terça-feira, 27 de agosto de 2013

Preocupo-me, logo existo!

Original de Eric Bogosian, "Wake up and smell the coffee" é uma stand-up comedy, interpretada igualmente por Bogosian, e que se transformou, posteriormente em filme.

Entre nós, foi traduzida e adaptada por Diogo Infante, que vestiu a pele de oito personagens, muito diferentes entre si, e que espelham a natureza humana, a ganância, a violência, os preconceitos, a preocupação do dia-a-dia. Interpretada por um magnético e brilhante actor num excelente espectáculo que durou um pouco mais que uma hora, levando aos limites a sua capacidade criativa e versatilidade, encarnando os diferentes cromos em diálogos controversos, humorísticos, cínicos, um guru motivacional (um grande papel, o melhor dos oito, para mim, um tipo gordinho, nervoso, dizendo aquelas frases motivacionais da psicologia positiva, 'libertem o vosso bebé interior, sejam felizes', etc., numa pronúncia e maneirismos fantásticos, eu procurava o DI e não o encontrava - e estava sentada na primeira fila -, tal a perfeição da personagem, num timbre completamente diferente), um médico fatalista (muito tio - o tratamento vai funcionar, oiça, mas você vai ter milhentas contra-indicações, mas funciona, só não beba láite), um cantor rock janado, perdão, - ex-drogado (um excelente sotaque da capital) - um vendedor diabólico sem escrúpulos (soberba interpretação) ou um taxista descrente, preconceituoso  (onde é que eu já vi este estereótipo) e rabujento. Também havia um actor sedento de fama (nada como troçar de si próprio, muito hipster, com os óculos da moda, os auscultadores da moda, pedindo ao 'Diogo' o cartão e o nome do seu agente) e, claro, o cidadão que se preocupa, que paga os seus impostos, respeitador das regras, (um como nós, portanto).

Com humor corrosivo, soltamos uma valente gargalhada, revimo-nos nas personagens, ouvimos o 'nosso bebé interior', preocupamo-nos e existimos.

Partilho um episódio caricato que aconteceu a meio da peça. Enquanto fazia a personagem do rocker, batia e abanava o microfone uma data de vezes, tantas que ficou sem som. Vai daí, o técnico de som corre para o palco, troca por outro microfone que estava à mão e sai o DI com 'É o Hoover' (referindo-se a uma outra personagem amiga do 'cantor', Hoover, conhecido como 'o aspirador', igualmente um técnico de som que snifava linhas de coca umas atrás de outras, metros de linhas, e depois deu com a cabeça na parede e foi para o hospital psiquiátrico numa camisa-de-forças).

8 comentários:

  1. eu gostei muito da peça (a segunda que vi do género, também do EB e com o DI). e o DI é um actor soberbo, um dos melhores de todos (para não correr o risco de exagerar se disser 'o melhor'!) é daqueles actores que dão sentido à expressão 'dominar a personagem', com ele, tu sentes sempre que ele está a dominar o papel, que tomou conta da personagem, mais até do que a personagem tomar conta dele.

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    1. a primeira foi o 'sexo, drogas e rock and roll', suponho. ele aproveitou a personagem do rocker. claro que domina, concordo. tão bem, que se transfigura na personagem e tão depressa sai como entra. notou-se bem quando houve a quebra, com a intrusão do rapaz do som no palco.

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  2. É um actor e não só; é um homem que ama o Teatro e que pelo Teatro tem feito inúmeras coisas.
    O Teatro português muito lhe deve.

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  3. Já o vi no mesmo registo (digo eu) há muitos anos no teatro vilaret :) (picoas)

    Beijinhos

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    1. sim. eu gosto do villaret e é um teatro muito central.
      bjs.

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  4. Gosto do Diogo Infante como actor e parece-me ser uma boa pessoa (pelo que ouvi dizer, embora isto do 'diz que disse'...). Creio que nunca o vi no teatro.

    Gostei do título, pegando na célebre frase de Descartes. :)


    bjo.

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    1. eu não o conheço pessoalmente, pelo que só posso comentar o excelente actor que é, encenador, etc.
      também foi director do teatro D. Maria II, mas pôs o lugar à disposição/foi despedido (não sei bem) devido aos cortes financeiros. É esta a política cultural que temos :(
      sim, tem piada.
      bjs.

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