quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

2014: balanço literário


   Com o precioso auxílio do desafio do Goodreads, aqui está a lista dos livros que li este ano. Não me recordo de ler tanto num ano; a maior parte são romances, uns quantos policiais, poesia, teatro, que descobri este ano e adorei. Balancei entre ebooks, livros que eu tenho, que me foram emprestados e oferecidos e algumas idas à biblioteca municipal do Seixal.
   Os livros não estão pela ordem que li, mas por ordem alfabética, divididos por dois temas: lusófonos (autores de língua portuguesa) e estrangeiros e agrupados por autor.


Lusófonos:
  1. A Casa dos Budas Ditosos – João Ubaldo Ribeiro (ebook)
  2. A Confraria dos Espadas – Rubem Fonseca (ebook)
  3. Agosto – Rubem Fonseca (ebook)
  4. E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto – Rubem Fonseca (ebook)
  5. O Caso Morel – Rubem Fonseca (ebook)
  6. A Filha do Papa – Luís Miguel Rocha
  7. A Traição do Padre Martinho – Bernardo Santareno (biblioteca) – teatro
  8. O Pecado de João Agonia – Bernardo Santareno (biblioteca) – teatro
  9. Os Marginais e a Revolução – Bernardo Santareno (João Máximo – foi com este livrinho que me iniciei neste dramaturgo) - teatro
  10. A Vida no Céu – José Eduardo Agualusa (ebook)
  11. Achados e Perdidos - Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
  12. Berenice Procura – Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
  13. Céu de Origamis -Luiz Alfredo Garcia-Roza (ebook)
  14. Espinosa Sem Saída – Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
  15. Na Multidão - Luiz Alfredo Garcia-Roza (ebook)
  16. O Silêncio da Chuva - Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
  17. Perseguido - Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
  18. Uma Janela em Copacabana – Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
  19. Vento Sudoeste - Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
  20. Antigas e Novas Andanças do Demónio – Jorge de Sena (biblioteca) 
  21. Ara – Ana Luísa Amaral
  22. Canções e Outros Poemas – António Botto
  23. Castelo de Sombras – Judith Teixeira (poesia)
  24. Decadência, Poemas – Judith Teixeira (digitalizado, oferta do João Roque)
  25. Confundir a Cidade com o Mar – Richard Zimler (é americano mas tem dupla nacionalidade, embora escreva em inglês. Assim, optei por o colocar nesta secção) (biblioteca)
  26. Meia-noite ou o Princípio do Mundo – Richard Zimler (emprestado por uma amiga)
  27. Deixem Falar as Pedras – David Machado
  28. Dicionário de Literatura Gay – (ebook – Index ebooks)
  29. Dois Mundos, A Paz – Pedro Xavier (ebook – Index ebooks)
  30. Dois Mundos, Um Inimigo – Pedro Xavier (ebook – Index ebooks)
  31. Esteiros -Soeiro Pereira Gomes
  32. Granta Portugal 4 – África 
  33. Granta Portugal 3 – Casa 
  34. Histórias de Amor – José Cardoso Pires
  35. Ilha de Metarica – memórias da guerra colonial – João Carlos Roque (ebook – Index ebooks)
  36. Mayombe – Pepetela
  37. Montedor – J. Rentes de Carvalho
  38. Morangos Mofados – Caio Fernando Abreu (ebook)
  39. Novelas Nada Exemplares – Dalton Trevisan (ebook)
  40. O Livro de Agustina Bessa-Luís – Agustina Bessa-Luís (biblioteca)
  41. O Livro do Pedro – Manuela Bacelar (João Máximo)
  42. O Pecado de Porto Negro – Norberto Morais (João Máximo)
  43. O Ponto de Vista dos Demónios – Ana Teresa Pereira
  44. O Retorno – Dulce Maria Cardoso
  45. O Sr. Ganimedes – Alfredo Gallis (ebook – Index ebooks) 
  46. Os Memoráveis – Lídia Jorge
  47. Os Transparentes – Ondjaki (biblioteca)
  48. Partilha-te – vários autores (digitalizado, oferta do João Roque)
  49. Poemas Homoeróticos Escolhidos – Paulo Azevedo Chaves e Raimundo de Moraes (ebook – Index ebooks)
  50. Poesia Reunida – Maria do Rosário Pedreira - poesia
  51. Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos, Os Amantes Sem Dinheiro – Eugénio de Andrade - poesia
  52. Propaganda – Joana Estrela – B.D. digitalizada pela autora
  53. Rua Descalça – José Mauro de Vasconcelos (emprestado por uma amiga)
  54. Vamos Aquecer o Sol – José Mauro de Vasconcelos (emprestado por uma amiga)
  55. Uma Outra Voz – Gabriela Ruivo Trindade
  56. USA Wild West – João Máximo e Luís Chainho (ebook – Index ebooks)

