sábado, 19 de abril de 2014

Confidência

   Mãe!
   Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
   Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
   Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede Eu prometo saber viajar.

   Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
   Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

   Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
   Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros - Obras Completas - 4 - Poesia


Há quatro anos, perdi a minha Mãe.

30 comentários:

  1. :(
    perdi o meu pai há 24 anos :(

    ResponderEliminar
  2. Triste efeméride, mas grandioso excerto.

    um beijinho, Margarida.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. não sei se foi boa ideia. de cada vez que o leio, choro, Mark.
      bjs.

      Eliminar
  3. Deixo-te um beijinho muito grande

    Sei como é a dor que sentes...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. fica um vazio para sempre. tu sabes...
      bjs.

      Eliminar
  4. :-( te empresto a minha um bocadinho, enquanto ainda está aqui para emprestar. Mas um beijo pra você e pra sua mãe.

    ResponderEliminar
  5. Por vezes as palavras são uma mão cheia de nada.
    beijo

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. são bem-vindas, todavia.
      obrigada. bjs.

      Eliminar
  6. Neste momento na minha cabeça, estou-te a ver pequenina, a chegar-me aos ombros, e a dar-te um tremendo abraço, espero que o sintas, bem apertadinho e cheio de carinho.

    ResponderEliminar
  7. Entendo o teu sentimento.
    Perdi a minha há 10 anos e ainda sinto um vazio enorme.
    Beijinho grande.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Rosa, tu, mais que ninguém, entendes.
      obrigada.
      bjs.

      Eliminar
  8. Vim deixar um beijinho e parte de um sermão que encontrei num livro e ajudou-me um bocadinho.


    O Quarto Ao Lado

    A morte não é nada ... Eu apenas fui para o quarto ao lado. Eu sou eu, e tu és tu. Seja o que for que tenhamos sido um para o outro continuamos a ser
    Chama me pelo meu nome de sempre, conversa comigo da forma espontânea que sempre usaste.
    Não uses um tom diferente, não faças um ar forçado de solenidade ou mágoa.
    Ri como sempre rimos das pequenas brincadeiras que nos divertiam aos dois.
    Brinca … ri … pensa em mim … reza por mim.
    Deixa o meu nome continuar a ser o nome familiar que sempre foi, deixa-o ser falado sem ênfase, sem qualquer sombra.
    A vida tem todo o significado que sempre teve. É a mesma que sempre foi
    Não houve nenhuma quebra de continuidade.
    O que é a morte além de um pequeno acidente?
    Porque deveria ficar fora do teu coração só porque estou fora da tua vista? Eu estou à tua espera, este é só um intervalo.
    Algures muito próximo, logo a seguir à esquina.
    Está tudo bem.
    .
    De um Sermão feito pelo Canon Henry Scott Holland no Domingo de Ramos de 1910

    ResponderEliminar
  9. Uma mãe é, e será, sempre insubstituível. Força querida Margarida, sabendo que sempre que te lembrares dela, ela estará sempre viva.

    Bjs

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. sim.
      sabes, agora fizeste-me lembrar um excerto do 'vamos aquecer o sol', do zé mauro de vasconcelos, o autor de 'o meu pé de laranja-lima'. qualquer coisa como 'para lembrar temos que esquecer e isso nunca o poderei fazer...' depois coloco a citação correcta. é tão bela, como os seus romances.
      bjs.

      Eliminar
    2. Obrigado pela "dica". Tenho que ir à pesca :P

      Eliminar
    3. eu tenho o livro aqui à mão. o excerto correcto é o seguinte:
      '- Guarde-me no seu coração ao lado de Adão. Lembre-se de mim de vez em quando.
      - Isso vai ser difícil.
      Ele se espantou.
      - Difícil lembrar-se de mim, Monpti?
      - Sim. Porque para lembrar-se a gente precisa primeiro esquecer. E isso eu não posso nunca.'

      :)

      Eliminar
    4. sim, encontramos uma imensa ternura nos livros do zé mauro. é por isso que gosto tanto deste autor.

      Eliminar
  10. Como se diz aqui na minha terra, "Coragem!". Não sei o que é perder a mãe, tenho a minha comigo todos os dias, mas penso que deve ser uma das mais dolorosas coisas nesta vida.

    Beijinho!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. obrigada.
      tens sorte, tanta sorte. agora, até tenho saudades das suas melguices e mania de se meter na minha vida. só as mães é que podiam ser assim. mães :)
      bjs.

      Eliminar
    2. Eu costumo dizer que as mães andaram todas na mesma escola :)

      Eliminar
    3. por isso é que são Mães e têm esse direito. nós só damos conta disso tarde demais...

      Eliminar
  11. Sabia que a tinhas perdido, mas não pensava que tivesse há tão pouco tempo.
    Como sabes perdi meu Pai há 25 anos e a minha Mãe já vai a caminho dos 92...
    Quando a nossa Mãe já atingiu tal idade, mesmo que esteja muito bem, e é o caso, a certeza de uma morte a curto prazo está sempre no nosso pensamento, mas apesar de tudo é muito melhor do que já não a ter.
    Muito belo o poema, mas compreendo que te cause dor pois traz-te à lembrança a sua pessoa e muitas coisas vividas entre ambas.
    Um beijinho especial para ti.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. obrigada, João.
      sim, 2010 foi até hoje o pior ano da minha vida.
      e apesar de tudo, fiz muitas coisas nesse ano, como que a celebrar a vida...
      bjs.

      Eliminar