quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Bette Davis

O Natal é quando uma mulher quiser. Assim, tal como no ano passado, vou oferecer-vos contos. A fórmula é a mesma: vocês dão-me um título até cinco palavras e eu escrevo uma história com 250 palavras - título incluído. A caixa de comentários é vossa.

A Bette Davis vai regressar :)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Primeiro capítulo gratuito de 'O Corredor de Fundo' já nas bancas


Já pode ser descarregado nas principais lojas online (links abaixo) o capítulo 1 gratuito de O Corredor de Fundo, a primeira edição em português do best-seller de Patricia Nell Warren, The Front Runner, que vendeu mais de 10 milhões de exemplares em sete idiomas. Esta edição da INDEX ebooks inclui ainda uma introdução pela autora e citações da imprensa sobre a versão original em inglês. A primeira edição integral desta obra em português deverá ser posta à venda em Dezembro.

Links para descarregar o 1º capítulo de O Corredor de Fundo:
Apple iBookstore (Portugal e Brasil)
Amazon Kindle (Portugal e Brasil)
Kobo (Portugal e Brasil)
Bubok (Portugal)                                               

Mais informações no site da editora, aqui.

(fonte da informação: INDEX ebooks)

domingo, 27 de outubro de 2013

Jazz, Murakami, coração

Na sexta, fui ao SeixalJazz. Cheguei uma hora antes, ainda estavam a distribuir os bilhetes aos convidados. Calhou-me um lugar na pontinha. Ainda bem. É o meu lugar preferido. Não foi preciso olhar para o mapa da sala e pedir ‘Quero, se possível, um lugar na ponta, sabe, eu mexo o pé, a perna, o pescoço, pareço uma serpente encantada indiana e depois não quero incomodar a pessoa à minha frente, o pé a batucar na sua cadeira, mas num concerto de jazz, aliás não só de jazz, está a compreender, é impossível ficar quieta’. Calhou-me uma cadeira na pontinha, então, não é que parece que me conhecem já, a senhora da bilheteira e a senhora da entrada do Fórum e o senhor da entrada da sala, que rasga o bilhete e nos indica o lugar?

Na quarta, não pude ir, estava a chover a potes, então, na sexta ao início da tarde entrei na página do SeixalJazz no Facebook, participei num passatempo, mais rápida que o Speedy Gonzales, arriba arriba! e ganhei um convite duplo, um CD – que toca enquanto escrevo - e uma T-shirt e uma noite fantástica. Fiquei, então, na pontinha, ora a perna cruzada, ora a perna estendida no corredor, a bater o pé, os dedos no ar dedilhando um piano inexistente, os olhos fechados, não consigo ir a um concerto e estar de olhos abertos, quero dizer, estou de olhos abertos e depois fecho-os e deixo-me levar pela música, então jazz e improviso, aquilo arrebata e fico rendida. Acabou um pouco depois da meia-noite e foram duas horas de êxtase e o melhor é que não gastei nada, quero dizer, gastei um euro num lápis, nunca são demais os lápis, que está a marcar uma página do novo livro do Murakami.

Pois estou a ler mais um livro do senhor Haruki Murakami. Despachei uns quantos até chegar a este romance, dois dele que já tinha lido, mais outros emprestados, comprados, da biblioteca, e acho que há um tempo próprio para ler o Murakami e não se pode ler tudo de enfiada, quero dizer que é um género de fantasia misturado com a realidade, com histórias engenhosamente criadas. O que é bom neste livro, é recente a sua publicação cá, mas foi escrito em 1985, é que nos transporta à década de 1980 e é quase um regresso ao passado. Há meses, tinha lido o primeiro capítulo em inglês, mas eu e o inglês, bem, safo-me, serve para pouco mais do que responder aos turistas quando estou debaixo do viaduto de Sete Rios à espera do transporte do serviço, ‘Where’s the expresso station?’, e eu, «Outro, vale mais ter um cartaz igual aos da manifestação.», ‘You see that yellow wall?', e o rapaz olha e diz que sim e eu ‘Before that wall you turn right, go to the end, turn left, go upstairs.’ Agradecimentos do rapaz, espero que ele tenha entendido e não vá parar ao IPO e volto ao Murakami enquanto o autocarro não chega.

