quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Quinta-feira, night and day

Tive um sonho muito estranho esta noite, depois de ter sido acordada pela Elvira, aí pelas quatro da madrugada. Tinha saudades da Alice. A Alice estava no veterinário. Calma, não está doente. Fui lá levá-la para a recolha de sangue, que será hoje.
 
Comecemos pelo princípio, então. Ontem saí mais cedo, fui a um notário tratar da papelada para a família da terra, entretanto a veterinária responsável pela recolha de sangue telefonou e fui deixar a Alice no sítio do costume, chovia que deus a dava, deixei a gata na gaiola, triste, mais triste eu fiquei, coloquei um tapete que tinha o cheiro das gatas e que a Elvira costuma arrastar pelo chão e ela lá ficou, com os seus grande olhos verdes a olharem-me enquanto me afastava.
 
Fui para casa, numa aberta, aí pela melhor hora de ir às compras no Dia que é a partir das 8 da noite (acho que fecha meia hora, ou uma hora mais tarde), fui utilizar o desconto de 1,5€ em 15€ em compras. Já tinha a lista feita e preços comparados e o Continente é tão mais caro, mesmo. Por exemplo, a areia perfumada - para as gatas só o melhor e o meu nariz agradece - é 1,64€ e no hiper é 0,30€ mais caro – e mais umas coisas com desconto, enfim, 15€ atingiram-se num instante, eu tontinha a falar sozinha com uma data de talões de desconto nas mãos a fazer contas de cabeça a ver se compensava o desconto. A maior parte nem foi utilizada, pois não compro esses produtos e consumo cada vez mais coisas da marca da loja.
 
De seguida, eram nove e picos, ainda pensei ir ao Seixaljazz para ver se me animava, mas continuava a chover e no dia seguinte teria que me levantar cedo e desisti.
 
Li um pouco, acabei com uma tablete de chocolate Nestlé, comi um iogurte, dei as boas-noites às gatas e fui para a cama.
 
Pela madrugada, então, a Elvira arranha a porta do quarto, acorda-me, abro a porta, entram as duas, saltam para a cama, ajeitam-se, a Joana continua a bufar à Elvira, odeia-a, não é brincadeira, não a aceita, há quase três meses que vivem juntas e não há convívio. A Joana é uma gata muito egoísta, muito ciumenta, agora que os outros gatos morreram é a mais velha e agora quem manda aqui sou eu. Ainda tolera a Alice, mas a mais novita nem barrada com paté de atum lá vai.
 
Lá dormimos as três e comecei a sonhar, embalada por um valente temporal. Senti, no meio do sonho, uma presença no quarto e o coração começa a bater mais rápido, eu desperto devagar mas continuo de olhos fechados. Então, abro os olhos e penso, penso sempre da mesma maneira, já que não é a primeira vez que tenho pesadelos ‘sobrenaturais’, «Não é nada, é energia, tu não és como a tua mãe, que ouvia a água a correr nas torneiras e a chave à porta e ninguém entra, etc. Tu não acreditas nestas coisas». Lá estico um braço e acendo o candeeiro da mesa-de-cabeceira e não funciona. Tiro o lenço que tapa os números fosforescentes do rádio-despertador (não consigo adormecer com luz) e está desligado. «Isto não é bom», lá pensei. Levantei-me (a sonhar, ainda) e fui ao quarto-de-banho, porque tenho outro rádio-despertador lá (dá-me jeito ver as horas e ouvir a Antena 2) e está a piscar algures nas três e picos. Pensei que tivesse faltado a electricidade devido à chuva. Ou seja, fiquei na mesma, não sabia as horas certas. Fui à cozinha, porque tenho lá um grande relógio na parede, e quando acendi a luz aquilo estava muito estranho. Em frente ao micro-ondas estava uma máquina de café. Não uma dessas caseiras, mas uma mini-industrial, até me recordo que tinha a cor vermelha, e ao seu lado duas pás do lixo, molhadas. Pás do lixo! A cozinha também estava molhada e procurei a tartaruga, para ver se continuava no seu canto. Não me lembro se estava lá, mas notei que a mesa da cozinha – uma grande mesa de vidro que está lá desde que comprei a casa – estava toda desarrumada e cheia de sacos de plástico. Continuo a sentir uma presença estranha em casa, mas, entrementes, o rádio toca. São seis horas. Acordo com a TSF.
 
Respiro de alívio. As gatas lá estão. A Elvira mia desconsolada. Tem saudades da Alice. Deita-se no chão e ronrona e mia quando eu pego nela e a coloco no ombro. Nunca a vi assim tão carente. A Joana olha-nos ciumenta, mas não se aproxima. Lá deixo a pequenita e ajoelho-me e encho-a de festas e mimos.
 
No quarto-de-banho, senti uma dor no lado direito da barriga. Tão forte que tive que me dobrar e pensei que fosse algo como apendicite. Depois pensei no mais simples, com toda a porcaria que comi na véspera – não tive tempo de almoçar, comi umas sandes e depois abri uma lata de sardinha em tomate e não esqueçamos o chocolate. Passei a hora antes de sair de casa a arrotar, enquanto procurava um Kompensan e nada.
 
