quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

80 anos

Faria hoje Ruy Belo.

Me, myself and I IV

Tenho quatro toques muito importantes no telemóvel. São os resistentes, os que ficam à medida que os anos passam.


'Dexter'


'Sete Palmos de Terra'


'Love of the Loveless', Eels


'Tubular Bells', nas sms.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A morta

A tia-avó estava na casa-de-jantar. Como eu era muito pequena, não consegui ver o seu rosto, mas cheirei as flores que adocicavam o cheiro a bafio daquela sala gelada onde repousava.

Aos quatro anos, nada sabia sobre a morte a não ser que fazia as mulheres se vestirem de preto para sempre e usarem um medalhão ao pescoço com a fotografia do marido.


Fiquei quieta a olhar as velhas, que sussurravam palavras inaudíveis aos meus ouvidos de criança, as bocas tapadas pelo xaile enrolado no rosto e nos ombros encurvados. Pareciam grandes pássaros negros, onde só se via a ponta do nariz e os olhos enrugados e pequeninos.
A avó ficou com elas e regressei a nossa casa.


Naquele dia, havia muita gente por lá, os primos do Brasil, de Lisboa, do Porto, adultos, família que só conhecia dos retratos pendurados na parede do corredor.


Como a avó, que enroscava a linha de crochet no dedo e girava a agulha, criando uma delicada renda, cada um dos primos usava uma linha da sua cor, a conversa tecia-se com os seus sotaques. (*)


Escondi-me debaixo da mesa da velhinha máquina de costura, ajoelhada sobre o grande pedal castanho de metal.


Dez metros separavam-me da morta e eu, baloiçando-me ao som das vozes cálidas dos primos, fechei os olhos com muita força. Nesse momento, desejei que a tia-avó pudesse estar ali viva e sentir o calor da família, e não morta na sala gelada ao lado.


(*) O parágrafo foi corrigido, aceitei o comentário do miguel.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Livro dos Amores Risíveis

   '- A mim também essa mulherzinha me deu sorte -, disse Edouard e contou ao irmão que se tinha apaixonado por Alice, que fingira acreditar em Deus, que tivera de comparecer perante uma comissão, que aquela Cechackova tinha querido reeducá-lo e que Alice finalmente se lhe entregara, tomando-o por mártir. Mas não contou até ao fim como obrigara a directora a recitar o Padre Nosso porque lhe pareceu perceber uma censura nos olhos do irmão. Calou-se e o irmão disse-lhe:
   - Tenho seguramente defeitos, mas de uma coisa tenho a certeza. Nunca fingi e sempre disse de caras às pessoas o que pensava.
    Edouard gostava muito do irmão e a sua desaprovação magoava-o. Quis justificar-se e começaram a discutir. Finalmente Edouard disse:
   - Sei que foste sempre um tipo às direitas e que tens orgulho nisso. Mas faz esta pergunta a ti mesmo: porquê dizer sempre a verdade? Que nos obriga a isso? E por que devemos considerar a sinceridade como uma virtude? Supõe que encontras um louco e que te diz que é um peixe e que somos todos peixes. Vais discutir com ele? Vais-te despir à frente dele para lhe mostrares que não tens barbatanas? Vais-lhe dizer de caras o que pensas? Vá, responde-me.
   O irmão calava-se e Edouard continuou:
   - Se só lhe dissesses a verdade, aquilo que pensas realmente dele, isso queria dizer que aceitas ter uma discussão com um louco e que tu próprio és louco. É exactamente a mesma coisa com o mundo que nos rodeia. Se te obstinasses em dizer-lhe de caras a verdade, isso quereria dizer que o levavas a sério. E levar a sério algo de tão pouco sério é perdermos nós próprios toda a seriedade. Eu devo mentir para não levar loucos a sério e para não me tornar eu próprio louco.'

'Edouard e Deus' em 'O Livro dos Amores Risíveis', de Milan Kundera.