   O recorde vai para 9 livros de Garcia-Roza; depois, li 4 de Rubem Fonseca; 3 de Bernardo Santareno; 2 volumes da saga ‘Dois Mundos’, de Pedro Xavier; 2 de Richard Zimler; 2 de José Mauro de Vasconcelos; 2 ‘Grantas’ e 2 livros de poemas de Judith Teixeira.
   Destes, levaria para a ilha Bernardo Santareno e Jorge de Sena. O livro deste último autor tem uns contos fantásticos, como o último, intitulado ‘Os amantes’.



Estrangeiros:
  1. (57.) A Caminhada – Richard Paul Evans
  2. (58.) A Canção de Tróia – Colleen McCulough (biblioteca)
  3. (59.) A Falsa Pista – Henning Mankel
  4. (60.) A Leoa Branca – Henning Mankel
  5. (61.) Os Cães de Riga – Henning Mankel
  6. (62.) A Obra ao Negro – Marguerite Yourcenar (biblioteca)
  7. (63.) A Peregrinação do Rapaz Sem Cor – Haruki Murakami
  8. (64.) A Porta Estreita – André Gide (biblioteca)
  9. (65.) A Tormenta das Espadas – George R.R. Martin
  10. (66.) A Trégua – Mario Benedetti (ebook)
  11. (67.) A Volta no Parafuso – Henry James
  12. (68.) Anjos Perdidos em Terra Queimada – Mons Kallentoft (ebook)
  13. (69.) Blue is the Warmest Color – Julie Maroh
  14. (70.) Boneca de Luxo – Truman Capote (biblioteca)
  15. (71.) Confissões de Uma Máscara – Yukio Mishima
  16. (72.) Morte em Pleno Verão e Outros Contos – Yukio Mishima
  17. (73.) Clube Dumas – Arturo Pérez-Reverte
  18. (74.) O Assédio – Arturo Pérez-Reverte (Miguel)
  19. (75.) O Tango da Velha Guarda – Arturo Pérez-Reverte (Miguel)
  20. (76.) Deixai a Chuva Cair – Paul Bowles (biblioteca)
  21. (77.) Viagens – Paul Bowles (oferta do Miguel)
  22. (78.) É Assim Que A Perdes – Junot Díaz
  23. (79.) Engano – Philip Roth (biblioteca)
  24. (80.) Manhattan Transfer – John Dos Passos
  25. (81.) Mentiras no Divã – Yrvin D. Yalom
  26. (82.) Middlesex – Jeffrey Eugenides (biblioteca)
  27. (83.) O Canto de Aquiles – Madeline Miller (oferta do João Máximo)
  28. (84.) O Homem Sentimental – Javier Marías (biblioteca)
  29. (85.) O Mestre – Colm Tóibín
  30. (86.) O Quarteto de Alexandria - Lawrence Durrell (ebook)
  31. (87.) O Sonho Mais Doce – Doris Lessing
  32. (88.) O Vigilante – Sarah Waters
  33. (89.) Palmeiras Bravas; Rio Bravo – William Faulkner (biblioteca)
  34. (90.) Poemas e Prosas – Konstandinos Kavafis
  35. (91.) Stoner – John Williams
  36. (92.) Sua Senhoria – Jaume Cabré (oferta da Tinta-da-China pela assinatura da Granta)
  37. (93.) Um Eléctrico Chamado Desejo e Outras Peças – Tennessee Williams (João Máximo)
  38. (94.) Want to Play – P.J. Tracy (única lido em inglês, já agora)
  39. (95.) White Jazz – James Ellroy

   Então, li 3 de Pérez-Reverte (2 deles do Miguel); 3 de Henning Mankel; 2 de Paul Bowles e 2 de Yukio Mishima.
   Levaria para a ilha Marguerite Yourcenar e Tennessee Williams (gostei tanto do livro que comprei um igual e só me falta ver um filme de uma das peças).
   Boas leituras em 2015!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Mr. Turner

