sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Alguma coisa

   'Uma vez fora apanhar fruta no Verão. Não era muito bem pago, mas diverti-me. Experimentei muitas coisas. Fora empregado de mesa num hotel de terceira categoria, nadador-salvador numa praia, vendera enciclopédias, aspiradores e algumas outras coisas. Uma vez fizera trabalho de horticultura num jardim botânico e aprendera um pouco sobre flores.
   Nunca me dediquei a nada. Porque havia de o fazer? Achei quase tudo o que fiz interessante. Algumas coisas davam mais trabalho do que outras, mas na verdade não me importava com isso. Na realidade não sou preguiçoso. Suponho que o que sou de facto é inquieto. Quero ir a todo o lado, ver tudo, fazer tudo. Quero encontrar alguma coisa. Sim, é isso. Quero encontrar alguma coisa.'

Agatha Christie, Noite sem fim, Edições Asa, 2011 (ebook)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Começo

Magoei os pés no chão onde nasci.
Cilícios de raivosa hostilidade
Abriram golpes na fragilidade
De criatura
Que não pude deixar de ser um dia.
Com lágrimas de pasmo e de amargura
Paguei à terra o pão que lhe pedia.

Comprei a consciência de que sou
Homem de trocas com a natureza.
Fera sentada à mesa
Depois de ter escoado o coração
Na incerteza
De comer o suor que semeou,
Varejou,
E, dobrada de lírica tristeza,
Carregou.

Miguel Torga, Cântico do Homem (1950) , Antologia Poética, Círculo de Leitores, 2001

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O conto do Mark

   A tartaruga e o gato Sapeca pelo mundo

   - Está na hora! – ele exclamou, empolgado. - Para onde vamos, sabes? Sim, tu sabes tudo, estás aqui há tantos anos. – os olhinhos azuis muito brilhantes fitaram-na, curioso.
   - Meu Sapeca lindo… – ela suspirou, inclinando a cabeça para um lado. Sorriu ternamente e semicerrou as pálpebras engelhadas.
    - Diz-me, tu sabes. Diz, diz! – com a agilidade que os seus sete meses demonstravam, pulava de um lado para o outro. Sem querer, deu-lhe uma marradinha que a fez encolher o pescoço. - Desculpa…
   - Sapeca, que nome tão adequado tens, menino – murmurou a paciente tartaruga. A sua cabeça verde, de riscas vermelhas nos cantos dos olhos, brilhava. – Se te disser agora, perde a graça. Tens que descobrir por ti próprio. Tem paciência, que já não vou para nova. Vamos, acompanha-me. Estamos quase a chegar, não é verdade?
   - Sim, sim, já lá está. Vês? Anda, senão perdemos o início.
   Aproximaram-se do petiz que estava sentado debaixo de um castanheiro. Nos joelhos flectidos, apoiava um livro de páginas amareladas que ela tão bem conhecia. Lia alto, concentrado.
   A velha tartaruga sorriu. Muitos anos antes escutara uma criança com semelhante voz cristalina e, como ela, tinha o mesmo cabelo ruivo.
   Com as pequeninas orelhas espetadas, Sapeca sentou-se à sua frente. Agora, eram dois companheiros inseparáveis.
   De pé na proa da caravela miraram, intrépidos, o imenso lençol azul acinzentado. Não sabiam onde o oceano acabava e o céu começava. Era o início de mais uma aventura.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Mais amarga que rabo de gato

Ontem ouvi pela primeira vez a expressão 'mais amarga que rabo de gato'. Parece que se utiliza muito no norte. A sério, com esta cara ninguém diria que tem uma cauda assim...

sábado, 23 de novembro de 2013

Agatha Christie e Poirot

De acordo com uma notícia publicada no The Telegraph no passado dia 6 de Novembro, 'O assassinato de Roger Ackroyd' é considerada a melhor história de crime e mistério e Agatha Christie a melhor escritora de sempre.


Na série de televisão britânica, Poirot é interpretado magistralmente por David Suchet desde 1989 até este mês de Novembro (a sua morte aconteceu no dia 13), ou seja, há quase 25 anos.

Como sigo a página de Agatha Christie no facebook há pouco tempo, fiquei agradavelmente surpreendida por ainda existir esta série. Tenho as primeiras temporadas e os filmes, mas apenas os que passaram na RTP há muito tempo. Com os anos, já não me despertou tanto o interesse (neste caso, a ignorância é uma benção, porque agora vou procurar as séries mais recentes).

