sexta-feira, 20 de setembro de 2013

As Aventuras de Augie March II

Este romance deixa-me sem fôlego. Passa-se em Chicago, durante a Grande Depressão (as páginas iniciais, sobre a infância de Augie, são dos anos 20 do século passado, desenrolando-se a história ao longo dos anos à medida que ele cresce, um judeu americano, Augie, Augusto). Temos uma galeria de personagens imponente, certamente que umas mais desenvolvidas que outras, mas mesmo os pulhas, os gansterzitos, os maltrapilhos e vadios que ele conhece na sua aventura de comboio (onde parei) têm um papel importante.

O livro é um tijolo de 709 páginas, bom para desenvolver os bíceps, os tríceps e para abrir os pulsos, e emocionei-me numa das melhores cenas, uma homenagem ao hobo, aos sem-abrigo que andavam à boleia dos comboios nos anos 30, sobrevivendo à cata de trabalho nos campos da América.

O romance está cheio de momentos sublimes, sublinhei tantos, o capítulo do Einhorn é um deles; o inicial, com a avó Lausch é outro, mas neste senti uma grande afinidade. Sabem como gosto de comboios, o meu avô foi guarda-freios, progrediu até chefe de estação. Os meus tios e a minha mãe nasceram em estações de comboio pela Beira Alta e Trás-os-Montes.

Bem, a certa altura, após uma desventura (Augie é levado para maus caminhos, mete-se numa embrulhada, não é mau rapaz, pelo contrário, é bonito e as pessoas até  têm vontade de o adoptar), ele regressa a Chicago apanhando boleia nos comboios de mercadorias e dou por mim absorvida na história e é uma mistura de sentimentos, melancolia, emoção, solidão.

‘Viajando naquele lusco-fusco e semi-Inverno, a maneira como o insignificante e o imenso estavam tão misturados, talvez fosse a espinha articulada do comboio a correr e a serpentear, o modo como aços, ferrugens, tintas que lembravam sangue se estendiam espaço após espaço no céu, e depois outra existência, espaço após espaço’ – p. 233.

Basicamente, o IX é um capítulo triste. Mas, como nos outros capítulos, existem parágrafos majestosos, com alguma ironia: ‘No entanto, como senti ao entrar em Erie, Pensilvânia, a escuridão existe. E é para todos. Não se experimenta, como alguns talvez imaginem, enfiando nela um pezinho, como um «September Morn» de barbearia. Nem se é mergulhado nela com curiosidade de visitante, como o velho monarca oriental que foi depositado no meio das algas dentro de uma bola de vidro para observar os peixes. Nem se é imediatamente içado dela depois de um desventurado tombo, como um Napoleão saído da lama de Arcole, onde estivera metido até ao pensativo nariz enquanto as balas húngaras destruíam o barro da ribanceira.’- p. 239.

Aqui temos Augie, que se vai descobrindo aos poucos, aprendendo com os erros, apaixonando-se e continuando a acreditar na humanidade, lutando e erguendo-se e sobrevivendo.

As restantes quase 500 páginas irão ser devoradas em poucos dias.

Saul Bellow, As Aventuras de Augie March, Quetzal Editores, 2010.

10 comentários:

  1. É um autor que há muito conheço de nome, mas poupem-me, tu, e o Miguel de continuar a dizer bem de livros e autores que ainda não li, pois só de olhar para a "pilha" que tu conheces e que aumenta, aumenta sempre, até tremo.

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  2. tu sabes como tornar um livro apetecível :)

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  3. Meu Deus, mas tu não fazes mais nada do que ler?! Tu não lês, devoras mesmo livros :D

    Beijinhos Grandes e as melhoras do Farrusco ;)

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    1. uma hora de comboio. obrigada. vou vê-lo agora. dou-lhe uma festa da tua parte.
      bjs.

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  4. Tou com o João, já estou a ficar preocupado com tudo que tenho para ler lol XD mas pelo menos vamos sabendo de livros que, de outra maneira, não descobriríamos. :)

    Espero que o Farrusco tenha melhorado.

    Bjs e bom fim de semana.

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    1. sim, eu estava preocupada - mãe sofre - mas quando cheguei estava literalmente a sorver a comida. pobrezinho, estava com uma galga. durante dias, não comeu nada, por causa dos diabetes. agora estão controlados. mas miou, miou, miou, fez as queixinhas todas, 'porque me abandonaste aquiiiiiiii?? porquê? encerrado numa gaiola, ainda por cima! madrasta!' :D
      aiai, deve ter alta amanhã. espero bem, as gatas estão com saudades e eu também.
      bjs.

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  5. Adoro a capa do livro.
    Pegaria nele na confusão de uma livraria.

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    1. foto: H. Armstrong Roberts/Corbis
      eu também gosto.

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