terça-feira, 30 de abril de 2013

Afinidades

A Bia encontra-se doente e está a comer muito mal. Comprei um filete de peixe, cozi-o e parti-o aos pedacinhos. Torceu o nariz e afastou-se do prato. Dei-o aos outros gatos. Nem lhe tocaram. Suspeito que sabem que é peixe-gato.

A tartaruga gostou. Não há qualquer parentesco entre eles. Tem comida para os próximos dias.

Thelonious Monk


Compositor, pianista, com um estilo único, é considerado um dos gigantes do jazz. É o segundo artista com mais discos gravados (sendo o primeiro Duke Ellington). 



É maravilhosa a amizade que se estabeleceu entre Monk e ‘Nica’ (Pannonica de Koenigswarter, da família Rothschild) e patrona de muitos músicos de jazz nova-iorquinos.

Para que não sabe, hoje é o Dia Internacional do Jazz, efeméride lançada pela UNESCO. Istambul é a capital do jazz e Herbie Hancock o seu embaixador. 

Para celebrar a música como união, paz e diálogo entre os povos, hoje no metro da Baixa-Chiado, em Lisboa, às 17 horas, no âmbito das comemorações do Ano de Portugal no Brasil e o Ano do Brasil em Portugal, haverá um concerto conjunto com uma ligação-vídeo transatlântica entre Lisboa e São Paulo.

domingo, 28 de abril de 2013

Algodão-doce

   Há um longo tempo que a minha mão direita está pousada na pequena bancada cinzenta de fórmica. Com a outra mão, massajava lentamente o joelho esquerdo, que latejava devido a um antigo acidente.
   Permanecia sentada, hirta, contemplando o pálido círculo no chão. Ergui o olhar e procurei a sua origem. Através da pequena e baça vidraça de uma janela junto ao tecto, um translúcido raio de sol salpicado por pontinhos escuros de poeira derramava-se obliquamente. Qual David, enfrentava a incandescente iluminação artificial do centro comercial.
   Baixei a cabeça e olhei para quatro homens de meia-idade sentados em poltronas vermelhas dispostas num círculo largo. Dois folheavam jornais desportivos de clubes rivais e um dormitava com o queixo encostado na mão e o cotovelo apoiado no braço da poltrona.
   O último homem respirava pausadamente, com um sorriso nos lábios, enquanto olhava a mancha solar a seus pés. Um ou outro cabelo branco assomava, rebelde, numa cabeça quase calva. As mãos repousavam placidamente sobre o seu abdómen protuberante.
   - ‘Vô! - um grito esfuziante de uma criança entrecortou o silêncio do corredor, o eco reverberando no ar, como um diapasão ao menor som. Os dois velhotes interromperam a leitura dos jornais e o outro estrebuchou e abriu os olhos.
   Virei a cabeça. Ao longe, dois homens tentavam, sem sucesso, acalmar uma menina, que, impaciente, acabou por se soltar das suas mãos.
   Correu para junto das poltronas e sem rodeios, pulou para os joelhos do grande homem, abraçando-o. Dois bracitos magros e compridos apertaram com vigor o seu pescoço enrugado.
   - Gosto muito de ti! – exclamou, mostrando um sorriso desdentado.
   - Ora! – o avô disfarçou a emoção, amparando-a e levantando-se sem demora. Ignorou o peso da pequena criatura que se colava ao seu corpo como um molusco, com as pernas enroladas na sua cintura avantajada. – Está na hora? - perguntou aos dois homens que se tinham aproximado.
   - Sim, Pai – um deles respondeu. Olhou-os com ternura e fez um gesto cúmplice para o parceiro – Um para a viagem?
   - Um. – ele sorriu.
   Apoiando-me na bancada, ergui-me com dificuldade, com o joelho a palpitar de dor. Verti o açúcar no reservatório, liguei-o e rapidamente doces fios enovelaram-se no fino pau de madeira. Sob o olhar atento da menina, girei-o habilmente nos dedos, moldando uma nuvem doce e alva.
   Coroada por um diáfano raio de sol, observei aquela família feliz a partilhar um enorme e fofo algodão-doce.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