Em todo o caso, aconselho que leiam o livro, no qual surge, então, um tal de 'Mr. Porrott' e que se interessa pelo cultivo de abóboras.

Encontrei na internet uma página muito interessante que reúne, sob várias etiquetas associadas a esta série, muitas fotografias. Para além das histórias, o que me fazia estar colada à TV a absorver todos os pormenores eram a arquitectura art déco, a cenografia, os penteados, tudo muito fielmente reproduzindo a atmosfera dos anos 1930 do século passado.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O conto do Francisco

   Guloseimas ou Travessuras
  
   Aproximava-se devagar, a respiração em suspenso, o peito cheio de ar como um balão. Observava a silhueta que se destacava sob o halo do candeeiro do jardim. Queria picotar à volta, destacá-la e levá-la consigo, como fazia em criança com os seus desenhos preferidos.
   Parou atrás dele e expirou o ar dos pulmões. Silenciosamente, ergueu os braços e colocou as mãos à frente dos seus olhos. Ele tacteou com as pontas dos dedos as suas mãos. Um polegar com uma unha bem cuidada rodeou o anel que trazia no dedo mindinho direito. Sentiu-o a respirar mais rapidamente. Notou que ele sorria e relaxou por fim.
   Os dedos elegantes percorreram as suas mãos, passaram para os pulsos escondidos sob a grossa camisola e detiveram-se na pulseira de cabedal, recordação das férias que tinham passado juntos. Subiram novamente, quais aranhas, e sentiu um leve beliscão na pele. Um gemido fingido de dor soou da sua garganta. Riu, virou a cabeça, beijou-o e poisou o queixo no seu ombro. Rodeou-lhe a cintura com os braços, fechando os olhos. Murmurou-lhe algo ao ouvido. Tinha um saquinho de bombons de chocolate com licor no bolso do casaco.
   Do outro lado da rua, um grupo de crianças andava de porta em porta a pedir doces. Um pirata de mão dada a uma princesa, um principezinho com uma raposa de peluche na mão, um superhomem com um braço no ombro de um homem-aranha, uma fada e um pikachu. Velas bruxuleavam nos parapeitos das janelas.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Pérolas a Porcos

Fui à Fnac do Chiado. Há algum tempo que por lá não passava. À saída, desci as escadas rolantes, com intenção de cortar caminho para ir para o metropolitano, como sempre fiz. Nunca me habituei aos elevadores. Dei de caras com a Toys'R'Us. A Sportzone tinha ido à vida. Dei a volta à loja, não entrava numa há mais de 10 anos. Tão cedo não entrarei noutra. Fecharam as escadas rolantes para o rés-do-chão. Subi e acabei por dar uma volta pelo Rossio. A Livraria do Diário de Notícias agora é a Feira dos Tecidos, a Loja das Meias agora é a Bennetton. Depois, fui de metro até ao Areeiro. A estação está catita, mas fecharam as saídas junto à estação Roma-Areeiro, enquanto não acabam as obras. Saí na ponta da praça.

Mas nada me estragou esse fim de tarde. Comprei o último o 'Pérolas a Porcos'. Finalmente, juntou-se aos seus manos, os volumes I a VIII.
Sou fã incondicional desta BD desde meados da década passada. Frequentemente, vou ao seu site e rio-me perdidamente. É um cartoon hilariante, cáustico, inteligente, absurdo, traça uma caricatura deliciosa dos nossos defeitos e limitações. É brilhante.

É uma BD subversiva, um pouco chocante, maliciosa, só mesmo ela para ter um gato terrorista e um pato-da-guarda, para além das personagens que já conhecemos, o Rato arrogante e egocêntrico, o Porco, lento de cabeça e ingénuo, o Bode inteligente, a Zebra activista dos direitos herbívoros e os Crocs obsessivamente carnívoross.

Pastis, amigo, um dia que passes por cá, não poderei ceder-te o sofá, porque tenho três gatas um bocado tresloucadas e possessivas, um pouco como o senhor Snuffles, mas em troca de assinares os meus livros, oferecer-te-ei alheiras de Mirandela e castanhas de ovos de Viseu, está bem?