Gostei muito de ler este livro, na verdade, devorei-o em três dias. Em sete histórias escritas com ironia e algum desprezo, encontram-se considerações filosóficas sobre a vida e o amor. 

Aconselho a sua leitura, mas só o consegui encontrar na biblioteca.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A livraria

Da janela da cozinha, observei um bando de gaivotas que voavam em círculos sob o céu cinzento. A chuva ameaçava cair a qualquer instante. Como se ouvissem os meus pensamentos, naquele momento, agulhas de água perfuraram as densas almofadas de nuvens e espetaram-se no chão. Depressa as bermas ficaram alagadas e as valetas entupidas. Folhas, paus raquíticos, garrafas de água, papéis de diversas origens flutuavam, revoltosos. Uma roda de um caixote do lixo, um candeeiro, uma pedra interrompia o seu curso, apenas por uns breves segundos. 

Mal se notando no vidro embaciado, via-a a aproximar-se, miudinha, de gabardina até aos tornozelos e galochas amarelas que brilhavam por entre os pingos de água como um raio de sol tímido no Inverno. A todo o custo, protegia-se debaixo de um grande chapéu-de-chuva encarnado que, apesar de robusto, ameaçava vergar-se perante a força da bátega.


Corri para a porta e recebi-a com um sorriso. 


- Bom dia, dona Martinha. – com delicadeza, segurei-lhe no chapéu.


- Bom dia, menina. – ela respondeu, entregando-me o chapéu-de-chuva.


Quando regressei das traseiras, ela já estava no seu local habitual, sentada num sofá a um canto da sala. Nas mãos engelhadas, por onde despontavam pequenas manchas da idade que pareciam navegar nas veias salientes, repousava o seu amado livro. Entre poemas de amor e saudade, reencontrou Natália e juntas viraram as páginas que durante quarenta e dois anos tinham lido em conjunto.

Deixei a dona Martinha com as suas recordações e voltei a prestar atenção à chuva.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Boardwalk Empire

Nos últimos tempos, optei por não ver televisão, nem mesmo as séries dos canais por cabo que tanto gosto.

Acabadinha de chegar a casa, ligo, finalmente, o dito aparelho no AXN e deparo-me com a fantástica Boardwalk Empire (passa num outro canal AXN, que não tenho).

É um regresso temporário. Logo que acabe, tenho uma pilha de livros para ler.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Franco Nero




(não estou a cumprir os posts intercalados, mas esta notícia é demasiado importante. E os amigos merecem.)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Contos sobre crianças e adolescentes

   'O rumor surdo das ondas tomou conta do peito do menino. A mãe sentou-se na areia enquanto o filho, de pé, não tirava os olhos do chão. Com suavidade, a mãe o incitou:
   - Olha o mar, querido.
   - Não posso, mãe.
   - Como não podes?
   - Tenho medo de que os meus olhos se afoguem.
   O sorriso da mulher era tristonho. Contemplou o menino como se ele, de repente, se tivesse tornado homem. Não tardaria que o seu filho, o seu único filho, transpusesse o quintal e batesse a porta. Em si confirmou o triste destino: ser mãe é, sobretudo, a saudade de ter sido mãe.

Mia Couto, A Escama

***

   'Quando Rachel teve alta para vir para casa, inventei um plano. Havia de lhe mostrar Nova Iorque. Era a cidade onde eu nascera, onde a minha mãe nascera e também o meu pai. Se Rachel visse como era espantosa, e como eu a amava, havia de decidir que talvez não fosse capaz de nos deixar. Vivíamos no nosso pequeno ninho na 18th Street, suficientemente alto para vermos o rio a transformar-se em prata fundida, quando o Sol descia no horizonte. Fiquei com Rachel ao colo, junto à janela, e disse-lhe:
    - Isto aqui é tão excitante que o teu coração nunca irá parar de bater!'

