quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Miserável

Ontem, antes de ir visitar o gato ao veterinário, passei pelo hipermercado para comprar comida para a tartaruga. Passou semanas sem comer nada de jeito, até que, finalmente, desovou há uns dias e agora está sempre esfomeada.

Estava eu nas caixas rápidas de pagamento, quando apareceu atrás de mim uma mulher com uma caixa de pensos rápidos. Dirigiu-se a mim com um 'Não pode dar uma ajudinha?' e apenas pensei, tudo tão automático e preconceituoso, confesso agora, 'Como é que os seguranças deixaram entrar uma pedinte.' e retorqui rapidamente (estava com pressa e preocupada com o gato) 'Você não pode estar aqui a vender isso!' Virei-lhe costas, continuei a fazer o pagamento e saí. E depois fiquei tão zangada comigo própria, porque o que ela queria era uma ajuda para comprar a pequena embalagem de pensos.

Quase um dia depois, ainda me sinto uma miserável, com remorsos por ter desprezado aquela mulher, por a ter tratado de uma forma tão horrível. Alcoólica, toxicodependente, seria, provavelmente, já não é a primeira vez que a vejo nestas bandas, (embora nunca num centro comercial), mas ninguém merece ser tratado assim.

E eu, que amo os meus animais, que gasto rios de dinheiro com eles, não fui capaz de gastar um euro com ela. E mesmo que tal não se verificasse, isso não é o mais importante, devia tê-la tratado humanamente e não escorraçá-la. Ninguém merece ser desprezado dessa forma.

16 comentários:

  1. Margarida, isso é tudo muito relativo; por vezes usam-se estratagemas e eu não sei quem precisa mesmo de ajuda ou quem se aproveita da piedade dos outros...

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    1. lembro-me de uma velha no rossio, há anos, que estava a pedir e tinha milhares de contos no banco.
      eu não dou esmolas, seja no metro, na rua, onde for, embora já tenha comprado comida e dado, porque o rapaz pediu.
      não me referia a isso. referia-me ao modo como a tratei, escorracei-a como a um tinhoso cão. e isso é que é insuportável. ninguém merece, ela não me fez mal, apenas pediu. posso me desculpar por estar preocupada com o gato, mas eu não costumo ser assim, tão mesquinha e má. porque eu fui má.

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  2. Margarida, além de te conhecer pessoalmente, assegurando a todos os que não te conhecem de que és uma excelente pessoa, não és perfeita, tens defeitos, erras, és humana! Os santos, esses, estão no altar e só têm valor para os seus crentes.

    Já o disse há tempos. Eu fui uma criança muito mimada, crescendo como um adolescente irascível, chatinho, prepotente até. Alguns vestígios ainda poderão ser encontrados em passagens mais antigas do meu blogue. Tenho vindo a crescer como pessoa. És mais velha, todavia, o processo de aprendizagem é constante. Da próxima vez que acontecer algo semelhante, lembrar-te-ás deste episódio.

    Sei que o que te incomoda é a forma como trataste a mulher, não estando sequer preocupada se era uma vigarista. Estás correcta. Devemos responder apenas pelas nossas atitudes.
    Eu nunca dou esmola, nem ajudo. Às vezes bem me apetece. Vejo velhinhas tão magrinhas e a vontade e a razão lutam durante breves minutos. Acabo por não dar precisamente por motivos já enunciados: algumas têm imenso dinheiro no banco. E, depois, não nos podemos substituir ao Estado. É incumbência deste último socorrer os mais necessitados.

    Vá, passa à frente. Não penses mais nisso.

    um grande beijinho.

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    1. estava tão incomodada que escrevi com umas gralhas. já corrigi.
      obrigada, sei que sou humana, imperfeita, mas já passei por situações idênticas e nunca respondi daquela forma.
      como referi, só me posso desculpar pelo facto de ter a cabeça em água por causa do farrusco que, já agora, está a melhorar aos poucos.
      bjs.

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  3. Há dias assim, deixa lá...

    Da próxima vez, compras a embalagem completa ;)

    Beijinhos

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    1. :) serve de lição. trata os outros, todos, como queres que te tratem.
      bjs.

