sábado, 31 de agosto de 2013

Aristogatos XXII

 
A Joana e a Alice fizeram anos. Não sei o mês certo em que nasceram, porque foram encontradas na rua em pequeninas. A Joana estava muito doente quando a recolhi em Novembro de 2000 e a Alice, como devem saber, foi-me dada em Março do ano passado, já esterilizada. Achei que Agosto seria um rico mês de aniversário.

Parabéns, Joana, pelos 13 anos.

Parabéns, Alice, pelos 2 anos.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Para não a acordar e não deixar perder aquela imagem

'Mas, vendo Margarida quieta, respirando tranquilamente de olhos semicerrados, levantou-se na ponta dos pés, compôs-lhe a roupa, e foi descendo a escada das torrinhas, leve e um pouco de lado, para não a acordar e não deixar perder aquela imagem da filha.'
                                                                                      p. 185.

Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal, Obras Completas - Vol. VIII, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1996.

Podem não acreditar, mas li esta frase apenas ontem à tarde, no comboio. Se há semelhanças entre este texto e o da rapariga a dormir no sofá, é pura coincidência :)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

II - Amor

   A rotina estabelecera-se quinze anos antes. Tinha dezoito anos e acabara de entrar para a faculdade. Partilhava um quarto numa residência universitária e, uma vez por mês, metia-me no barco até à margem sul. Por volta das sete e meia, aparecia à porta da sua casa, de início com uma caixa de bolinhos de chá comprada na pastelaria ao lado e atada primorosamente com uma fita vermelha. Depressa foi substituída por uma garrafa de vinho tinto. Da próxima vez, passa pelo Joaquim, ali ao fundo da rua. Tem lá um Dão da nossa terra, e pelo preço dos bolinhos, trazes uma pinga da boa, disse-me a meio do terceiro jantar.
   Púnhamos a conversa em dia e a noite terminava comigo a adormecer, invariavelmente, no sofá da sala de estar. Na manhã seguinte, acordava embrulhada num cobertor vermelho-escuro cheirando a naftalina, qual casulo, com a sua enorme águia de asas abertas estampada enrolada à minha volta, e ainda entalado debaixo dos pés.
   De todas as vezes que despertava, mesmo antes de abrir os olhos, retinha uma vaga ideia do tio Camilo tirar-me os sapatos, encolher-me as pernas, tapar-me e a maneira como executava tais acções, calcando devagar a roupa, com tanta ternura, sem deixar um pedaço do meu corpo desprotegido, com excepção da cabeça, fazia-me muito feliz e eu sorria, levantando, por fim, as pálpebras.
   Naquela altura, ele viajava muito e quando o trabalho o obrigava a estar mais tempo longe de casa, o jantar era adiado para a sexta-feira seguinte. Era a época das novidades, das descobertas, dos amores e das desilusões e eu vivia em constante sobressalto, porque tinha muitas lágrimas para chorar e precisava muito dele, das suas palavras de reconforto, do seu ombro amigo, do seu sofá surrado e de adormecer entorpecida de álcool e emoções.
   A noite em que conheci o César não fora diferente das outras. Conversámos, bebemos, eu estiquei-me no velho sofá, com as pernas a baloiçar num braço, enquanto o tio Camilo entrava num apurado diálogo com o felino. Feitas as cedências de parte a parte, à semelhança de dois miúdos que firmavam um compromisso com cuspo e aperto de mão, aceitaram partilhar o trono. Ele sentou-se no cadeirão e o César ajeitou-se nos seus joelhos ossudos, massajando-lhe as rótulas sobre as calças de fazenda castanhas. E eu fiquei a observá-los: um gato de pêlo amarelo, ronronando, feliz, e o meu tio que lhe fazia festas e sorria, cativado.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Preocupo-me, logo existo!

Original de Eric Bogosian, "Wake up and smell the coffee" é uma stand-up comedy, interpretada igualmente por Bogosian, e que se transformou, posteriormente em filme.

