segunda-feira, 24 de março de 2014

Tio Galileu

  (...)
 Uma noite Mercedes surgiu no quarto de Betinho. Já deitado, luz apagada. Sentou-se ao pé da cama, casara com tio Galileu por ser velho, o primeiro a anunciar que morria de uma hora para outra. Mentira, para iludir as pessoas e servir-se delas sem pagar. Não sofria do coração, nem sabia o que era coração, a esconder mais dinheiro entre a palha. Ao crepitar o colchão lá no quarto o avarento remexia no tesouro. Tão mesquinho, não havia de morrer antes
que fosse uma velhinha.
    Um bruto, que a esquecia, dormindo em quarto separado, com medo de que, se fechasse os olhos, alguém fosse roubá-lo. Ó diabo, ela o xingou, pesteado como o papagaio louco, que a bicara e lhe deixara, no dedo o sinal. O rapaz inclinou-se para beijar o dedinho gordo. Mercedes ergueu-se e jurou que, se o monstro morresse, daria a Betinho o que lhe pedisse.
    O rapaz não pôde dormir e, meia hora depois, saltou a janela. Agarrou no poleiro o papagaio, cabeça escondida na asa — os piolhos corriam pelo bico de ponta quebrada. Torceu como um lenço molhado o pescoço do bicho e o enterrou no quintal.
    Dia seguinte o homem buscou o papagaio por toda a casa, a assobiar debaixo de cada árvore. Betinho sugeriu que a ave fugira. Foi colocar o vaso sob a cama e, ao tomar a bênção ao padrinho, o piolho correu de sua mão para a do velho — um dos piolhos vermelhos da peste.
    Mercedes voltou ao seu quarto. Reclinada na cadeira, amarrava e desamarrava o cinto.
    Noite quente, queixou-se do calor, abriu o quimono: nua sob o roupão.
    — Vá — disse a mulher. — Vá, meu bem. Primeiro o papagaio. Agora o velho.
    Betinho ficou de pé. Tremia tanto, que ela o amparou até a porta:
    — Vá, meu amor. A vez do velho.
    Hora de pedir a bênção. Betinho subiu a escada. Aos passos no corredor o avarento, entre a bulha do colchão, perguntava quem era. Aquela noite falou. Betinho abriu a porta, avançou lentamente a cabeça. Tio Galileu deitara-se vestido, o saquinho de fumo derramado sobre o colete de veludo. O último cigarro, sem poder enrolar a palha com os dedos trementes...
    Olho arregalado, a boca negra não abençoou Betinho. Fazia-se de morto, nunca mais fingiria.
    Tio Galileu não gritou. Nem mesmo fechou os olhos, mais fácil que com o papagaio.
    Betinho afogou-lhe a boca arreganhada debaixo do travesseiro.
    Os pés descalços de Mercedes desciam a escada. Ele ergueu o colchão, rasgou o pano, revolveu a palha: nada. Deteve-se à escuta: os passos perdidos da mulher. Avisá-la que o velho os enganara. Era tarde, ela abria a janela aos gritos:
    — Acudam. Assassino! Matou Galileu ...

Dalton Trevisan,  Novelas Nada Exemplares, 1959 (ebook).

8 comentários:

  1. Havia um senhor lá aldeia, que dizia: Esta rodada pago eu que não chego à próxima missa de Domingo...

    Na quinta-feira, já ninguém o podia ouvir...

    No Domingo, antes da missa tinha falecido

    C´est la vie...

    Beijinhos

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    1. :)
      temos que colocar essa história no papel.
      bjs.

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  2. Confesso que tive de ler duas vezes para perceber. Ou estou a ficar muito burro ou estou muito cansado... lol

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    1. cansado... é o final de uma das novelas do Dalton. É como o título da colectânea diz, Nada Exemplares. São contos tristes, de pessoas mal-amadas, as histórias podem ser muito simples, mas são sobre gente comum, mais da classe média-baixa da cidade brasileira de Curitiba. ele tem um jeito muito especial de escrever, é jornalista e cronista.

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    1. o rapaz estava embeiçado por ela, ela, por outro lado, só queria o dinheiro do velho que, afinal, não existia.

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  4. Mas o livro não te entusiasmou assim muito, no seu todo...

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    1. não. estava curiosa em ler este autor, depois dos livros publicados no ano passado. folheei alguns nas livrarias, mas não comprei nada.
      e como o ebook é gratuito, aproveitei :)
      mas é um autor muito consagrado no Brasil. e muito reservado, pelas pesquisas que fiz.

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