‘Coração, cora-ção, tira-se o cora fica o ção’, era o jogo de palavras que uma miudinha de uns sete anos fazia ao meu lado ontem à tarde no metro. E eu fiquei a pensar que ela tinha razão, coração, cora são, um coração que cora é um coração são e depois regressei, oh, surpresa, ao Murakami e sublinhei isto com o lápis do SeixalJazz:

‘- Não deves permitir que o cansaço se instale no teu coração – aconselhou ela. – A minha mãe dizia sempre isto. Mesmo que o cansaço se apodere de ti, do teu corpo, dizia ela, devemos continuar sempre a ser donos do nosso coração.’

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Quinta-feira, night and day

Tive um sonho muito estranho esta noite, depois de ter sido acordada pela Elvira, aí pelas quatro da madrugada. Tinha saudades da Alice. A Alice estava no veterinário. Calma, não está doente. Fui lá levá-la para a recolha de sangue, que será hoje.
 
Comecemos pelo princípio, então. Ontem saí mais cedo, fui a um notário tratar da papelada para a família da terra, entretanto a veterinária responsável pela recolha de sangue telefonou e fui deixar a Alice no sítio do costume, chovia que deus a dava, deixei a gata na gaiola, triste, mais triste eu fiquei, coloquei um tapete que tinha o cheiro das gatas e que a Elvira costuma arrastar pelo chão e ela lá ficou, com os seus grande olhos verdes a olharem-me enquanto me afastava.
 
Fui para casa, numa aberta, aí pela melhor hora de ir às compras no Dia que é a partir das 8 da noite (acho que fecha meia hora, ou uma hora mais tarde), fui utilizar o desconto de 1,5€ em 15€ em compras. Já tinha a lista feita e preços comparados e o Continente é tão mais caro, mesmo. Por exemplo, a areia perfumada - para as gatas só o melhor e o meu nariz agradece - é 1,64€ e no hiper é 0,30€ mais caro – e mais umas coisas com desconto, enfim, 15€ atingiram-se num instante, eu tontinha a falar sozinha com uma data de talões de desconto nas mãos a fazer contas de cabeça a ver se compensava o desconto. A maior parte nem foi utilizada, pois não compro esses produtos e consumo cada vez mais coisas da marca da loja.
 
De seguida, eram nove e picos, ainda pensei ir ao Seixaljazz para ver se me animava, mas continuava a chover e no dia seguinte teria que me levantar cedo e desisti.
 
Li um pouco, acabei com uma tablete de chocolate Nestlé, comi um iogurte, dei as boas-noites às gatas e fui para a cama.
 
Pela madrugada, então, a Elvira arranha a porta do quarto, acorda-me, abro a porta, entram as duas, saltam para a cama, ajeitam-se, a Joana continua a bufar à Elvira, odeia-a, não é brincadeira, não a aceita, há quase três meses que vivem juntas e não há convívio. A Joana é uma gata muito egoísta, muito ciumenta, agora que os outros gatos morreram é a mais velha e agora quem manda aqui sou eu. Ainda tolera a Alice, mas a mais novita nem barrada com paté de atum lá vai.
 
Lá dormimos as três e comecei a sonhar, embalada por um valente temporal. Senti, no meio do sonho, uma presença no quarto e o coração começa a bater mais rápido, eu desperto devagar mas continuo de olhos fechados. Então, abro os olhos e penso, penso sempre da mesma maneira, já que não é a primeira vez que tenho pesadelos ‘sobrenaturais’, «Não é nada, é energia, tu não és como a tua mãe, que ouvia a água a correr nas torneiras e a chave à porta e ninguém entra, etc. Tu não acreditas nestas coisas». Lá estico um braço e acendo o candeeiro da mesa-de-cabeceira e não funciona. Tiro o lenço que tapa os números fosforescentes do rádio-despertador (não consigo adormecer com luz) e está desligado. «Isto não é bom», lá pensei. Levantei-me (a sonhar, ainda) e fui ao quarto-de-banho, porque tenho outro rádio-despertador lá (dá-me jeito ver as horas e ouvir a Antena 2) e está a piscar algures nas três e picos. Pensei que tivesse faltado a electricidade devido à chuva. Ou seja, fiquei na mesma, não sabia as horas certas. Fui à cozinha, porque tenho lá um grande relógio na parede, e quando acendi a luz aquilo estava muito estranho. Em frente ao micro-ondas estava uma máquina de café. Não uma dessas caseiras, mas uma mini-industrial, até me recordo que tinha a cor vermelha, e ao seu lado duas pás do lixo, molhadas. Pás do lixo! A cozinha também estava molhada e procurei a tartaruga, para ver se continuava no seu canto. Não me lembro se estava lá, mas notei que a mesa da cozinha – uma grande mesa de vidro que está lá desde que comprei a casa – estava toda desarrumada e cheia de sacos de plástico. Continuo a sentir uma presença estranha em casa, mas, entrementes, o rádio toca. São seis horas. Acordo com a TSF.
 