Entre nós, foi traduzida e adaptada por Diogo Infante, que vestiu a pele de oito personagens, muito diferentes entre si, e que espelham a natureza humana, a ganância, a violência, os preconceitos, a preocupação do dia-a-dia. Interpretada por um magnético e brilhante actor num excelente espectáculo que durou um pouco mais que uma hora, levando aos limites a sua capacidade criativa e versatilidade, encarnando os diferentes cromos em diálogos controversos, humorísticos, cínicos, um guru motivacional (um grande papel, o melhor dos oito, para mim, um tipo gordinho, nervoso, dizendo aquelas frases motivacionais da psicologia positiva, 'libertem o vosso bebé interior, sejam felizes', etc., numa pronúncia e maneirismos fantásticos, eu procurava o DI e não o encontrava - e estava sentada na primeira fila -, tal a perfeição da personagem, num timbre completamente diferente), um médico fatalista (muito tio - o tratamento vai funcionar, oiça, mas você vai ter milhentas contra-indicações, mas funciona, só não beba láite), um cantor rock janado, perdão, - ex-drogado (um excelente sotaque da capital) - um vendedor diabólico sem escrúpulos (soberba interpretação) ou um taxista descrente, preconceituoso  (onde é que eu já vi este estereótipo) e rabujento. Também havia um actor sedento de fama (nada como troçar de si próprio, muito hipster, com os óculos da moda, os auscultadores da moda, pedindo ao 'Diogo' o cartão e o nome do seu agente) e, claro, o cidadão que se preocupa, que paga os seus impostos, respeitador das regras, (um como nós, portanto).

Com humor corrosivo, soltamos uma valente gargalhada, revimo-nos nas personagens, ouvimos o 'nosso bebé interior', preocupamo-nos e existimos.

Partilho um episódio caricato que aconteceu a meio da peça. Enquanto fazia a personagem do rocker, batia e abanava o microfone uma data de vezes, tantas que ficou sem som. Vai daí, o técnico de som corre para o palco, troca por outro microfone que estava à mão e sai o DI com 'É o Hoover' (referindo-se a uma outra personagem amiga do 'cantor', Hoover, conhecido como 'o aspirador', igualmente um técnico de som que snifava linhas de coca umas atrás de outras, metros de linhas, e depois deu com a cabeça na parede e foi para o hospital psiquiátrico numa camisa-de-forças).

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sala VIP

Os 'Artistas Unidos' apresentam de 4 de Setembro a 19 de Outubro, no Teatro da Politécnica, 'Sala VIP', de Jorge Silva Melo. Os três primeiros dias de exibição são gratuitos e eu já reservei para quarta-feira, dia de estreia, às 19h. Aproveitem!

domingo, 25 de agosto de 2013

As Aventuras de Augie March

 

Ontem, para variar, fui fazer tempo (que expressão castiça, 'fazer tempo') à FNAC até à hora do filme ao ar livre, na Mouraria. Assim, fui para o canto de leitura e pus-me a ler 'As Aventuras de Augie March'. Fiquei tão absorvida e encantada pela história que hoje, depois da peça, terei de lá regressar e comprar o livro.

Descobri uma nova paixão, o escritor Saul Bellow; dele, apenas tinha lido uma história na Granta PT e adorei.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Cultura, cabelo branco e cinema

Fui comprar o bilhete para o espectáculo do Diogo Infante, para Domingo. Como é o último dia de exibição, e não se fazem reservas por telefone, nem na Ticketline, tive de me deslocar ao S. Jorge. Como também não há lugares marcados, terei que chegar às 16,30, que a peça começa pelas 17h. Aproveitei que estava no cinema e fui ao wc (que isto de beber mais de um litro de água por dia origina frequentes passeatas ao quarto-de-banho). Depois, olhei-me ao espelho (digam lá se não fazem o mesmo :D) e vi um cabelo branco no alto da cabeça. Um cabelo branco! Sei que os tenho, mas em lugares pouco visíveis, e sou do género, longe da vista, longe do coração. Pois é, os quarenta aproximam-se a galope e tudo fazem para que eu não me esqueça.

