domingo, 10 de novembro de 2013

O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo

É essencial uma pausa nos contos. É por uma boa causa, claro. Primeiro, falo sobre mais um livro e segundo, porque é o último romance publicado do senhor Haruki Murakami. Não é recente, foi escrito em 1985, recebeu o Prémio Tanizaki e foi o livro que o reconheceu como um excelente romancista a nível internacional.

Não vou mencionar o que se pode ler na badana, ou em qualquer resumo online, o mais importante, para mim, é que é tão bom quanto o 'After Dark, os Passageiros da Noite'. Considero-o ainda melhor que 1Q84. Primeiro, porque cria dois universos fantásticos,  uma Tóquio futurista, o impiedoso país das maravilhas, com inúmeras referências à década de 1980 do século passado (música pop, videogravadores, calças com pinças) e uma outra realidade, o fim do mundo. Não vou levantar muito o véu, mas surgem questões de ética, com a utilização de cobaias para experiências científicas. Segundo, e ainda mais importante, é que lida com questões metafísicas, com a imortalidade, por contraponto com a ciência e o que tudo isso implica.

Quantas vezes não temos o desejo de viver outras vidas? Eu penso que, se tivesse oportunidade, faria coisas de maneira diferente, viveria a minha vida de outra forma, mas depois, como o narrador diz, quase para o fim do livro, eu deixaria de ser eu, seria um outro eu, logo, não era mais 'eu'. Não é confuso, somos assim, se tivéssemos a capacidade de regressar ao passado e fazer as coisas de maneira diferente, no futuro, não seríamos a pessoa que, neste momento, somos.

Estou quase a terminar o livro. É fantástico e para não variar, está carregadinho de sublinhados :)

   '- Sabe?, compreendo perfeitamente que sou um ser tão insignificante que é preciso uma lupa para me verem. Foi sempre assim. Até a mim me custa encontrar a minha cara na fotografia de fim de curso. (...) No entanto, e por estranho que pareça, estou bastante satisfeito com a minha vida neste mundo. (...) Detesto muita gente, e há muita gente que me detesta, mas também gosto de algumas pessoas e, das que gosto, gosto muito. E não tem nada a ver com ser correspondido. Vivo assim. Não quero ir a lado nenhum. A imortalidade não me faz falta.' - pp. 390-391.

   'O que foi que perdi?, perguntei a mim mesmo, dando voltas à cabeça. Sem dúvida alguma que teria perdido muitas coisas. (...) Sofrera bastante com a perda de algumas delas, apesar de, no momento em que as perdera, ter julgado não me importar demasiado, mas com outras sucedera-se o contrário. À medida que o tempo tinha passado, fora perdendo diversas coisas, várias pessoas, vários sentimentos. No bolso de um casaco simbolizando a minha existência abrira-se um buraco fatal, que nenhum fio e uma agulha seriam capazes de coser. Neste sentido, se alguém tivesse aberto a janela de minha casa, enfiando a cabeça lá dentro para gritar: «A tua vida é um zero absoluto!», eu não disporia de nenhum argumento para esgrimir contra tal afirmação.
   No entanto, dava-me a sensação que, podendo voltar atrás, teria tido uma vida idêntica à que levara. Porque esta vida - uma vida repleta de perdas - era eu. Era o único caminho de que dispunha para ser eu. Mesmo que para tal fosse preciso abandonar todo o tipo de pessoas, e que todo tipo de pessoas me abandonasse; mesmo que tivesse de apagar ou limitar os mais belos sentimentos, esquecer as mais sublimes qualidades ou sonhos, eu não podia ser outra coisa senão eu mesmo.' - p. 483.

Haruki Murakami, O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo,  Casa das Letras, 2013 (como sempre, é fantástica a tradução do inglês de  Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso).

15 comentários:

  1. De facto, a nossa experiência na vida, os passos que demos ao longo dos anos vão nos "formando",vamos ficando mais formatados...

    Algumas coisas gostava de mudar, mas creio que não iriam ser muito significativas, digo eu...

    Beijinhos

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    1. se mudasses, deixarias de ser a pessoa que és neste momento. aprendemos com as perdas e com os ganhos, é a nossa vida e não podemos ter outra. :)
      bjs.

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  2. eu tenho cá em casa dois livros dele para ler ;)

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  3. Só tu consegues suscitar em mim algum interesse pela 'Tóquio futurista'. Nunca me senti atraído pelas sociedades orientais, nem mesmo a japonesa. Os 'animes' infantis não tiveram essa sorte comigo. :)

    A questão de vivermos outras vidas, deixando a nossa de parte, só fará sentido se não estivermos satisfeitos com o que temos / somos. Podendo voltar atrás, mudando pontualmente aqui ou ali, ou minuciosamente, descaracterizar-nos-ia, mas a tentação seria grande...

    beijinho.

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    1. oh, não, acho que não me fiz compreender, com receio de ser um pouco desmancha-prazeres. Futurista no sentido de existirem avanços científicos impossíveis ainda hoje, e ainda bem. e depois, para não variar, HM cria universos fantásticos, como um mundo negro, nos subterrâneos de Tóquio. nada há que se relacione a manga, tão popular no Japão.
      aliás, uma das críticas que fazem a este autor é ele ser demasiado ocidental, não encontras uma referência à cultura japonesa. faz sempre referências, nos vários livros, a obras ocidentais, grandes clássicos, e neste a grupos pop como os Duran Duran ou os Police. e jazz, claro, muito jazz e música clássica.
      de resto, tudo se situa nos anos '80 do século passado.
      sim, como enfatizas, descaracterizar-nos-ia, logo, perderíamos a nossa identidade, o nosso 'eu'.
      bjs.

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  4. Margarida, eu adorei este post.
    Do princípio ao fim. And beyond.

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    1. faz-nos pensar, não faz? estou a adorar o livro, só me faltam umas dezenas de páginas, mas estou em pulgas para o terminar. há muito que não me sentia assim.

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  5. Também sou fã de Murakami, mas ainda não li esse, nem o último ( O Sonho) que acaba de sair. O primeiro está em lista de espera e o segundo à espera de melhor oportunidade para ser comprado :-)
    Quem sabe se o Pai Natal não se vai lembrar de mo oferecer?
    Beijinho

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    1. O Sono é um conto que faz parte da colectânea 'O elefante evapora-se', Carlos. está na página 79, julgo, não tenho o livro aqui agora.
      o impiedoso é lindo, muito poético, adorei :)
      bjs.

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  6. Nunca li nada do Murakami mas fiquei com muita vontade de ler... obrigado!

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  7. Este livro é fabuloso. Sou fã do Murakami

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  8. Margarida este é um dos que tenho para ler, depois de ler o teu post fiquei com mais vontade ainda, eu gosto de história um pouco "maradas" que puxem pela nossa imaginação. Se gostar tanto deste e dos outros 2 não resisto e vou ler tudo dele.

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