Respiro de alívio. As gatas lá estão. A Elvira mia desconsolada. Tem saudades da Alice. Deita-se no chão e ronrona e mia quando eu pego nela e a coloco no ombro. Nunca a vi assim tão carente. A Joana olha-nos ciumenta, mas não se aproxima. Lá deixo a pequenita e ajoelho-me e encho-a de festas e mimos.
 
No quarto-de-banho, senti uma dor no lado direito da barriga. Tão forte que tive que me dobrar e pensei que fosse algo como apendicite. Depois pensei no mais simples, com toda a porcaria que comi na véspera – não tive tempo de almoçar, comi umas sandes e depois abri uma lata de sardinha em tomate e não esqueçamos o chocolate. Passei a hora antes de sair de casa a arrotar, enquanto procurava um Kompensan e nada.
 
Entretanto, li algures que houve um dia ‘purple’ ou ‘Spirit Day’, que significa apoiar os jovens lgbt contra o bullying, usando uma peça de roupa roxa. Bem, do dia 17 para hoje só vai uma semana, mas hoje estou roxa em 90% da vestimenta, nas galochas, na camisola de alças de licra e na camisola da Bennetton.
 
Falando em lgbt, estou a ler o último romance da Inês Pedrosa ‘Dentro de ti ver o mar’ e só agora, que já passei da metade, é que me está a entusiasmar. Não me cativou no início e é sobre mulheres e amor, posse, desespero, sofrimento, fado, no meio há muitas reflexões sobre o amor, o fundamentalismo, o feminismo, o individualismo e perdas e modernidade e enfim, tanta coisa que as personagens acabam por não ter a profundidade que mereceriam. No meio há uma rapariga iraniana que, para adquirir a nacionalidade portuguesa, casa com o homossexual de meia-idade seropositivo. Nesta parte, há umas observações sobre o flagelo da sida nos anos oitenta e a morte dos seus amigos, etc. Julgo que não valerá a pena incluir este romance na página da literatura gay portuguesa no Goodreads, é uma personagem que não evolui muito, secundária.
 
Acho que é o problema deste romance, quer falar de tudo um pouco, a IP escreve muito bem, mas aquilo que já todos conhecemos e depois há qualquer coisa que me desgosta, a maneira de intelectualizar certos temas. Enfim, só li dois romances delas que me emocionaram bastante, ‘Fazes-me falta’ e ‘Nas tuas mãos’.
 
Continuo com uma pontada do lado direito da barriga. Chove a potes. A Elvira está triste, a Joana resmungona e a Alice sozinha no veterinário por um bem maior.
 
Este dia vai custar a passar.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Felisbela

Já não me recordo do seu nome. Era uma menina loira, magra e de olhos azuis e seria um ou dois anos mais nova do que eu. Vivia no nosso bairro com o avô, já de uma certa idade. Eu andava na primária e ela numa escola de ensino especial. Por vezes, brincávamos enquanto esperávamos a camioneta de regresso a casa, ao fim da tarde, na central de camionagem, enquanto o avô dela conversava com a minha mãe.

Andava eu pelos meus doze, quase treze anos, e fomos viver para a cidade. No meu antigo bairro, eles lá ficaram, ela com o seu andar trôpego, sempre a sorrir, apesar dos dentes tortos, da fala arrastada e da espuma que ficava nos cantos da boca.

Há muitos anos que não me lembrava dela. Aos poucos, começo a recordar-me de pessoas que saíram da minha vida há muito tempo, que me disseram muito em determinada altura e que a distância, temporal e física, guardou numa gaveta da memória, pronta para ser aberta quando menos esperamos e mais precisamos.