   Grande biópico sobre a vida do pintor inglês William Turner, o último filme de Mike Leigh.
   Timothy Spall é extraordinário, tendo ganho o prémio de melhor actor no Festival de Cinema de Cannes. Descrevendo os últimos 25 anos da vida de Turner, um pintor de paisagens, principalmente marinhas, encontramos um artista obsessivo, solitário, que disfarça o seu génio através de grunhidos e uma postura algo bruta.
   Imperdível este filme, pelos actores, pela fotografia, pelos figurinos e por uma cena intensa da ária 'Dido e Eneias', de Henry Purcell. Num cravo toca uma mulher e Turner, emocionado, canta o lamento de Dido, a rainha de Cartago, abandonada por Eneias, o troiano.

domingo, 28 de dezembro de 2014

A Peregrinação do Rapaz Sem Cor

   Nem sei por onde começar. Eu, uma murakamiana confessa, fiquei desiludida com este último romance de HM. Encontrei pouco, enfim, uns laivos de Murakami, mas onde está a narrativa surreal que tanto me prendera em 'Kafka à beira-mar', ou em 'Crónica do Pássaro de Fogo' ou em 'Em Busca do Carneiro Selvagem', entre outros dos seus livros? Pouco, muito pouco a encontrei. Talvez em Midorikawa, o pianista da história do pai de Haida, nas termas perdidas na floresta, com o seu saquinho misterioso.
   Os ingredientes estão lá, a música clássica, neste caso, Liszt e os seus 'Anos de Peregrinação', principalmente a peça 'Le mal du pays'; o personagem principal, o homem solitário de 36 anos, que vive em Tóquio; a prosa de vez em quando verdadeira poesia e os sonhos eróticos (a novidade é começar um sonho com duas raparigas e terminar no amigo Haida, sendo esta a primeira vez nos seus romances em que existem referências homossexuais. Uma outra personagem, na continuação na história, também é homossexual).
   O enredo, basicamente, é este: acontecera algo na juventude e os seus amigos, quatro com nomes de cores, afastaram-se abruptamente. E aqui fica muita coisa no ar. A justificação do afastamento parece-me forçada, ficam muitas pontas soltas (o caso da amiga, por exemplo, ou o desaparecimento de Haida na faculdade); o jovem cai numa profunda depressão, longe da personagem forte, embora só, dos seus anteriores romances.
   E assim, no presente, graças a uma rapariga por quem nutre fortes sentimentos, terá de enfrentar o passado, procurar os seus antigos amigos e saber a razão do afastamento.
   Tsukuru Taszaki, é este o seu nome, é engenheiro e a sua paixão são as estações de comboios. Nada contra, eu também gosto de estações. Todavia, pelo meio, há muita conversa para encher, literalmente, chouriços.
   A amizade da adolescência, a nostalgia dos tempos passados, a dor da separação, a sobrevivência no presente fazem parte deste romance, que me soube a pouco, muito a pouco.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Não quero morrer como um imbecil

"(...) Não quero morrer como um imbecil, e uma vez que neste ou naquele dia terei mesmo de morrer, quero acima de tudo cuidar no meu tempo da única coisa que é certa e irremediável, mas quero sobretudo cuidar da forma da minha morte porque é a forma aquilo que em troca não é tão certo nem irremediável. É da forma da nossa morte que devemos cuidar, e para cuidar dela devemos cuidar da nossa vida, porque será esta, sem ser nada em si mesma quando terminar e for substituída, a única coisa que contudo será capaz de nos fazer saber no fim de contas se morremos como um imbecil ou se morremos aceitavelmente. Tu és a minha vida e o meu amor e a minha vida de conhecimento, e porque és a minha vida não quero ter a meu lado outra pessoa que não sejas tu quando morrer. Mas não quero que chegues subitamente ao meu leito de morte depois de saberes que estou agonizante, nem que vás ao meu enterro para te despedires de mim quando eu já não te veja nem possa cheirar-te nem possa beijar o teu rosto, e muito menos que aceites ou procures acompanhar-me nos meus últimos anos de vida porque os dois tenhamos sobrevivido às nossas respectivas e lastimosas ou separadas vidas, pois isso não me satisfaz. O que eu quero é que na hora da minha morte o que ali esteja seja a encarnação da minha vida, que não será outra coisa  que aquilo que esta tenha sido, e para que tu a tenhas sido é também necessário que hajas estado a meu lado desde agora e até esse meu momento definitivo. Não conseguiria suportar que nessa hora tu fosses apenas recordação e estivesses misturada, e pertencesses a um tempo remoto e confuso que é o nosso nítido tempo agora, porque é a recordação e o tempo remoto e a mistura o que mais detesto e o que sempre tentei diminuir e negar, e enterrar à medida que se iam formando, à medida que cada presente estimado e enaltecido deixava de o ser para ser passado, e ia sendo vencido por aquilo que não sei como chamar se não lhe chamo a sua própria e impaciente posteridade ou o seu não-agora. Por isso, não deves partir agora, porque se partes agora tiras-me não só a minha vida e o meu amor e a minha vida de conhecimento, mas também a forma da minha morte escolhida."
pp. 19-20.

