quarta-feira, 9 de abril de 2014

Ápice

Ainda em 6 de julho, permiti-me anotar: “De repente, tive consciência de que aquele momento, aquela fatia de cotidianidade, era o grau máximo de bem-estar, era a Ventura”, mas em seguida eu mesmo me dei bofetadas de alerta: “Tenho certeza de que o ápice é um breve segundo, um clarão instantâneo, e não há direito a prorrogações.” No entanto, escrevi isso hipocritamente, agora sei. Porque, no fundo, eu tinha fé em que houvesse prorrogações, em que o ápice não fosse somente um ponto, mas sim um longo e interminável planalto. Mas não havia direito a prorrogações, claro que não. Depois escrevi aquilo sobre a palavra “Avellaneda”, sobre todos os significados que ela possuía. Agora penso: “Avellaneda”, e a palavra significa: “Não está, não estará nunca mais.” Não agüento.

Mario Benedetti, A Trégua

'Porque, no fundo, eu tinha fé em que houvesse prorrogações, em que o ápice não fosse somente um ponto, mas sim um longo e interminável planalto.' - tão belo! (5* no GR)

4 comentários:

  1. é tão bom quando um livro nos arrebata assim

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    1. foi mesmo um wow! :) adorei. não tinha ideia nenhuma, nada tinha lido sobre o romance.

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  2. A boa literatura é e será sempre a boa literatura. Como um gelado que nos arrebata, pegando ali nas palavras do Miguel, num dia quente de Verão.

    Estás a ver? São estes momentos que eu considero, na sua soma, a tal "da" felicidade, que não é um estado permanente (ou não): são momentos. Foste feliz quando o que leste te tomou assim.

    um beijinho.

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    1. sim, e este livro foi um bom planalto na minha vida, será tão longo quanto a capacidade de me recordar desta história. :)
      bjs.

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