terça-feira, 8 de abril de 2014

A Trégua - Mario Benedetti

Vai para a lista dos melhores livros que li (e ainda não o acabei) deste ano. Lúcido, irónico e apanhado em português do Brasil, é indispensável a sua leitura. Pequeno, em forma de diário, lê-se num abrir e fechar de olhos.

   Domingo, 2 de junho
   O tempo se vai. Às vezes, penso que precisaria viver apressado, tirar o máximo partido destes anos que me restam. Hoje em dia, qualquer um pode me dizer, depois de esquadrinhar minhas rugas "Mas o senhor ainda é um homem jovem!" Ainda. Quantos anos me restam de "ainda"? Penso nisso e me dá pressa, tenho a angustiante sensação de que a vida me foge, como se minhas veias se tivessem aberto e eu não pudesse deter meu sangue. Porque a vida são muitas coisas (trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações), mas ninguém vai me negar que, quando pensamos nessa palavra, Vida, quando dizemos, por exemplo, que "nos agarramos à vida", estamos assimilando-a a outra palavra mais concreta, mais atraente, mais seguramente importante: estamos assimilando-a ao Prazer. Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e tenho certeza de que isso é vida. Daí a pressa, a trágica pressa destes 50 anos que me pisam os calcanhares. Ainda me restam, assim espero, uns quantos anos de amizade, de saúde passável, de afãs rotineiros, de expectativa ante a sorte, mas quantos me restam de prazer? Eu tinha 20 anos e era jovem; tinha 30 e era jovem; tinha 40 e era jovem. Agora tenho 50 anos e sou "ainda jovem". "Ainda" significa: está acabado.
   E esse é o lado absurdo da nossa combinação: dissemos que iríamos encarar tudo com calma, que deixaríamos o tempo correr, que depois reavaliaríamos a situação. Mas o tempo corre, queiramos ou não, o tempo corre e a deixa a cada dia mais apetecível, mais madura, mais fresca, mais mulher, e a mim, em contraposição, me ameaça a cada dia com me tornar mais achacadiço, mais gasto, menos valente, menos vital. Temos de nos apressar em direção ao encontro, porque, em  nosso caso, o futuro é um inevitável desencontro. Todos os seus Mais correspondem aos meus Menos. Todos os seus Menos correspondem aos meus Mais. Compreendo que, para uma mulher jovem, pode ser um atrativo saber que aquele sujeito viveu, que há muito ele substituiu a inocência pela experiência, que ele pensa com a cabeça bem firme sobre os ombros. É possível que isso seja um atrativo, mas como é breve! Porque a experiência é boa quando vem de mãos dadas com o  vigor; depois, quando o vigor se vai, a gente passa a ser uma decorosa peça de museu, cujo valor é ser uma recordação do que se foi. A  experiência e o vigor coexistem por muito pouco tempo. Eu estou agora nesse pouco tempo. Mas não é uma sorte invejável.

8 comentários:

  1. Respostas
    1. e eu estou maravilhada :)
      tens tablet, kindle, kobo?

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  2. Pelo teu entusiasmo, cativa-me. Não pelo texto, pois nunca gostei muito de ler textos de livros - manias...

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    1. sim, é bom, de uma narrativa simples, mas muito emotiva e escrito em forma de diário, é como dizes, cativante. estou a gostar muito.

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  3. Parece muito interessante! ^^
    Beijinhos :3

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  4. O português do Brasil é tão mais suave. Perdeu as amarras do dialecto que o deu à luz. Conheceu outros cantos, da bela África, e tornou-se açucarado. É tão "gostoso" (ler 'gôstôso') ler em português do Brasil.

    Olha, acho que só terei pressa em viver quando começar a ver (e sentir) os anos a apertar. A minha vida, de momento, é de tal ordem chata e monótona que não desejo a ninguém. Mas sempre foi.

    um beijinho.

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    1. a melancolia faz parte de ti. um dia, quando menos esperares, sorrirás e aí sim, saberás o que é viver e apreciar o momento. :)
      bjs.

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