sábado, 22 de junho de 2013

Praga amiga

   - Seu danado de Frei Abóbora, quantos anos você me conhece plantada na beira desse rio?
   - Bem uns vinte anos.
   - E quantos anos conheço você?
   - Também por aí.
   - Pois são vinte anos que eu vejo você distribuindo bondade e coração por essas brenhas. Pensa que eu esqueço aquela vez que você chegou tão sem camisa que foi preciso comprar uma bem vagabunda para poder viajar? Pensa que eu me esqueço?
   Deu uma risada.
   - Sabe que no começo eu achava que você tinha miolo fraco?
   - Eu acho que nunca deixei de ter.
   - Quando você morrer, meu filho, vai ter uma escada de índios, veja bem, não de anjos, mas de índios que de mãos dadas a você ajudarão você subir degrau a degrau. É uma praga amiga que lhe rogo.
   - Se todas as pragas fossem lindas assim, Deus viveria de sorrisos.


José Mauro de Vasconcelos, 'As Confissões de Frei Abóbora'

8 comentários:

  1. Quero uma "praga" assim, com muitos índios... Podres de bons e giros... Arranjam-se?! ehehehehehehehe

    Bom Sábado ;)

    Beijinhos

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    1. tu fazes os homens felizes. quando chegar a hora, terás uma escadaria deles até ao céu.
      :)
      bjs.

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  2. Só li "O Meu Pde Laranja Lima"...

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    1. sei que o leste. eu também e há muito pouco tempo, graças a ti.
      Frei Abóbora, Ab, o Baby de Paula, Paule, Toujours...que de gigolô se transforma em frade sem batina graças a ela, que ama os índios, a natureza e fala com os animais não é mais nem menos que o Gum, o Zezé traquinas e doce de ' O Meu Pé de Laranja Lima'.

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    1. :) eu estou a adorar. é sobre a vida adulta e a velhice do Zezé.

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  4. A escrita brasileira, tão característica. Sabes, querida Margarida, tal como tu, aprecio literatura brasileira. Há portugueses que esconjuram cada trecho de português 'com açúcar' que vão encontrando. Jamais procederia assim. Creio que o jeito do brasileiro escrever (afinal, não muda apenas o sotaque: há estilos distintos, o uso predominante do 'você', o gerúndio, as palavras de origens indígenas e africanas, etc), só trouxe alegria à língua portuguesa, que é de todos os que a falam. O nosso dialecto lusitano é fechado, qual eslavo da Europa Ocidental! Um dialecto estranho às línguas latinas, cuja maioria 'abre' as vogais.

    Adoro esta escrita melodiosa e leve.


    beijinho.

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    1. e este trecho:
      '- Como se fôssemos apenas duas ternuras se alisando?
      - Quase isso.
      - Ou como o vento macio que arrepia as águas das lagoas da selva?
      - Você pode?
      - Eu te amo, meu amor.'
      Pura música (só na escrita brasileira eu acho isto) :)
      bjs.

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