Uma amiga minha tem uma filha que foi mãe muito recentemente. Pensei que hoje ainda estivesse de férias, à semelhança dos restantes dias desta semana. Mas não. A sua resposta foi que já estava farta de estar em casa. Estava enervada e até tinha tomado ontem uns calmantes, dadas as palpitações. Estava a ver que ainda teria de chamar o 112. Mas não. Lá tomou os calmantes e foi deitar-se. Por fim, esta tarde, lá desabafou. Há uns dias, quis comprar uns lençóis para a caminha do neto, qual avó babada, pelo que telefonou à filha antes da compra. Ela não aceitou. A mãe que não comprasse nada para o bebé. Ela contava-me a resposta com mágoa. Disse-me que não ficou aborrecida e foi comprar um livro para si. Mas ficou. E eu recordei-me, e disse-lhe isso, como era com vinte e poucos anos, naquela altura sem telemóvel, nem sempre telefonava à minha mãe, quando ela sugeria algo, eu não queria e respondia-lhe torto. Não fui uma filha muito simpática. Era muito egoísta, tinha a minha vida e estava farta de a minha mãe me ligar todos os dias para o trabalho, só para saber como eu estava, porque eu não lhe ligava. Eu não tinha a noção que a magoava com a minha reacção, muitas das respostas eram a despachar, como 'estou bem, não precisas telefonar todos os dias, mas parece que me controlas.' Era preocupação de mãe, agora, à distância de uns vinte anos, sei como a magoava com a minha ausência e despreendimento.
Voltando à minha amiga, nessa altura teve de se ausentar uns momentos da sala e por azar toca o seu telemóvel várias vezes. Quando regressou, informei-a disso e viu que era o número do pai. Outra causa de estar enervada. Os seus pais têm à volta de 80 anos, com alguns problemas de saúde. Ligou ao pai e eu ouvia a maneira quase ríspida de falar com ele. A mãe tinha uma consulta esta tarde e foi adiantada. Tinha que sair mais cedo do trabalho. Naquele momento, desligou o chip de 'mãe' e ligou o de 'filha'. Era como se estivesse a passar um raspanete ao pai, que não se devia preocupar tanto com determinado assunto (não me esclareceu nem o pedi, não me dizia respeito). Depois do telefonema, com a confiança que existe entre nós, disse-lhe que tinha procedido com o pai como a filha o tinha feito com ela. Não teve tal percepção. E eu continuei (agora pareço que sou uma sábia nestas coisas de progenitores, como a compensar a falta da minha...), que devia ter mais paciência com o pai, é pai, preocupa-se com muita coisa. E ela a continuar que o pai nunca mudava de comportamento, quando teimava numa coisa, seguia até ao fim. E eu, mas ele tem 80 anos, as capacidades já não são as mesmas, e se quer ser teimoso e errar, que seja. E ela, e eles têm muita sorte em terem duas filhas (ela e a irmã) que estão sempre preocupadas com eles, ao contrário de 90% dos velhotes abandonados pelos filhos. Estava mesmo irritada. Devia ter visto o 'Nebraska'. Se os velhos são rezingões, teimosos, sabem que vão errar, mas têm que percorrer esse caminho dê por onde der, é para não baixarem os braços e aceitarem o facto de que estão a perder algumas das suas capacidades. Caramba, 80 anos, não 50 e poucos como ela. Porque se isso acontecer, e irá acontecer, mais dia menos dia, os velhotes irão ser completamente dependentes das filhas e não terão opinião em muita coisa. Será o fim.
Sim, é como o velhote do 'Nebraska'. Grande filme :)
Quando eu for uma velha de 80 anos, deixem-me ser rezingona à vontade. Nessa altura, já terei vivido uma grande parte da vida a aturar muita coisa, a ser feliz e infeliz, é um direito que eu tenho, desde já, em, se lá chegar, ser uma velha chata e de não esmorecer. Chata, resmungona e teimosa, pois terei noção que restar-me-ão muito poucos anos à frente e não os quereria passar apática e inválida.
Ah, e como erramos nos nossos papéis, sem perceber! Às vezes noto mas é tarde. Tento me emendar, contudo.
ResponderEliminarsim, erramos muito. mas depois tentamos compensar. levei-a, por exemplo, de férias comigo para a praia, a minha praia, ainda estava com saúde, uns dias, apenas, mas foi o suficiente para sair de lá outra, relaxada, feliz. bastam uns pequenos gestos de amor. eu estendia-lhe o braço e ela segurava-se a mim. ou, então, pedia-lhe para me coçar as costas como fazia quando eu era pequenina :) gostava tanto...
EliminarHoje a minha filha disse-me:
ResponderEliminar"não sei porque é que algumas pessoas são antipáticas; eu sou simpática; também sou teimosa, mas sou simpática; e tu também és simpático, mas teimoooooso..."
Eu já adivinhava o final da frase, e quando ela terminou demos umas gargalhadas :)
As relações enter pais e filhos são assim de alguma impaciência, por vezes. Eu tenho essa relação de impaciência com as duas, mas aprendemos a lidar com isso, e o importante é saber cultivar o amor :)
abc
o que eu quis dizer é que magoamos os nossos pais muitas vezes com essas respostas tortas, essas ausências, estamos fartos dessas insistências. como se eles estivessem a cobrar. a cobrar o seu papel de pais? e não nos apercebemos disso, ou quando o fazemos, é muito tempo depois. na conversa dela com o pai, eu só imaginava o velhote do outro lado e como se estaria a sentir...
