domingo, 27 de outubro de 2013

Jazz, Murakami, coração

Na sexta, fui ao SeixalJazz. Cheguei uma hora antes, ainda estavam a distribuir os bilhetes aos convidados. Calhou-me um lugar na pontinha. Ainda bem. É o meu lugar preferido. Não foi preciso olhar para o mapa da sala e pedir ‘Quero, se possível, um lugar na ponta, sabe, eu mexo o pé, a perna, o pescoço, pareço uma serpente encantada indiana e depois não quero incomodar a pessoa à minha frente, o pé a batucar na sua cadeira, mas num concerto de jazz, aliás não só de jazz, está a compreender, é impossível ficar quieta’. Calhou-me uma cadeira na pontinha, então, não é que parece que me conhecem já, a senhora da bilheteira e a senhora da entrada do Fórum e o senhor da entrada da sala, que rasga o bilhete e nos indica o lugar?

Na quarta, não pude ir, estava a chover a potes, então, na sexta ao início da tarde entrei na página do SeixalJazz no Facebook, participei num passatempo, mais rápida que o Speedy Gonzales, arriba arriba! e ganhei um convite duplo, um CD – que toca enquanto escrevo - e uma T-shirt e uma noite fantástica. Fiquei, então, na pontinha, ora a perna cruzada, ora a perna estendida no corredor, a bater o pé, os dedos no ar dedilhando um piano inexistente, os olhos fechados, não consigo ir a um concerto e estar de olhos abertos, quero dizer, estou de olhos abertos e depois fecho-os e deixo-me levar pela música, então jazz e improviso, aquilo arrebata e fico rendida. Acabou um pouco depois da meia-noite e foram duas horas de êxtase e o melhor é que não gastei nada, quero dizer, gastei um euro num lápis, nunca são demais os lápis, que está a marcar uma página do novo livro do Murakami.

Pois estou a ler mais um livro do senhor Haruki Murakami. Despachei uns quantos até chegar a este romance, dois dele que já tinha lido, mais outros emprestados, comprados, da biblioteca, e acho que há um tempo próprio para ler o Murakami e não se pode ler tudo de enfiada, quero dizer que é um género de fantasia misturado com a realidade, com histórias engenhosamente criadas. O que é bom neste livro, é recente a sua publicação cá, mas foi escrito em 1985, é que nos transporta à década de 1980 e é quase um regresso ao passado. Há meses, tinha lido o primeiro capítulo em inglês, mas eu e o inglês, bem, safo-me, serve para pouco mais do que responder aos turistas quando estou debaixo do viaduto de Sete Rios à espera do transporte do serviço, ‘Where’s the expresso station?’, e eu, «Outro, vale mais ter um cartaz igual aos da manifestação.», ‘You see that yellow wall?', e o rapaz olha e diz que sim e eu ‘Before that wall you turn right, go to the end, turn left, go upstairs.’ Agradecimentos do rapaz, espero que ele tenha entendido e não vá parar ao IPO e volto ao Murakami enquanto o autocarro não chega.

‘Coração, cora-ção, tira-se o cora fica o ção’, era o jogo de palavras que uma miudinha de uns sete anos fazia ao meu lado ontem à tarde no metro. E eu fiquei a pensar que ela tinha razão, coração, cora são, um coração que cora é um coração são e depois regressei, oh, surpresa, ao Murakami e sublinhei isto com o lápis do SeixalJazz:

‘- Não deves permitir que o cansaço se instale no teu coração – aconselhou ela. – A minha mãe dizia sempre isto. Mesmo que o cansaço se apodere de ti, do teu corpo, dizia ela, devemos continuar sempre a ser donos do nosso coração.’

6 comentários:

  1. Encantado com a tua escrita ;)

    Beijinhos e bom domingo

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    1. estou a experimentar um novo estilo. aconselhou-me o meu caro editor :)
      obrigada.
      bom domingo soalheiro.
      bjs.

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  2. gosto do teu registo 'caro diario'. muita energia a saltar das palavras.

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    1. obrigada. tem-se revelado fácil, porque é verdade. quando passar à ficção, vai ser a prova de fogo :)

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  3. Realmente, o metropolitano proporciona imensas experiências. É pena que as agradáveis não me sucedam... Ahah

    Eu gosto sempre de ficar no meio, mesmo nos auditórios. Claro que as pontas são bem melhores para se dar azo à imaginação, para sermos levados pelo momento... :)

    beijinho.

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    1. é conforme o evento. quando é um recital ou teatro, gosto do meio, quando é mais mexido, prefiro a ponta :)
      a miúda era adorável, depois começou a dividir a palavra 'gaivota' e a cantar 'uma gaivota voava, voava...' :)
      bjs.

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