sexta-feira, 28 de junho de 2013

Olhar

'Nesse momento, começou a acontecer aquela sensação. Ainda sou capaz de lembrar como, pouco antes de vê-lo parado à minha frente, fui abrindo devagar os olhos. Como se despertasse enquanto alguém abria a janela, tomado por aquela mesma sensação de dourado de quando amanhece ou anoitece nos dias claros de luz, e o sol, um instante antes de surgir ou sumir, joga sobre o horizonte todos os seus presságios, e se você souber olhar, como os homens do campo e os bichos parecem saber, poderia perfeitamente profetizar como será esse dia ou essa noite que começam ou terminam, até mesmo o dia e a noite seguintes, e muitos outros. A estação inteira, se tiver esse olhar, você pode.'
p. 128.

Caio Fernando Abreu, Onde Andará Dulce Veiga?, 2012, Quetzal Editores

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Book and sweet

Nada melhor para este fim de tarde. Um bom livro e um doce caseiro à colherada, com cubinhos de abóbora, tal com a minha avó fazia.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

As Confissões de Frei Abóbora

Acontece-me muitas vezes, agora. Nas últimas páginas de um livro, quando já há muito que é previsível o desenlace da história, começo a chorar. E choro e choro e tenho que tirar os óculos, que é uma choradeira imensa. Com este livro do José Mauro de Vasconcelos não foi diferente. Ou é por eu estar mais sensível, ou é porque o livro mantém o mesmo estilo de 'O Meu Pé de Laranja Lima'. A personagem é a mesma, o Zezé, o Gum, tão doce, bondoso como era em criança, mas agora é adulto e, no fim, um triste velho.
 
O livro está dividido em três partes: 'A Oração', 'Pedaços de Memória' e 'As Tartarugas', ou seja, inicia-se no presente, ele como Frei Abóbora, não verdadeiro religioso, mas age como tal, como um missionário sem batina, retrocede para o passado, para a sua vida adulta e regressa de novo ao presente, com alguns flashbacks pelo meio que esclarecem o seu comportamento face a Deus. Inclui, mesmo, um episódio no colégio interno, ele adolescente, a ser molestado por um professor religioso.


Zezé, então, cresceu e sobrevive fazendo trabalhos de modelo na escola de Belas Artes e se prostituindo. Numa cena de modelo, por exemplo, está como Cristo na cruz, apenas de tanga e com as pernas cheias de marcas da seringa com morfina que um homossexual lhe tinha injectado na noite anterior.

Numa noite, numa festa, conhece aquela que será o amor da sua vida, uma mulher alguns anos mais velha que ele, Paula, Pupinha, Pô, Toujours, como ele a tratava carinhosamente e vivem juntos uma bela história de amor, com alguns interregnos pelo meio. Ela passa temporadas em Paris e ele na selva com os índios, tratando das suas maleitas (deixou um curso de medicina a meio), tomando conta da farmácia, arranjando roupa, comida, dinheiro. Afinal, a sua mãe era índia e a selva estava-lhe no sangue.
 
Dez anos vivem juntos Paula e Baby, pois é assim que ela o trata. Então, ela começa a beber, a entrar em depressão, a temer a velhice. Paula nota os anos a passarem até que fica doente. Mas da doença ele desconhece e, depois de uma grande discussão, ele sai de casa dela e nunca mais a vê. E ela, da janela, vê-o a afastar-se, lindo na sua camisola amarela e só deseja que ele a recorde como ela é, bela.

Mais alguns anos se passam, ele nunca a esquece, até que acontece uma catástrofe. Ab estava na cidade recolhendo subsídios para os índios quando é atropelado por um enorme autocarro e fica paraplégico. No hospital, onde passa meses, confessa-se a Deus, furioso por tudo o que lhe aconteceu e pelo facto de nunca mais poder regressar à selva.

