domingo, 29 de setembro de 2013

sábado, 28 de setembro de 2013

A noite é este estrago.

A noite é este estrago.
Dou-me ao trabalho
de apanhar algumas das tuas roupas
espalhadas pelo chão,
parecem-me agora tão leves,
indefesas sem os teus gestos.

A urgência que vêm lá de fora
Confunde-me na sua nitidez:
uma buzina primitiva e frenética (por pouco tempo),
ou os ultimatos de um casal desmentindo-se,
aterram no escuro, entre a chuva inesperada
e a nudez aguçada dos estendais.

São as tuas costas arqueadas que espio,
os soluços marcados da tua magreza,
de onde se vão desatando pequenas ocupações,
algum desleixo muito habituado. Um rumor alheio,
como se eu tivesse já ido embora.

Quando menos espero, uma mão cega
vem pousar no meu joelho.
Aos poucos chegam as outras partes doridas.
Parece que segredamos alguma coisa.


    - Frederico Pedreira

Via 'O Melhor Amigo'

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O leitor

   'Podemos dizer seja o que for, desde que o digamos de uma forma bela. Os meus livros são como um château célebre e frequentemente visitado. Os corredores são todos absolutamente rectos e conduzem-nos de um quarto para outro, o caminho para os jardins ou o pátio está claramente indicado. Escrevo com o brilho bem desempoeirado do soalho de um salão de baile. Escrevo para idiotas. Mas no interior dessa lucidez refinada e límpida que me distingue - e pela qual perco cabelo, peso, sono, sangue - há um código, uma sequência oculta de sinais, um labirinto, uma escadaria que conduz aos sótãos e, finalmente, aos telhados. Você seguiu-me até aí. Você é o leitor para quem escrevo.
   Você pergunta-me o que mais receio. Já conhece a resposta, de outro modo não perguntaria. É a perda do meu leitor, do homem para quem escrevo. O meu maior medo é perdê-lo a si um dia, inesperadamente, subitamente. (...)
   Nunca me perguntou pela pessoa que mais amei. Certamente porque já conhece a resposta. Essa pessoa foi sempre você.' - pp. 65-66.

Patricia Duncker, A Sombra de Foucault, Gradiva, 1998.

domingo, 22 de setembro de 2013

Sábado

Manhã - Lisboa nas alturas

Tinha combinado com o Mark vermos as galerias romanas de Lisboa, na Rua da Prata, no sábado de manhã, pelo que marcámos encontro às 10h no metro da Baixa-Chiado. A fila chegava até à Praça da Figueira, passava a Rua Augusta e acho que tocava na antiga livraria do Diário de Notícias. Desistimos. Sugeri que fôssemos até ao Jardim do Torel e assim passámos das catacumbas para as alturas. Caminhámos devagar pelas Portas de Santo Antão, subimos a ladeira do elevador do Lavra, descansámos a meio num banco nas escadinhas e, por fim, chegámos ao nosso destino.


Sem palavras. É, para mim, o melhor jardim com miradouro. Com muita pena, a esplanada estava fechada, mas o lugar é maravilhoso e senti-me em paz.

Depois, regressámos à Baixa, subimos até ao Chiado, descemos a Calçada do Combro e almoçámos no Park, um delicioso e calórico hamburguer no pão.


Não visitámos as galerias subterrâneas, mas a alternativa revelou-se excelente.


Tarde - Farrusco

Estava previsto que ele tivesse alta ontem à tarde. Infelizmente, piorou e muito. Cheguei e estava na UCI, deitado, combalido, embrulhado numa manta morna. Tinha levado oxigénio, embora tivesse comido bem a seguir. Na madrugada, teve hipoglicémia, depois, hiperglicémia e o veterinário está com receio que, com tantas oscilações, o pâncreas não consiga compensar. O futuro não me parece risonho. As próximas horas são cruciais. Se se verificar o que ele pensa, não vale a pena adiar o inevitável.

Nos bons tempos: Joana, Farrusco e Bia (que saudades)


Noite - Dead Combo

Apesar de ter ficado muito triste com a notícia do Farrusco, fui ver o concerto dos Dead Combo, no Fórum Cultural do Seixal. No ano em que o FCS assinala os vinte anos, os DC celebram dez.

Um cangalheiro e um gangster formam este duo musical, personagens que são alter-egos de Tó Trips e Pedro Gonçalves. Apresentaram o recente álbum 'Lisboa Mulata' e êxitos passados. Foi um concerto muito bom. A casa estava praticamente cheia.