Javier Marías, O Homem Sentimental, Publicações Dom Quixote, 2002.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Algumas proposições com crianças

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy Belo, Homem de Palavra[s], Todos os Poemas.

***

Desejo a todos um Feliz Natal. Sejam crianças de vez em quando.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Covilhã IV - na cidade

   Domingo, sete de dezembro. É o último dia na Covilhã.
   A sala do pequeno-almoço encontra-se cheia. Há um campeonato desportivo, mas desconheço a modalidade. Reparo em duas equipas patrocinadas por estabelecimentos comerciais de Paio Pires e de Pinhal de Frades. São meus vizinhos. Sinto-me em casa.
   Eu e o Miguel fazemos o check-out. Ele arruma a bagagem no seu carro, que continua estacionado junto ao hotel, eu acomodo a minha na mala do carro do Duarte.
   Hoje é dia de conhecer a Covilhã. O João estaciona o automóvel no centro histórico, caminhamos devagar pelas ruas estreitas, está um dia lindo, o céu muito azul, azul é a cor da cidade, na Igreja de Santa Maria Maior e na arte urbana, nas paredes.
   Uma cidade riquíssima em património histórico e cultural!















   Esta é a antiga casa do João. Imponente!
   Uma volta final de carro pelas aldeias no sopé da serra. Apanhamos a Mãe do João, que almoça connosco num restaurante fora da cidade. Uma refeição opípara, típica da zona, e o João deixa-me na estação do Fundão, mais perto do restaurante do que a da Covilhã.
   Um fim-de-semana intenso, inesquecível. A companhia, excelente; a cidade, maravilhosa, desenvolvida, mas acolhedora; as histórias, deliciosas, como só o João sabe contar, e que, de braços abertos, nos recebeu, feliz.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Granta Portugal 4 - África

   Excelentes algumas das histórias deste 4.º volume da Granta Pt, dedicado a África. Conheci grandes autores, reli outros dos meus favoritos, mas confesso que ainda não entranhei na história da 'Laura', da Hélia Correia. Foi lida na diagonal. E, apesar das loas por esse mundo fora, não é uma das minhas preferidas a da Taiye Selasi.
   Os escritores de que gostei mais são Teju Cole, Martin Kimani, Chimamanda Ngozi Adichie, Mia Couto, Aminatta Forna, Sandro William Junqueira, Binyavanga Wainaina e José Tolentino Mendonça.

   'Quem era a minha avó? Era uma saia preta e redonda. Era um bordado sobre o colo. Era uma trança como uma ponte de corda, que as mulheres da sua idade usavam. Era o silêncio de muitas expedições. Era a posição central, o diâmetro imaginário, o regulador religioso e o social das nossas casas. Era onde eu estava de manhã e à noite. Era um modo todo seu de nomear e guardar segredo sobre a sua arte.'

