segunda-feira, 2 de setembro de 2013

III – Hello, Dolly

   Inconsolável, o César sentava-se, dias seguidos, junto à janela, protegido debaixo do cortinado. Escondia-se, estranhava o pequeno apartamento e miava, miava em parar. Dois anos em casa do tio Camilo tinham-no transformado num grandioso felino de patas compridas, pêlo brilhante e focinho redondo. Agora, eu via-o emagrecer a olhos vistos, não comia há cinco dias e soltava longos miados, que se propagavam no ar e se juntavam aos meus soluços. Chorávamos. Éramos dois órfãos.
   Vivera os últimos quatro meses em casa do tio Camilo, quando piorou. Apesar de refilar, Não há necessidade, Anita, eu ainda me aguento nas canetas, eu sabia que estava emocionado. Tentando esconder as lágrimas, eu abraçava-o muito. Ele passava uma mão esquelética pelo meu cabelo e dizia, Pronto, pronto, e dava-me palmadinhas na nuca. Sentíamos o tempo a fugir entre os dedos. Previsível, o fim aproximava-se a passos largos, como se o víssemos por uns binóculos.
   Quando ainda tinha forças para andar, o corpo reagindo aos tratamentos, o apetite indo e voltando conforme os humores, íamos ver um filme, ele era louco por cinema. Havia alturas que, sentindo-se bem-disposto, fazíamos maratonas cinéfilas. À tarde, víamos dois filmes seguidos, jantávamos e, a seguir, entrávamos na Cinemateca. Depois, passámos a vê-los em casa, as antigas e riscadas cassetes de vídeo foram tiradas do armário e o velho leitor acordou depois de anos a hibernar. Nos tempos mais recentes, tinha sido trocado por um leitor de DVD e pelos filmes nos canais de cabo. Passámos a devorar glórias de meados do século passado, musicais que ele adorava, e trauteávamos as músicas com as nossas vozes desafinadas, Hello, Dolly, well, hello, Dolly! It's so nice to have you back where you belong, ele adorava a Barbra Streisand.
    Recordei-me desses momentos quando tomei uma decisão. Agarrei num gato apático, coloquei-o dentro da transportadora, enfiámo-nos no carro e regressámos a casa do tio Camilo. Mal o soltei, o César correu para o velho cadeirão. Cheirou-o, soltou um compungido e agradecido miado, deu as usuais duas voltas e acomodou-se. Eu abri a janela da sala. Estava uma tarde soalheira e o sol de Maio começou a aquecer a fria sala. Pus-me a cantar, Dolly'll never go away again, Dolly'll never go away again, Dolly'll never go away again!
    No dia seguinte, iria levar o César ao hospital veterinário que exisia próximo de casa. Lembrava-me de uma veterinária morena e de felinos olhos verdes. O tio Camilo tinha ficado encantado com ela. Tinha esperança que ainda lá estivesse.

14 comentários:

  1. Espero que o César melhore rapidamente :)
    Tal como o Tio Camilo também adoro cinema, o Hello Dolly e a BS. :)
    Bjs.

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    1. o César melhora com os mimos de uma nova dona :)
      eu ando sempre com esta canção na boca. :D
      bjs.

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  2. Irrepreensivelmente bem escrito e... somos quatro!

    Além da música, adoro a Barbra. Admiro-a enquanto cantora, actriz e mulher.

    beijinho.

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  3. está sólido do ponto de vista narrativo. Margarida, que maravilha.

    este trecho está cheio de tesouros, uns mais subtis do que outros.

    como o pormenor da Barbra Streisand: na mouche!

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    1. obrigada, miguel. daqui a uns dias, publico a última parte.

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  4. Talvez o episódio que mais gostei até agora.
    Fiquei chateado que não houvesse mais...

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    1. mas há. estou a ultimar a publicação do conto todo, junto a última parte ao texto já publicado para ser mais fácil a leitura. depois, há que dar um título a esta história, daí que irei pedir a vossa ajuda.

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  5. Li agora o conto todo e sobre a ajuda que pedes aqui vai a minha sugestão: "O César do Tio Camilo".

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