domingo, 17 de novembro de 2013

O conto do Alexandre

   Homem no caixote do lixo

   O comboio desapareceu na curva. Não se ouvia o chilreio dos pássaros, nem o zumbido eléctrico na catenária, nem vozes no cais. Apenas um silêncio pesado, de chumbo, como as nuvens no céu.
   No ombro, segurava a mochila com meia dúzia de peças de roupa, um diário, um lápis, a máquina fotográfica. No peito, um coração despedaçado. Estilhaçara-se e caíra aos seus pés como lixo. Lixo que alguém recolhera e deitara no caixote, como coisa que já não prestava.
   Tinha sido tão feliz, amara tanto, tão intensamente. Fora tudo uma descoberta, sedução, mensagens de amor em conchas, corcódeas com iniciais gravadas, um pedido num banco de jardim, castelos de amor no ar. Avassalador e tão breve.
   Consentira nos segredos, nos enganos, anulara-se. Aos poucos, morria; procurava respostas e encontrava um muro. Ainda sonhou em derrubá-lo, confiança e amor bastavam, pensava. Como se enganara. Censura, palavras de circunstância, refeições desencontradas, a cama cada vez mais vazia, um gelo no olhar, um toque repelido. Desejou o sol, encontrou a escuridão.
   Tacteando no escuro, deixava passar um dia, depois outro e outro, criando coragem para o passo final. Queria a luz, sol e risos novamente.
   A conversa fora breve. Basta, merecia mais. Viu o alívio nos outros olhos, no seu peito ficou a dor. Despediram-se.
   Saiu da estação. A cidade surgia diante de si, majestosa, abria os braços de água para receber as suas mágoas.
   Quando os primeiros pingos de chuva lhe bateram no rosto, por fim chorou.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O conto do Eolo

   A Bruxa e a Tarte de Limão

   Tenho sete anos, jardineiras de bombazina com joelheiras e camisola de gola alta, maria-rapaz, sorriso arrojado numa boca desdentada.
   É o intervalo da tarde da segunda classe. Salto o muro das traseiras da escola, corro pelo trilho até às árvores, subo ao limoeiro e arranco três limões gordos e resplandecentes ao sol do outono. Penduro-me num ramo, que se parte com o meu peso, caio ao chão e torço o tornozelo esquerdo.
   Como sempre, ela sai da cozinha, gritando de vassoura nas mãos, o cabelo pintado de um vermelho alaranjado, quais labaredas da fogueira que fazíamos pelo são martinho. Mordo os lábios, segurando lágrimas de dor e frustração, e escondo os limões no peitilho das jardineiras, um suspensório deslizando pelo ombro. Coxeio, afasto-me de cabeça erguida, recuso-me a sair vencida. Mas caio, caio e as lágrimas grossas deslizam pela cara abaixo. Os limões rolam pelo chão, como se fossem despojos de guerra.
   A Bruxa, a terrível Bruxa da casa ao lado, ajoelha-se à minha frente, passa um braço pela minha cintura e ampara-me até casa. Tira-me a bota, a meia, enfaixa o pé inchado, murmurando palavras doces. Serve-me uma fatia de uma tarte que não conheço, a avó só faz pão-de-ló e bolo de mármore.
   Tenho dez anos. É o último dia de aulas da primária. Saio da festa, pulo o muro, corro, ela já está à minha espera à porta da cozinha. Sorri, abraça-me e oferece-me uma fatia de tarte de limão.

domingo, 10 de novembro de 2013

O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo

É essencial uma pausa nos contos. É por uma boa causa, claro. Primeiro, falo sobre mais um livro e segundo, porque é o último romance publicado do senhor Haruki Murakami. Não é recente, foi escrito em 1985, recebeu o Prémio Tanizaki e foi o livro que o reconheceu como um excelente romancista a nível internacional.

Não vou mencionar o que se pode ler na badana, ou em qualquer resumo online, o mais importante, para mim, é que é tão bom quanto o 'After Dark, os Passageiros da Noite'. Considero-o ainda melhor que 1Q84. Primeiro, porque cria dois universos fantásticos,  uma Tóquio futurista, o impiedoso país das maravilhas, com inúmeras referências à década de 1980 do século passado (música pop, videogravadores, calças com pinças) e uma outra realidade, o fim do mundo. Não vou levantar muito o véu, mas surgem questões de ética, com a utilização de cobaias para experiências científicas. Segundo, e ainda mais importante, é que lida com questões metafísicas, com a imortalidade, por contraponto com a ciência e o que tudo isso implica.

Quantas vezes não temos o desejo de viver outras vidas? Eu penso que, se tivesse oportunidade, faria coisas de maneira diferente, viveria a minha vida de outra forma, mas depois, como o narrador diz, quase para o fim do livro, eu deixaria de ser eu, seria um outro eu, logo, não era mais 'eu'. Não é confuso, somos assim, se tivéssemos a capacidade de regressar ao passado e fazer as coisas de maneira diferente, no futuro, não seríamos a pessoa que, neste momento, somos.

