segunda-feira, 3 de junho de 2013

Inventar a paixão

'A paixão, descobri, era isto: ao mesmo tempo, um desejo ansioso e total de posse exclusiva, e um reconhecimento, entre desesperado e feliz, de todos se identificarem connosco. No momento em que, pela paixão, nos sentíamos mais nós mesmos, era quando todos os outros eram nós mesmos em nós. Mas se assim acontecia, se, no conhecimento absoluto de nós mesmos pela paixão, nos identificávamos afinal muito menos com o objecto dela que com todos os outros seres que, nesse objecto, participavam da sua realidade e mesmo a constituíam, a paixão destruía-se a si própria ou nós próprios a destruíamos, e aos outros, nela. Senti uma espécie de vertigem. E logo percebi que nós mesmos inventávamos a paixão.'

Jorge de Sena, 'Sinais de Fogo', Mécia de Sena - Edições 70, 1984, 4.ª edição, p. 241.

10 comentários:

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    1. muito, JS é um filósofo, cada situação é analisada em pormenor. há páginas assim, que nos fazem pensar imenso. é a virtude da sua narrativa, consegue colocar em palavras os pensamentos que nos passam pela cabeça, mas que não conseguimos as palavras certas... ou que não nos passam, mas passamos a pensar e abrimos os horizontes. é fantástico (se bem que um pouco confuso :P)

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  2. E, que bom que inventámos ou não :)

    Beijinhos

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    1. ou era amor ou era paixão ou era outro sentimento, afinal...
      bjs.

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  3. Tenho que ler, pode ser que seja agora nas férias...
    Bjs.

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    1. eu trouxe-o da biblioteca (renovei a leitura, o prazo são duas semanas). tenho até dia 19 e se não conseguir, renovo again :)
      penso que não te irás arrepender.
      bjs.

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  4. A paixão não deixa de englobar um sentimento de posse. O amor respeita muito mais a liberdade do outro. A paixão é assim mesmo, arrebatadora. Creio que aqui há um lado exibicionista da paixão. O reflexo dos outros em nós e no que sentimos, talvez uma exteriorização também. Um carácter publicista da paixão, "quero tanto e quero que todos o saibam". Quando os outros tomam consciência da nossa paixão, destroem-na, porque a paixão não deve respeitar conceitos sociais. Perde no fundo aquilo que é e tem: paixão.

    beijinho.

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    1. o primeiro período do parágrafo traduz isso. tu explicaste muito bem, como sempre :)
      bjs.

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