De seguida, fui ao cinema, não era dia do espectador no El Corte Inglés, mas tinha uns pontos no cartão e usei-os na compra de um bilhete de quarta-feira, a 4,70 €.

A seguir, lá me convenceram a não perder a exposição da Joana Vasconcelos, 'O quê? Tens de ir. Ela esteve em Versalhes e é a maior exposição dela e o Palácio é tão belo, é um contraste muito interessante' e tal e eu 'ela não é a minha praia', e a ver a minha vida a andar para trás, a desenculturar-me e pronto, dei a mão à palmatória, os 10 € pagam a exposição e uma parte da visita ao Palácio Nacional da Ajuda (o bilhete normal é 5 €), embora nem todas as salas estejam abertas ao público. Mas nem pensam que vou ficar duas horas e meia na fila lá para comprar o bilhete. Já basta o que se tem de esperar para entrar, é melhor levar farnel para a ocasião e um livro... Felizmente, os bilhetes estão à venda na Ticketline e tenho uma Worten ao pé de casa e lá fui comprar um.

Por outro lado, temos o 'Lisboa na rua', e gostaria de assistir a alguns eventos, mas isto de acordar cedo, nem com um balde de café lá vai. Pelas 11, 11,30, estou a bocejar e a chamar pelo sofá. Para além de tudo, continuo a medicar o Farrusco e convém não atrasar muito a toma do analgésico. Tem nova consulta de rotina na segunda (o hospital é um espectáculo, estas consultas de rotina não se pagam).

Resumindo e baralhando, amanhã vou ver a JV depois do almoço, é brincadeira para durar a tarde toda. De seguida, aproveitarei e ficarei pela Baixa e darei uma saltada à Mouraria para assistir ao 'Belissima', do L. Visconti, no âmbito do 'Fitas na Rua'. Domingo é a vez da peça 'Preocupo-me, Logo Existo'. Fim-de-semana cheio. Espero que não surjam mais cabelos brancos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

I - César

   Poucos dias antes da morte do meu tio Camilo, acolhi o César.
   De início, ele não tinha nome.
   Contou-me, num dos habituais jantares de sexta-feira, que o tinha encontrado enroscado à porta de casa, ao regressar do hospital. Era um bicho escanzelado, só pele e ossos, assim como eu, ergueu um braço magríssimo, empunhando o garfo, e pensei que estaríamos bem um para o outro. Mirei-o, não se mexeu, passei por cima dele, empurrei a porta, fui à cozinha, abri uma lata de atum, que seria o meu jantar, a propósito, mas onde come um, comem dois, coloquei metade num pires e pousei-o à sua beira. Esperei, esperei, mas nem um pêlo se moveu e nem uma orelha tremeu, de modo que voltei a entrar em casa, deixei a porta encostada, fui à casa-de-banho, regressei para ir ver do bicho, o pires estava vazio, ele tinha desaparecido, encolhi os ombros, pelo menos, hoje não morres de fome, pensei eu, e fechei a porta. E onde estava o gato? Agora vem a melhor parte. Eis que vou dar com sua excelência sentada no meu cadeirão, apontava o bichano com o garfo enquanto falava, e fiquei a mirá-lo durante bastante tempo, ele muito compenetrado nas suas abluções. Quando acabou, bocejou, dignou-se a olhar-me, baixou um tudo ou nada a cabeça, como uma pequena vénia, deu duas voltas e deitou-se. E, terminou com um gesto brusco, espetando uma batata, ali o vês.
   Perguntei-lhe como se chamava, ao que me respondeu, com um encolher de ombros, que não tinha nome. Não me parece que ele se importe muito com isso. Basta ouvir o barulho dos tachos e aparece na cozinha, respondeu.
   Olhei para o gato, refastelado no lugar usurpado uns dias antes. Dormitava. Agora, faz parte da família. Até tem um lugar cativo, repliquei eu. Não achas que merece um?
   O meu tio franziu o sobrolho, pensativo, e, depois de alguns segundos em silêncio, respondeu: César.
   E, como que aprovando o recente nome, o César abriu os olhos e ergueu a cabeça. Levantou-se, espreguiçou-se languidamente e saltou para o chão. Esfregou-se nas nossas pernas, ronronando, e voltou a subir para o cadeirão. Soltou um breve miado e tornou a deitar-se.
   Veni, vidi, vici, suspirou o meu tio, com sorriso que lhe iluminou, por um instante, o rosto macilento.