Estou quase a terminar o livro. É fantástico e para não variar, está carregadinho de sublinhados :)

   '- Sabe?, compreendo perfeitamente que sou um ser tão insignificante que é preciso uma lupa para me verem. Foi sempre assim. Até a mim me custa encontrar a minha cara na fotografia de fim de curso. (...) No entanto, e por estranho que pareça, estou bastante satisfeito com a minha vida neste mundo. (...) Detesto muita gente, e há muita gente que me detesta, mas também gosto de algumas pessoas e, das que gosto, gosto muito. E não tem nada a ver com ser correspondido. Vivo assim. Não quero ir a lado nenhum. A imortalidade não me faz falta.' - pp. 390-391.

   'O que foi que perdi?, perguntei a mim mesmo, dando voltas à cabeça. Sem dúvida alguma que teria perdido muitas coisas. (...) Sofrera bastante com a perda de algumas delas, apesar de, no momento em que as perdera, ter julgado não me importar demasiado, mas com outras sucedera-se o contrário. À medida que o tempo tinha passado, fora perdendo diversas coisas, várias pessoas, vários sentimentos. No bolso de um casaco simbolizando a minha existência abrira-se um buraco fatal, que nenhum fio e uma agulha seriam capazes de coser. Neste sentido, se alguém tivesse aberto a janela de minha casa, enfiando a cabeça lá dentro para gritar: «A tua vida é um zero absoluto!», eu não disporia de nenhum argumento para esgrimir contra tal afirmação.
   No entanto, dava-me a sensação que, podendo voltar atrás, teria tido uma vida idêntica à que levara. Porque esta vida - uma vida repleta de perdas - era eu. Era o único caminho de que dispunha para ser eu. Mesmo que para tal fosse preciso abandonar todo o tipo de pessoas, e que todo tipo de pessoas me abandonasse; mesmo que tivesse de apagar ou limitar os mais belos sentimentos, esquecer as mais sublimes qualidades ou sonhos, eu não podia ser outra coisa senão eu mesmo.' - p. 483.

Haruki Murakami, O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo,  Casa das Letras, 2013 (como sempre, é fantástica a tradução do inglês de  Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso).

sábado, 9 de novembro de 2013

O conto do Miguel

   Tudo isto, e o céu também

   Conheci dezenas de países. Tenho quatro passaportes cheios de carimbos, uma estante repleta de guias de viagens e um armário com recordações. De todas as vezes, regressava a casa de mãos vazias. No ano seguinte, recomeçava. Planeava cuidadosamente o itinerário, pesquisava, entusiasmado, os locais possíveis de te encontrar. Seria dessa vez, dizia para mim, seria num museu no Cairo, numa ponte sobre o Sena, numa esplanada de um bar em Nova Iorque, num jardim em Tóquio. Estarias sentado sob uma cerejeira e lerias o jornal vespertino.
   Conheci-te na cidade onde vivo, num pequeno livro de poemas comprado numa feira de livros usados. Amei-te ao primeiro verso. Pesquisei o teu nome na internet, fui dar com o teu blogue, enviei-te uma mensagem e, duas semanas depois, estávamos frente a frente no aeroporto do teu país. Poisei a mala e suspirei de alívio. Estavas ali, finalmente.
   Guardo o momento em que te vi e me encontrei. Um gigante de olhos verdes e enormes braços que me abraçou longamente. A primeira noite de amor e um poema que eu sabia de cor sussurrado ao teu ouvido. As tuas lágrimas, uma dedicatória no livro, um beijo apaixonado e o café da manhã na varanda do hotel.
   Guardo tudo isto, e o céu também. Nesta noite estrelada, um cometa rasa o infinito. Vejo-te a sorrir, firmemente agarrado à poeira cósmica. Acenas. Regresso ao teu livro de poemas. Choro baixinho, recordando o momento em que te encontrei e te perdi.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O conto do João Máximo

