quarta-feira, 28 de agosto de 2013

II - Amor

   A rotina estabelecera-se quinze anos antes. Tinha dezoito anos e acabara de entrar para a faculdade. Partilhava um quarto numa residência universitária e, uma vez por mês, metia-me no barco até à margem sul. Por volta das sete e meia, aparecia à porta da sua casa, de início com uma caixa de bolinhos de chá comprada na pastelaria ao lado e atada primorosamente com uma fita vermelha. Depressa foi substituída por uma garrafa de vinho tinto. Da próxima vez, passa pelo Joaquim, ali ao fundo da rua. Tem lá um Dão da nossa terra, e pelo preço dos bolinhos, trazes uma pinga da boa, disse-me a meio do terceiro jantar.
   Púnhamos a conversa em dia e a noite terminava comigo a adormecer, invariavelmente, no sofá da sala de estar. Na manhã seguinte, acordava embrulhada num cobertor vermelho-escuro cheirando a naftalina, qual casulo, com a sua enorme águia de asas abertas estampada enrolada à minha volta, e ainda entalado debaixo dos pés.
   De todas as vezes que despertava, mesmo antes de abrir os olhos, retinha uma vaga ideia do tio Camilo tirar-me os sapatos, encolher-me as pernas, tapar-me e a maneira como executava tais acções, calcando devagar a roupa, com tanta ternura, sem deixar um pedaço do meu corpo desprotegido, com excepção da cabeça, fazia-me muito feliz e eu sorria, levantando, por fim, as pálpebras.
   Naquela altura, ele viajava muito e quando o trabalho o obrigava a estar mais tempo longe de casa, o jantar era adiado para a sexta-feira seguinte. Era a época das novidades, das descobertas, dos amores e das desilusões e eu vivia em constante sobressalto, porque tinha muitas lágrimas para chorar e precisava muito dele, das suas palavras de reconforto, do seu ombro amigo, do seu sofá surrado e de adormecer entorpecida de álcool e emoções.
   A noite em que conheci o César não fora diferente das outras. Conversámos, bebemos, eu estiquei-me no velho sofá, com as pernas a baloiçar num braço, enquanto o tio Camilo entrava num apurado diálogo com o felino. Feitas as cedências de parte a parte, à semelhança de dois miúdos que firmavam um compromisso com cuspo e aperto de mão, aceitaram partilhar o trono. Ele sentou-se no cadeirão e o César ajeitou-se nos seus joelhos ossudos, massajando-lhe as rótulas sobre as calças de fazenda castanhas. E eu fiquei a observá-los: um gato de pêlo amarelo, ronronando, feliz, e o meu tio que lhe fazia festas e sorria, cativado.

17 comentários:

  1. Bravo, Margarida, tem fôlego, respira, estende-se e preenche o tempo. Bom caminho.

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  2. Está ultrapassado o tabu das 250 palavras! Ultrapassado, não! Esmagado... :D

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    1. :p
      tenho um segredo, ler muito, muito mesmo, e os clássicos. excelente o 'mau tempo no canal'. estou a adorar.
      :)

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  3. Excelente...
    Estás no bom caminho; parece o começo de um romance...

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    1. obrigada.
      quem sabe, pode ser que para o ano o escreva :) o TC merece uns bons capítulos.

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  4. O meu cérebro fica baralhado.
    Não consegue conciliar o facto de ser ficção com a escrita tão pessoal. Interessante.

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    1. experimenta ler o romance do Saul Bellow. o teu cérebro entrará em curto-circuito :p

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  5. Ficção? Autobiográfico?
    Só sei que estou ADORANDO!
    É daqueles textos que fazem brotar as imagens na nossa mente, enquanto vamos lendo.
    Venha a PARTE III.

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    1. para a semana, Rosa. isto é uma pequena história dividida em várias partes. tenho uma ideia geral bem definida - para além da morte do TC - mas da cabeça para o papel vai um grande salto. só há uma condição: não ultrapassar uma página de texto em cada excerto. e depois irei colocar-vos um desafio, que já o dou a conhecer: dar um título a esta história.

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  6. Ainda te verei ganhar o Prémio Camões (vá, deixa o Nobel para mais tarde, tem calma xD).

    Estou a gostar imenso!

    beijinho.

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  7. Que belo gato chamado César ;)

    Não me chamo César, mas há pouco tempo gostei de ter conhecido um rapaz chamado César lololololololololol

    Beijinhos

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  8. Este capítulo faz parecer o anterior uma espécie de preâmbulo o que dá um novo fôlego à história. Escusado dizer que estou a gostar imenso do tom intimo da narrativa.
    Bjs.

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    1. no fundo, pertencem todos ao mesmo capítulo. quando eu juntar os textos, fará mais sentido.
      obrigada.
      bjs.

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