interregnos pelo meio. Ela passa temporadas em Paris e ele na selva com os índios, tratando das suas maleitas (deixou um curso de medicina a meio), tomando conta da farmácia, arranjando roupa, comida, dinheiro. Afinal, a sua mãe era índia e a selva estava-lhe no sangue.
 
Dez anos vivem juntos Paula e Baby, pois é assim que ela o trata. Então, ela começa a beber, a entrar em depressão, a temer a velhice. Paula nota os anos a passarem até que fica doente. Mas da doença ele desconhece e, depois de uma grande discussão, ele sai de casa dela e nunca mais a vê. E ela, da janela, vê-o a afastar-se, lindo na sua camisola amarela e só deseja que ele a recorde como ela é, bela.

Mais alguns anos se passam, ele nunca a esquece, até que acontece uma catástrofe. Ab estava na cidade recolhendo subsídios para os índios quando é atropelado por um enorme autocarro e fica paraplégico. No hospital, onde passa meses, confessa-se a Deus, furioso por tudo o que lhe aconteceu e pelo facto de nunca mais poder regressar à selva.

O fim da sua história, tudo o que me fez chorar, é imensamente triste. Mas no meio de tanta tristeza, pobreza e sujidade do quartinho onde vive os últimos dias, encontra a felicidade nos vizinhos e amigos, como Dito, um menino de nove anos, um raio de sol negro, que o ajuda a ganhar uns cobres vendendo cautelas e empurrando a sua cadeira de rodas pela cidade do Recife, e Turga, a prostituta com vestidos que são jardins cheios de rosas.


Há uma cena quase no final, no meio da alucinação, que inclui uma lagartixa alada chamada Zéfineta B., uma lagartixa que ele conheceu na selva anos antes e com quem manteve fantásticas conversas, que ela repetia mais tarde à outras lagartixas e a um lagarto e que são absolutamente maravilhosas, tipo as fábulas do tempo em que os animais falavam e que são dos momentos mais belos deste romance.

Então, finalizando este spoiler, no meio dessa alucinação, ele sonha com a escada ladeada de índios, tal como a Tia Estefânia lhe tinha dito, e de muletas, incentivado por Zéfineta, tenta subir os degraus do miserável prédio onde vive. Cai e é nos braços de Turga que morre, por fim, cansado e sonhando com Paula.

E já estou emocionada de novo, só de reler isto.

12 comentários:

  1. Até eu fiquei super emocionado com o texto que escreveste :)

    Obrigado por mais uma dica :)

    Beijinhos Grandes

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  2. do JMdV só li 'O Meu Pé...'; este parece ser tão delicioso e sensível.

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  3. Muito bom.
    A mistura de índios e alucinação remete-me para o Ayahuasca, a mistura psicoativa mais poderosa conhecida, e a experiência enteógena mais fascinante do ponto vista antropológico, neuropsíquico e místico.
    Talvez enverede por este autor, diante do malogrado início (talvez não estivesse preparado, ou não seja do meu gosto absoluto) na literatura brasileira com Clarice.

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    1. do que é que tu te lembras...
      são dois escritores muito diferentes, nele, os afectos são exteriorizados, nela, há uma grande introspecção. também a escrita de Clarice é muito mais apurada que a do José Mauro.
      aproveito para te dizer, como estou em maré de escritores brasileiros, que agora vou ler 'Onde andará Dulce Veiga?', de Caio Fernando Abreu.

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  4. De José Mauro de Vasconcelos apenas conheço, e li, 'O Meu Pé de Laranja Lima'. Confesso que tenho sempre um pouco de receio destas partes 'II' dos livros. Temo que destruam a história original. No entanto, parece-me que desta vez a continuação faz jus ao primeiro livro. :)

    beijinho.

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    1. não destrói, complementa, neste caso. e a maioria só conhece o primeiro livro, daí eu ter trazido este.
      bjs.

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  5. Estou como o Miguel e teria muito interesse em ler este livro, mas tu tiraste-me um pouco do interesse pois o teu texto é um spoiler e isso não gosto muito. É pena...

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    1. são quase 300 páginas. deixei muita coisa de fora: a segunda família, uma outra mulher, as reflexões sobre homossexualidade.
      a sua escrita, cheia de humanidade e vibrante, só por si vale bem uma leitura.
      imagina que é como um filme este post, há muita coisa que fica de fora :)

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  6. Fartei-me de chorar com o Meu Pé de Laranja Lima, acho que ia chorar também com este (do mesmo autor já li também Rosinha minha Canoa, Doidão e A Ceia).

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