O fim da sua história, tudo o que me fez chorar, é imensamente triste. Mas no meio de tanta tristeza, pobreza e sujidade do quartinho onde vive os últimos dias, encontra a felicidade nos vizinhos e amigos, como Dito, um menino de nove anos, um raio de sol negro, que o ajuda a ganhar uns cobres vendendo cautelas e empurrando a sua cadeira de rodas pela cidade do Recife, e Turga, a prostituta com vestidos que são jardins cheios de rosas.


Há uma cena quase no final, no meio da alucinação, que inclui uma lagartixa alada chamada Zéfineta B., uma lagartixa que ele conheceu na selva anos antes e com quem manteve fantásticas conversas, que ela repetia mais tarde à outras lagartixas e a um lagarto e que são absolutamente maravilhosas, tipo as fábulas do tempo em que os animais falavam e que são dos momentos mais belos deste romance.

Então, finalizando este spoiler, no meio dessa alucinação, ele sonha com a escada ladeada de índios, tal como a Tia Estefânia lhe tinha dito, e de muletas, incentivado por Zéfineta, tenta subir os degraus do miserável prédio onde vive. Cai e é nos braços de Turga que morre, por fim, cansado e sonhando com Paula.

E já estou emocionada de novo, só de reler isto.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Elvis sobre a Baía de Guanabara e Outras Histórias

Estava ansiosa por este livro do Miguel e, mal cheguei a casa, acedi à Kobo e decarreguei-o para a biblioteca. Estava à espera de algo grandioso, mas assim tão belo, pungente, indescritível, não. Emocionei-me com as 'Canções de Amor', chorei com 'Chez Toi', caiu uma tristeza tão grande quando li 'Quatro Canções'.
 

Não é apenas por o Miguel ser um amigo, mas porque se comprova, como se fosse ainda possível eu não o ter enxergado nos seus textos, que é um escritor fabuloso, dotado de uma sensibilidade tocante e com uma escrita irrepreensível.

Li-o esta noite de imediato, absorvi-o, melhor dizendo, praticamente sem parar, a não ser para umas referências no Google+.


Amanhã voltarei a ele no comboio, meia hora tu cá, tu lá com as histórias que merecem ser relidas, vividas, sentidas.


O meu singelo conselho é que leiam, leiam muitas vezes este livro, até saberem de cor as histórias, e eu queria encontrar as palavras certas para as descrever, mas a única que me sai é mesmo 'sentir', têm que as sentir.

Para terminar, refiro que no Domingo passado fui até à Gulbenkian, porque era o último dia da exposição da Clarice Lispector 'A Hora da Estrela' e acho que se adapta muito bem a este livro uma frase que ela disse na entrevista que passava em vídeo ininterruptamente: 'todo o adulto é solitário e triste'. 

Se ainda não sabem (o que duvido :D), a INDEX ebooks, a editora do João e do Luís, é que publicou esta colectânea de contos e, como sempre, fez um trabalho extraordinário.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Mid Air

The buttons on your collar
The colour of your hair
I think I see you everywhere
I want to live forever
And watch you dancing in the air
All the lies and make-believe
The very things that one day leave
But I can see you standing in mid air
The girl I want to marry
Upon the high trapeze
The day she fell and hurt her knees
And only time can make you
The wind that blows away the leaves
For everything that life was worth
The fallen snow, the virgin birth
Yeah I can see you standing in mid air
I can see you standing in mid air.


(mais aqui)

sábado, 22 de junho de 2013

Praga amiga

   - Seu danado de Frei Abóbora, quantos anos você me conhece plantada na beira desse rio?
   - Bem uns vinte anos.
   - E quantos anos conheço você?
   - Também por aí.
   - Pois são vinte anos que eu vejo você distribuindo bondade e coração por essas brenhas. Pensa que eu esqueço aquela vez que você chegou tão sem camisa que foi preciso comprar uma bem vagabunda para poder viajar? Pensa que eu me esqueço?
   Deu uma risada.
   - Sabe que no começo eu achava que você tinha miolo fraco?
   - Eu acho que nunca deixei de ter.
   - Quando você morrer, meu filho, vai ter uma escada de índios, veja bem, não de anjos, mas de índios que de mãos dadas a você ajudarão você subir degrau a degrau. É uma praga amiga que lhe rogo.
   - Se todas as pragas fossem lindas assim, Deus viveria de sorrisos.