   E um sorriso no olhar, esse olhar mole e felino

   Depositou a rosa vermelha no decote, pintou os olhos e os lábios e calçou as luvas pretas até ao cotovelo. Com um gesto teatral, ergueu as mãos. Virando-se de repente, retirou o chapéu de plumas cor-de-rosa da caixa redonda aberta sobre a cama. Em frente ao espelho decorado com retratos de galãs de cinema, de bigodes finos, cigarros nos dedos esguios e olhares de predador, deu duas voltas e colocou-o na cabeça. Ajeitou-o e riu para o seu reflexo, coquete.
   Cantarolando baixinho, saiu do quarto, caminhou meneando as ancas, levantando o pesado vestido de folhos. Girou a cabeça de um lado para o outro, as plumas do chapéu esvoaçando no ar, e soltou uma sedutora gargalhada. A tarde estender-se-ia pela noite. Iria sorrir, sorrir muito, beber, sentar-se num joelho, receber uma carícia no pescoço, um beijo na face e beber champanhe. Ah! Champanhe, em taças redondas, quais moldes dos delicados seios da Maria Antonieta.
   Lentamente, desceu a longa escadaria, poisando os pequenos pés nos degraus alcatifados, prolongando o momento em que os aplausos irromperiam, esfuziantes.
   Raios de sol banhavam o vazio e decadente salão. Ela sorria. E um sorriso no olhar, esse olhar mole e felino, afagava cada um dos seus fantasmas. Invariavelmente, solicitar-lhe-iam que cantasse os seus êxitos, ao que acederia, sorrindo, conformada.
   Nessa noite, o filho foi encontrá-la tombada sobre um antiquado e desafinado piano, com a pauta de uma imemorável canção de amor espalhada aos seus pés.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O conto do João Roque

   Porque te amo?

   Lembras-te do primeiro dia em que nos conhecemos? Há tantos anos. Hoje, como naquela altura, a nossa vida continua a ser de encontros e despedidas.
   De cada vez que te afastas no aeroporto, o meu coração despedaça-se em mil pedacinhos e cambaleio sem forças como se fosse uma marioneta. A custo, resisto à vontade de gritar, ir ao teu encalço e puxar-te por um braço e dizer uma vez e outra “Amo-te, amo-te!”
   E eu amo-te, meu amor, porque és a primeira folha de um novo livro, uma flor de canela no arroz-doce e o orvalho na macieira. Um raio de sol na minha pele, a brisa da primavera no rosto e o malmequer na lapela.
   Amo-te, porque trazes o sabor do pão-de-ló, o cheiro da terra molhada e o gosto da erva mordida. As estrelas no olhar, um nocturno de Chopin no sorriso e o veludo da noite nos dedos.
   Amo-te na solidão da madrugada, na cama gelada e nos intermináveis dias cinzentos. Na mesa para um, no teu lugar vazio e na comida sem sabor.
   Amo-te no livro tombado, nas flores secas na algibeira e no lume apagado da lareira. Num cortinado afastado, no rosto encostado ao vidro e nas lágrimas de saudade.
   Amo-te em noites de insónia, nas mensagens gravadas no telemóvel e nos dias contados no calendário.
   Amo-te, porque apareces sem avisar e sorris à porta com um ramo de malmequeres.
   Porque és a minha rosa-dos-ventos. A minha âncora. E toda a vida.

sábado, 2 de novembro de 2013

O conto do Ribatejano

   Eu quero-te na minha vida…

   O homem mais pequeno do mundo sabia ler as lágrimas. A água evaporava e os cristais de cloreto de sódio brilhavam no sítio onde elas tombavam.
   A sua vida girava em torno das histórias que as lágrimas contavam. Se eram de amor, ele sonhava com beijos ao pôr-do-sol; de dor e o seu coraçãozinho encolhia-se muito, cheio de angústia; de felicidade e rodopiava de braços abertos, rindo sem parar.
   Na véspera de natal, o homem mais pequeno do mundo encontrou uma lágrima colada com um lacinho vermelho na porta de casa. Delicadamente, segurou-a com a ponta do seu dedo minúsculo, entrou, ajoelhou-se junto à árvore de natal e colocou-a no chão. Com um sorriso, ajeitou o lacinho do único presente que tinha recebido até então e sentou-se na poltrona. Esperou pacientemente pela meia-noite. Com o calor da sala, a água dissipava-se, os cristais refulgindo na tijoleira.
   À hora certa, aproximou-se, ansioso. Debruçou-se e leu baixinho «Eu quero-te na minha vida…». Arregalou os olhos, surpreso. Quem teria chorado tal lágrima? Seria mesmo para ele, o homem mais pequeno do mundo, que passava incólume entre os pingos da chuva, mas não conseguia fugir às tormentas das lágrimas?
   Chorando de felicidade, adormeceu enroscado ao seu pequeno tesouro.
   No dia de natal, acordou e a primeira coisa que viu foi um terno sorriso de um anjo. Nas palmas das suas mãos, os cristais das lágrimas do homem mais pequeno do mundo reluziam: «Sou o homem mais feliz do mundo.»