terça-feira, 22 de abril de 2014

A Gata do Bairro de Lata


 VIDA IV

   Isto foi o princípio de uma nova era. Agora, quando se sentia atacada pela fome, dirigia-se à porta do prédio e aquela boa impressão que o negro lhe provocara ia aumentando. Até então nunca tinha compreendido aquele homem. Agora era um amigo, o único que tinha.
   Um dia apanhou uma ratazana. Ia a atravessar a rua em frente do edifício novo quando o amigo abriu a porta para deixar sair um homem muito bem vestido.
   - Bolas! Olha-me só para aquele gato! - exclamou o homem.
   - É verdade, senhor - respondeu o negro. - É a minha gata, senhor. É um verdadeiro terror para os ratos. Já deu cabo de quase todos. É por isso que está tão magrinha.
   - Bem, não a deixes morrer à fome - disse o homem com o ar de um proprietário. - Não podes alimentá-la?
   - O homem da carne vem cá regularmente, senhor. Um quarto de dólar por semana, senhor - disse o negro, achando que tinha direito aos quinze cêntimos extra pela «ideia».
   - Está bem; eu pago.


   Desde então, o negro já a vendeu várias vezes, sempre com a consciência tranquila porque sabe muito bem que é só uma questão de dias até a 'Analostan Real' voltar. Ela aprendeu a tolerar o elevador e até a subir e a descer nele. O negro afirma convictamente que um dia ela ouviu o homem do talho quando estava no último andar e conseguiu carregar no botão e chamar o elevador que a levou para baixo.
   Está outra vez lustrosa e linda. Não é apenas um dos quatrocentos gatos que formam o círculo íntimo em roda do carrinho do homem da carne - é também reconhecida como a rainha dos pensionistas.
   Mas, apesar da sua prosperidade, da sua posição social, do seu nome real e do falso pedigree, o maior prazer da sua vida é escapulir-se para o bairro de lata quando anoitece, pois agora, tal como nas vidas anteriores, no fundo não passa, nem nunca passará, de uma gatinha suja de um bairro de lata.

Ernest Thompson Seton 

2 comentários:

  1. Respostas
    1. é uma das melhores histórias desta colectânea. uma gata sobrevivente que nunca esquece as origens.
      bjs.

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