Lembrei-me em escrever uma história sobre essa menina, que perdi há muito tempo, mas que regressou em forma de doces recordações da minha infância. Será que é verdade o que dizem, que à medida que envelhecemos começamos a recordar um passado cada vez mais longínquo, procurando, assim, um tempo em que fomos mais felizes, o tempo da infância?

Não escrevo nada sobre o jantar do passado sábado, mas entre memórias de um passado longínquo e um passado recente, resta o mais importante, a amizade e momentos que nos marcam indelevelmente. Aos amigos dedico este conto.


Felisbela

   A Felisbela tinha muitos problemas de saúde, não falava, andava com os pés metidos para dentro, encurvada, com um sorriso torto sempre presente no rosto, um bonito sorriso torto nos seus lábios molhados de saliva. Os seus olhos límpidos, azuis clarinhos como um céu sem nuvens, engoliam tudo, casa, mãe, irmã, cão, gatos.
   Ela tinha nove anos quando eu entrei na primeira classe. Ao fim do dia, regressei a casa na companhia da mãe e ela já lá estava, com a avó. Abraçou-me com muita força, apertando-me de encontro ao seu corpo magro, tão contente que não parava de dar gritinhos estridentes e balbuciando palavras incoerentes. A Felisbela ria muito, a saliva escorrendo pelo queixo e molhando a sua camisola com o Rato Mickey estampado.
   Eu puxei-a pela mão e ela, alta, muito mais alta que eu, franzina e pequena demais para a idade, deixou-se levar, os pés arrastando pelo chão de madeira, os seus gritinhos acompanhando-nos pelas escadas acima até ao meu quarto.
   Mostrei-lhe os cadernos novos, imaculados, os livros da escola, de exercícios, os lápis, os marcadores com doze cores diferentes, as canetas, azul, vermelha e verde.
   Nos meses seguintes, as páginas já estavam cheias de letras acabadas de aprender, depois vieram as palavras, os números, as contas. O meu dedo deslizava sobre o papel, enquanto lhe soletrava as palavras. Por seu lado, ela trazia da escola cartolinas pintadas com desenhos abstractos, pinceladas de amarelos, castanhos, rosas, azuis, roxos, verdes. Eu olhava para as suas obras de arte e encontrava uma princesa loira com os olhos azuis mais bonitos do mundo.
   Num dia de Janeiro, a Felisbela adoeceu e foi para o hospital. Eu estava no segundo ano do ciclo. Depois das aulas, fui para casa, entrei no seu quarto e tirei as cartolinas que estavam coladas na parede, enrolei-as e dirigi-me para o hospital. Pendurei-as na parede ao lado da sua cama, de modo a que, quando abrisse os olhos, a primeira coisa que visse fosse uma bela princesa de olhos azuis e de sorriso bondoso.
   Passados alguns dias, ela abriu os olhos. Eu não estava lá. Quem me contou foi a minha avó, que tricotava ao seu lado todas as tardes as camisolas que eu vestiria durante três invernos, porque seriam para a Felisbela. Abriu os olhos, respirando pela máquina de respiração artificial e fixou as muitas pinturas com que eu tinha decorado o seu quarto, juntamente com os seus peluches preferidos e as nossas fotografias. A custo, levantou um braço e apontou para uma cartolina, muito gasta, de um desenho que tinha feito há anos. A avó descolou-a da parede e colocou-a no seu peito e depois chamou a enfermeira.
  A Felisbela ainda viveu duas semanas daquele rigoroso Inverno. A pintura, essa, tem quase trinta anos. Está pendurada no seu antigo quarto, onde dorme, neste momento, a sua sobrinha com o mesmo nome, abraçada a um peluche do Rato Mickey.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

INDEX ebooks lança 'O Corredor de Fundo'


A INDEX ebooks tem o orgulho de anunciar o lançamento do capítulo 1 grátis do best-seller O Corredor de Fundo (The Front Runner) de Patricia Nell Warren, previsto para o próximo dia 28 de Outubro.  

Harlan Brown é um resistente, um treinador de atletismo conservador, que tenta afastar-se do seu passado numa pequena universidade americana. Billy Sive é um jovem e brilhante corredor que é gay e não se envergonha disso. Quando os dois se apaixonam, entram numa corrida contra o ódio e o preconceito que os levará aos Jogos Olímpicos de 1976 e a um desfecho chocante. Com mais de 10 milhões de exemplares vendidos em sete idiomas, este clássico da literatura gay é a história de amor gay mais popular de todos os tempos.
 