História - with a little help from my friends

Comecei a escrever um conto um pouco diferente, influenciada pelo que li nos últimos tempos, nomeadamente a Granta Portugal, que publicou uma selecção de histórias muito interessante. Sei, apenas, que será muito mais longo que as micro-narrativas habituais.

Ora, o que sairá deste conto não sei muito bem, (tenho uma vaga ideia, mas transpor para o papel não é fácil). Para já, publico no próximo post o início da história, que esperará os vossos comentários e, possivelmente, ideias para a narrativa. É isso mesmo, escrevam sobre o que gostariam de ver escrito e eu tentarei desenvolver essa ideia :)

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Retalhos da vida do Farrusco II

Esta tarde, levei o gato à consulta de rotina. Informei a veterinária que ele depressa se fartou da alimentação húmida depois de uns dias com apetite (já estava a estranhar, quem me mandou fazer a festa antes do tempo). Pelos vistos, é hábito entre os gatos lamberem o molho até deixarem os pedaços de comida secos. E ele lá se entretinha, guloso, lambendo a comida e deixando-a depois para as gatas comerem, que não são esquisitas. Para lhe estimular o apetite, ela passou-me uma receita para o bichano.

É quase caricato o Valium entrar nesta casa pela primeira vez para um gato. Mas da maneira como estou, aproveito e tomo um ou dois...

domingo, 18 de agosto de 2013

Retalhos da vida do Farrusco

O meu gato Farrusco esteve doente. Começou a emagrecer, associei à idade, os músculos começam a perder elasticidade, começa a ter artrite e deixou de comer ração seca e preferiu a húmida que comprei para a Elvira. Pensei que, com 16 anos, estivesse com problemas nas gengivas, sensíveis e os dentes com cáries. Ele detesta sair de casa, tem convulsões derivadas ao stress, faz xixi e espuma da boca mal o coloco na transportadora, por isso adio até ser mesmo necessário. Quando notei que estava mais fraco, quando deixou de comer, apenas começou a beber muita água, demasiada, achei que era altura. A Bia também bebia imensa água e tinha problemas renais, por isso pensei que o gato também tivesse isso.

Assim, meti-o na caixa, esperando pela convulsão, que acabou por não acontecer, coitado do gato, estava mesmo doente, mas não tanto que miou desalmadamente como se o estivessem a esfolar quando saímos de casa.

O veterinário olhou-o, tirou-lhe a temperatura, notou-lhe o hálito a ureia, a pele flácida, desidratado e pensou que ele tivesse insuficiência renal. Ficou internado uns dias, a soro e a antibióticos e analgésicos. Fiquei numa pilha de nervos, preocupada até saber o resultado das análises e da ecografia. Telefonaram-me no dia seguinte ao internamento, visto eu tê-lo lá deixado ao fim da tarde, e as análises estavam bem, ou seja, não tinha valores anormais para a sua idade. Confesso que só me passava pela cabeça que tivesse um problema oncológico, mais um gato...

