sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Cheio de palavras

A casa é constrangimento; o bar, liberdade. Um informador branco não vai aos bares porque um branco dá nas vistas a uma milha de distância. Portanto pode falar-se de tudo. O bar está sempre cheio de palavras. O bar pondera, discute e decide. O bar aborda qualquer tema, debate-o, demora-se nele, tenta chegar à verdade. Toda a gente se reunirá e contribuirá com o seu pequeno quinhão. Não importa o assunto. O que é importante é participar, falar. Um bar africano é o fórum romano, a praça central no mercado de uma cidade medieval, a adega parisiense de Robespierre. 

Ryszard Kapuściński , 'Esboço para um livro', Granta Portugal I.

Até ao momento, considero esta a melhor história da revista. RK, jornalista, está no Congo em Julho de 1960. Apenas algumas semanas antes, este país tinha conquistado a sua independência face à Bélgica.

8 comentários:

  1. Mas o conto é apenas isto ou isto é um extracto do conto?

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    1. é um excerto de uma história que julgo que seja verdadeira, pois RK foi jornalista e correspondente em dezenas de países e em diversos cenários de guerra. eu gosto muito deste género de escrita.
      originalmente, esta história foi publicada na Granta 21, em 1987.

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  2. Eu diria que em Portugal, seria numa fila de trânsito. Todos gostam de dar a sua opinião. Todos dão o seu orçamento :)

    Beijinhos

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    1. em Portugal, em 1960 estavas em plena ditadura, entrarias num bar, atirarias uns bitaites para o ar e, provavelmente, serias preso pela pide. havia bufos em todo o lado. isto é áfrica, um bar citadino, entre as casas de lata periclitantes, aquando da independência do Congo e completo caos e adrenalina para um jornalista que queria viver uma aventura e estar no cerne da acção.
      bjs.

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  3. O antigo Congo belga tem uma história engraçada ('engraçada', claro está, ironicamente). Foi, durante imenso tempo, um terreno do rei da Bélgica. Sim, leste bem! As nossas colónias, ou províncias ultramarinas para o Estado Novo, eram parte integrante de Portugal; as colónias da França, Espanha, Reino Unido, etc, pertenças legítimas dos respectivos países. O Congo belga, não. Fase houve em que era uma mera 'propriedade' do rei, enorme, evidentemente, mas um 'terrenito', assim como tu ou eu podemos comprar um terreno.

    Atrocidades do colonialismo.

    beijinho.

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    1. li na wikipédia, no link que coloquei.
      bjs.

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  4. gostei do texto do RK na Granta; mas há qualquer coisa que me incomoda ou perturba. ele tem mais livros editados em PT (pelo menos mais um, creio que na coleção de livros de viagem da Tinta da China, mas não tenho a certeza...), mas quando li este texto fiquei na dúvida se quereria ler mais coisas dele ou não.

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    1. eu gostei pelo facto de em miúda querer ser jornalista e viver imensas aventuras em teatros de guerra, tipo o Robert Capa, eu e a máquina fotográfica :P
      engraçado, depois deste conto, li o do Afonso Cruz, que achei fantástico, e depois fui à Fnac procurar os seus livros e não gostei muito...

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