quinta-feira, 22 de agosto de 2013

I - César

   Poucos dias antes da morte do meu tio Camilo, acolhi o César.
   De início, ele não tinha nome.
   Contou-me, num dos habituais jantares de sexta-feira, que o tinha encontrado enroscado à porta de casa, ao regressar do hospital. Era um bicho escanzelado, só pele e ossos, assim como eu, ergueu um braço magríssimo, empunhando o garfo, e pensei que estaríamos bem um para o outro. Mirei-o, não se mexeu, passei por cima dele, empurrei a porta, fui à cozinha, abri uma lata de atum, que seria o meu jantar, a propósito, mas onde come um, comem dois, coloquei metade num pires e pousei-o à sua beira. Esperei, esperei, mas nem um pêlo se moveu e nem uma orelha tremeu, de modo que voltei a entrar em casa, deixei a porta encostada, fui à casa-de-banho, regressei para ir ver do bicho, o pires estava vazio, ele tinha desaparecido, encolhi os ombros, pelo menos, hoje não morres de fome, pensei eu, e fechei a porta. E onde estava o gato? Agora vem a melhor parte. Eis que vou dar com sua excelência sentada no meu cadeirão, apontava o bichano com o garfo enquanto falava, e fiquei a mirá-lo durante bastante tempo, ele muito compenetrado nas suas abluções. Quando acabou, bocejou, dignou-se a olhar-me, baixou um tudo ou nada a cabeça, como uma pequena vénia, deu duas voltas e deitou-se. E, terminou com um gesto brusco, espetando uma batata, ali o vês.
   Perguntei-lhe como se chamava, ao que me respondeu, com um encolher de ombros, que não tinha nome. Não me parece que ele se importe muito com isso. Basta ouvir o barulho dos tachos e aparece na cozinha, respondeu.
   Olhei para o gato, refastelado no lugar usurpado uns dias antes. Dormitava. Agora, faz parte da família. Até tem um lugar cativo, repliquei eu. Não achas que merece um?
   O meu tio franziu o sobrolho, pensativo, e, depois de alguns segundos em silêncio, respondeu: César.
   E, como que aprovando o recente nome, o César abriu os olhos e ergueu a cabeça. Levantou-se, espreguiçou-se languidamente e saltou para o chão. Esfregou-se nas nossas pernas, ronronando, e voltou a subir para o cadeirão. Soltou um breve miado e tornou a deitar-se.
   Veni, vidi, vici, suspirou o meu tio, com sorriso que lhe iluminou, por um instante, o rosto macilento.

23 comentários:

  1. Não sei.
    Acho a tua micro-narrativa mais destilada e aprumada, por vezes até mais exagerada em álcool de palavras ao ponto de ficarmos atordoados. Este início de conto pareceu-me um pouco coloquial, diluído de forma. Normalmente distingo as tuas duas formas de escrita, a da micro e dos posts pessoais e confesso que ao entrar no blogue, sem ler o post anterior, julguei estar a ler um post pessoal, onde não costumas ter a preocupação literária de escrita formal.

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  2. exacto, é isso mesmo, tudo ficção, mas nem notas, de tão pessoal que achaste :)
    vamos ver como corre.

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  3. Gostei. Achei a narrativa fluída, envolvente e fiquei com vontade de ler mais.
    Bjs.

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  4. Gosto muito do nome César ;)

    Beijinhos

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    1. és francisco césar? :D
      antes de ser elvira, quando eu pensava que era um gato, era assim que se chamava.
      bjs.

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  5. O fim não poderia ser diferente. A César orquestra é de César! Gostei muito!

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    1. é apenas o fim deste excerto. obrigada :)

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    2. E não é orquestra, é "o que é" LOLOL raios partam este corrector automático LOL :P

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  6. 'César' é nome imperial, histórico. Majestoso, imponente, significando força e destreza. Diz-me bastante por razões familiares.

    Vejo que começas a imprimir um estilo muito próprio à tua escrita, o que é visível nos diálogos, nomeadamente. Creio que é mais do que positivo: é um cunho pessoal.

    Gostei.

    Também ando a escrever um conto. Não sei quando terminarei ou se terminarei. Há anos, escrevia mais. :)

    beijinho.

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    1. gostei destes diálogos, pois, como o Arrakis diz, são fluidos. e, finalmente, uma história com um senhor gato. já fazia falta :)
      obrigada.
      bjs.

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  7. Gostei muito Margarida. Primeiro, acho muito verosímil, comecei a ler sem perceber logo se se tratava de ficção ou de um texto normal do blog, e logo isso deixou-me entusiasmado. Depois gostei muito da voz do Tio Camilo, começa-se logo a acreditar na personagem. Do ponto de vista técnico, gostei da solução para os diálogos, todo o texto está muito corrido, muito fluído. E está forte, intrigante, com a história da doença, e o anúncio do desfecho logo à cabeça põe logo o leitor no centro do drama.
    estou expectante para ler o resto.

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    1. oh, agora é que vão ser elas! não faço ideia :p
      tinha tudo estruturado na minha cabeça. o parágrafo de abertura seria o mais importante, dá a conhecer logo tudo, como notaste, apenas numa frase, ponto. depois, um regresso ao passado, a história do gato e do encontro com o TC. e agora? vou pensar no fim-de-semana :)

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    2. Agora tem que acontecer qualquer coisa a um dos personagens que faça avançar o enredo. O César arranja namoro? O Tio Camilo morre?
      Ou então aparece um novo personagem que vai desequilibrar as coisas. O dono do César que o quer de volta? ma vizinha má que não quer gatos no prédio? LOL

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    3. é ponto assente que o TC morre. já tenho o texto seguinte alinhavado. será uma continuação do I, no mesmo cenário. quanto ao gato, não sei que destino lhe dar. a narradora acolhe-o, mas depois, ainda não pensei muito. será a última parte da história e ainda falta algum tempo até lá chegar :)
      não existem maus vizinhos :P

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    4. o Tio Camilo já morreu. por isso a primeira frase diz "poucos dias antes da morte" - só podemos saber que foi poucos dias antes da morte, porque ele já morreu; que as mortes podem ser anunciadas, sabêmo-lo com Gabo; mas com calendário, só mesmo as mortes matadas, e mesmo essas só são certas depois da (funestíssima) ocorrência.

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    5. uma ideia, hum, sim, obrigada. o TC está doente, sabemo-lo pelo hospital, viverá alguns anos ainda na companhia do César e morrerá dessa doença. e pronto, tudo o que está no meio é o que tenho que escrever.
      :)

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  8. O nome escolhido é digno para gatos, criaturas sempre imperiosas e independentes! ^^

    Gostei muito do conto e acreditei que era real. Parabéns! :)

    Beijinhos e bom fim de semana :3

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    1. :) obrigada e bem-vindo novamente.
      bjs e igualmente.

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  9. Só tenho uma coisa a dizer:
    - ESTOU ANSIOSA PELA PARTE II.

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    1. a parte II está na cabeça, o difícil é escrevê-la.
      :)

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  10. Gostei. E gostei da forma coloquial.
    Claro que havendo no conto uma "personagem" chamada gato (que por acaso é César), tudo se torna relativamente mais fácil para ti, mas o facto de ainda não teres a história completamente elaborada, é muito interessante, embora parta de permissas desde já estabelecidas, como a morte do TC.
    A ver vamos...

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    1. a ver vamos. até acho muito mais giro publicar aos poucos, pois obriga-me a despreguiçar. e está a dar-me muito prazer. é uma questão de escrever um pouco todos os dias e gostar muito da história.
      mas com um gato, só podia ser assim. :)

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