Não me falaram dos resultados da ecografia, de modo que quando o fui visitar - um episódio engraçado, porque estava no hall deste hospital (mudei de veterinário), com montes de gente, eu à espera super-nervosa e a enfermeira-veterinária abre a porta de vidro e diz: A visita para o Farrusco! Nunca me tinha acontecido e fiquei um bocado emocionada - o veterinário que fez o exame mostrou-me as imagens no computador, enquanto me explicava. O Farrusco é um gato rijo para a idade, tomara que muitos dos seus pacientes com 16 anos fossem assim, não tem nada no estômago, nem no fígado, a vesícula biliar está bem, os rins estão, igualmente, bem, embora com formas não muito perfeitas, mas tendo em conta a idade, compreende-se, o duodeno estava com uma sombra, mas nada anormal, a não ser restos de comida. Por outra palavras, nada de massas estranhas e duvidosas.

Respirei fundo, retiraram-me um peso enorme do peito, o gato estava bem, doente, sim, mas nada de grave. Tal como eu pensei no início, tem problemas estomatológicos, com as gengivas um pouco inchadas e sensíveis. Já voltou para casa, continua a antibiótico e a analgésicos e, para além disso, come uma pasta vitamínica, tipo Centrum, que a esfrego nos dentes.

Todavia, é gato, e um gato que se preze tem um paladar apurado. Quando regressou, atacou o paté que eu tinha trazido do veterinário, um altamente proteíco para gatos e cães em convalescença. Pois depressa se fartou. Não gosta de alimentos requentados. Não gosta que a lata fique um dia no frigorífico, embora eu aqueça a comida no micro-ondas e espere que arrefeça e lha dê à boca. Recusa-se. Feitio de gato, portanto. Experimentei vários húmidos. Parece que, finalmente, acertei. O último que comprei é o Sheba com borrego e galinha, pedaços húmidos que ele comeu praticamente até ao fim (teve a ajuda das gatas, já que era muito difícil afastá-las da caixa onde ele dorme e onde eu coloquei a lata). As outras comidas apenas comia um bocadinho e deixava para elas comerem. Tenho três gatas praticamente obesas, a Elvira duplicou de tamanho nestes dias.

Amanhã terei que renovar o stock de Sheba, mas para ter o meu menino de volta, sadio e lindo, vale tudo.


 Farrusco de papo cheio com o seu boneco de estimação.

Farrusco a receber mimos da Elvira.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Cheio de palavras

A casa é constrangimento; o bar, liberdade. Um informador branco não vai aos bares porque um branco dá nas vistas a uma milha de distância. Portanto pode falar-se de tudo. O bar está sempre cheio de palavras. O bar pondera, discute e decide. O bar aborda qualquer tema, debate-o, demora-se nele, tenta chegar à verdade. Toda a gente se reunirá e contribuirá com o seu pequeno quinhão. Não importa o assunto. O que é importante é participar, falar. Um bar africano é o fórum romano, a praça central no mercado de uma cidade medieval, a adega parisiense de Robespierre. 

Ryszard Kapuściński , 'Esboço para um livro', Granta Portugal I.

Até ao momento, considero esta a melhor história da revista. RK, jornalista, está no Congo em Julho de 1960. Apenas algumas semanas antes, este país tinha conquistado a sua independência face à Bélgica.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Miserável

Ontem, antes de ir visitar o gato ao veterinário, passei pelo hipermercado para comprar comida para a tartaruga. Passou semanas sem comer nada de jeito, até que, finalmente, desovou há uns dias e agora está sempre esfomeada.

Estava eu nas caixas rápidas de pagamento, quando apareceu atrás de mim uma mulher com uma caixa de pensos rápidos. Dirigiu-se a mim com um 'Não pode dar uma ajudinha?' e apenas pensei, tudo tão automático e preconceituoso, confesso agora, 'Como é que os seguranças deixaram entrar uma pedinte.' e retorqui rapidamente (estava com pressa e preocupada com o gato) 'Você não pode estar aqui a vender isso!' Virei-lhe costas, continuei a fazer o pagamento e saí. E depois fiquei tão zangada comigo própria, porque o que ela queria era uma ajuda para comprar a pequena embalagem de pensos.