Eliminarnão é são fáceis as relações entre pais e filhos, principalmente entre mãe e filha, no meu caso só se estreitaram por uma infeliz causa. e não é preciso chegar a casos extremos para tentarmos ser melhores filhos.
bjs.
Então camarada margarida, já a pensar nas aventuras do lar ? Lolol
ResponderEliminarcamarada Horatius, no meu caso, ausência de aventuras :)
Eliminarclaro que com este texto, eu não quis dizer que somos maus filhos, longe disso, provavelmente se a minha mãe ainda estivesse por aqui, não me comportaria assim tão diferente. ela queria companhia, eu tinha mais que fazer, ela queria almoços em família frequentemente, eu não... acho que a solidão também é um factor a considerar. antes, havia a família mais próxima, primos em segundo, terceiro grau, viviam todos mais ou menos próximos. agora, na cidade, cada um está no seu canto. a vida torna as pessoas egoístas.
Que post tão lindo, Margarida...
ResponderEliminarQue bela homenagem aos nossos Pais, mas também e num sentido lato, a todos os idosos, que são tão esquecidos, por exemplo, comparativamente com as crianças.
Eu senti-me agradecido, talvez porque tenha uma Mãe a caminho dos 92 e que sempre "me acompanhou", mas nunca foi chata comigo.
eu, por estar agora mais próxima de idosos, sinto isso. podia ter escolhido outra via, preferi os seniores.
Eliminarah, a minha era chata, sim, mas acho que isso faz parte do papel de mãe, eu chamo de chata, porque se metia em tudo. e quando não gostava de uma coisa, também não se coibia de não o manifestar. no caso do meu cabelo, como referi, ela iria odiar :D
os idosos são muito esquecidos, daí eu ter gostado tanto desse filme. :)
claro que isto passou-se ontem, dia 2, e não hoje, sábado. alinhavei-o na cabeça ontem ao fim do dia, enquanto fazia a passeata à beira-rio, mas depois em casa meteram-se outras coisas e quando o escrevi era muito tarde e não me apercebi que já tinha passado para o dia seguinte.
ResponderEliminarEu aprendi com a morte da minha mãe, que ali sempre estivera a minha melhor amiga e uma grande sábia...
ResponderEliminarBeijinhos
as mães são sábias, sim, e tu, como eu, perdeste a tua. mas eu tenho muita dificuldade em compreender que a mãe seja a nossa melhor amiga. porque a um melhor amigo contamos tudo, medos, alegrias, desabafos, segredos, imensos segredos que guardamos cá dentro e só contamos mesmo a esse amigo. eu nunca contei muitas, imensas, coisas que se passaram comigo. por isso é que não a considero minha melhor amiga. amiga, sim, claro, aconselhou-me muitas vezes, outras bem o tentou, mas eu encarrilei noutro sentido e bem, espatifei-me muitas vezes. aprendi às minhas custas e não fui chorar no seu ombro.
Eliminarmãe é mãe.
bjs.
Li várias vezes este post, em diferentes alturas, ao longo destes dois dias. Só posso dizer que gostei muito da tua reflexão. O resto tu já sabes :)
ResponderEliminarBeijinhos :3
sim, é verdade, é um post genérico. a tua situação é muito delicada. só tu sabes o que passas e não desejo isso a ninguém. tens a tua avó, contudo, que é a tua mais que tudo :)
Eliminarbjs.
É verdade Margarida. Também já tinha pensado nisso e tenho algumas colegas minhas também com essas reacções opostas. E ainda hoje disse à minha mãe que ela era muito chata e cusca, mas depois de ler a tua publicação fiquei cheio de remorsos.
ResponderEliminarah, os remorsos...
Eliminarnão é um post de puxar as orelhas, longe disso. é vivermos cada dia bem connosco e com os outros, :)
Ainda não sou uma filha muito simpática. Mas tento ser. Já faço um esforço por travar a língua - a idade ajuda (ou tem vindo a ajudar).
ResponderEliminarSer filho(a) único(a) piora um bocadinho a situação: não há por quem dividir o amor e a atenção.
ser filho único não deve ser fácil. eu tenho dois irmãos, mas sou a mais velha e por vezes trato-os como se fosse agora a mãe e claro que não o sou. por isso também penso duas vezes e não os incomodo tanto, embora me preocupe.
EliminarA mãe diz-me por diversas vezes de que ainda terei saudades dos seus telefonemas (isto quando reajo mal - normal, quando somos mais novos só vemos o nosso lado). Sei que se refere a um dia que já cá não esteja. Ela pensa que me deixa a pensar nas suas palavras. Acabo por ser eu a deixá-la desconfortável quando lhe digo que acredito que eu morra primeiro.
ResponderEliminarTenho uma excelente relação com ela. Damo-nos bem, mas também revelo, inconscientemente, uma impaciência injusta. Nem sempre. Tem dias.
um beijinho.
a minha fazia imensas sugestões que eu não acatava, por teimosia e orgulho. mas também fiz muitas coisas para lhe agradar, mesmo contra o que eu queria. enfim, tem que haver um equilíbrio. mas acho que melhoramos com a idade.
Eliminarpois, essa parte de dizeres que acreditas que morres primeiro deve deixá-la com o coração bem apertado.
bjs.