O portugal futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo, País Possível

domingo, 21 de abril de 2013

sábado, 20 de abril de 2013

Peregrino e Hóspede Sobre a Terra

Meu único país é sempre onde estou bem
é onde pago o bem com sofrimento
é onde num momento tudo tenho
O meu país agora são os mesmos campos verdes
que no outono vi tristes e desolados
e onde nem me pedem passaporte
pois neles nasci e morro a cada instante
que a paz não é palavra para mim
O malmequer a erva o pessegueiro em flor
asseguram o mínimo de dor indispensável
a quem na felicidade que tivesse
veria uma reforma e um insulto
A vida recomeça e o sol brilha
a tudo isto chamam primavera
mas nada disto cabe numa só palavra
abstracta quando tudo é tão concreto e vário
O meu país são todos os meus amigos
que conquisto e que perco a cada instante
Os meus amigos são os mais recentes
os dos demais países os que mal conheço e
tenho de abandonar porque me vou embora
pois eu nunca estou bem aonde estou
nem mesmo estou sequer aonde estou
Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
mas o país que tinha já de si pequeno
fizeram-no pequeno para mim
os donos das pessoas e das terras
os vendilhões das almas no templo do mundo
Sou donde estou e só sou português
por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez

Ruy Belo, Transporte no Tempo

quarta-feira, 17 de abril de 2013

O Profundo Mar Azul

Gostei muito deste filme, que é uma adaptação da peça de teatro de Terence Rattigan, de 1952. Gostei principalmente da Rachel Weisz. É uma das minhas actrizes preferidas, aqui interpretando o papel de uma mulher casada com um juiz pouco emotivo (e com uma mãe insensível) e que se apaixona por um piloto da Segunda Guerra Mundial, indo viver com ele. O filme começa com a tentativa de suicídio dela por ele não se ter lembrado do seu aniversário, desenrolando-se, então, em flashbacks, apresentando momentos mais ou menos felizes dessa nova relação.
 
Ao longo do filme, há jogos de sombras que gostei, bem como grandes planos dos actores, a imagem fixa-se muito tempo nos rostos, e eles actuam como se estivessem num palco. Também gostei da semi-obscuridade de certas cenas, como no passeio junto ao bar, após uma intensa discussão entre eles, em que me pareceu um momento muito íntimo, quase confessional entre ela e o amigo dele.

É um filme forte com uma belíssima cenografia que me agradou imenso. E lendo a crítica no Ípsilon, agora percebo aquela névoa presente na imagem, que me fazia um pouco de confusão (a propósito, adorei a segunda crítica).

Por tudo isto, talvez o mais importante deste drama seja mesmo a necessidade de amar e nunca se prender às circunstâncias, sendo que a diferença desse amor é mostrada a determinada altura pela senhoria da casa (Mrs. Elton, interpretada por Anne Mitchell), numa cena brilhante e, ao mesmo tempo, dolorosa e que me fez recordar, claro, o filme 'Amour'.

Samuel Barber e o concerto para violino Opus 14, segundo movimento (este excelente CD faz parte da banda sonora.)

terça-feira, 16 de abril de 2013

6.º Jantar de Bloggers

(banner elaborado pelo Paulo, do blogue 'Felizes Juntos')

Tal como o João anunciou tão bem, no dia 25 de Maio, sábado, a partir das 20 horas,  terá lugar o sexto e tão aguardado jantar de bloggers, uma tradição para alguns e uma estreia para mim.

O restaurante Guilho foi, à semelhança de edições anteriores, o local escolhido. Fica na Amadora.