Katherine Vaz, A minha irmã Cisne

***

   'Uma vez, quando a Caramel estava a ladrar para nós, o Angel disse-me: «Deve ter acontecido qualquer coisa quando era cachorrinha que a deixou traumatizada.» E foi assim que fiquei a saber que o Angel acredita mais na nurture do que na nature. Vive só com a mãe e acha que foi ter um pai ausente que fez dele um proto-gay. Diz que é isso que Sigmund Freud pensava, também. Só que se calhar tanto ele como Freud estão errados e o ele estar apanhado pelo Brad Pitt é uma coisa que lhe está no ADN.'

Richard Zimler, Ilha Teresa

'O Tempo das Crianças, Histórias de Infância' é uma antologia de contos organizada por Richard Zimler e Rasa Sekulovic. Foram escolhidos contos de Margaret Atwood, André Brink, Dulce Maria Cardoso, Mia Couto, Junot Díaz, Nadine Gordimer, Elizabeth Hay, Lídia Jorge, Etgar Keret, Alberto Manguel, Ondjaki, Judith Ravenscroft, Ali Smith, Katherine Vaz, Patricia Volk e Richard Zimler. Os direitos de autor revertem para a organização Save The Children.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

2013 literário


A Dona-Redonda ofereceu um selo aos blogues de que é seguidora. Agradeço e aceito com todo o gosto.

As regras deste selo são: indicar um mínimo de dois livros que gostei de ler em 2012 (sem limite máximo); indicar pelo menos três livros que desejo ler em 2013 (sem limite máximo); indicar o nome e o link de quem ofereceu o selo e oferecer o selo a mais 10 pessoas para dar sequência a este projeto de incentivo à leitura. 

Não escolho 10 pessoas, convido-vos a participar :)

Livros lidos em 2012 :
  • '1Q84' - Haruki Murakami. Esperava ansiosamente a saída de cada livro - no Natal de 2011 tinha recebido o 1 (aqui, aqui, aqui);
  • 'Memorial do Convento' - José Saramago. Foi uma estreia em grande. Até ao ano passado, nunca tinha lido nada dele. É verdade que as primeiras páginas não são fáceis, mas depois não consegui parar. É um dos meus livros preferidos (aqui);
  • 'No Meu Peito Não Cabem Pássaros' - Nuno Camarneiro. Li a amostra na biblioteca kobo e comprei-o. Adorei (aqui);
  • 'O nosso reino' - valter hugo mãe. Muito bom (aqui);
  • 'After Dark - Os Passageiros da Noite' - Haruki Murakami. Na verdade, reli-o. De vez em quando, releio os romances dele. Este é o meu preferido (aqui);
  • 'Scarpetta' - Patricia Cornwell. Há anos que sigo as aventuras da médica-legista norte-americana Kay Scarpetta. Depois também li 'Red Mist' e como saltei um livro, assisti a uma inesperável reviravolta da história (aqui). 
  • 'O Prisioneiro do Céu' - Carlos Ruiz Zafón. Lido nas férias à beira-mar. Claro que gostei (aqui).

2013: 
  • Li 'Fun Home', da Alison Bechdel no sábado passado. 5* no Goodreads;
  • 'O Ano Sabático' - João Tordo;
  • 'O Lustre' e 'Um Sopro de Vida' - Clarice Lispector. Estão em promoção na Bertrand até 10 de Março, acumulando no cartão;
  • 'Ernestina' - J. Rentes de Carvalho;
  • Volumes 5 e 6 das 'Crónicas de Gelo e Fogo' - R.R. Martin. Acabei o 4 no passado domingo.
O meu desafio este ano no Goodreads é ler 30 livros. Vamos ver se consigo...

