sábado, 3 de maio de 2014

Papéis

Uma amiga minha tem uma filha que foi mãe muito recentemente. Pensei que hoje ainda estivesse de férias, à semelhança dos restantes dias desta semana. Mas não. A sua resposta foi que já estava farta de estar em casa. Estava enervada e até tinha tomado ontem uns calmantes, dadas as palpitações. Estava a ver que ainda teria de chamar o 112. Mas não. Lá tomou os calmantes e foi deitar-se. Por fim, esta tarde, lá desabafou. Há uns dias, quis comprar uns lençóis para a caminha do neto, qual avó babada, pelo que telefonou à filha antes da compra. Ela não aceitou. A mãe que não comprasse nada para o bebé. Ela contava-me a resposta com mágoa. Disse-me que não ficou aborrecida e foi comprar um livro para si. Mas ficou. E eu recordei-me, e disse-lhe isso, como era com vinte e poucos anos, naquela altura sem telemóvel, nem sempre telefonava à minha mãe, quando ela sugeria algo, eu não queria e respondia-lhe torto. Não fui uma filha muito simpática. Era muito egoísta, tinha a minha vida e estava farta de a minha mãe me ligar todos os dias para o trabalho, só para saber como eu estava, porque eu não lhe ligava. Eu não tinha a noção que a magoava com a minha reacção, muitas das respostas eram a despachar, como 'estou bem, não precisas telefonar todos os dias, mas parece que me controlas.' Era preocupação de mãe, agora, à distância de uns vinte anos, sei como a magoava com a minha ausência e despreendimento.

Voltando à minha amiga, nessa altura teve de se ausentar uns momentos da sala e por azar toca o seu telemóvel várias vezes. Quando regressou, informei-a disso e viu que era o número do pai. Outra causa de estar enervada. Os seus pais têm à volta de 80 anos, com alguns problemas de saúde. Ligou ao pai e eu ouvia a maneira quase ríspida de falar com ele. A mãe tinha uma consulta esta tarde e foi adiantada. Tinha que sair mais cedo do trabalho. Naquele momento, desligou o chip de 'mãe' e ligou o de 'filha'. Era como se estivesse a passar um raspanete ao pai, que não se devia preocupar tanto com determinado assunto (não me esclareceu nem o pedi, não me dizia respeito). Depois do telefonema, com a confiança que existe entre nós, disse-lhe que tinha procedido com o pai como a filha o tinha feito com ela. Não teve tal percepção.  E eu continuei  (agora pareço que sou uma sábia nestas coisas de progenitores, como a compensar a falta da minha...), que devia ter mais paciência com o pai, é pai, preocupa-se com muita coisa. E ela a continuar que o pai nunca mudava de comportamento, quando teimava numa coisa, seguia até ao fim. E eu, mas ele tem 80 anos, as capacidades já não são as mesmas, e se quer ser teimoso e errar, que seja. E ela, e eles têm muita sorte em terem duas filhas (ela e a irmã) que estão sempre preocupadas com eles, ao contrário de 90% dos velhotes abandonados pelos filhos. Estava mesmo irritada. Devia ter visto o 'Nebraska'. Se os velhos são rezingões, teimosos, sabem que vão errar, mas têm que percorrer esse caminho dê por onde der, é para não baixarem os braços e aceitarem o facto de que estão a perder algumas das suas capacidades. Caramba, 80 anos, não 50 e poucos como ela. Porque se isso acontecer, e irá acontecer, mais dia menos dia, os velhotes irão ser completamente dependentes das filhas e não terão opinião em muita coisa. Será o fim.

Sim, é como o velhote do 'Nebraska'. Grande filme :)

Quando eu for uma velha de 80 anos, deixem-me ser rezingona à vontade. Nessa altura, já terei vivido uma grande parte da vida a aturar muita coisa, a ser feliz e infeliz, é um direito que eu tenho, desde já, em, se lá chegar, ser uma velha chata e de não esmorecer. Chata, resmungona e teimosa, pois terei noção que restar-me-ão muito poucos anos à frente e não os quereria passar apática e inválida.

19 comentários:

  1. Ah, e como erramos nos nossos papéis, sem perceber! Às vezes noto mas é tarde. Tento me emendar, contudo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. sim, erramos muito. mas depois tentamos compensar. levei-a, por exemplo, de férias comigo para a praia, a minha praia, ainda estava com saúde, uns dias, apenas, mas foi o suficiente para sair de lá outra, relaxada, feliz. bastam uns pequenos gestos de amor. eu estendia-lhe o braço e ela segurava-se a mim. ou, então, pedia-lhe para me coçar as costas como fazia quando eu era pequenina :) gostava tanto...

      Eliminar
  2. Hoje a minha filha disse-me:
    "não sei porque é que algumas pessoas são antipáticas; eu sou simpática; também sou teimosa, mas sou simpática; e tu também és simpático, mas teimoooooso..."

    Eu já adivinhava o final da frase, e quando ela terminou demos umas gargalhadas :)

    As relações enter pais e filhos são assim de alguma impaciência, por vezes. Eu tenho essa relação de impaciência com as duas, mas aprendemos a lidar com isso, e o importante é saber cultivar o amor :)

    abc

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. o que eu quis dizer é que magoamos os nossos pais muitas vezes com essas respostas tortas, essas ausências, estamos fartos dessas insistências. como se eles estivessem a cobrar. a cobrar o seu papel de pais? e não nos apercebemos disso, ou quando o fazemos, é muito tempo depois. na conversa dela com o pai, eu só imaginava o velhote do outro lado e como se estaria a sentir...
      não é são fáceis as relações entre pais e filhos, principalmente entre mãe e filha, no meu caso só se estreitaram por uma infeliz causa. e não é preciso chegar a casos extremos para tentarmos ser melhores filhos.
      bjs.