Assim, para quem vem de carro, após a recta dos hipermercados (a antiga recta dos cabos d'Ávila, não tão longe da nossa memória), após os semáforos, existe um pequeno parque de estacionamento junto a vários bancos e cujos logótipos se avistam bem ao longe. Ao lado, na rua sem sentido fica o restaurante e bem próximo o Centro de Saúde. Para quem vem de comboio, como é o meu caso, basta sair na estação da Amadora, do lado contrário à Câmara Municipal (eu, como tenho um péssimo sentido de orientação, não me posso esquecer!).

O menu é o seguinte: 
  • couvert/entradas: pão, manteigas, azeitonas
  • prato principal: rojões à Guilho (cortados em pedaços pequeninos, o que evitará que se use a faca, já que é um jantar volante)
  • acompanhamentos: arroz, batata frita e salada
  • sobremesas: um leque variado de sobremesas do dia (caseiras e deliciosas)
  • bebidas: vinho da casa à descrição, sumo de laranja em jarro, cerveja (stock limitado)
  • Café
O preço é 15 € (o restaurante não tem multibanco, mas existem várias caixas MB próximas).

Fui lá jantar na semana passada com o João e fomos atendidos com muita simpatia pela Lia e pela Ana, as donas do restaurante. A comida é saborosa, o local bonito e calmo.

As inscrições podem ser efectuadas comigo ou com o João. Ficamos à vossa espera! :)

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A Sombra dos Dias


Há mais de um ano que queria ler este livro e, finalmente, o João Roque teve a gentileza de mo emprestar.

A Sombra dos Dias’ é um romance autobiográfico de Guilherme de Melo, tendo sido escrito entre 1978-79 e publicado pela primeira vez em 1981 pela Bertrand.

A primeira parte descreve o início de vida dos pais de Guy, a personagem principal, bem como os seus primeiros anos de vida até à idade adulta, quando se afirma como jornalista. Termina na anulação do seu casamento e consequente escândalo, quando a sociedade de Lourenço Marques descobre a sua homossexualidade. A segunda parte cobre os anos de ouro de Guy, nos quais ele atinge os píncaros da fama como jornalista e vive intensamente a sua condição de homossexual, frequenta as parties cheias de jovens militares que, naquela altura, faziam a comissão em Lourenço Marques, actual Maputo (rapazes que, a troco de uns dinheiros para a diversão, colmatavam a solidão dos homossexuais), ao mesmo tempo que recrudesce a guerra em Moçambique, até ao momento em que se dá o 25 de Abril de 1974. Nesta altura, Guy vive relacionamentos mais ou menos fixos, até que esses parceiros, que nunca foram homossexuais, estando, por conseguinte, do outro lado do muro, acabam por se casar e terem filhos. Por fim, a última parte é sobre o fim da sua vida em Lourenço Marques, em que ele desiste de trabalhar no jornal ao qual tinha dedicado vinte e três anos de vida e ele e a sua família (mãe e duas irmãs), resolvem vir viver para Lisboa e recomeçam do zero, com uns caixotes a servirem de bancos numa casa acanhada do Príncipe Real. Guy vê-se sem trabalho, sem as comodidades de antigamente, passa dificuldades, ao mesmo tempo que, aos 45 anos, entra num relacionamento destrutivo e doentio, que o forçou a ir para a província para se restabelecer após um violentíssimo ataque. 

A Sombra dos Diasé um livro romântico, em muitos momentos a sua narrativa torna-se repetitiva, quando descreve os companheiros de Guy, viris, adónis, gladíolos, contudo, nunca homossexuais na sua plenitude.
São 549 páginas de leitura fácil, muitas vezes melosa, se bem que por trás da simplicidade da escrita de Guilherme de Melo esteja uma história marcante, sensível e corajosa de um homem que nunca escondeu a sua condição de homossexual.