O lançamento da versão integral do romance deverá acontecer no início de Dezembro.

Mais informação no site da editora: aqui.

O funcionário - o conto do Miguel

É uma história do Miguel, escrita há dois anos, que bem que podia estar na Granta 2: Poder. Será que o Carlos Vaz Marques aceita sugestões? :)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Aristogatos XXV

Lição n.º 1: acordar a dona às seis, incluindo sábados, domingos e feriados, arranhando com vigor a porta do quarto.
Lição n.º 2: afiar as unhas no sofá, na tábua de engomar e nos casacos pendurados nas cadeiras.
Lição n.º 3: fazer escalada nos cortinados.
Lição n.º 4: beber a água da piscina da tartaruga, da loiça que está de molho e do poliban acabado de usar.
Lição n.º 5: usar os vasos de flores como quarto-de-banho.
(...)
Lição n.º 97: admirar a vista de um terceiro andar alto saltando para o parapeito da janela aberta.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Absurdo

'Marcos: «O que eu digo é que talvez possamos chegar ao ponto de termos de usar artilharia pesada, mas entretanto terão de ser usadas as armas ligeiras à mão ou ao ombro.»
Ver retorquiu: «A nossa capacidade ofensiva está a ser retardada.»
O Christian Science Monitor, ao meu lado, disse: «Isto é absurdo. É uma tira de Mutt e Jeff.»'
 
(...)
 
'Alguém quis saber se ele ia abandonar o país. «Não», disse ele, «como pode ver, ainda aqui estamos todos.» E ao dizer estas palavras virou-se, descobrindo então que não havia ninguém atrás dele.
Eu pensei: foi Kapuściński quem escreveu este guião.'


James Fenton, 'A Revolução Instantânea', Granta 2, pp. 114-115.
 
Estou a adorar este número dedicado ao Poder. Este relato do jornalista é sobre a revolução filipina que depôs Ferdinand Marcos em 1986. É uma história tão verdadeira quanto surreal.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Estratégia de sobrevivência

Eu e Tu

Um drama psicológico realizado por Bernardo Bertolucci, sobre dois irmãos que vivem separados, um rapaz de catorze anos, introvertido e anti-social, e uma jovem mulher de vinte e cinco, fotógrafa e toxicodependente, escondidos na cave do prédio onde ele vive com a mãe. Um retrato comovente da solidão, das dores de crescimento e da descoberta dos afectos. Obrigados a viver uma semana juntos (a semana que ele devia ter passado na neve, com os colegas da escola), acabam por reforçar laços de amizade e de cumplicidade.


La mia mente ha preso il volo
Un pensiero uno solo
Io cammino mentre dorme la citta'

I suoi occhi nella notte
Fanali bianchi nella notte
Una voce che mi parla chi sara'?

Dimmi ragazzo solo dove vai,
Perche' tanto dolore?
Hai perduto senza dubbio un grande amore
Ma di amorie e'tutta piena la citta,

No ragazza sola, no no no
Stavolta sei in errore
Non ho perso solamente un grande amore
Ieri sera ho perso tutto con lei.

Ma lei
I colori della vita
Dei cieli blu
Una come lei non la trovero' mai piu

Ora ragazzo solo dove andrai
La notte e'un grande mare
Se ti serve la mia mano per nuotare
Grazie ma stasera io vorrei morire
Perche' sai negli occhi miei
C'e' un angelo, un angelo
Che ormai non vola piu' che ormai non vola piu'
Che ormai non vola piu'
C'e' lei
I colori della vita
Dei cieli blu
Una come lei non la trovero' mai piu'

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Um país para nós

'É um jogo delicado. Se entrego um banco privado a um deles, tenho logo de entregar um canal de televisão pública a outro. Pouco a pouco, vou distribuindo o país entre nós. Felizmente, temos um país enorme e rico. Há-de dar para todos os meus filhos.'
 
José Eduardo Agualusa, 'O Bom Déspota', Granta Portugal 2 - Poder.


Este post foi editado no dia 16 de Outubro, para reforçar a parceria estratégica entre nós.

sábado, 12 de outubro de 2013

1997-2013

O Farrusco adormeceu ontem à noite. Deixou de comer, mantinha-se no seu canto, encolhido e triste, como que sabendo que a sua hora tinha chegado. Fiquei do seu lado enquanto levava o sedativo e a injecção.

