quarta-feira, 29 de maio de 2013

O balão


   À saída da estação do comboio, estavam a oferecer balões. Aceitei um, sorrindo. Enrolei o cordel no dedo indicador esquerdo e fui andando com ele encostado ao peito. Era um bonito balão encarnado, não muito grande, com o logotipo de uma marca de brinquedos. 
   Virei à direita, depois à esquerda, passei pela estação dos correios que servia de referência, enquanto fixava o olhar no fundo da rua. No lugar combinado, já se encontravam pequenos grupos. Aproximei-me devagar, nervosa, e apresentei-me. Apresentei o balão, também. As pessoas riram e tudo ficou mais leve, como o balão. A conversa continuou como se não tivesse sido interrompida. Agora, havia um corpo e uma voz, uma boca que sorria, umas mãos que acompanhavam o discurso, mas eram as mesmas pessoas.
   Dentro do pequeno restaurante, a um canto afastado, desenrolei o cordel e soltei devagar o balão, que subiu até ao tecto, o fio balançando levemente na brisa do ar condicionado.
   Ao jantar, serviram-se sorrisos, gargalhadas e confidências e bebeu-se à amizade. Suspensas ficavam as memórias nas quatro paredes brancas.
   As horas passavam demasiado rápido. Apercebi-me, então, que as pessoas começavam a se despedir. Puxava-as para o canto onde estava o balão e pedia-lhes uma recordação. Agarrando no cordel, descia o balão e entregava-lhes um marcador preto. Elas desenhavam caras risonhas, malmequeres, escreviam o nome, uma frase, um verso de um poema. 
   Foi o meu primeiro jantar. Foram muitos os encontros, desde então. Ao longo dos anos, apenas a cor do balão mudou. 



Este conto é dedicado a todos os que estiveram presentes no jantar.  :)

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Matar ao contrário

  'Funguei compridamente.
  - Não faz mal, eu vou matar ele.
  - Que é isso menino, matares o teu pai?
  - Vou, sim. Eu já até que comecei. Matar não quer dizer a gente pegar o revólver de Buck Jones e fazer bum! Não é isso. A gente mata no coração. Vai deixando de querer bem. E um dia a pessoa morreu.
  - Que cabecinha imaginosa que tu tens.
  Dizia isso mas não conseguia esconder a emoção que o assaltava.
  - Mas tu também não disseste que me matavas?
  - Disse no começo. Depois matei você ao contrário. Fiz você morrer nascendo no meu coração. Você é a única pessoa que eu gosto, Portuga. O único amigo que eu tenho. Não é porque me dá figurinhas, refresco, doce ou bola de gude... Juro que estou falando a verdade.'

José Mauro de Vasconcelos, 'O meu Pé de Laranja Lima', Melhoramentos, Centro do Livro Brasileiro, 6.ª edição, 1978, p.149.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Amor por dentro

'O drama de Florentino Ariza, enquanto foi escriturário da Companhia Fluvial das Caraíbas, era que não podia iludir o seu lirismo porque não deixava de pensar em Fermina Daza e nunca aprendeu a escrever sem pensar nela. Depois, quando o passaram para outros serviços, sobrava-lhe tanto amor por dentro que não sabia que fazer com ele e oferecia-o aos namorados analfabetos escrevendo para eles cartas de amor gratuitas no Portal dos Escrivães.'

Gabriel García Márquez, 'O Amor nos Tempos de Cólera', Publicações Dom Quixote, 10.ª edição, 1999, p. 185.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Desafio do Goodreads

Tinha planeado ler 30 livros este ano. Até ao momento, li 20.  É verdade que alguns não tinham mais que cem páginas. Um e outro tinham 400.

Subi a fasquia para 42 livros.

Agora, estou a reler 'O Amor nos Tempos de Cólera'.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Pixel 3 'Happy Xmas' - Lançamento do ebook

As pequenas histórias lgbt subordinadas ao tema 'Happy Xmas' foram produzidas no âmbito do concurso 'Pixel 3', lançado pelo Sad Eyes, autor do blogue 'good friends are hard to find'.

A partir de hoje, a colectânea encontra-se disponível para download no site da editora Index ebooks.

sábado, 4 de maio de 2013

Eu queria um Tobias, veio uma Bia

Quando a Bia era jovem, gostava da rua. Eu colocava-lhe o arnês, a trela azul e a coleira anti-pulgas e descíamos as escadas do velho prédio da Mouraria. Comia as ervas dos cantos, cheirava as coisas, o ar, olhava tudo, curiosa, com os seus imensos olhos azuis.

Quando tinha uns dois anos, conseguiu deslizar pela janela da cozinha, que eu deixava entreaberta, e saltou para um quintal abandonado. Felizmente, vivíamos num segundo andar baixo. Já era de noite, muito tarde, e não incomodei a vizinha do rés-do-chão, pois era pela sua casa que teria acesso a esse quintal. Nessa noite, a Bia dormiu ao relento. Estava uma noite bonita e quente e enrolou-se dentro de um balde que eu tinha deslizado por uma corda com a esperança de ela saltar lá para dentro e eu a puxar. Pois sim...


A Bia escarrapachava-se nos meus ombros quando estava sentada à mesa a escrever no computador. Ela batia no meu braço direito com a patita quando eu estava sentada no sofá com o portátil nos joelhos, como que a dizer 'dá-me atenção, eu estou aqui.' Poisava-o na mesa e ela subia para o meu colo, aninhava-se e fechava os olhos.


Quando eram horas de ir para a cama, eu batia palmas, levantando-me do sofá e anunciava 'vá, meninos, são horas de dormir.' Os outros gatos saltavam e caminhavam, pachorrentos, a Bia, ainda há umas semanas, espreguiçava-se toda, bocejava, olhava-me e ajeitava-se melhor no sofá. Eu pegava nela, fechava a porta da sala e colocava-a na sua cama.


Quando arrendei a casa de Lisboa, quis, de imediato, ter um gato. Tendo crescido com animais, não imaginaria a minha vida sem eles. Tinha já pensado num nome, Tobias.  Quando mo deram, disseram que era muito mimado e que mamava em duas gatas. Eu abracei-o, fui para casa, olhei-o e era uma gata. Não importava.


'Em vez de um Tobias, veio uma Bia' era a frase que eu repetia muitas e muitas vezes.


Quando precisava de carinho e ânimo, lambia-me o queixo com a sua língua de lixa e pousava o focinho no meu ombro. Quando precisava de relaxar, bastava fazer-lhe festas e ela ficava no meu colo tempos infinitos a ronronar. 


Obrigada, Bia, por estes dezassete anos. Fui muito feliz.


A Bia foi eutanasiada esta manhã.