Quase um dia depois, ainda me sinto uma miserável, com remorsos por ter desprezado aquela mulher, por a ter tratado de uma forma tão horrível. Alcoólica, toxicodependente, seria, provavelmente, já não é a primeira vez que a vejo nestas bandas, (embora nunca num centro comercial), mas ninguém merece ser tratado assim.

E eu, que amo os meus animais, que gasto rios de dinheiro com eles, não fui capaz de gastar um euro com ela. E mesmo que tal não se verificasse, isso não é o mais importante, devia tê-la tratado humanamente e não escorraçá-la. Ninguém merece ser desprezado dessa forma.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Abandono

A um canto, está a poltrona surrada e manchada de transpiração, na mesa pequena ao lado, sobre o pano de crochet, cheio de pó, o comando da televisão com o elástico enrolado em duas voltas. Inclino-me e agarro-o. Com o polegar esquerdo, rolo o elástico. O barulho ecoa na sala vazia, como um pedaço de lenha a crepitar no fogo. Sento-me, triste. Em frente, um grande televisor cinzento encara-me, silencioso. Compridas franjas de um naperon tombam de cada lado do aparelho, pesadas de melancolia. Encosto-me, sinto a nuca a colar-se à pele da poltrona e fecho os olhos. Aquecendo-me por dentro, o elástico continua a estralejar. Apareces-me, então, trazendo um tabuleiro com uma caneca de café com leite e duas meias torradas rijas, barradas com manteiga. Torravas metades dos pães no forno, que guardavas num saco de pano pendurado sobre a mesa da cozinha. O café com leite morno estava sempre na tonalidade perfeita, que somente as avós atingem, apurada ao longo do tempo, com gotas de carinho e resignação. Esperavas a visita que eu protelava, aceitavas em silêncio, através de um telemóvel quase sempre mudo. E eu, nessas alturas, sentada na tua poltrona, rainha no teu mundo, era servida por outra rainha. Parto a metade pela dobra do pão, mergulho-a no café com leite até perder a rigidez, vendo a gordura a boiar em pequeninos círculos, e levo-a à boca. Engulo o teu amor, a tua paciência, o teu riso, as tuas lágrimas, e sacio a minha dor.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo, Homem de Palavra[s]

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A breve e assombrosa vida de Oscar Wao


Ainda nem cheguei à página cem, mas é daqueles livros que se devoram em dois dias. Com uma escrita enxuta, sem floreados, discurso áspero, pautado por algum calão, irónico, poético, triste, e com notas de rodapé que elucidam quem não está familiarizado com a história da República Dominicana. Oscar, de um miúdo encantador a um adolescente obeso, tímido, cromo, devorador de livros de BD e de ficção científica, escritor e vítima de bullying. Carrega nos ombros a maldição ancestral conhecida como fukú. Bom, muito bom.

'O Oscar sempre fora um cromo - um tipo que lia o Tom Swift, que adorava livros de banda desenhada e assistia ao Ultraman - mas, por altura do liceu, o seu gosto por aqueles Géneros tinha-se tornado absoluto. Naquele tempo, quando nós, os outros, estávamos a aprender a jogar wallball, a safarmo-nos sozinhos, e a conduzir os carros dos nossos irmãos mais velhos, e a fanar garrafas de cerveja debaixo dos olhos dos nossos pais, ele empanturrava-se numa corrente regular de Lovecraft, Wells, Burroughs, Howard, Alexander, Herbert, Asimov, Bova e Heinlein, e mesmo dos Velhos que já estavam a perder a actualidade - E. E. «Doc» Smith, Stapledon, e o gajo que escreveu todos os livros do Doc Savage -, movendo-se, esfomeadamente, de um livro para outro, de um autor para outro, de uma época para outra. (A sua sorte era que as livrarias de Paterson tinham tão poucos fundos que ainda mantinham em circulação muita da cromaria da geração anterior).'