José Mauro de Vasconcelos, 'As Confissões de Frei Abóbora'

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Saudade

Posso aprender a viver sem ti
mas nunca deixarei de escutar
o canto do canário que na
marquise vazia se faz ouvir
muito tempo depois de ter morrido

Perdas

Em 2010, perdi a avó paterna, a mãe e o Pitágoras. Este ano, perdi a Bia e acabei de perder o 'avô' J. 

Estou farta de coincidências. O Farrusco tem dezasseis anos e não quero perder mais ninguém querido no mesmo ano.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Primeiras quedas


Caíste e esfolaste os joelhos,
mas agora eu estou do teu lado
e seguro-te na mão
mesmo que tenhas medo, já não cais
nem te magoas
porque eu seguro-te na mão.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Raiz

No sábado à noite, fui ver a Cuca Roseta ao Fórum Cultural do Seixal, bem perto da minha casa. Nunca a tinha visto ao vivo e o FCS é uma grande sala de espectáculos, assim, apenas ala central estava cheia. Merecia mais gente, por ela ser mesmo muito boa e o preço simpático ajudar à festa. Apresentou o seu último álbum, 'Raiz', acompanhada pelos guitarristas Luís Guerreiro na guitarra portuguesa, Pedro Pinhal na guitarra clássica e Frederico Gato no baixo acústico. Fiquei rendida, ela é mesmo um espanto e tem tanto de voz como de beleza e simpatia. 

Este segundo álbum tem fados compostos, na sua  maioria, por ela própria, mas nesta noite claro que cantou outros, como o 'Fado do Capelão', com o qual abriu o espectáculo.

Quase 1h30 depois, terminou em beleza num encore com o fado 'Boa Nova'.


Só um apartezinho, a provar que este blogue é assim meio eclético e fashion. Na primeira parte, ela usava um top branco pérola cingido à cintura por uma fita de cetim da mesma cor e uma saia evasé até aos tornozelos amarela, muito simples mas que lhe ficava muito bem. Quando o foco lhe incidia por trás, a saia ficava transparente e via-se as pernas e que pernas, longas e bem torneadas. Estava mesmo bonita, com um cabelo como eu gostava de ter (antes de ter acontecido uma desgraça aos doze anos e nunca mais ter crescido como deve ser).
Depois, no meio de uma guitarrada - espectacular - ela saiu e regressou com um vestido branco, também bonito, apertado debaixo do peito, parecido com uma túnica romana, pelos joelhos. Assim, para além de uma grande voz, ela tem um grande corpo. :)


 

(só para situar, o Pedro Pinhal é o do meio e o Frederico Gato é o da direita e faz jus ao nome)


(Mais aqui e aqui)

domingo, 16 de junho de 2013

Ler é...

Conhecimento
 

Biblioburro é uma biblioteca rural ambulante criada por Luís Soriano, professor primário da localidade de La Gloria, Colômbia, e chega a populações que, de outra forma, dificilmente teriam acesso a livros.

Os seus objectivos são estimular a leitura, difundir o conhecimento e incentivar a coesão da comunidade, através da socialização com os livros.

sábado, 15 de junho de 2013

Antipatia

'Mas você também não é antipática, meu bem. Surpreendeu-se com o carinho usado e enterneceu-se na sua solidão quase a ponto de chorar.'

Clarice Lispector, O Lustre

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Amor XIII

Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre -
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego -
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte -
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor que nos traiu -
Quanta traição existe em possuir-se a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro -
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará -
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só -
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na ausência indestrutível que
nos faz ser um no outro -
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida -
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam -
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.


Jorge de Sena, Sinais de Fogo, p. 495.


É extraordinário, este poema...

