sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Formação política

   O Comandante deu-lhe uma palmada no ombro.
   - Tens de te habituar aos homens e não aos ideais. O cargo de Comissário é espinhoso, por isso mesmo. O curioso é que vocês, na vossa tribo, até esquecem que são da mesma tribo, quando há luta pelo posto.
   - O que não quer dizer que não há tribalismo, infelizmente. Aliás, não me venhas dizer que com os kikongos não se passa o mesmo.
   - Eu sou kikongo? Tu és kimbundo? Achas mesmo que sim?
   - Nós, não. Nós pertencemos à minoria que já esqueceu de que lado nasce o Sol na sua aldeia. Ou a confunde com outras aldeias que conheceu. Mas a maioria, Comandante, a maioria?
  - É o teu trabalho: mostrar tantas aldeias aos camaradas que eles se perderão se, um dia, voltarem à sua. A essa arte de desorientação se chama formação política.
p. 21.

Pepetela, Mayombe, D. Quixote, 12.ª edição, Agosto de 2013.

8 comentários:

  1. De Pepetela só li A Parabola do Cágado Velho. Não é mau, mas ja li coisas que gostei bem mais...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. quando tinha 15, 16 anos li 'as aventuras de Ngunga' e gostei muito. há muitos anos li (e tenho) 'a geração da utopia' e há uns 3 anos li 'o quase fim do mundo' (tambem tenho).
      este ofereceram-me no natal.
      gostei de todos. este livro retrata um período do MPLA no qual os guerrilheiros têm as suas dúvidas, contradições, medos, convicções, enquanto lutam na densa floresta tropical que dá o nome ao romance.

      Eliminar
  2. Tinha esse livro para ler na faculdade... e digamos que "fugi"!

    ResponderEliminar
  3. De Pepetela li precisamente "As aventuras de Ngunga", que até penso que está autografado, mas não delirei muito com o livro. De escritores angolanos, não me salta nada à memória. Já de moçambicanos, o Mia Couto é incontornável.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. e o Agualusa? ele é muito bom. claro, o Mia é imperdível. também já li.

      Eliminar
    2. Que me lembre, nunca li nada do JEA. Mais uma falha.

      Eliminar