A única crítica menos boa foi, na segunda parte, eu ter ficado muito, mas mesmo muito farta da aura de mito de Guy.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Atropelamento mortal

Nalgum oásis do princípio ele fora
um fugitivo brilho no olhar de deus
a vida havia de lho lembrar muitas vezes

Atravessou as nossas ruas entre gatos
a chuva molhou-lhe as pobres botas cambadas
Teve um banco de jardim teve amigos um deles o sol
Sempre sem o saber procurou deus
Um dia foi campos fora atrás dele perdeu o emprego
na câmara municipal. Teve mãe mas depois
nunca mais foi solução para ninguém

Naquele dia a morte instalou-o
confortavelmente no céu. Lá se foi
com seus modos humanos seus caprichos
e um notório acanhamento em público
(há-de a princípio faltar-lhe à-vontade entre os anjos)

Tinha o nome no registo agora habita
nas planícies ilimitadas de deus
Nas suas costas ainda se derrama
a tarde interrompida
Manhãs e manhãs desfilarão sobre ele
caracóis cobrirão a memória daquele
que foi da sua infância como qualquer de nós

Teve um nome de aqui andou de boca em boca
agora é deus que para sempre o tem na voz

Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates

domingo, 7 de abril de 2013

O cheiro

Durante três noites, foi a minha companhia. Na nossa cama, abraçava-a e apertava-a com força, e como a água que se entranha na terra sedenta, desejei que se infiltrasse pelos meus poros e me saciasse com o seu odor. Cheirava à água-de-rosas com que todas as noites limpava o rosto antes de se ir deitar, à laca com que domava o seu farto e grisalho cabelo, à pasta de dentes e ao elixir de mentol, à fragância de baunilha do seu perfume favorito. Ao mesmo tempo, cheirava aos refogados dos anos passados a cozinhar, aos bolos que os filhos levavam para a escola nos dias de aniversário, às compotas e aos biscoitos e às vésperas de Natais em que nunca faltavam o bacalhau com couves e a perna de cabrito. Cheirava a trinta e oito anos de casamento, a quatro filhos e a sete netos.
 

Aspirei-a pela última vez. Naquele precioso e imaterial instante, os pêlos das narinas retiveram uma última recordação de ti.
 

No derradeiro momento, e como desejaste, fechei a porta do quarto do hospital onde estavas há sete meses e despi-a, desculpando-me por a ter deformado com o meu tronco largo, os braços compridos, os cotovelos salientes. Ergui os teus braços frágeis e magros e a custo, mas sem ajuda, e vesti-te com a tua camisola preferida de caxemira cor-de-rosa.
 

Sorriste e encostaste-te às almofadas. Sentei-me ao teu lado, apertei-te a mão e os teus olhos cansados fecharam-se de vez, o nosso cheiro acompanhando-te para sempre.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A razão

On the Dance Floor


Prestando tributo a Michael Jackson, Enrico Rava, aclamado trompetista italiano, lançou recentemente este CD de jazz.

Num impulso de curiosidade - suscitada pela mediática morte em 2009 do Rei da Pop - Rava adquiriu, de forma compulsiva, toda a obra do cantor.

Como o músico confessou, Michael Jackson acabaria por invadir a sua vida, obsessão que conduziu a este trabalho. Em 'On the Dance Floor,' Enrico Rava rompe completamente com os cânones convencionais da Pop e do Jazz, adicionando às músicas de Michael Jackson o seu estilo pessoal.

Este álbum gravado ao vivo conta com a participação de jovens talentos do ensemble Parco della Musica Jazz Lab e do pianista Giovanni Guidi do quinteto habitual de Rava.


terça-feira, 2 de abril de 2013

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Just a perfect day

Um fim-de-semana prolongado e a mudança da hora fez com que ontem estivesse a ler até às tantas e hoje, por ser início do mês e regresso das mini-férias, acordar sem despertador sem saber bem a razão e sair de casa mais cedo para comprar o passe e evitar a fila na bilheteira.

Apesar de tudo, lá consegui beber o nicola no café da estação e apanhar o comboio das 7,48.

E não é por ser o dia das mentiras, mas a manhã ainda nem vai a meio e já estou acordada desde as seis menos vinte...

Parafraseando o sad eyes, bom dia ao som de Perfect Day, de Lou Reed.