Entretanto, li algures que houve um dia ‘purple’ ou ‘Spirit Day’, que significa apoiar os jovens lgbt contra o bullying, usando uma peça de roupa roxa. Bem, do dia 17 para hoje só vai uma semana, mas hoje estou roxa em 90% da vestimenta, nas galochas, na camisola de alças de licra e na camisola da Bennetton.
 
Falando em lgbt, estou a ler o último romance da Inês Pedrosa ‘Dentro de ti ver o mar’ e só agora, que já passei da metade, é que me está a entusiasmar. Não me cativou no início e é sobre mulheres e amor, posse, desespero, sofrimento, fado, no meio há muitas reflexões sobre o amor, o fundamentalismo, o feminismo, o individualismo e perdas e modernidade e enfim, tanta coisa que as personagens acabam por não ter a profundidade que mereceriam. No meio há uma rapariga iraniana que, para adquirir a nacionalidade portuguesa, casa com o homossexual de meia-idade seropositivo. Nesta parte, há umas observações sobre o flagelo da sida nos anos oitenta e a morte dos seus amigos, etc. Julgo que não valerá a pena incluir este romance na página da literatura gay portuguesa no Goodreads, é uma personagem que não evolui muito, secundária.
 
Acho que é o problema deste romance, quer falar de tudo um pouco, a IP escreve muito bem, mas aquilo que já todos conhecemos e depois há qualquer coisa que me desgosta, a maneira de intelectualizar certos temas. Enfim, só li dois romances delas que me emocionaram bastante, ‘Fazes-me falta’ e ‘Nas tuas mãos’.
 
Continuo com uma pontada do lado direito da barriga. Chove a potes. A Elvira está triste, a Joana resmungona e a Alice sozinha no veterinário por um bem maior.
 
Este dia vai custar a passar.

16 comentários:

  1. Já já tens as meninas todas em casa :)
    Os sonhos deixam-nos sempre a sua sensação ao longo do dia.
    Amanhã já estará tudo bem.

    Beijo e força para hoje :)

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    1. tinha que escrever, foi um sonho muito esquisito, aliás foi uma noite noir...
      sim, só mais logo é que terei a Alice em casa de novo. ainda faltam umas horas :(
      amanhã será outro dia, sim. as melhoras para a tua mãe.
      bjs.

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  2. Bem, mas que sonho! :s Não digas 'estranho', por favor, que o Alex passa por aqui e dá-te uma 'descasca' ao jeito da que me deu quando escrevi isso no blogue dele, salvo erro.

    "O sonhos não são estranhos, blá, blá, blá... " Pois não, são estranhíssimos. :D

    Lata de sardinhas em tomate, lá está, outra porcaria. Eu adoro, atenção, mas faz mal. Da última vez que comi uma, bem, fez uma revolução tão grande no meu aparelho digestivo que jurei para nunca mais!

    Tem chovido para cântaros, pelo menos nesta margem. Isso ajuda às noites mal dormidas. Acordei com o barulho da chuva.

    beijinho.

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    1. os sonhos têm razão de ser, no outro dia conversava sobre café com uma amiga. não tenho máquina, mas uma daquelas cafeteiras antigas que se enche com água, depois coloca-se o pó no meio e fecha-se e vai ao lume. tem mais de vinte anos, era da minha mãe.
      quanto às pás, idem, vi uma imagem de uma dela adaptada num lavatório a verter água para um balde. engenhoso quando não temos uma mangueira.
      quanto ao sobrenatural, não tenho explicação, mas sonho muitas vezes com algo desse género no meu quarto.
      sim, acho que foi das sardinhas, ainda agora estou a sofrer. tenho um estômago delicadinho...
      acho que vamos ter um inverno molhado.
      bjs.

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  3. Caso para dizer: "Há dias assim.. " :D

    Melhores dias, virão com toda a certeza :)

    Beijinhos

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  4. Adorei esta página do teu Diário. Muito conseguida a forma de descrever os momentos todos do dia e a parte do pesadelo está do melhor. Uma delicia de ler. :)

    As melhoras da Alice.
    Bjs.

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    1. olha, é mesmo um diário. nem pensei nisso. acho que as coisas fluem melhor quando não as categorizo :)
      a Alice não está doente, é dadora de sangue. já está em casa.
      bjs.

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  5. Quando terei eu direito a um dia emocionante? Raios, terei de mudar de zona?

    ;-)

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    1. não é nada emocionante. foi assustador :p
      não mudes, estás a fazer obras no castelo. seria dinheiro deitado fora :D

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  6. Uau! Que mudança radical de estilo de escrita, e que bem conseguido! Delicioso como dizia o Arrakis.

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  7. detesto esses sonhos, cheios de pormenorzinhos e coisinhas que não se resolvem e se imbricam umas das outras e eu sempre a tentar chegar a algum lado ou a fazer alguma coisa e nunca mais sou capaz e quando acho que já está tudo resolvido aparece mais uma complicação, e tudo parece normal mas há sempre uma coisa qualquer que é absurda e...


    espero que o dia de hoje seja mais leve.

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    1. é isso, absurdo, mas tão vívido, as cores, os objectos, a minha casa, o espírito :p
      já não chove, está mais leve, sem dúvida.

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