Com ele, acaba a primeira família de gatos que tive, pai, mãe e filhote, Pitágoras, Bia e Farrusco. Tenho tantas saudades deles.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Casa

 

'Outro monte, outro vale. Apeámo-nos sequiosos, a beber a água duma nascente que brotava das fragas e caía num charco onde coaxavam rãs. Durante muito tempo o caminho seguiria como por entre duas paredes, sombreado e fresco. Depois viria a ponte. Um pouco antes dela, numa volta e só por um instante, a aldeia apareceria encarrapitada na encosta, olhando bem distinguia-se a nossa casa.' - p. 227.

J. Rentes de Carvalho, 'Ernestina'.

Protecção divina

'Os vendavais, esses eram repentinos. Na violência do seu sopro adivinhava-se o poder de espíritos malignos, determinados a arrasar tudo. E aquela gente, que vivia ali sem capela, nem sequer umas alminhas, só com a protecção de algum santo de calendário e das medalhas penduradas nos rosários, corria a recolher os animais, agachava-se em torno da lareira a rezar para que o Senhor se compadecesse. Vida de medo.' - p. 13.

J. Rentes de Carvalho, 'Ernestina', Quetzal, 4.ª edição, Abril de 2013.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

40 - II

De quatro em quatro, ou de cinco em cinco meses, corto o cabelo. Ontem, a M., que é a minha cabeleireira e dona de um singelo negócio de bairro, encontrou mais cabelos brancos. Mas depois disfarçou e disse que estavam por baixo e mal se viam. Hã-hã...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Decepcionado no amor

'- O que quero dizer é que tu sofreste uma decepção no amor, mas não fazes ideia da quantidade de coisas com que uma pessoa pode decepcionar-se além do amor. Tens sorte em ainda estares decepcionado no amor. Mais tarde pode vir a ser ainda mais terrível.'
 
Saul Bellow, 'As Aventuras de Augie March', p. 548.

domingo, 6 de outubro de 2013

As it seems

Well I knew
What I didn’t want to know
And I saw
Where I didn’t want to go
So I took the path less traveled on
And I'll let my stories be whispered
When I’m gone...


When I’m gone
When I’m gone
When I’m gone

Well in this life you must find something to live for
Cause when the darkness comes a callin'
You'll go back to where you were before
Cause this life is as
Fragile as a dream, and
Nothing’s ever really
As it seems...

As it seems
As it seems
As it seems

Well I lost my innocence when in I let him dive
But the way that he looked at me
Made me feel alive
And now I know
Nothin' at all
But the release that comes when you're
In mid fall...

In mid fall
In mid fall
In mid fall

Cause in this life you must find something to live for
Cause when the darkness comes a callin'
You'll go back to where you were before
Cause this life is as
Fragile as a dream, and
Nothing’s ever really
As it seems...

As it seems
As it seems
As it seems

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Evil Elvira

Tenho uma gata afilhada do demo. Ontem à tarde entrou de rompante no meu quarto e atirou-se ao cortinado. Conseguiu tirar o parafuso da parede, agarrado à bucha. O varão estava lá há anos. Tinha sobrevivido a cinco gatos.

O Farrusco só come alimentação húmida. Optei por saquetas, são refeições pequenas e ele come pouco de cada vez. O problema é que tem um paladar requintado e da segunda vez que lhe coloco o pires, não come. Resultado, divido a comida pelas três gatas. Como não quero que ele morra esfaimado, pois mia e mia, abro outra saqueta. Ele come um pouquinho e guardo o restante. Dou às gatas. Assim sucessivamente. A Joana, a Alice e a Elvira engordaram. A Elvira cresceu bastante. Está a tornar-se carnívora a olhos vistos. Mal pego numa saqueta, atira-se a uma perna e tenta trepar, enlouquecida. Parece aquelas crianças que, quando damos açúcar a mais, ficam hiper-excitadas. Assim é ela.

Lembrei-me agora que posso congelar a carne que o Farrusco não come. Elas regressarão à alimentação seca. Assim, se me acontecer o mesmo que ao Silvestre, poderei comer a comida do gato, em último caso, já que não tenho delícias do mar. E, se se der o caso de termos visitas de extraterrestres, já estarei precavida.