segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Dois anos - um conto

Hoje, o blogue faz dois anos. Há dias, tive um sonho muito estranho. Mais que estranho, mórbido.

Como enquadramento, a tia Alice - a quem eu fui buscar o nome da minha gata -  ainda é viva, mas está muito velhinha e doente. Não reconhece ninguém e está no lar da aldeia há muitos anos.

O sonho, esse, decidi passá-lo a um conto. Aqui está.

   Sonho

   A Elvira arranha a porta de manhã cedo. Viro-me para o outro lado e volto a adormecer. Sonho com a prima Alice, prima direita da minha avó a quem eu chamava de tia quando era pequena. É a tia Alice da minha infância, que conhecia todas as pessoas da aldeia, que todas as semanas comprava a TV Guia e cujo ecrã de televisão tinha um filtro de plástico azul. A tia Alice tinha um rosto muito redondo e óculos grandes, era parecida com a rainha Isabel II e usava uns bigoudis para encaracolar o cabelo curto pintado de loiro.
   O sonho desenrola-se como se fosse uma película de cinema. Predomina a cor azul acinzentada. Estou numa casa algures nos Açores, da janela da sala quase vazia reparo num automóvel antigo que desliza pelas pedras de granito. As casas, as igrejas, os miradouros passam uns atrás dos outros. É como se eu estivesse, também, dentro do carro.
   A tia Alice entra, sorridente, e anuncia: “Hoje a Fausta faz anos, lembras-te da Fausta, uma colega da Tita? Goza o dia.”
   Eu sorrio, ela parece tão nova, ali à minha frente. De repente, ela está velha, tão velha, e diz-me: “Lembras-te da Fausta, a colega da Tita? A Fausta que morreu há vinte anos num acidente de automóvel?” Eu digo que sim com a cabeça e as imagens desvanecem-se. Tudo está errado, sei que tudo está errado neste sonho, e ela continua: “O marido matou-se hoje, no dia de aniversário da mulher.”

8 comentários:

  1. parabéns. são dois anos riquíssimos e, falando por mim, absolutamente indispensáveis.

    gostei muito do conto. partilho contigo um certo gosto em pegar nas coisas do quotidiano e tratá-las como se fossem matéria 'literária'. um sonho é um sonho, mas pegado pelo lado certo, torna-se um conto.

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    1. obrigada, Miguel. estás a exagerar, claro.
      :)
      este blogue deu muitas voltas no último ano. nunca imaginaria que fosse escrever tanto. estou a descobrir-me.

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  2. Muitos parabéns por estes dois anos de blog e pelos muitos contos que nos tens oferecido. Com o teu jeito inato para o pequeno formato, que é um estilo dificílimo, tens-no oferecido verdadeiras pérolas.
    Os teus contos, para além de muitíssimo bem escritos, contêm ambientes e histórias fascinantes sobretudo pela forma como lhes pegas. Este conto é um bom exemplo disso. O acontecimento do acidente da Fausta é genial e consegue, já quase no final, levar o conto para um desfecho surpreendente e tão cinematográfico. Aliás, os sonhos são cinematográficos...XD
    Muito bom! Adorei! :)

    Bjs.

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    1. :) obrigada, Arrakis.
      achei que seria demasiado forte, afinal, gostam. que bom.
      bjs.

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  3. Achei forte para comemorar um aniversário. Mas, muito bem escrito, aliás como sempre. Mas fiquei assim... tipo.. KO. Mas dizem que quem sonha com morte, significa vida, portanto... Muitos Parabéns pelo teu espaço. Espero que esses dois anos se multipliquem por muitos mais anos :)

    Bjs

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    1. este sonho é uma mistura de pedaços da vida passada e presente e algum cinema pelo meio, nada de levar demasiado a sério. :)
      obrigada. esperemos que sim.
      bjs.

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  4. Parabéns, Margarida!
    Dois anos já...como o tempo passa.
    Desculpa a minha imodéstia, mas sinto-me um pouco responsável por este blog já ter dois anos e respirar saúde...

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    1. :) pois és, se não fosses tu a incentivar-me, não teria nascido, essa é a verdade.
      respirar saúde com alguma falta de ar pelo meio, mas isso faz parte do crescimento :)

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