José Tolentino Mendonça, 'A Quem Deixas o Teu Oiro?', p. 310.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Dois Mundos, A Paz


   "Dois Mundos, A Paz" é o derradeiro volume da série "Dois Mundos", escrita pelo jovem Pedro Xavier.
   Eu, que sigo esta série desde o início, fiquei surpreendida pela qualidade da escrita deste último livro. Está bem patente o desenvolvimento da técnica narrativa e o aprumo da escrita. O estilo continua o mesmo, fluído, narrado na primeira pessoa pelo protagonista que, por mero acaso, tem o mesmo nome que o autor ;)
   A história do Pedro e do seu amado Davis tem, aqui, o desenlace, não antes do herói enfrentar seres maléficos e uma terrível batalha. Por fim, a bonança chega, em harmonia com a natureza.
   O autor tem uma imaginação incrível e a história decorre a grande velocidade quase até ao capítulo final. Existem episódios mesmo excelentes, como os que decorrem em Gaia. Sem dúvida que o Pedro Xavier soube desenvolver a história e prender a atenção do leitor.
   Deixo aqui os parabéns ao Pedro Xavier e à INDEX ebooks, que apostou, e bem, nesta série, um sucesso que se confirma nos milhares de downloads que os vários volumes desta colecção tiveram. E este de certeza que confirmará a regra.

   Podem fazer o download aqui, na página da Index ebooks.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Covilhã III - Manteigas, Sortelha, Belmonte, Paul

   Almoçamos em Manteigas, as trutas são famosas, a feijoca também, uma pausa para ver a senhora que criou o João e os seus irmãos, a D. Lurdes, mas ele de pequenino não sabia dizer o nome e ficou a 'Bu', uma adorável Senhora de 88 anos. Contam-se histórias, admiram-se as fotos de família, o passado é agora.
   Despedimo-nos. Próximo destino, Sortelha, uma das aldeias mais antigas do país, granito a perder de vista, umas filmagens no local, uma paragem no bar-restaurante junto à entrada. Uma sandes de queijo, um chá, admira-se a cabeça de um veado sobre a lareira. O local é aconchegante, o serviço, eficiente.





   No caminho, uma paixão: um gato cai de amores pelo Duarte e vice-versa.
   Belmonte ao anoitecer. Entro numa loja, compro umas recordações, já não há luz suficiente para boas fotos. O Miguel é o fotógrafo de serviço.




   Ao fim da tarde, regressamos ao hotel e descansamos. Adormecemos, passamos a hora marcada. O João reservara uma mesa num restaurante na zona industrial do Paul, uma terra ali perto, famoso pelo seu pernil. Casa cheia, serviço cinco estrelas, o João mete conversa com a empregada, benfiquista como ele.
   Depois de jantar, vamos à Festa da Santa Bebiana, dedicada à jeropiga e ao vinho novo. As pessoas têm pequeninos canecos de alumínio pendurados ao pescoço; nas ruas estreitas, nas lojas, nas casas há tasquinhas adaptadas. Música, alegria, frio, muito frio que se colmata com fogueiras um pouco por todo o lado. E com o vinho, claro.

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   Antes de a noite acabar, o João leva-nos a um bar de uma amiga. Um sítio simpático para beber um copo, conversar, atirar uns dardos ou jogar às cartas. Junto à saída, uma pequena estante com livros. Histórias de vampiros e policiais e romances; é à escolha do freguês.
   Estamos cansados, mas consolados. O sábado foi longo e já estamos na madrugada de domingo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

É a vida...

Sexta-feira, dia 12 de dezembro: chega-me às mãos uma declaração, que tinha pedido aos Recursos Humanos. Até esse dia, tenho 14 anos, 7 meses e 7 dias de carreira técnica superior.

Domingo, dia 14 de dezembro: retomo a leitura da Granta 4 - África. Estou a lê-la muito devagar. Apanho uma referência, na história de Teju Cole, a Nagoia, cidade do Japão. Nagoia é a cidade natal da personagem principal do novo romance de Haruki Murakami que estou a ler, 'A Peregrinação do Rapaz Sem Cor'.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Covilhã II - Serra da Estrela

   Sábado, dia 6 de dezembro. Temos de levantar cedo, que o dia é longo.
   Na sala do pequeno-almoço, os amigos cantam os parabéns à Inês, que faz anos. O Miguel e eu comemos e preparamo-nos para sair.
   Na noite anterior, combináramos a hora de encontro com o João e o Duarte, que vão ter ao hotel. A aventura está prestes a começar.
   O João é o nosso guia e motorista. Saímos da Covilhã, nas faldas da Serra da Estrela, e subimos. Passamos por um ciclista, que é o nosso companheiro de viagem nesta manhã.
   Paramos no antigo Sanatório, transformado em pousada. Entramos sem problemas. Descemos as escadas, vamos à zona da piscina e do spa, saímos para o jardim, fotos, muitas fotos, o edifício imponente, a paisagem de tirar o fôlego, dignos de um filme.

