sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O leitor

   'Podemos dizer seja o que for, desde que o digamos de uma forma bela. Os meus livros são como um château célebre e frequentemente visitado. Os corredores são todos absolutamente rectos e conduzem-nos de um quarto para outro, o caminho para os jardins ou o pátio está claramente indicado. Escrevo com o brilho bem desempoeirado do soalho de um salão de baile. Escrevo para idiotas. Mas no interior dessa lucidez refinada e límpida que me distingue - e pela qual perco cabelo, peso, sono, sangue - há um código, uma sequência oculta de sinais, um labirinto, uma escadaria que conduz aos sótãos e, finalmente, aos telhados. Você seguiu-me até aí. Você é o leitor para quem escrevo.
   Você pergunta-me o que mais receio. Já conhece a resposta, de outro modo não perguntaria. É a perda do meu leitor, do homem para quem escrevo. O meu maior medo é perdê-lo a si um dia, inesperadamente, subitamente. (...)
   Nunca me perguntou pela pessoa que mais amei. Certamente porque já conhece a resposta. Essa pessoa foi sempre você.' - pp. 65-66.

Patricia Duncker, A Sombra de Foucault, Gradiva, 1998.

8 comentários:

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    1. é mesmo o cerne deste romance, a relação escritor-leitor.

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  2. Belo excerto sobre a intimidade tão especial que existe entre o escritor e o leitor :)
    Bjs e bom fim de semana.

    Ps- Que tal vai o Farrusco?

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    1. é verdade. este romance é muito mais que um amor homossexual. li-o há anos e voltei a pegá-lo por lembrança do João.
      o Farrusco vai indo, uns dias come mais, outros nada, ontem comeu um douradinho inteiro (apenas a pescada desfiada, claro), guloso. continua a levar a insulina. vai hoje à consulta.
      bjs.

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  3. De facto, a relação escritor / leitor é muito envolvente neste excerto.

    Oh, não posso deixar de comentar... O Farrusco comeu um douradinho! *.* Deve ser tão fofo a comer. Se o visse, e se tu deixasses, claro, pegaria nele e dar-lhe-ia beijinhos, para a histeria dos meus brônquios. LOL Estaria era sujeito a levar uma boa arranhadela nas fuças. :D Os gatos são como as divas: uma vez gato, sempre gato.

    As melhoras e bom diagnóstico na consulta!

    beijinho a ambos.

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    1. :)
      é um dos excertos-chave.
      iria adorar, o Farrusco. é um paz de alma, aceita tudo. ronrona imenso.
      não é uma diva, a não ser para comer, mas é por ter uma estomatite crónica e ter a boca muito sensível. com a diabetes piorou.
      vamos ver mais logo como estará o nível de glicémia.
      bjs.

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  4. Gostei do texto e as melhoras do Farrusco ;)

    Beijinhos

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