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  4. Algo assim poderia acontecer a muitos de nós - eu por exemplo quando estou para baixo, torno-me mais insensível aos outros - mas muito provavelmente não seria capaz depois de o reconhecer assim num post (uma vez "fugi" de uma senhora de idade que era muito insistente e já me senti zangada com "arrumadores" até porque me atrapalho mais a estacionar com as suas instruções).

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    1. eu ignoro, digo que não tenho, mas não respondo mal, desta vez, foi a maneira como o fiz, o tom, o maldito e desprezível tom da minha resposta. enfim, lembrar-me-ei disto no futuro.

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  5. Foi só um equívoco.
    Se fosse pedinte não podia estar mesmo lá dentro.
    Se não fosse, ficou a pensar que tu eras maluca. Tudo ficou quite.

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  6. Tenho a opinião do João, há casos e casos, aconteceu-nos dar uma boleia a uma velhota, dar dinheiro para medicamentos e três dias depois lá estava ela ao ataque outra vez com a mesma história.

    Mas por exemplo tenho um rapaz em frente ao supermercado da minha rua, que tem menos idade que eu e as drogas fritaram-lhe o juízo, dou-lhe uma moeda, tou-me nas tintas se compra álcool com a moeda ou se compra seja o que for, é educado de vez em quando faz rap de improviso, nunca o vi ser indelicado com ninguém que o trata mal e anda lá no mundo dele. Quando pago com cartão e não tenho moedas, também está tudo bem.

    Não te martirizes por isso, aconteceu. Também tens direito a um dia de mau humor, beijinhos.

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    1. sim, vocês têm razão.
      daquela vez que dei um chouriço ao rapaz toxicodependente, foi porque ele pediu. eu estava na fila para um café, perguntei-lhe se ele não queria uma sandes ou um bolo, disse que não, eu lá tomei a bica e depois entrámos no minimercado do metro de sete rios, ele lá comprou o chouriço e eu paguei. ele nunca foi rude, não quis dinheiro, eu sempre penso que um prato de sopa não se nega a ninguém.
      bjs.

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  7. É mais fácil fazer essa avaliação à distância, mas foi um impulso e não te podes considerar miserável por causa disso. Mas é importante refletirmos no modo como habitualmente tratamos os outros.
    Tal como tu, também não dou esmolas e detesto quando me abordam na rua e me perguntam se não quero ajudar as criancinhas comprando uma qualquer bugiganda

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    1. sim, tens razão, mas não esquecerei o que fiz.

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  8. quando li este post quis comentar, mas não consegui. já muitas vezes me senti nessa posição de recusar ajuda a desconhecidos e depois ficar com um enorme peso na consciência. tento justificar-me (perante mim próprio, é claro) com o facto de na sociedade de hoje precisarmos de nos defender, de nos resguardarmos da agressão constante e do quotidiano abrasivo. claro, umas vezes a justificação pega, outras nem tanto... e muitas vezes me interrogo se a carapaça que criamos para nos proteger das agressões da vida real, não passa, a partir de certo ponto, a ser mais uma prisão do que um abrigo.

    mas o ponto é que a vida é assim: umas vezes marcamos pontos, outras perdemos: o importante, se calhar, é conseguirmos dar e receber na justa medida. com a esperança de que o balanço seja positivo. ou pelo menos, que o défice não seja muito grande.

    se temos dois dedos de lucidez, a vida inevitavelmente nos dá algum cinismo, na maneira de olharmos o mundo à nossa volta, e como instinto de protecção (ninguém consegue passar o tempo todo a ver imagens de horror via televisão sem ganhar alguma insensibilidade, sob pena de ficar doente de angústia). eu acho que já fui mais cínico do que o que sou agora. talvez seja a velhice (ou, para ser meiguinho, a sua proximidade) que nos dá outra franqueza (ia escrever: outra fraqueza...), ficamos mais emocionais, mais vulneráveis.

    seja como for, desde quinta-feira que te estava a dever um beijo carinhoso.

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    1. :)
      eu já desprezei muitos deles, e ainda o faço, por conhecer os seus hábitos. não alimento vícios, não posso fazer nada se eles próprios não conseguem sair desse mundo.
      não sei se estou mais sensível com a idade (velhice não! :D), mas todos merecem ser tratados com respeito e consideração, e acho que me estou a repetir. e é um facto que olhamos para muita gente e desprezamos, fingimos que não existem, é mais fácil...

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