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

As Aventuras de Augie March II

Este romance deixa-me sem fôlego. Passa-se em Chicago, durante a Grande Depressão (as páginas iniciais, sobre a infância de Augie, são dos anos 20 do século passado, desenrolando-se a história ao longo dos anos à medida que ele cresce, um judeu americano, Augie, Augusto). Temos uma galeria de personagens imponente, certamente que umas mais desenvolvidas que outras, mas mesmo os pulhas, os gansterzitos, os maltrapilhos e vadios que ele conhece na sua aventura de comboio (onde parei) têm um papel importante.

O livro é um tijolo de 709 páginas, bom para desenvolver os bíceps, os tríceps e para abrir os pulsos, e emocionei-me numa das melhores cenas, uma homenagem ao hobo, aos sem-abrigo que andavam à boleia dos comboios nos anos 30, sobrevivendo à cata de trabalho nos campos da América.

O romance está cheio de momentos sublimes, sublinhei tantos, o capítulo do Einhorn é um deles; o inicial, com a avó Lausch é outro, mas neste senti uma grande afinidade. Sabem como gosto de comboios, o meu avô foi guarda-freios, progrediu até chefe de estação. Os meus tios e a minha mãe nasceram em estações de comboio pela Beira Alta e Trás-os-Montes.

Bem, a certa altura, após uma desventura (Augie é levado para maus caminhos, mete-se numa embrulhada, não é mau rapaz, pelo contrário, é bonito e as pessoas até  têm vontade de o adoptar), ele regressa a Chicago apanhando boleia nos comboios de mercadorias e dou por mim absorvida na história e é uma mistura de sentimentos, melancolia, emoção, solidão.

‘Viajando naquele lusco-fusco e semi-Inverno, a maneira como o insignificante e o imenso estavam tão misturados, talvez fosse a espinha articulada do comboio a correr e a serpentear, o modo como aços, ferrugens, tintas que lembravam sangue se estendiam espaço após espaço no céu, e depois outra existência, espaço após espaço’ – p. 233.

Basicamente, o IX é um capítulo triste. Mas, como nos outros capítulos, existem parágrafos majestosos, com alguma ironia: ‘No entanto, como senti ao entrar em Erie, Pensilvânia, a escuridão existe. E é para todos. Não se experimenta, como alguns talvez imaginem, enfiando nela um pezinho, como um «September Morn» de barbearia. Nem se é mergulhado nela com curiosidade de visitante, como o velho monarca oriental que foi depositado no meio das algas dentro de uma bola de vidro para observar os peixes. Nem se é imediatamente içado dela depois de um desventurado tombo, como um Napoleão saído da lama de Arcole, onde estivera metido até ao pensativo nariz enquanto as balas húngaras destruíam o barro da ribanceira.’- p. 239.

Aqui temos Augie, que se vai descobrindo aos poucos, aprendendo com os erros, apaixonando-se e continuando a acreditar na humanidade, lutando e erguendo-se e sobrevivendo.

As restantes quase 500 páginas irão ser devoradas em poucos dias.

Saul Bellow, As Aventuras de Augie March, Quetzal Editores, 2010.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

M.


Infelizmente, o Farrusco não está melhor. Voltou a ficar internado, tem dificuldade em engolir e saliva imenso. Pensava que seria um efeito do antibiótico, mas deixou de o tomar na semana passada e continuou a babar-se. Está desidratado e ficou a receber fluidos. Depois, fará um raio x e daqui a uma hora telefono para saber o resultado.

A Mamã do Calvin é uma sábia...

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Yasujiro Ozu

 
Gostei tanto, emocionei-me, chorei ao assistir a 'Viagem a Tóquio', de Yasujiro Ozu.

Maravilhoso, de uma grande sensibilidade (mono no aware), a câmara tão bem colocada, filmando quase sempre em níveis baixos, assim como que nos aproximamos das personagens, e depois temos a família, tema recorrente nas suas obras-primas, os conflitos entre as gerações, tradição e modernidade, afectos, solidão, melancolia, tristeza, vida e morte.

No ano em que se celebra o 110º aniversário do seu nascimento, estes filmes merecem em absoluto ser vistos no cinema.