Antigo sanatório, agora Pousada da Serra da Estrela

   Vamos a caminho das Penhas da Saúde. Paramos várias vezes. A serra é deslumbrante.
  Ao longo da subida, encontramos o ciclista várias vezes. Avistamo-lo, pela última vez, a caminho da Torre.


   Na zona dos chalés da montanha, um cão da Serra da Estrela, qual vaca sagrada da Índia, está deitado no meio da estrada. Impávido e sereno, não se mexe quando o nosso carro se aproxima. O João manobra e contorna-o; o cão permanece deitado. Mais à frente, outro cão afasta-se devagar. Estamos no seu habitat. O tempo, aqui, corre devagar.
   Tomamos um café no hotel, conhecemos o restaurante Medieval, o João entabula uma conversa com a rapariga do bar, muito simpática.

Hotel Serra da Estrela

   É tempo de retomar a viagem e descermos a Serra. Tal como na ida, o João toca a buzina. Um ritual de anos. O Miguel filma, eu narro. É digno de passar no Discovery Channel.

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Barragem do padre Alfredo

Senhora da Boa Estrela

Cântaro Magro

   Agora, estamos na parte mais bonita da Serra da Estrela: o Covão D'Ametade. Maravilhoso! Aqui nasce o rio Zêzere.



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Covilhã I - o caso Rubim

   Sexta-feira. cinco de dezembro, faltam dez minutos para as sete. O intercidades para a Covilhã parte às 19h16 de Santa Apolónia. Sento-me no meu lugar, sete janela, bilhete comprado duas semanas antes, com desconto. Alguns minutos depois, senta-se ao meu lado, de sandes e garrafa de leite com chocolate na mão, um homem. Lá abriu a mesa da cadeira à sua frente e poisou a comida.
   Depois de comer, uns momentos de silêncio; o comboio permanece, ainda, na estação. A dada altura, o homem mete conversa: 'É da Covilhã?' Eu respondo que não, que não conheço, que tenho lá amigos. Resposta muito simples. Não quero conversa, confesso. Depois de um dia de trabalho, de me levantar às 5h15, de deixar os gatos sozinhos, não me apetece conversar com um estranho durante a viagem. Mas ele continua: 'Eu sou da Covilhã'. Saca de um cartão plastificado, a amostra que lhe deram para apreciação, e prossegue: 'Salão Rubim, no centro da Covilhã. Só trabalho com produtos de topo, só de topo'. Eu olho para o cartão com o nome e a cara de um homem, sem rosto definido, apenas os contornos com barba. Aponta para três marcas no canto inferior esquerdo, em círculos. Vai tapando um a um, conforme fala da marca: 'L'Oreal. A segunda melhor. Revlon, a primeira mundial. Crew, produtos para homem, a primeira a nível mundial para homens. Só produtos de topo'. Eu abano a cabeça a sorrio. Lá pergunto: 'Cabeleireiro unissexo?' 'Unissexo', confirma o homem 'Salão Rubim. Eu sou o Rubim', aponta para si próprio.
   Sorrio um pouco e volto para o livro. Não quero conversar, mas o homem insiste: 'Tinha boleia muito cedo da Covilhã, mas falhou. Saí ao meio dia e meio. E já fiz Ansião, Leiria, Lisboa. Este foi o meu jantar'. Momentos antes, deitara o lixo no pequeno caixote de metal junto ao chão, no meio das cadeiras. Não dou resposta. Que poderia dizer? Aliás, só quero que ele se cale. Estou cansada.
   O Rubim, a páginas tantas, pergunta-me qual é o meu lugar. Respondo que é o sete.  'O meu também é o sete. Venderam o mesmo lugar a duas pessoas.' 'Eu comprei o meu bilhete há duas semanas', retorqui. 'E eu agora.', responde ele. 'Não tenho culpa que eles se tenham enganado e não saibam o que estão a fazer'.
   Começa a saga do bilhete. Até chegar a passageira que está no lugar dele, o seis, a CP é alvo de todos os comentários, incluindo pedir o livro de reclamações. Por fim, o comboio lá parte. Na estação Oriente enche. Fim-de-semana prolongado. O Rubim procura o revisor, levanta-se, pois já não tem lugar e anda de um lado para o outro. Vai para outra carruagem, volta com cara de poucos amigos e nada de revisor. Por fim, lá os vejo. Rubim e um senhor de meia-idade, a ouvir a reclamação, paciente. Aproxima-se de mim e pede-me o bilhete. Confirma e devolve. Depois, vira-se para o Rubim: 'O senhor comprou bilhete para o dia seis'. O Rubim olha para ele. 'Então eu vou para a Covilhã hoje e iria comprar um bilhete para amanhã? Na bilheteira perceberam mal'. O revisor, já calejado com episódios semelhantes, explica: 'O cliente tem direitos, mas também deveres. Deve confirmar todos os dados, o troco, a data, hora, local de chegada'. O Rubim continua a reclamar, o revisor continua a explicar, com uma voz calma. Por fim, termina: 'Eu já lhe expliquei tudo, Se não quer aceitar, não há nada a fazer.', enquanto mexia no aparelho portátil de bilhetes e lhe arranjava um lugar. 'Arranjo-lhe um que vaga no Entroncamento. Até lá, sente-se num lugar vazio'.
   Por fim, tudo se resolve. O Rubim, mais calmo, aproxima-se de nós, de mim e da mulher ao meu lado, e deseja-nos boa viagem e um feliz natal. Agradecemos, respondemos e cada uma regressa ao seu livro. A viagem continua sem percalços até à Covilhã.
   Pelas 23h08, chega o comboio. Na estação, estão à minha espera o João, que será o nosso guia neste fim-de-semana, o Duarte e o Miguel.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Dalila