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Aristogatos XIX

As minhas celulazinhas cinzentas dizem que aqui é um bom sítio para me esconder.

(nota-se muito que sou fã do Poirot, da Miss Marple e do Sherlock Holmes? - caixas ao lado - sim, sou uma Brettiana assumida).

domingo, 9 de junho de 2013

Ler é...

Dou início a uma série chamada 'Ler é...'
(o pontapé de saída, na verdade, foi dado ao Francisco com o 'Reading is sexy').
Comecemos, então, com esta fabulosa imagem de um anúncio.

Elegância 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Desafio foto-literário

O simpático convite do João Máximo para um café na Feira do Livro traduziu-se em ficarmos (o João Roque e eu) por lá até às 22h, para a promoção da 'Hora H'. 

E regressei a casa com cinco livros, embora apenas um comprado à noite. Foi regressar à Feira após o jantar, comprar e sair, que estávamos derreados.

E com esta imagem respondi ao desafio, que anda por aqui e aqui. :)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Inventar a paixão

'A paixão, descobri, era isto: ao mesmo tempo, um desejo ansioso e total de posse exclusiva, e um reconhecimento, entre desesperado e feliz, de todos se identificarem connosco. No momento em que, pela paixão, nos sentíamos mais nós mesmos, era quando todos os outros eram nós mesmos em nós. Mas se assim acontecia, se, no conhecimento absoluto de nós mesmos pela paixão, nos identificávamos afinal muito menos com o objecto dela que com todos os outros seres que, nesse objecto, participavam da sua realidade e mesmo a constituíam, a paixão destruía-se a si própria ou nós próprios a destruíamos, e aos outros, nela. Senti uma espécie de vertigem. E logo percebi que nós mesmos inventávamos a paixão.'

Jorge de Sena, 'Sinais de Fogo', Mécia de Sena - Edições 70, 1984, 4.ª edição, p. 241.

sábado, 1 de junho de 2013

Azul

  Todos os dias passava por sua casa. Abria o portão e subia os degraus de pedra. Dava-lhe dois beijinhos, ela sorria e retribuía. Os seus lábios fininhos deixavam um vestígio húmido na minha cara. Dominava a impaciência em esfregá-lo, limpando os resíduos da sua doçura, porque a amava. Nas suas mãos enrugadas e trémulas vivia a ternura e no rosto mirrado repousavam os seus olhos cobertos por uma névoa azul clarinha.
  Puxava, então, o banquinho vermelho de madeira, sentava-me de costas e esperava. Ela percorria devagar a trança, acariciando os cabelos que se tinham desprendido. Desenrolava o elástico grosso, desmanchando a trança esquerda, e três longas meadas de cabelo negro ondulavam nas suas mãos. Começava a pentear-me lentamente, primeiro com os dedos magros e curvados, depois com a escova, marcando o ritmo de mais uma manhã serena, como eram todas as manhãs naquela altura. Perguntava-me como estava a avó, a mãezinha, os irmãos. Eu respondia que estavam bem, depois olhava para o céu, procurando os dois traços de giz que riscavam o azul. Diariamente, um avião a jacto passava no alto, como parte imutável dos dias de Verão. Seguia-lhes o rastro com o olhar, esfumando-se a sua passagem em pontos diáfanos, o avião a desaparecer lá longe.
  Ela voltava a entrançar o cabelo, enrolava o elástico na ponta e repetia os mesmos gestos na trança direita. Depois, eu encostava-me nos seus joelhos e ela descansava as mãos nos meus ombros, num remanso de mais uma manhã calma de Verão.


 
(por que hoje é o Dia Mundial da Criança. Não tinha tranças, mas tinha puxinhos - já tinha publicado esta foto).

Sinais de Fogo


O João Máximo publicou, há uns meses, no blogue da Index ebooks um post sobre este livro, para muitos considerado o melhor romance português do século XX.

Mais informações em 'Ler Jorge de Sena' (e descobrir que há um filme adaptado do romance).