Mais informações aqui, aqui e aqui.

sábado, 7 de setembro de 2013

O César do Tio Camilo

   Poucos dias antes da morte do meu tio Camilo, acolhi o César.
   De início, ele não tinha nome.
   Contou-me, num dos habituais jantares de sexta-feira, que o tinha encontrado enroscado à porta de casa, ao regressar do hospital. Era um bicho escanzelado, só pele e ossos, assim como eu, ergueu um braço magríssimo, empunhando o garfo, e pensei que estaríamos bem um para o outro. Mirei-o, não se mexeu, passei por cima dele, empurrei a porta, fui à cozinha, abri uma lata de atum, que seria o meu jantar, a propósito, mas onde come um, comem dois, coloquei metade num pires e pousei-o à sua beira. Esperei, esperei, mas nem um pêlo se moveu e nem uma orelha tremeu, de modo que voltei a entrar em casa, deixei a porta encostada, fui à casa-de-banho, regressei para ir ver do bicho, o pires estava vazio, ele tinha desaparecido, encolhi os ombros, pelo menos, hoje não morres de fome, pensei eu, e fechei a porta. E onde estava o gato? Agora vem a melhor parte. Eis que vou dar com sua excelência sentada no meu cadeirão, apontava o bichano com o garfo enquanto falava, e fiquei a mirá-lo durante bastante tempo, ele muito compenetrado nas suas abluções. Quando acabou, bocejou, dignou-se a olhar-me, baixou um tudo ou nada a cabeça, como uma pequena vénia, deu duas voltas e deitou-se. E, terminou com um gesto brusco, espetando uma batata, ali o vês.
   Perguntei-lhe como se chamava, ao que me respondeu, com um encolher de ombros, que não tinha nome. Não me parece que ele se importe muito com isso. Basta ouvir o barulho dos tachos e aparece na cozinha, respondeu.
   Olhei para o gato, refastelado no lugar usurpado uns dias antes. Dormitava. Agora, faz parte da família. Até tem um lugar cativo, repliquei eu. Não achas que merece um?
   O meu tio franziu o sobrolho, pensativo e, depois de alguns segundos em silêncio, respondeu: César.
   E, como que aprovando o recente nome, o César abriu os olhos e ergueu a cabeça. Levantou-se, espreguiçou-se languidamente e saltou para o chão. Esfregou-se nas nossas pernas, ronronando, e voltou a subir para o cadeirão. Soltou um breve miado e tornou a deitar-se.
   Veni, vidi, vici, suspirou o meu tio, com sorriso que lhe iluminou, por um instante, o rosto macilento.

   Tinha dezoito anos e acabara de entrar para a faculdade. Partilhava um quarto numa residência universitária e, uma vez por mês, metia-me no barco até à margem sul. Por volta das sete e meia, aparecia à porta da sua casa, de início com uma caixa de bolinhos de chá comprada na pastelaria ao lado e atada primorosamente com uma fita vermelha. Depressa foi substituída por uma garrafa de vinho tinto. Da próxima vez, passa pelo Joaquim, ali ao fundo da rua. Tem lá um Dão da nossa terra, e pelo preço dos bolinhos, trazes uma pinga da boa, disse-me a meio do terceiro jantar.
   Púnhamos a conversa em dia e a noite terminava comigo a adormecer, invariavelmente, no sofá da sala de estar. Na manhã seguinte, acordava embrulhada num cobertor vermelho-escuro cheirando a naftalina, qual casulo, com a sua enorme águia de asas abertas estampada enrolada à minha volta, e ainda entalado debaixo dos pés.
   De todas as vezes que despertava, mesmo antes de abrir os olhos, retinha uma vaga ideia do tio Camilo tirar-me os sapatos, encolher-me as pernas, tapar-me e a maneira como executava tais acções, calcando devagar a roupa, com tanta ternura, sem deixar um pedaço do meu corpo desprotegido, com excepção da cabeça, fazia-me muito feliz e eu sorria, abrindo, por fim, os olhos.
   Naquela altura, ele viajava muito e quando o trabalho o obrigava a estar mais tempo longe de casa, o jantar era adiado para a sexta-feira seguinte. Era a época das novidades, das descobertas, dos amores e das desilusões e eu vivia em constante sobressalto, porque tinha muitas lágrimas para chorar e precisava muito dele, das suas palavras de reconforto, do seu sofá surrado e de adormecer entorpecida de álcool e emoções.
   A noite em que conheci o César não fora diferente das outras. Conversámos, bebemos, eu estiquei-me no velho sofá, com as pernas a baloiçar num braço, enquanto o tio Camilo entrava num apurado diálogo com o felino. Feitas as cedências de parte a parte, à semelhança de dois miúdos que firmavam um compromisso com cuspo e aperto de mão, aceitaram partilhar o trono. O tio sentou-se no cadeirão e o César ajeitou-se sobre uns joelhos ossudos, massajando-lhe as rótulas sobre as calças de fazenda castanhas. E eu fiquei a observá-los: um gato de pêlo amarelo, ronronando, feliz, enquanto o meu tio lhe fazia festas e sorria, cativado.