   Esta é a Dalila. Chegou no domingo à noite. Vivia com o irmão na rua, junto à casa da minha colega, que os alimentava. Tem sete meses (mais ou menos, mas deve ser de Abril. Já está esterilizada). A colega tem uma gata velhota, doente e com um feitio difícil. Não gosta de outros gatos e quando estes se aproximavam, era uma guerra. O irmão foi adoptado. A Dalila ficou para trás.
   E eu apaixonei-me por ela por ser parecida com o Farrusco. É muito meiga. Já brinca com a cana de pesca, embora ainda tenha medo dos outros gatos.
   Agora, aqui vivem a Alice, a Batá, o César, a Dalila e a Elvira. Quando arranjar uma quinta na terra, completo o alfabeto.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

INDEX ebooks associa-se à comemoração do Dia Mundial de Luta contra a SIDA

   Hoje comemora-se o Dia Mundial de Luta contra a SIDA.
   Para assinalar o dia, a INDEX ebooks, a editora do João Máximo e do Luís Chainho, publicam o livro (ebook grátis) de Gabriel de Souza Abreu, um jovem soropositivo brasileiro que decidiu partilhar francamente as suas emoções, os seus medos e as suas reações de superação, publicando o seu diário: O Segundo Armário: Diário de um Jovem Soropositivo, numa tentativa de informar e ajudar os que se descobrem subitamente na mesma terrível situação.
   Associando-se à INDEX ebooks na comemoração, a ILGA Portugal, o CHECKPOINT LX e outras organizações e indivíduos participam no lançamento virtual deste livro gratuito.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O conto do João

   Ósculo
   - É a noite mais bela do ano – uma voz soou na escuridão.
   Olhou para o lado. O desconhecido mantinha-se afastado. Só a voz suave lhe chegara aos ouvidos.
   - Perdão? – inquiriu, enterrando as mãos no fundo dos bolsos da gabardina.
   - Hoje é a noite mais bela do ano – o estranho repetiu. - Daqui a cinco minutos, para ser mais preciso - saiu para a claridade do passeio e parou sob a luz amarela do candeeiro.
   - Ah…
   Tudo o que via era um jovem loiro vestido de branco, no meio da claridade.
   - Vai sacrificar-se tanto. Porquê? Nós não o merecemos – murmurou, desencantado, mais para si próprio.
   - Por amor – o jovem sorriu. – Não é suficiente?
   - Fazemos mal, tanto mal… Não merecemos, não.
   - Julga-o louco – o outro sorriu, abanando a cabeça.- Por nos amar tanto assim, incondicionalmente?
   Delicadamente, apertou-lhe o braço.
   – É a noite da esperança, a noite da alegria.
   - Oiça… - tentou soltar-se, sem sucesso. Queria afastar-se, continuar a andar sem rumo, até o cansaço chegar, encostar-se e fechar os olhos uns momentos.
   - Nasceu! – o jovem exclamou, de repente.
   Como um anjo, brilhava debaixo do candeeiro.
   Então, ergueu uma mão com os dedos afastados e esperou. Olhou-o fixamente.
   O gesto, por fim, fê-lo sorrir. Devagar, juntou as gemas dos dedos às dele.
   - Feliz natal – o jovem riu.
   Ecoou na noite mais bela do ano uma melodia tão leve e doce como uma borboleta a beijar uma rosa.
   - Feliz natal - respondeu.