      Eliminar
  3. Então camarada margarida, já a pensar nas aventuras do lar ? Lolol

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. camarada Horatius, no meu caso, ausência de aventuras :)
      claro que com este texto, eu não quis dizer que somos maus filhos, longe disso, provavelmente se a minha mãe ainda estivesse por aqui, não me comportaria assim tão diferente. ela queria companhia, eu tinha mais que fazer, ela queria almoços em família frequentemente, eu não... acho que a solidão também é um factor a considerar. antes, havia a família mais próxima, primos em segundo, terceiro grau, viviam todos mais ou menos próximos. agora, na cidade, cada um está no seu canto. a vida torna as pessoas egoístas.

      Eliminar
  4. Que post tão lindo, Margarida...
    Que bela homenagem aos nossos Pais, mas também e num sentido lato, a todos os idosos, que são tão esquecidos, por exemplo, comparativamente com as crianças.
    Eu senti-me agradecido, talvez porque tenha uma Mãe a caminho dos 92 e que sempre "me acompanhou", mas nunca foi chata comigo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. eu, por estar agora mais próxima de idosos, sinto isso. podia ter escolhido outra via, preferi os seniores.
      ah, a minha era chata, sim, mas acho que isso faz parte do papel de mãe, eu chamo de chata, porque se metia em tudo. e quando não gostava de uma coisa, também não se coibia de não o manifestar. no caso do meu cabelo, como referi, ela iria odiar :D
      os idosos são muito esquecidos, daí eu ter gostado tanto desse filme. :)

      Eliminar
  5. claro que isto passou-se ontem, dia 2, e não hoje, sábado. alinhavei-o na cabeça ontem ao fim do dia, enquanto fazia a passeata à beira-rio, mas depois em casa meteram-se outras coisas e quando o escrevi era muito tarde e não me apercebi que já tinha passado para o dia seguinte.

    ResponderEliminar
  6. Eu aprendi com a morte da minha mãe, que ali sempre estivera a minha melhor amiga e uma grande sábia...

    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. as mães são sábias, sim, e tu, como eu, perdeste a tua. mas eu tenho muita dificuldade em compreender que a mãe seja a nossa melhor amiga. porque a um melhor amigo contamos tudo, medos, alegrias, desabafos, segredos, imensos segredos que guardamos cá dentro e só contamos mesmo a esse amigo. eu nunca contei muitas, imensas, coisas que se passaram comigo. por isso é que não a considero minha melhor amiga. amiga, sim, claro, aconselhou-me muitas vezes, outras bem o tentou, mas eu encarrilei noutro sentido e bem, espatifei-me muitas vezes. aprendi às minhas custas e não fui chorar no seu ombro.
      mãe é mãe.
      bjs.

      Eliminar
  7. Li várias vezes este post, em diferentes alturas, ao longo destes dois dias. Só posso dizer que gostei muito da tua reflexão. O resto tu já sabes :)

    Beijinhos :3

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. sim, é verdade, é um post genérico. a tua situação é muito delicada. só tu sabes o que passas e não desejo isso a ninguém. tens a tua avó, contudo, que é a tua mais que tudo :)
      bjs.

      Eliminar
  8. É verdade Margarida. Também já tinha pensado nisso e tenho algumas colegas minhas também com essas reacções opostas. E ainda hoje disse à minha mãe que ela era muito chata e cusca, mas depois de ler a tua publicação fiquei cheio de remorsos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. ah, os remorsos...
      não é um post de puxar as orelhas, longe disso. é vivermos cada dia bem connosco e com os outros, :)

      Eliminar
  9. Ainda não sou uma filha muito simpática. Mas tento ser. Já faço um esforço por travar a língua - a idade ajuda (ou tem vindo a ajudar).
    Ser filho(a) único(a) piora um bocadinho a situação: não há por quem dividir o amor e a atenção.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. ser filho único não deve ser fácil. eu tenho dois irmãos, mas sou a mais velha e por vezes trato-os como se fosse agora a mãe e claro que não o sou. por isso também penso duas vezes e não os incomodo tanto, embora me preocupe.

      Eliminar
  10. A mãe diz-me por diversas vezes de que ainda terei saudades dos seus telefonemas (isto quando reajo mal - normal, quando somos mais novos só vemos o nosso lado). Sei que se refere a um dia que já cá não esteja. Ela pensa que me deixa a pensar nas suas palavras. Acabo por ser eu a deixá-la desconfortável quando lhe digo que acredito que eu morra primeiro.

    Tenho uma excelente relação com ela. Damo-nos bem, mas também revelo, inconscientemente, uma impaciência injusta. Nem sempre. Tem dias.

    um beijinho.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. a minha fazia imensas sugestões que eu não acatava, por teimosia e orgulho. mas também fiz muitas coisas para lhe agradar, mesmo contra o que eu queria. enfim, tem que haver um equilíbrio. mas acho que melhoramos com a idade.
      pois, essa parte de dizeres que acreditas que morres primeiro deve deixá-la com o coração bem apertado.
      bjs.

      Eliminar