sábado, 26 de abril de 2014

Prémio LeYa 2013

Uma Outra Voz, de Gabriela Ruivo Trindade, é o romance que ganhou o Prémio Leya 2013. 
 
(contém spoilers, aqui fica o aviso).
 
São cinco vozes (femininas e masculinas) que compõem a primeira parte da história, e que fazem parte de uma importante família de Estremoz (as quatro primeiras personagens, pois a última é de origem muito diferente). Assim, são várias gerações, sempre narradas na primeira pessoa, que passam por momentos marcantes de Portugal, desde antes da Implantação da República, passando pela Guerra Colonial, a ditadura, até ao 25 de Abril de 74. Na verdade, a Revolução dos Cravos é, apenas, o enquadramento, pois a história narrada pelo jovem é de um amor não correspondido, ao longo dos anos, por uma colega da faculdade, contado em forma de flashback enquanto ele se encontra na cama de um hospital, após ter sido atingido por um tiro numa manifestação. E li esse excerto nas vésperas do dia 25 de Abril, o que não deixa de ser simbólico.
 
A segunda parte do livro inclui fragmentos do diário de João Mariano, ti Mariano, bem como fotografias e elementos bibliográficos do familiar da autora que serviu de base ao herói deste romance, republicano, empresário e fundador de vários comércios em Estremoz, João Francisco Carreço Simões.
 
As personagens femininas são muito fortes, como a mãe dos jovens protagonistas das duas primeiras histórias (a quarta voz ) e a mulher pela qual o ti Mariano foi apaixonado durante toda a sua vida (a quinta voz).
 
Entre passado e futuro, as diversas vozes contam as suas histórias, de amor, sofrimento, angústia, raiva, arrependimentos, enquanto Portugal passa por momentos conturbados ao longo do século XX, numa narrativa muito fluída, sensível, pontuada pelos diálogos e expressões características alentejanas ('gaiatos', 'cara linda' , verbos no gerúndio, e outras palavras que aparecem no glossário no fim do livro, e que muito o enriquecem, homenageando, desta forma, o Alentejo).
 
Gostei muito de o ler e adorei a forma como a autora conseguiu, através de factos reais, criar uma emocionante ficção, incluindo um diário até então desconhecido e que é, como referi, a segunda parte do romance; nesse caderno, o ti Mariano, ao longo dos anos que passa nas fazendas de café em Angola, vai desabafando com a Ana, o amor da sua vida (a prostituta que nunca aceitou casar com ele, dona de uma 'casa de meninas' em Estremoz).

Um auxílio precioso à minha leitura foi a árvore genealógica no início do romance (estava constantemente a estudá-la, para situar as personagens).
 
Recebeu 4* no Goodreads.

Só um aparte, aproveitando a 'casa de meninas' de Estremoz e as aventuras republicanas do ti Mariano. Contava-me a minha mãe, há muitos anos (tenho tanta pena de não ter prestado a atenção devida, era uma miúda) de o seu pai (funcionário do Estado, dos Caminhos-de-Ferro - foi chefe-de-estação),  nos anos 40 ou 50 do século passado (não sei precisar) encontrar-se com os seus amigos (embora funcionário público, era contra o regime), numa 'casa de meninas' em Viseu, para reuniões políticas. Achei engraçada esta coincidência, mas penso que seria comum estas casas servirem de disfarce para encontros da oposição ao regime.

11 comentários:

  1. Respostas
    1. :)
      não é um livro 'profundo', mas gostei e tem uma certa escrita que me atraiu, nomeadamente as referências às figuras maternas, em horas de maior dificuldade.
      bjs.

      Eliminar
  2. Mais uma boa dica e gostei muito do seu aparte. Mas o que gostei mais foi do seu comentário no meu blog. Não me interprete mal, pois a minha vivência era restrita à capital e, mais precisamente, há minha família que era (e continua sendo) de classe pobre. Mas há coisas que ouço que não eram vivenciadas por mim: minha irmã (mais velha do que eu) usava calças e maquilhagem, conhecia várias amigas de minha mãe que eram "solteironas" e tinham o seu trabalho, a sua vida, meu pai não abria correspondência de minha mãe (aliás, ninguém abria cartas que não fossem dirigidas a si próprios; a única exceção era aos telegramas). É claro que não quero viver numa ditadura, mas não sinto que esteja a viver numa democracia... Mais uma vez, gosto sempre dos seus comentários e, isto sim, é muito bom: ter opiniões diferentes e respeitá-las. Obrigada.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. :)
      mas vocês viviam em Lisboa. não numa aldeia. imagina eu nos anos 30 na minha aldeia. e mesmo em Viseu que era a capital do distrito, mas muito conservadora. hoje já não é assim, mesmo em terreolas escondidas, embora possam existir excepções.
      é democracia pelo facto de podermos eleger as pessoas, termos liberdade de nos manifestarmos, termos direito ao voto universal. não o é, entendo o teu ponto de vista, depois de eles lá estarem, virarem o bico ao prego e o pobre/classe média continua a pagar. é um capitalismo selvagem que eu condeno, claro que sim e a subserviência a países europeus muito diferentes de nós.

      Eliminar
  3. Não li o post, porque vi logo ao principio que contém spoilers. No entanto, como teve 4* no Goodreads, deduzo que vale a pena :)
    Confirma-me lá, camarada :D

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. eu gostei muito, camarada. mas se estás à espera de histórias revolucionárias, não são. tudo se passa na esfera íntima. e mais spoiler que o resumo que está no goodreads é impossível (mas é o que está na contracapa do livro)...
      as personagens femininas são marcantes e os monólogos (porque cada voz acaba por o ser), estão bem escritos. e aquele toque alentejano dá-lhe graça :)

      Eliminar
  4. Sim, fiquei com a ideia de ser um livro muito intimista e muito feminino, (sem qualquer ideia de machismo),

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. sim, é isso, intimista e feminino. o amor vivenciado por várias mulheres, mas sempre com o espinho do sofrimento. mesmo a parte do diário do protagonista tem características muito femininas.

      Eliminar
  5. Ainda não comprei, mas está na minha lista para as compras do mês de Maio na Bertrand
    Beijinho
    (Gostei de a (re)ver no On the rocks :-)

    ResponderEliminar