domingo, 23 de novembro de 2014

Minha mãe é um peixe; William Faulkner; Granta

   Gostei muito da história de Sandro William Junqueira publicada na Granta 4, dedicada ao tema 'África'. A história é sobre um velhote que decide regressar ao Zimbabué, mais especificamente à cidade de Mutare, onde tinha nascido há oitenta e muitos anos. Gostei, porque achei semelhanças aos meus pequenos contos, onde a velhice, a decadência e a morte são temas recorrentes (tal como o último conto, o do Horatius - que tem um velho que vai morrer ao moinho).
   Aqui fica um excerto:
   'Assim é. Há muitos anos partiu daqui embrulhado numa manta de problemas que a vida depositou no colo dos seus progenitores. Partiu para nunca mais voltar. Até hoje. Não sabe se, por este motivo ou outro (há sempre uma razão qualquer pronta a entrar na arena dos conflitos), padece de uma intratável melancolia. Também não sabe se sabe muito a este respeito. Embora admita que, de algum modo, esta orfandade de pertença desenhou nele uma tatuagem cardíaca.
   Nunca andou com os pés bem assentes no chão. Porque intuiu que o chão, qualquer chão que pisasse, não lhe pertencia. A sensação de um vazio negro por baixo...'
   A dada altura na história, o protagonista encontra um livro que leu na sua juventude: As I Lay Dying, de William Faulkner. Interessou-me tanto este livro que fui à biblioteca procurá-lo. Infelizmente, não o encontrei, mas trouxe outro do mesmo autor: Palmeiras Bravas, Rio Velho. Palmeiras Bravas é traduzido por Jorge de Sena - regresso sempre a ele, não é tão bom? - e o segundo é traduzido por Ana Maria Chaves.
 

   Para terminar, renovei a assinatura da Granta para os próximos quatro números (dois anos). Para além de um desconto, ofereceram-me um álbum à escolha de uma lista deles. Optei por este:

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O conto do Horatius

   As Tuas Velas ao Longe

   
Arrastando-me pelo chão de terra batida, as pernas pesadas, amparo-me a um velho cajado. Uma fina poeira, tão leve como a farinha acabada de moer, levanta-se sob os sapatos mascarrados.
   Amiúde, a pieira assobia, como um pequeno búzio escondido no meu peito. Já não tenho mais forças. Procuro uma rocha na berma, sento-me e fecho os olhos. Com o queixo apoiado nas mãos sobre o cajado, permito-me uns momentos de descanso. Mas o instante transforma-se em minutos e os minutos em horas. Estou tão cansado.
   Por fim, abro os olhos e perscruto o horizonte. No cimo do monte, destacas-te entre uma moldura de nuvens cinzentas. Branco e imponente.
   Uma longa caminhada. Suspiro. Tento encontrar forças para me levantar e um arrepio de frio percorre-me o velho corpo. Ninguém na estrada e a noite aproxima-se. Sinto o seu pesado manto a cobrir-me os ombros mirrados. Uma mão agarra no bordão, a outra aperta o casaco; o vento começa a soprar forte. Ao longe, as tuas velas giram devagar. Estou quase lá, falta tão pouco.
   Sinto-me a fraquejar, até que uma mão pequenina envolve a minha por cima do cajado. Um menino de sorriso desdentado e maroto, caracóis castanhos salpicados de pó e olhos brilhantes empurra-me devagar.
   Seguimos lado a lado. Recupero as minhas forças. Endireito as costas, deixo cair o bordão, as pernas fortalecem-se. Caminho na tua direcção. As tuas velas giram cada vez mais rápido.
   Com um gesto vigoroso, empurro a porta. Estou em casa.

sábado, 15 de novembro de 2014

Aristogatos XLII

  O colo da dona é tão bom...


O colo agora é meu.


Deixa-me deitar também, Alice. Vá lá...


César, não te estiques.


Ah, estamos no bem bom :))