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Da Poesia Que Posso

Há uma certa maré nas coisas humanas
Espero pelo verão como por outra vida
no inverno é que o verão existe verdadeiramente
É o dia em que segundo alguns jornais
john hoare e david johnstone iniciam
a travessia do atlântico num barco a remos
É o dia das grandes travessias
o mar a vida isso que importa?
Dios qué bueno es el gozo por aquesta mañana
aqui na orla da praia mudo e contente do mar
Ao chegar aos cinquenta sessenta anos
Quando os fizer talvez pense nisso
e não agora a tanto tempo de distância
Agora sou do cúmulo da tarde
desta tarde no início do outono
ou do início desta tarde de outono
Só depois é que pergunto que fazer de tudo isto
que torna o cid meu contemporâneo
Dios qué bueno es el gozo por aquesta mañana
de um dia em que me achei mais pachorrento
Manhã ou tarde? primavera ou outono?
Não sei pouco me importa
Pouco me importa o quê? Não sei
(o resto vem no pessoa
Pessoa é o poeta vivo que me interessa mais)
Basta a cada dia a sua própria alegria
e é grande a alegria quando iguala o dia

Ruy Belo, Homem de Palavra[s]


Ao miguel, que faz anos no mesmo dia que a minha mãe e se antes estava triste, agora estou feliz.

Missa de aniversário

Há um ano que os teus gestos andam
ausentes da nossa freguesia
Tu que eras destes campos
onde de novo a seara amadurece
donde és hoje?
Que nome novo tens?
Haverá mais singular fim de semana
do que um sábado assim que nunca mais tem fim?
Que ocupação é agora a tua
que tens todo o tempo livre à tua frente?
Que passos te levarão atrás
do arrulhar da pomba em nossos céus?
Que te acontece que não mais fizeste anos
embora a mesa posta continue à tua espera
e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez florido?

Era esta a voz dele assim é que falava
dizem agora as giestas desta sua terra
que o viram passar nos caminhos da infância
junto ao primeiro voo das perdizes

Já só na gaveta te levamos morto àqueles caminhos
onde deixaste a marca dos teus pés
Apenas na gravata. A tua morte
deixou de nos vestir completamente
No verão em que partiste bem me lembro
pensei coisas profundas
É de novo verão. Cada vez tens menos lugar
neste canto de nós donde anualmente
te havemos piedosamente de desenterrar
Até à morte da morte

Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates  
Todos os Poemas, Circulo de Leitores, 2000


A minha mãe faria hoje 63 anos. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A mãe

Balbina nascera no Lobito, tinha olhos castanhos vivazes, pele brilhante e na cabeça um lenço de matizes quentes como as da sua terra. Roberto, de penetrantes olhos verdes e cabelo louro, era alto, magro e usava óculos redondinhos num nariz adunco.
 

Roberto perdia-se de amores pela sua Bina tom de café com leite, de peito largo e convidativo, e Bina continuava apaixonada pelo seu homem da cor do milheiral em pleno Setembro, de barba hirsuta pontilhada por manchas grisalhas, que ela tentava domesticar sem sucesso com dedos doces e pacientes.
 

Fernando, quinze anos feitos na semana anterior, um dia apresentou aos pais uma colega da escola. Nando era um rapaz acanhado com pele da cor da da mãe e olhos verdes como os do pai. Gagueava as palavras em fragmentos tímidos, como um papagaio de papel que hesita em pulos desengonçados antes de conseguir levantar vôo encavalitado numa rabanada de vento.
 

Roberto, calado, observou com curiosidade a rapariga que Nando tanto gostava. Bina, a seu lado com um sorriso, mediu-a intensamente da cabeça aos pés. A jovem sentiu-se a afoguear naqueles olhos incandescentes como o sol e no seu colo quente como África.
 

Acompanhados de uma sonora gargalhada de júbilo, os braços roliços de Bina receberam-na em casa, como a porta da entrada a tinha acolhido minutos antes. Maria encostou o rosto ao seu peito, respirou o cheiro do pirão, da mandioca e do jindungo e, pela primeira vez na vida, soube o que era ter uma mãe.