   Inconsolável, o César sentava-se, dias seguidos, junto à janela, protegido debaixo do cortinado. Escondia-se, estranhava o pequeno apartamento e miava, miava em parar. Dois anos em casa do tio Camilo tinham-no transformado num grandioso felino de patas compridas, pêlo brilhante e focinho redondo. Agora, eu via-o emagrecer a olhos vistos, não comia há cinco dias e soltava longos miados, que se propagavam no ar e se juntavam aos meus soluços. Chorávamos. Éramos dois órfãos.
   Vivera os últimos quatro meses em casa do tio Camilo, quando piorou. Apesar de refilar, Não há necessidade, Anita, eu ainda me aguento nas canetas, eu sabia que estava emocionado. Tentando esconder as lágrimas, eu abraçava-o muito. Ele passava uma mão esquelética pelo meu cabelo e dizia, Pronto, pronto, e dava-me palmadinhas na nuca. Sentíamos o tempo a fugir entre os dedos. Previsível, o fim aproximava-se a passos largos, como se o víssemos por uns binóculos.
   Quando ainda tinha forças para andar, o corpo reagindo aos tratamentos, o apetite indo e voltando conforme os humores, íamos ver um filme, ele era louco por cinema. Havia alturas que, sentindo-se bem-disposto, fazíamos maratonas cinéfilas. À tarde, víamos dois filmes seguidos, jantávamos e, a seguir, entrávamos na Cinemateca. Depois, passámos a vê-los em casa, as antigas e riscadas cassetes de vídeo foram tiradas do armário e o velho leitor acordou depois de anos a hibernar. Nos tempos mais recentes, tinha sido trocado por um leitor de DVD e pelos filmes nos canais de cabo. Passámos a devorar glórias de meados do século passado, musicais que ele adorava, e trauteávamos as músicas com as nossas vozes desafinadas, Hello, Dolly, well, hello, Dolly! It's so nice to have you back where you belong, ele amava a Barbra Streisand.
   Recordei-me desses momentos quando tomei uma decisão. Agarrei num gato apático, coloquei-o dentro da transportadora, enfiámo-nos no carro e regressámos a casa do tio Camilo. Mal o soltei, o César correu para o velho cadeirão. Cheirou-o, soltou um compungido e agradecido miado, deu as usuais duas voltas e acomodou-se. Eu abri a janela da sala. Estava uma tarde soalheira e o sol de Maio começou a aquecer a fria sala. Pus-me a cantar, Dolly'll never go away again, Dolly'll never go away again, Dolly'll never go away again!
   No dia seguinte, iria levar o César ao hospital veterinário que existia próximo de casa. Lembrava-me de uma veterinária morena e de felinos olhos verdes. O tio Camilo tinha ficado encantado com ela. Tinha esperança que ainda lá estivesse.

   O César e eu fazemos um par singular. Por vezes, estacamos à entrada da cozinha, olhamos para a bancada vazia e é como se o tio Camilo estivesse lá encostado a preparar o jantar. Quando notava que o observávamos, virava a cabeça e, entre resmungos e sorrisos, apontava o armário com a faca, Ele quer uma lata de atum. Um lorde, este gato. Atum em azeite, vejam só! Não bastava ao natural. Não bastava em óleo! Não, tem que ser em azeite. Nessas alturas, choro. Temos tantas saudades, não temos, César?, murmuro para um gato silencioso.
   Nos melhores dias, ele pula para o seu lugar favorito, mia consolado, dá um enorme bocejo, deixando entrever um céu-da-boca molhado e umas presas brilhantes, e deita-se. Dorme horas seguidas.
   Vou encontrá-lo na soleira da porta, sentado muito direito e a observar a rua, qual sentinela esperando pelo dono ausente. Reage ao afago que lhe dou atrás da orelha, virando o focinho e encostando-o à minha mão. Afasto-me de casa. O César segue-me. Fazemos o mesmo trajecto do tio Camilo. Vamos à leitaria da dona Clara, eu bebo um café enquanto ela lhe dá uma fatia de fiambre; de seguida, passamos pelo minimercado do senhor Joaquim. Ronda-o, interesseiro. Sabe que não sairá sem comer um pedacinho de bacalhau.
   Regressamos a casa. Trago uma garrafa de vinho e uma lata de atum em azeite. O César caminha ao meu lado, de cauda no ar, qual antena sintonizada aos sons da sua rua. A Ângela colocou-lhe um chip, caso um dia se perca nestas andanças. Não é muito provável. Aqui, toda a gente o conhece. É o César do Camilo, dizem, passados tantos anos.
   Agora, estou sentada no sofá e ele descansa no cadeirão. Ao seu lado, em cima da arca, encontram-se uma velha telefonia Philips, uma pilha de revistas National Geographic, cinco livros com as lombadas gastas, um pesado cinzeiro de cristal com rebuçados de fruta e um antiquado candeeiro de metal que o tio Camilo desencantara numa loja de velharias. Um solitário raio de sol espraia-se na base metálica. A sala resplandece.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Aristogatos XXIII

