segunda-feira, 7 de abril de 2014

Letra

Vinte e cinco anos. Cinco lustros. Ou um quarto de século. Não. Parece muito mais assustador dizer, pura e simplesmente, 25 anos, e como minha letra foi mudando! Em 1929, eu tinha uma caligafia escarranchada: os “t” minúsculos não se inclinavam para o mesmo lado que os “d”, os “b” ou os “h”, como se não tivesse soprado para todos o mesmo vento. Em 1939, as metades inferiores dos “f”, dos “g” e dos “j” pareciam uma espécie de franjas indecisas, sem caráter nem vontade. Em 1945, começou a era das maiúsculas, meu capricho em adorná-las com amplas curvas, espetaculares e inúteis. O “M” e o “H” eram grandes aranhas, com teia e tudo. Agora minha letra se tornou sintética, regular, disciplinada, clara. O que prova, apenas, que sou um simulador, já que eu mesmo me tornei complicado, irregular, caótico, impuro. De repente, quando o inspetor me pediu um dado correspondente a 1930, reconheci minha caligrafia, minha caligrafia de uma etapa especial. Com a mesma letra que usei para escrever: “Relação de salários pagos ao pessoal no mês de agosto de 1930”, com essa mesma letra e nesse mesmo ano, eu tinha escrito duas vezes por semana: “Querida Isabel”, porque Isabel morava então em Melo, e eu lhe escrevia pontualmente às terças e sextas. Essa, portanto, havia sido minha letra de noivo.

Mario Benedetti, A Trégua, (ebook).

5 comentários:

  1. que bonito. tanta literatura num único parágrafo.

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    1. e que bonito está a ser o livro. ler em português do Brasil é bom, mesmo bom :)

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    2. este livro, em forma de diário, é extraordinário. :) assim termina mais um dia:
      'E também há a diferença de idade, minha condição de viúvo, meus três filhos etc. E falta decidir que tipo de relação eu verdadeiramente gostaria de manter com ela. Este último aspecto é mais complicado do que parece. Se este diário tivesse um leitor que não fosse eu mesmo, eu deveria encerrar o dia no estilo dos romances de folhetim: “Se quiser saber quais são as respostas a estas perguntas cruciais, leia nosso próximo número.”

      muito bom!

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  2. Engraçado, também noto as diferenças na caligrafia quando leio diários antigos ou cadernos do colégio. Estou a ficar com uma letra imperceptível e indecifrável. Os "r" minúsculos parecem "n" (já é uma tendência antiga); o problema é que, com a pressa em escrever, hábito que adquiri já na faculdade, "como" letras, ou seja, consigo ler a palavra no seu todo porque já a conheço, mas para terceiros é o pavor. Felizmente, ainda não fui chamado a ler um teste perante um/a professor/a, como aconteceu com uma colega que ainda tem a letra pior do que a minha!

    um beijinho.

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    1. eu nem reconheço a minha letra. é terrível como mudou...
      bjs.

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