Um livro irresistível de Junot Díaz. Recomenda-se a leitura.

domingo, 4 de agosto de 2013

Déjà vu

A história conta-se em poucas palavras: uma amiga tinha gatinhos para dar. Eu aceitei ficar com um, desde que fosse macho. Queria que a diferença entre este e a Alice fosse pouca, já que a Alice tem dois anos e muita vida e nenhum gato para brincar com ela. A Joana e o Farrusco já não têm pedalada para tanta vivacidade e só querem sopas e descanso, principalmente o Farrusco, que a idade já pesa e nos últimos tempos tem mostrado sinais evidentes de velhice, muitas artroses, problemas nos dentes, só come alimentação húmida e a água tem de ser muito fresca, se não for, nem lhe toca (além de velhote, é temperamental, mas tem esse direito, afinal, tem 16 anos).

Sim, eu queria um gato e já me tinha aficionado ao bicho, perguntava sempre pelo meu menino e o menino estava a crescer muito bem. Mas com estas coisas dos gatinhos nem sempre o que nós queremos é aquilo que nos calha. Não é fácil ver o sexo em gatinhos muito pequeninos e tinham-me dito que era um casal e que eu ficaria com o macho.

Afinal, é uma gata. Onde é que eu já vi isto? Ah, sim, há 17 anos, com a Bia.

Pois, eu queria um gato e, novamente, veio uma gata. Apresento-vos a Elvira. Dois meses e muita vida. Rosna imenso, ainda acha os outros gatos estranhos, apenas chegou anteontem, mas já me segue para todo o lado, atrás da Alice. Dou uma semana para as duas estarem a brincar e a dormirem juntas. :)








quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Um postal para Sílvia

Foi pelo 'Horas Extraordinárias' que conheci a iniciativa 'Um Postal para Sílvia', promovido pela Livraria Arquivo, em Leiria. Achei tão gira a ideia que fui ao gabinete de turismo da CM do Seixal e comprei um postal. Escrevi excertos de três livros, o primeiro que estou a ler na praia, o segundo que leio aos bochechos, em casa, no silêncio da noite, e o último, que já li e adorei.

Acha que há alguma diferença entre Primavera na natureza e Primavera no homem? Mas lá estamos nós, elogiando uma e condenando a outra por indecorosa, envergonhados por as mesmas leis actuarem eternamente em ambas. - E.M. Forster, Um Quarto com Vista.

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Cantiga de amigo

Pela margem do rio tranquilo,
brinquei, oh mãe, com o meu amigo.
Amores eu tenho, antes não tivesse,
o que fiz por ele, antes não fizesse!

Pela margem do rio ondulante,
brinquei, oh mãe, com o meu amante.
Amores eu tenho, antes não tivesse,
o que fiz por ele, antes não fizesse!

João Zorro - Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, selecção, prefácio e notas por Natália Correia.

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- O mundo é uma metáfora, Kafka Tamura. - Haruki Murakami, Kafka à beira-mar.


É uma ideia muito boa e fez-me escrever um postal, coisa que eu não fazia há anos, talvez décadas (e não é para 'a' Sílvia, o artigo está a mais, mas estava tão embalada que lá ficou. Depois, lembrei-me que não tinha assinado e assinei no fim dos textos e coloquei a data).



A propósito de ter ido ao Seixal, passeio que faço quase todos os dias, pois faz parte da caminhada à beira-rio e estes lugares são todos muito juntos, aqui é a minha casa, além a baía, do outro lado a Quinta da Atalaia e não há festa como esta, e são passeios que se fazem muito bem, tirando em horas de maior calor, claro, então aproveitei a boleia das pernas e subi até à biblioteca. Já lá não ia há umas semanas e trouxe quatro livros. A coisa ficou bem equilibrada, dois autores portugueses, um europeu e um da América Latina, embora tenha crescido nos EUA. E dado que a biblioteca encerra no mês de Agosto, só lá regressarei em meados de Setembro.