Encontrei um álbum de fotografias, daqueles tipo livro, que estava guardado na minha arrecadação juntamente com os livros da faculdade, cheio de fotografias dos meus gatos, tiradas na Mouraria, em finais dos anos 90 do século passado. 

O Farrusco era um gatinho lindo, muito medricas, com muito medo das alturas, ainda hoje não se aproxima do parapeito da janela e, claro, mia que nem um desalmado se eu, mesmo segurando-o ao colo, espreito pelo vidro.

Nestas duas fotos, que não têm muito boa definição, ele era praticamente um bebé, muito fofinho e brincalhão.

É incrível como já passaram dezasseis anos.


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Noiva Prometida


Um filme dramático, belo e sublime, sobre uma comunidade de judeus ultra-ortodoxos. Sobressai a humanidade das personagens e uma imensa tristeza nos olhos da rapariga, doce e romântica, face ao dilema que lhe é colocado - um casamento arranjado.

É o primeiro filme de Rama Burshtein, realizadora israelita ultra-ortodoxa e já ganhou diversos prémios.

Recomenda-se. Está em exibição no King.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

III – Hello, Dolly

   Inconsolável, o César sentava-se, dias seguidos, junto à janela, protegido debaixo do cortinado. Escondia-se, estranhava o pequeno apartamento e miava, miava em parar. Dois anos em casa do tio Camilo tinham-no transformado num grandioso felino de patas compridas, pêlo brilhante e focinho redondo. Agora, eu via-o emagrecer a olhos vistos, não comia há cinco dias e soltava longos miados, que se propagavam no ar e se juntavam aos meus soluços. Chorávamos. Éramos dois órfãos.
   Vivera os últimos quatro meses em casa do tio Camilo, quando piorou. Apesar de refilar, Não há necessidade, Anita, eu ainda me aguento nas canetas, eu sabia que estava emocionado. Tentando esconder as lágrimas, eu abraçava-o muito. Ele passava uma mão esquelética pelo meu cabelo e dizia, Pronto, pronto, e dava-me palmadinhas na nuca. Sentíamos o tempo a fugir entre os dedos. Previsível, o fim aproximava-se a passos largos, como se o víssemos por uns binóculos.
   Quando ainda tinha forças para andar, o corpo reagindo aos tratamentos, o apetite indo e voltando conforme os humores, íamos ver um filme, ele era louco por cinema. Havia alturas que, sentindo-se bem-disposto, fazíamos maratonas cinéfilas. À tarde, víamos dois filmes seguidos, jantávamos e, a seguir, entrávamos na Cinemateca. Depois, passámos a vê-los em casa, as antigas e riscadas cassetes de vídeo foram tiradas do armário e o velho leitor acordou depois de anos a hibernar. Nos tempos mais recentes, tinha sido trocado por um leitor de DVD e pelos filmes nos canais de cabo. Passámos a devorar glórias de meados do século passado, musicais que ele adorava, e trauteávamos as músicas com as nossas vozes desafinadas, Hello, Dolly, well, hello, Dolly! It's so nice to have you back where you belong, ele adorava a Barbra Streisand.
    Recordei-me desses momentos quando tomei uma decisão. Agarrei num gato apático, coloquei-o dentro da transportadora, enfiámo-nos no carro e regressámos a casa do tio Camilo. Mal o soltei, o César correu para o velho cadeirão. Cheirou-o, soltou um compungido e agradecido miado, deu as usuais duas voltas e acomodou-se. Eu abri a janela da sala. Estava uma tarde soalheira e o sol de Maio começou a aquecer a fria sala. Pus-me a cantar, Dolly'll never go away again, Dolly'll never go away again, Dolly'll never go away again!
    No dia seguinte, iria levar o César ao hospital veterinário que exisia próximo de casa. Lembrava-me de uma veterinária morena e de felinos olhos verdes. O tio Camilo tinha ficado encantado com ela. Tinha esperança que ainda lá estivesse.